Promover os produtos regionais?… Sim, mas cá dentro primeiro!
- Categoria: Opinião
- Criado em 14-08-2018
- Escrito por Sérgio Rezendes
É um gosto para qualquer açoriano que se preze, chegar a uma esplanada e ver os turistas deliciados com uma “Especial” da Fábrica de Cervejas e Refrigerantes Melo Abreu. Até se presta atenção ao balcão, quando um jovem estrangeiro solicita uma “Kima” bem fresca, para consumir com deleite junto à família, enquanto saboreiam um manjar que se espera, de produtos regionais…
É uma tristeza quando se olha à volta, e só se vê os locais a beberem cervejas e águas importadas do continente; refrigerantes internacionais, iguais em qualquer parte do mundo e até mesmo gelados, sem qualquer ligação e especificidade relacionada com os Açores. Que saudades dos gelados “Eskimó”, cujas ruínas da fábrica para os lados de Santa Clara, até tiveram que ser fechadas a blocos…
Promover os produtos regionais lá fora? Sem dúvida! E cá dentro, não é para promover? E já agora, o que é “lá fora”? Se há uma característica que nos acompanha enquanto arquipélago, infelizmente, é que esta “norma” não se aplica a outras ilhas… Poucos são os locais nos Açores, leia-se fora de São Miguel, em que se encontra a nossa cerveja e refrigerantes. Uma autêntica vergonha, seguindo-se à resposta negativa, um simpático sorriso tipo “… infelizmente é assim”.
Mas que governo, e demais entidadezinhas são estas, que usam estes “slogans” tão bonitos, de promover lá fora mas que nada fazem cá dentro? Então não há que os promover, também nos Açores, em especial se os privados não estão em condições de o fazer? Se a situação não é tão grave como era há alguns anos, nomeadamente no que concerne aos laticínios, vinhos e chá, não deixa de ser ridícula a falta de estratégia para educar os nossos jovens a consumirem os nossos próprios produtos. Outras entidades, das que saem caro ao erário público (pago por nós), apregoam e assinam protocolos disto, daquilo e dacolá mas cujo efeito prático é francamente nulo! Tomemos por exemplo o facto dos Açores terem crianças (e não só…) com excesso de peso, superior à média nacional, ou de batermos recordes no consumo de álcool. Alguém já se lembrou de proibir a publicidade a este tipo de produto, como há anos se fez para o tabaco? Pode não resolver o problema, mas irá certamente contribuir de forma exemplar por não incentivar o consumo, sendo esta publicidade substituída por outras relacionadas com produtos de baixo teor de açúcar ou mesmo água.
Considero hipocrisia, ir à televisão anunciar basicamente o mesmo de sempre; repor leis que já existiam e que algum “iluminado” se lembrou de trocar; e gastar fortunas em ações que pelo seu histórico, já se adivinham t erem pouco efeito, quando em qualquer evento público, ou pior ainda nos festivais para jovens, ondulam por todo o lado bandeiras, insufláveis, copos, chapéus e enormes plásticos, os tais que revestem as tasquinhas, com marcas de cervejas… Até a seleção nacional é apoiada por uma! E depois, a letras pequenas diz-se “beba com moderação”… Isto faz sentido? É isto que queremos para a juventude Açoriana? “Relembro os tempos em que nos “balcões” dos bares dos Açores, bebia-se a “Água das Lombadas”, a “Serra do Trigo” e a “Kima” de laranja, para além da de Maracujá e Ananás, e claro está, a nossa resistente e ainda atual Cerveja “Preta Doce”, essa sim, deliciosa e para beber sem moderação… porque não tem álcool! Esta resistente junta-se à “Kima” de Maracujá e à medalhada a ouro por três vezes, “Especial”, que anteriormente existia em grande e pequeno formato. Que nunca nos falte a “Laranjada”, para beber pura ou misturar com vinho ou cerveja (muito melhor que um “panaché”), e que nunca se junte às desaparecidas “Concha” e “Kima” de Laranja, ou se torne menos visível como a “Kima” de Ananás ou a “Munich”, antes grande e pequena, a nossa cerveja preta amarga.”
Em resumo, não percebo os gastos que por aí se fazem na ordem dos milhões (que ninguém explica de forma racional e lógica): investe-se em toscas e parcas campanhas (que já sabemos, à partida, terem pouco efeito) quando nos festivais de jovens e festas de carácter popular, pululam cadeiras, mesas, plásticos, bandeiras e afins com marcas de bebidas alcoólicas ou ricas em teor de açúcares, a incentivar o consumo. Por outro lado, não incentivamos os nossos jovens a beber o que é nosso, nomeadamente bebidas altamente nutritivas e não alcoólicas como a nossa Cerveja “Preta Doce”, que bebemos desde pequenos, excelente para corrigir ausências vitamínicas e enriquecer o sangue. Que a nível governamental se estudem estratégias para proteger o produto regional em relação a outros importados, que com eles rivalizam diretamente; que se faça propaganda séria nas nove ilhas aos nossos produtos, em especial aos que não colocam em causa a sua e a vida dos outros, e que se promova a investigação de produtos derivados, baixos em teor de açúcar, para os atualizar em relação à concorrência. É por demais conhecido o efeito da publicidade sobre a mente, em especial de um jovem, ainda em formação.
É uma questão de tal forma pertinente, que não pode ser deixada apenas aos privados, principalmente se as indústrias estão com problemas financeiros. Que se promova a sua qualidade, defendendo-se os postos de emprego açorianos. Exige-se um governo que intervenha de forma construtiva na economia, defendendo o produto regional muito além da forma envergonhada com que o faz, sob pena de como já se vê, o Capitalismo selvagem destruir o pouco que temos. Protegendo os interesses dos que aqui nasceram, passando a Identidade Açoriana e orgulho aos nossos jovens, divulgando a nossa indústria, assegurando se necessário o transporte, pelo ar e pelo mar, dos nossos produtos. Que nunca falte, em ilha nenhuma, o produto regional! Por fim, não utilizem as festas, em muitos casos dos nossos santos, para promover o culto à cerveja ainda por cima importada. Se a Centenária Melo Abreu fechar as portas um dia, acho que nem o Senhor Santo Cristo irá perdoar àqueles que na sua festa, promovem o capitalismo selvagem, em vez da defesa dos postos de trabalho dos Açorianos.