Eritema solar polimorfo – uma forma comum de “alergia ao sol”
- Categoria: Opinião
- Criado em 16-08-2018
- Escrito por Miguel Paiva
Por esta altura do ano é frequente ouvirmos algum familiar ou amigo referir que tem “alergia ao sol”, habitualmente num tom desconsolado, por não poder participar despreocupadamente nas actividades ao ar livre que dão cor ao nosso Verão.
De entre as fotodermatoses (doenças da pele provocadas ou agravadas pela exposição à luz), o eritema solar polimorfo, ou erupção solar, é uma das mais frequentes, sendo designado comummente como “alergia ao sol”. O motivo pelo qual coloco aspas na designação “alergia ao sol” deve-se ao facto do mecanismo que está na sua origem ainda não estar devidamente compreendido, pelo que não podemos afirmá-lo como alérgico.
O eritema solar polimorfo aparece algumas horas ou dias após a primeira exposição do ano significativa à luz solar, habitualmente na primavera ou início do verão. Pode ocorrer após uma ida à praia, após uma caminhada longa, um piquenique na Natureza ou uma tarde soalheira numa esplanada. Afeta com mais frequência mulheres jovens (20-40 anos) e de pele clara, sendo, por isso, mais frequente nos países do Norte da Europa, onde chega a atingir cerca de um quinto da população.
Em termos clínicos, o eritema solar polimorfo caracteriza-se pelo aparecimento de manchas vermelhas, pápulas (lesões com relevo) ou vesículas, que são pruriginosas. Os locais mais atingidos correspondem a áreas com menor exposição solar durante parte do ano, onde se incluem os braços, antebraços, as pernas, o dorso das mãos e pés e zona superior tronco (decote). Habitualmente não se acompanha de sintomas como febre ou mal-estar que aparecem noutras doenças com as quais se pode confundir, como o Lupus.
As lesões duram, em média, 7 a 10 dias, desaparecendo sem deixar marcas. No entanto, se a exposição solar se mantiver frequente e intensa, podem durar semanas a meses. Por outro lado, se a exposição solar for gradual, existe uma tendência ao doente desenvolver tolerância e deixar de apresentar lesões à medida que o Verão decorre. As lesões podem recorrer nos anos subsequentes, pelo que deverão ser tomadas medidas de protecção antes da primeira exposição solar do ano.
De facto, a principal abordagem no tratamento do eritema solar polimorfo deve incidir na sua prevenção. Os cuidados gerais com a fotoprotecção deverão ser implementados, com particular rigor em pessoas com história pessoal desta doença. Para além de se respeitar os períodos recomendados de exposição solar (de manhã, nunca depois das 11h e à tarde, nunca antes das 17h), a duração deverá ser contida nos primeiros dias e gradualmente aumentada. Uma vez que os raios UV-A parecem ter um papel preponderante no desenvolvimento do eritema solar polimorfo, recomenda-se o uso de um protetor solar com um espectro alargado (os protectores mais comuns protegem sobretudo contra UV-B) e um factor de protecção muito forte (50+). O tratamento profilático com suplementos alimentares contendo beta-caroteno e/ou anti-oxidantes(ex. Vitamina C) algumas semanas antes do início da exposição solar, também poderá ser benéfico, em associação com as medidas anteriormente referidas.
Em casos de maior gravidade poderá estar indicada a fototerapia durante 4 a 6 semanas, antes do início da exposição solar.
O tratamento da crise de eritema solar polimorfo é efetuado com corticosteroide tópico aplicado nas lesões, durante cerca de 1 semana, e anti-histamínico oral para alívio do prurido, devendo ser complementado com a hidratação adequada da pele e restrição da exposição solar até a sua resolução.