É incrível a azelhice que grassa nos nossos políticos

Sempre encontrei na pessoa de António Costa, esse nosso Primeiro Ministro à custa do golpe da geringonça, alguém que não mede nem pondera sobre aquilo que diz. Agora depois do terrível incêndio que varreu a serra do Monchique e muitas das sua povoações, penso que o Ministro da Administração Interna, Eduardo Nascimento Cabrita, não lhe fica atrás e mostrou ser um irresponsável porque como governante tem que, assumidamente, saber tratar das questões, serenar as pessoas que o escutam, e falar com a certeza de que aquilo que diz é correcta.
Escutei aquele ministro, boquiaberto diga-se, numa entrevista que lhe fizeram no fim da semana que findou, vangloriar-se que o incêndio de Monchique estava em vias de extinção, e enaltecia o facto de não ter morrido ninguém, como se fosse fruto de uma façanha do seu ministério e do governo.
Evidentemente que é um facto digno de registo, e até de alegria, não ter morrido qualquer pessoa naquele devastador incêndio, mas apregoar o facto como se fosse uma façanha da acção do seu governo, foi uma grande patetice e falta de bom senso pois, no meu conceito muita gente, autenticamente, morreu naquele incêndio, se não vejamos:
Não morreu de facto ninguém? Depois daquele incêndio, não terá morrido o ânimo daquelas pessoas que viram os seus haveres, fruto de uma vida inteira de trabalho dedicado e árduo, reduzidos a cinzas, de um momento para o outro?
Não terá morrido a alma daqueles que foram obrigados a abandonar as suas casas, ao que se sabe alguns deles algemados, negando-se-lhes o direito de defenderem os seus haveres combatendo, também eles, as chamas, e ao regressarem às suas casas, sentirem a tristeza e a horrível realidade, de constatarem que as mesmas tinham sido tragadas pelo fogo?
Não terão morrido muitos daqueles que viram os seus animais, autênticos companheiros úteis e queridos, que até tinham escolhido o seu nome, terem perdido as suas vidas, sem apelo nem agravo, num mar de fogo?
Não terá morrido também a alma de muita gente ao ver as chamas consumirem os seus pomares, culturas, ou floresta, restando-lhes cinzas e um mar negro de autêntica desolação?
Não deveria ter sido mais comedido esse leviano ministro que num aproveitamento eleitoralista doentio, elogiou a acção do Estado no combate ao incêndio, do qual não resultou qualquer morte?
Afinal, quantas pessoas, ao fim e ao cabo morreram? Quantos idosos morreram de desalento por terem perdido toda a história de uma vida? Quanta gente morreu depois de não lhe restar nada, nem tão pouco uma simples fotografia que lhe lembre partes importantes da história da sua vida?
Aquele ministro não foi cauteloso, nem sequer inteligente, pois face à delicadeza do assunto deveria ter esquecido o folclore eleitoralista, lembrando-se da dor que aquele longo e devastador incêndio semeou no coração daqueles que se viram, de um momento para o outro, sem nada, a não ser a morte terrível de muita da sua história, sem lhes restarem forças, dada a sua longa idade, para recomeçarem tudo de novo.
Depois de todo o drama daquele incêndio, de uma parcela importante do território algarvio se ter queimado, penso que cabia o dever a Eduardo Cabrita e António Costa de pedirem desculpa aos algarvios, ao Algarve e a Portugal, pela estupidez de, não aprendendo com o passado, não terem tido a inteligência de reestruturarem a serra do Monchique depois dos grandes incêndios que queimaram as suas entranhas durante longos 11 dias, em 2003.
Era, por isso, mais do que tudo uma obrigação dos nossos governantes, batendo no peito, pedirem desculpa pelo seu marasmo e esquecimento naquela que é a obrigatória restruturação que teria que ter sido feita nas nossas florestas: só que terá que ser uma reestruturação planeada e supervisionada por gente que sabe, com verdadeira competência, do assunto, e não por politiqueiros que não fazem a mínima ideia daquilo que estão a fazer.
Que pensarão António Costa e Eduardo Cabrita, da leviandade que tiveram, ao manifestar em Junho a sua enorme satisfação pelo fabuloso planeamento e trabalhos de segurança empreendidos na serra do Monchique, e do próprio Algarve antes da época dos fogos?
Devem ter ficado muito satisfeitos depois de naquela serra terem ardido mais de 27 mil hectares de floresta e matos, uma enorme fatia da fauna e flora daquela região, para não falar das casas, pomares, culturas, e um número enorme de animais pertencentes aos habitantes das povoações daquela região algarvia.
Que pensarão eles da morte da esperança de tanta gente que fazia daquela serra a história das suas vidas?