Chain of fools
- Categoria: Opinião
- Criado em 17-08-2018
- Escrito por Vasco Garcia
A tecnologia permite que, ao escrever estas linhas num ecrã de computador, esteja a ouvir e ver, no portátil ao lado, a magnífica interpretação de Aretha Franklin em “Chain of fools” (Cadeia ou corrente de tolos ou loucos, em português). No dia em que Aretha nos deixou, o título dos versos que a voz inigualável da rainha da “soul music” adquire um significado diferente. Será por isto que assisti, entre incrédulo e revoltado, a uma certa dose de politização do falecimento de uma figura que merece da parte de todos, em particular dos americanos, um profundo respeito pela sua memória. Num mundo onde cada vez mais se nota o recurso à informação deturpada, à xenofobia e ao racismo, para consecução de objetivos de lucro e perversão do poder, fazem sentido estas falhas de isenção.
Falhas que resultam do mau exemplo dado por organismos da própria ONU, tais como o comportamento do Banco Mundial em relação aos governos chilenos. De acordo com o Wall Street Journal, o BM-Banco Mundial alterou de forma “injusta e enganosa” o cálculo do índice de competitividade da economia chilena, para desfavorecer a Presidente Michelle Bachelet e o seu governo socialista. Paul Romer, do BM, assumiu que existiram “motivações políticas” nessas falcatruas. Consequentemente, Romer declarou que o BM teria de “recalcular os rankings” chilenos, os quais oscilaram entre o 25º e o 57º lugar após 2006. A ascensão de António Guterres a Secretário Geral da ONU, permitiu este mês a indigitação de Michelle Bachelet para o Alto Comissáriado dos Direitos Humanos, afastando-a do velho rival conservador Sebastián Piñera, atualmente Presidente do Chile e anterior favorecido pelas manipulações do BM. Neste controverso contexto de politização de um organismo internacional que devia centrar-se no apoio ao desenvolvimento, é caso para duvidar dos resultados que colocam Portugal no 42º lugar em 137 países, no último Relatório Global da Competitividade. Burocracia e impostos são o que mais trava o país, dizem alguns especialistas, daqueles que por sua vez colaboram com os travões, ao omitirem fatores como a dívida e a escroqueria bancária que ajudaram a criar.
Apontar defeitos e escamotear realidades, qualquer um faz quando existe promiscuidade entre política e finança. Querer impor diretrizes morais que estão longe de ser seguidas ao mais alto nível internacional (FMI, Banco Mundial e outros “donos disto tudo”) só gera desconfiança e reações negativas. Dá ideia que há gente bem instalada a quem dá especial jeito “amaciar” os regimes democráticos para melhor os controlar. Um dos processos geralmente utilizados é o medo, uma técnica em que são mestres Trump, Putin e Kim Yong. Nada mais fazem, ao apavorar o mundo, do que conceder espaço de manobra a velhas civilizações asiáticas como a indiana e a chinesa, as quais vão paulatinamente assumindo um lugar de progresso e liderança. A corrida aos armamentos, tipificada pelo reforço do orçamento militar dos Estados Unidos para 2019 (717 mil milhões de dólares, uma subida de 9% relativamente a este ano) vai direitinha para os bolsos dos acionistas das empresas da tecnologia militar avançada. É o reavivar do complexo militar industrial norte-americano na sua versão moderna, mobilizadora da “new economy” do consulado Trump.
Enquanto os poderosos do planeta se ocupam com estes jogos de guerra e paz, tendo na mira negócios trilionários, nós por cá temos problemas bem imediatos para resolver, a começar pela crescente ameaça dos fogos florestais. Monchique não devia ter ardido, mas ardeu; o SIRESP devia estar 54% nas mãos do Estado, mas não está, contradizendo o ministro Cabrita e o que afirmou no rescaldo de Pedrógão; e foi tudo um sucesso, porque não morreu ninguém. Será que é preciso haver uma tragédia pior, para esta gente acordar do nevoeiro auto-glorificador? “Oh Dio!”, como exclamou o italiano que filmou a queda da ponte de Génova. Mas nem tudo é cinza, neste Portugal do “sol, sal e sul” versejado por O’Neil. Temos a florescente -- ainda que enlameada, à boa moda lusa—indústria do futebol, transformadora mágica de habilidosos chutos em rendosos milhões. Tão rendosa, que os telejornais têm o descaramento de relegar para 2º ou 3º lugar as excecionais prestações de Inês Henriques e Nelson Évora, medalhas de ouro europeias nos 50 kms marcha femininos e no triplo salto. Dois feitos épicos no Europeu de Atletismo/2018 que ficarão para a História, até pela “juventude” dos atletas, ela com 36 anos e ele de 34, a que junta a extraordinária recuperação de 2 cirurgias. Estes, sim! Mereciam milhões pelo esforço, patriotismo e orgulho de serem portugueses, caso não fizessem parte da “chain of fools” cantada por Aretha. Paz à sua alma e longa vida aos nossos “atletas de ouro”, um exemplo para todos nós.