Só para que se saiba… os políticos são “trabalhadores” precários… do Povo (I)

Não é pretensão deste artigo atingir a classe política nos Açores, mas pedagogicamente elucidar o Povo. Deverá ser encarado como um contributo para a educação social ou até como um artigo que visa a luta contra a abstenção. Aos que se sentirem incomodados… sugiro introspeção.
A primeira ideia a reter, é que o que alguns designam como “elite” política não é na realidade “elite” alguma. São trabalhadores nomeados temporariamente pelo Povo para executar um conjunto de tarefas, entre muitas, liderar e criar as condições para o seu desenvolvimento, legislando ou executando leis que deverão refletir a vontade da maioria dos seus concidadãos. Como tal e na condição de serem ouvidos, o poder é atribuído por quatro anos (cinco na presidência da República) para que se veja, percecione e entenda a sua capacidade de liderança e sucesso na tarefa que lhe foi atribuída. Caso se reconheça competência, capacidade técnica e humana nesse Político (e na sua equipa de trabalho), poderá continuar a liderar por mais um mandato. Varia do comum “trabalhador” precário pelo vencimento e regalias (uma hercúlea diferença), tornando-se dispensável assim que outros mais capazes se apresentem. E não são eles que mandam, mas sim os Cidadãos (o Povo), votando.
E como em qualquer contrato, o Político tem que prestar contas, nas assembleias é bem certo, mas acima de tudo junto dos concidadãos. As inaugurações, momentos de especial relevo, são ocasiões por excelência para relembrar a apresentação pública do projeto, parte da equipa de trabalho e (re)explicá-lo, com ênfase ao quanto e como se gastou o orçamento; se já está concluído ou não e o que ainda falta fazer. Isto não é feito, como recentemente se viu no Miradouro da Vista do Rei. Inaugurado mas… ainda não está concluído. Com mais ou menos música, “vivas” e alegria, à boa maneira dos Romanos Clássicos que nos deixaram a República, conforme o dinheiro há sempre mais ou menos, “pão e circo”. Este princípio de que um Povo contente não levanta problemas à liderança, tem mais de dois mil anos. Contudo, tal como entre os Romanos, há sempre Cidadãos que, de fora, assistem à sua ação e jogadas políticas, nomeadamente e tal como no tempo do primeiro imperador, no controlo de maiorias no Senado, Magistrados (figuras de alto poder político) e Comícios. A mestria de “César Augusto” estava em dar a entender à população de que podia participar no governo, quando na realidade não o permitia. Tal como no tempo de Cristo, o Povo é que tem que se precaver, e quanto mais informado, melhor percebe os jogos de bastidores, devendo-o demitir à primeira oportunidade. Afinal, estes eram alguns dos pilares que fundamentavam a Repressão durante o Estado Novo, oprimindo-se os que defendiam a ideia de que um Povo livre, delegava o poder, provisoriamente, no Cidadão mais capaz. “Obviamente, demito-o!” de Humberto Delgado é um bom exemplo.
Lembremos Jean-jacques Rosseau e o seu Contrato Social, magnífica herança do Iluminismo que tão importantes serviços deu à revolução Francesa e que nos trouxe à modernidade: a soberania. O poder de dirigir a Sociedade cabe ao Povo (soberania popular), que o delega nos seus governantes por meio de voto. Desta forma, não só a vontade da minoria fica sujeita à da maioria, como o poder pode ser retirado e atribuído a outra pessoa que, pelo seu mérito e capacidade, o Povo entenda como digno de o liderar rumo a uma nova fase, sempre ascendente. Por aqui, envergonhem-se os que, abstendo-se, não votam, deixando que uma minoria (da minoria que vota), possa eleger maiorias, que depois fazem uso desse poder minoritário, para produzir leis e aplicá-las sem justificação ou mesmo sem ouvir a população e os seus representantes democraticamente eleitos, como recentes decisões políticas para a Ferraria evidenciam. Em muitos casos, fazem-nas para as suas “clientelas” (outro costume romano) usando a tradicional ferramenta do aumento de impostos, por exemplo na gasolina, para pagar excessos que, não sendo retificados mas agravados, justificam o contínuo aumento de impostos e taxas. Como tal quem se abstém do processo e ainda reclama, às vezes negando-se a trabalhar, dizendo que não o faz porque “não vale a pena, pois todos os políticos são iguais”, não merece credibilidade. Se a maioria não se exprime democraticamente, então poupem os que votam e remetam-se ao silêncio. Trabalhem para ajudar a pagar os impostos e as dívidas intergeracionais resultantes das decisões daqueles que a bem ou mal, foram escolhidos por uma pequena minoria, cada vez menos expressiva da grande maioria que nos carateriza. Convém não esquecer que a História está num constante “devir” (movimento), e que algo acontecerá no futuro: a falta de uma representatividade capaz, e o contínuo aumento de impostos em desrespeito para com os ingleses da América do Norte gerou a independência da primeira colónia na Idade Contemporânea, os EUA.
A propósito, que se esclareça o significado de “Clientela” romana: abaixo da Ordem Senatorial (deputados) e a Equestre (os outros ricos), estava a plebe (o Povo). Apesar da riqueza de alguns, a maior parte vivia na dependência das famílias mais ricas, auxiliando-as, protegendo-as, clamando por elas nos eventos públicos, à espera de recompensas económicas e sociais (prestígio). Será uma ideia familiar, associada às “hostes” partidárias? Muitos políticos contemporâneos têm esta gênese e nunca tiveram uma função prática no mundo do trabalho, vivendo desde sempre assim, criando e executando leis que penalizam os trabalhadores no vencimento e muitas vezes no serviço público prestado, sem que se perceba bem porquê. Outros são os que mudam de partido, fazendo lembrar os colaboracionistas na II Guerra Mundial, que quando viam as suas pretensões perdidas, optavam por apoiar a parte aparentemente mais forte. Faziam-no por não conseguirem ascender na hierarquia partidária; por não serem os “delfins”, essa nostálgica figura da História de França; ou por verem as suas ideias usurpadas por outros menos capazes, à semelhança do que acontece com muitos funcionários públicos que por receio do ostracismo, à moda ateniense, acabam por se calar. Neste momento, esta questão é tão flagrante que históricos partidários (merecedores de todo o respeito) acabam por ter a circular a sua fotografias de uma parede para outra ou até mesmo fazem aparecer novos partidos políticos. Uma paródia, à boa maneira da República de 1910-1926.