Sobre algumas críticas a Rui Rio

Tive o gosto de ouvir pessoalmente Rui Rio, na sede regional do PSD/Açores, em Ponta Delgada, quando aqui se deslocou durante a campanha para as eleições internas para a liderança do Partido. Ouvi-o então apresentar o seu projecto político como sendo de médio prazo. Ou seja, não prometendo vitórias fáceis e imediatas, antes desafiando os militantes para uma árdua tarefa de reorganização partidária, tendo em mira restaurar a implantação do PSD na quadrícula do território, nomeadamente através de um retorno à efectiva liderança nacional social-democrata ao nível do Poder Local.
 Não é arriscado sugerir que Rui Rio teria então presente a sua própria experiência pessoal, pois foi eleito Presidente da Câmara Municipal do Porto, contra todas as sondagens, em 2001, quando a onda vitoriosa do PSD nas eleições autárquicas fez António Guterres descobrir finalmente que o país de que era Primeiro Ministro desde 1995 estava num pântano, conforme declarou demitindo-se in actu de tais funções e precipitando a derrota do PS nas sucessivas eleições legislativas.
Derrotar António Costa e o PS depois de um mandato de legitimidade discutível, mas ainda assim coberto pelas regras constitucionais, em que se foram satisfazendo as mais variadas reivindicações e dizendo praticamente que sim a todos os protestos, um pouco segundo o modelo do guterrismo na fase em que tentava chegar à maioria absoluta, não se afigura tarefa fácil. É certo que, sob formas diferentes, o aperto da austeridade continua, agora sobretudo dentro dos serviços públicos, como se tem visto nas escolas, nos hospitais e agora até nos transportes ferroviários; mas o ambiente social e político é bem diferente dos anos de chumbo da troika e da ex-PAF, executante convicta e empenhada das instruções respectivas.
Daí que não se perceba a fúria com que alguns se lançam a criticar Rui Rio por não ter dito ainda que vai levar o PSD a votar contra o OE 2019, o qual nem sequer ainda está elaborado. Muito razoável me parece a contenção do líder social-democrata perante as incógnitas em tal matéria existentes, reservando-se para a altura certa, de modo a evitar um comportamento facilmente qualificável de cego fanatismo, que assim fica colado aos ditos críticos oportunistas.
Outros dos críticos de Rui Rio chegam ao ponto de se auto proclamarem candidatos imediatos à liderança partidária, com a promessa firme de uma retumbante vitória eleitoral já nas eleições do próximo ano, tanto europeias como nacionais. Julgam talvez que para isso bastará anunciarem a sua disponibilidade para reeditarem a coligação com o CDS, apresentando-se aos cidadãos eleitores como a Direita renovada e repleta de propostas liberalizadoras, nos termos preconizados por certas correntes de opinião, que, na impossibilidade de o fazerem por si mesmas, tal andam tentando forçar sem descanso.
Ora, o que parece claro é que a maioria do Povo Português não aprova uma tal linha de rumo e o teste até já foi feito em 2015. O PSD e o CDS têm a sua valia própria, cada um em separado, mas quando se juntam em vez de se somarem os votos verifica-se uma subtracção, porque uma parte do eleitorado de cada um deles acaba por se afastar, abstendo-se ou até votando noutros partidos. E cada vez mais há opções alternativas disponíveis, aparentemente para todos os gosto, sendo o mais recente o partido de Pedro Santana Lopes, por sinal com juradas simpatias no aparelho actual do PSD/Açores, muitos de cujos membros até lhe copiaram a maneira de designar o Partido como PPD/PSD…
Por seu turno, o PSD não está condenado a ter como único parceiro de coligação e de governo possível o CDS. Como partido moderado e do centro tem de manter disponibilidade para acertar posições com outros partidos, à sua direita ou à sua esquerda, conforme a leitura que venha a fazer da vontade do Povo, expressa em eleições, e da melhor realização do interesse nacional, por vezes esquecido por quem não parece ver além dos objectivos partidários. A aposta de Rui Rio em recentrar o Partido, resgatando-o da deriva imposta pelo passismo, coloca-o em disputa de eleitorado também com o PS, área onde há grande descontentamento, por discordância com as cedências permanentes ao extremismo societal do BE e também às posições do PCP.
Para isso o PSD tem de unir esforços, para se apresentar perante os cidadãos eleitores como uma força política credível, merecedora da sua confiança e do seu voto. O ambiente de permanente guerrilha interna não ajuda nada tal propósito e acaba sim por beneficiar o principal adversário ou até todos eles. Isto obviamente não impede a crítica legítima nos órgãos próprios do Partido, onde aliás as diversas correntes de opinião e os respectivos porta-vozes têm assegurada representação. Essa é sempre também estimulante para que os dirigentes em funções façam melhor.

(Por convicção pessoal, o Autor
não respeita o assim chamado
Acordo Ortográfico.)