As borlas

É de senso comum que a nossa classe política, com raras excepções que confirmam a regra, não é das mais credíveis quanto à seriedade na administração da coisa pública. Os exemplos têm sido, infelizmente, abundantes. Desde as falsas declarações sobre habilitações literárias até ao abuso do poder e desvio de fundos públicos para fins diferentes dos constantes nos orçamentos, tem vindo, bastas vezes, a lume nos OCS.
Julgo até que, quando alguém se filia num determinado partido, por comungar (ou não) da sua ideologia, raro é aquele que o faz de “alma limpa e coração puro”. Raro é aquele que entra para um partido com sentido de servir e não de se servir; assim como, raro é aquele que deseja, efectivamente, melhorar a vida dos seus eleitores e da população em geral, apesar de o apregoar aos quatro ventos que, sendo eleito, ou nomeado, o irá fazer.
Uma vez aceite a sua filiação partidária, pouco importa saber se é competente, ou não, para desempenho de qualquer cargo de eleição ou nomeação; interessa, isso sim, é por o pé lá dentro. Uma vez admitido, ele orientar-se-á da melhor forma de modo a conseguir os seus intentos, admitindo mesmo ser, dentro do partido e não só, “pau para toda a obra”.
Estes indivíduos, quando questionados sobre a sua profissão, normalmente, respondem:- sou político!
Atendendo a que termo político tem vários significados, desde governante a astuto, bem como, delicado e cortês, em minha opinião, só se é político quando não se sabe fazer mais nada.
Vem este introito a propósito da decisão da TAP em acabar com as borlas nas viagens dos membros do governo para tudo quanto é lugar. Diz o dicionário que, a borla, é o prazer, ou a vantagem que se obtém sem pagar.
Atendendo a que a TAP é uma empresa maioritariamente pública, isto quer dizer que o “zé-povinho”, em princípio, tem vindo a pagar, pelo menos, 51% dos gastos que os senhores membros do governo fazem nas suas viagens.
Ainda segundo o jornal Negócios e ao que parece, a TAP alegou, para acabar com as borlas, ser uma empresa privada em 45%. Relembro aqui que 5% do capital TAP pertence aos seus trabalhadores (por chantagem) aquando da privatização.
Esta situação recordou-me um episódio passado comigo há, mais ou menos 35 anos, quando estive em Lisboa ao serviço da minha empresa, por alturas das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, com regresso a Ponta Delgada marcado para o sábado do Senhor.
O Presidente da República de então, General António Ramalho Eanes, resolveu vir a S. Miguel naquela altura para participar nas festas. Tudo programado para sua Excelência, e comitiva, virem em avião da Força Aérea Portuguesa assistir às festas.
Eis senão quando, levanta-se o burburinho político quanto à utilização de um avião da Força Aérea por parte do General porque não vinha em viagem oficial mas sim privada. Por outro lado, a viagem teria como motivo o pagamento de uma promessa ao Senhor Santo Cristo dos Milagres por parte da Doutora Manuela Eanes.
A TAP não foi de meias medidas, retirou logo 40 lugares aos passageiros do voo no qual eu era suposto vir, para assim poderem acomodar o senhor Presidente, Excelentíssima Esposa, e respectiva comitiva.
Embora eu viajasse em classe económica – nunca me aproveitei da empresa para viajar em executiva – calhou-me em sorte ser um dos “premiados” em ficar atrás, para dar lugar a alguém da comitiva presidencial.
Retomando o tema das borlas, embora elas acabem, parece estar a ser estudada uma outra maneira de privilegiar as viagens dos membros de governo. Assim, para todos os destinos que a TAP opera, estuda-se a possibilidade da implementação de tarifas preferenciais, ou pacotes de descontos aos membros do governo (sozinhos ou acompanhados?).
Por outras palavras, só as moscas é que irão mudar, o resto é igual.
E por cá, como vão as coisas na nossa SATA em matéria de viagens dos membros do governo, dos deputados à Assembleia Legislativa Regional, dos directores regionais, e outros?
Atendendo à nossa geografia as viagens são mais do que muitas!  
Será que o Governo Regional tem pago, à SATA, as viagens dos senhores da política? Ou será que naqueles milhões que o governo deve à SATA estarão incluídas as frequentes viagens dos senhores políticos?
Ou será ainda que, o nosso Governo Regional, está “sentado” à espera do que se fará lá fora, para copiar o que lá irá ser feito?
Em boa verdade eu não me admirava nada que assim fosse, até porque tem sido o habitual neste governo?
Como são diferentes as coisas no sector privado? Se todos os privados fizessem como se faz no sector público, este país já teria entrado na bancarrota há muitos anos.
Talvez até já nem fosse país!
 P.S. Texto escrito pela antiga grafia.

                                                                                                      19AGO2018