Viagem às nossas escolhas

Ignorância pura, desrespeito absoluto e insensibilidade total!
Neste momento é aceitável ir às Sete Cidades para banhos e para a prática de variadas atividades náuticas…
A eutrofização das nossas lagoas, que ao que parece é apenas do conhecimento e preocupação de alguns, nunca deixou de ser uma realidade e é um processo irreversível. Esteve ao longo dos últimos anos num estado de dormência, porque se mantiveram cuidados básicos mínimos, mas sabemos já que no ano transato se alertaram as entidades responsáveis, para a nova subida dos seus índices de eutrofização. Não obstante, este sábado, o canal televisivo regional passou, em horário nobre e no seu telejornal, uma peça que promoveu claramente as atividades náuticas, inclusivamente através de testemunhos de empresários que lá se encontram, bem como de turistas que estavam a utilizar os serviços! Alerta total, quando um turista nacional informa: «É um privilégio praticar paddlenestas águas, antes de ir fazê-lo no mar… mas o turismo tem coisas boas e más, só espero que os meus netos possam vir a desfrutar deste paraíso também!»! Não há como passar de um estado boquiaberto para uma sensação de absoluto desconforto, pelo tão grave que é…
A RTP-Açores em vez de denunciar, alertando para a falta de prudência das entidades responsáveis, decidiu promover…
Mas é preciso ou melhor, temos necessidade que nos venham chamar a atenção para locais que deverão ser reservas naturais protegidas? O trajeto turístico a que temos sido submetidos, só traz à memória a estória do caçador amador de patos, que por duvidar das suas capacidades, atira ao bando em pleno voo, na esperança que algum lhe caia aos pés, para assim usufruir no regresso do seu troféu!  
Naturalmente, que se seguiu uma «viagem» pessoal às margens da lagoa azul e da lagoa verde… para confirmar presencialmente a irresponsabilidade latente de quem tem nas suas mãos a salvaguarda de um património natural, que não lhe pertence!
Não precisamos de governantes que legislem o presente, esse já está legislado, precisamos com urgência que saibam legislar o futuro. Assisti, a inúmeros banhistas refastelados nas margens e muito para além da entrada nas lagoas, em zonas de profundidade considerável… o curioso é que não vi nenhum residente a fazê-lo, seguramente porque ainda se recordam do último acidente mortal em 2014, que vitimou um jovem que entendeu despedir-se das Sete Cidades com um último banho… e não regressou! Creio que a continuar esta permissão teremos desfechos complexos, que em nada abonarão na identidade de um dos nossos maiores ex-libris! Uma notícia desta natureza, trará consequências muito nefastas a nível internacional e não só! Em todo o percurso que efetuei não vi uma sinalização que fosse de que é proibido tomar banho, não vi um único elemento da guarda-florestal, não vi indicação nenhuma a não ser, a de que em alguns percursos não havia saída…. Não há, portanto, nenhuma vigilância, não há uma figura que represente a lei e faça, a quem desconhece ou a quem pura e simplesmente questione, uma abordagem elucidada e adequada. Um destes dias, a paisagem que vamos observar na Vista do Rei será a de inúmeros banhistas na água e uma panóplia de embarcações (caiaques individuais e caiaques havaianos, pranchas de windsurf, gaivotas e porque não aqueles colchões que este verão são moda, com formas diversas e tamanhos incomensuráveis…)
Por favor PAREM!  Parem e iniciem uma marcha com inúmeros passos para trás… Tenham a coragem e munam-se da sabedoria, sensibilidade, know-how e bom senso, de começarem do zero!
Fazendo uso do vocábulo que os nossos representantes tanto apreciam e utilizam à boca cheia, relembro: a sustentabilidade das nossas lagoas, depende exclusivamente da preservação turística e ambiental que lhes impusermos!
A data deste desnorte já expirou…