Abandonemos o dono

O carro encostou por dois minutos e arrancou a alta velocidade junto ao gradeamento. As duas câmaras a funcionar, captaram a imagem de duas pessoas a atirar um animal por cima do arame, como quem atira um saco de lixo para o contentor da rua. O pequeno animal, assustado e sem perceber o que lhe tinha acabado de acontecer, revelava às duas câmaras o seu desespero perante o informal encontro com outros da sua espécie, bem mais corpulentos e aguerridos do que ele.
A noite demorou a passar, por entre gemidos, desconfiança e um desconforto do tamanho do mundo. O triste latir que ouvia de todos os lados do abrigo também não ajudava. O seu, quase choro, representava bem quem tinha sido descartado há poucas horas por aqueles em quem confiava. Aqueles que, dois anos antes, entraram numa loja e tinham achado graça àquela bola de pelo que, entretanto, cresceu. Depois de ter crescido, a graça já não era tanta, e acabou por dar lugar ao peso. E por fim à rejeição.
Para contrapor casos como estes, há mulheres e homens – cada vez mais – que dedicam a sua felicidade à felicidade dos outros, animais incluídos. Não deixa de ser extraordinário que mulheres e homens comuns, com os seus empregos, com as suas dificuldades e com o seu enorme coração, se substituam tantas vezes às entidades públicas para fazerem um cão, um gato, um cavalo, muitos mais felizes. Mas não são apenas os animais a beneficiar desta felicidade. São, igualmente, os novos donos, que sentem como sua a importância de salvar uma vida. Mais uma vida. E, por fim, a sociedade, que trata bem todos os que a compõem.
Este texto é para todos eles. Para as Raquel Gravito deste mundo que, na defesa dos animais que não conhecem de lado nenhum, dormem pouco e mal, gastam dinheiro que nunca receberão de volta, e não param enquanto houver cães cobardemente amarrados a postes de eletricidade e gatos despejados no lixo como se dele fizessem parte. Para a multiplicidade de associações criadas para resgatar, defender e acolher animais, de gatos a cavalos, passando pelos periquitos e os cães que mais ninguém quer, porque já não correm, já não ladram ou porque, idosos, passam demasiado tempo no veterinário.
Mas é também para outros. Para os que têma inconsciência de quem continua a olhar para os animais como objetos, ignorando a lei, o bom-senso e o mais básico sentimento de respeito. Para aqueles a quem a vergonha de maltratar animais por um inexplicável prazer sádico conta mais do que o sofrimento que lhes é infligido. Para aqueles cujo apego aos animais é unicamente económico, sem qualquer cuidado com as suas mais básicas necessidades de limpeza e alimentação. Uma exploração desenfreada que decorre do hábito e dos anos que permanece. E que já levou à morte muitos equestres, em território continental, em particular quando o peso dos anos já não permite grande esforço de trabalho, e o abandono à sua sorte é a solução mais prática.
Este texto é, finalmente, para grupos como o IRA, como uma resposta às questões que a lei não abrange. Apesar de funcionar “para lá da lei” é uma arma precisamente contra aqueles que fazem os animais de companhia viver um inferno na terra. São, igualmente, uma espécie de “vingadores” dos tempos atuais, pois atuam precisamente nas situações em que, por força da lei e do direito, as autoridades nada podem fazer devido ao enquadramento legal existente. E enquanto assim for, os irados serão cada vez mais.