…Carro preto… diz-me lá por que razão…

Em finais de outubro de 1941, numa das poucas estradas que atravessavam a ilha, um presidente de câmara usando dos seus poderes policiais, mandou parar a única viatura que passava, oriunda do concelho vizinho. Por ordem do delegado de saúde, um cidadão atacado de Peste tinha que seguir com urgência para o hospital de Infecto-contagiosos em Santa Clara, Ponta Delgada. O condutor e proprietário da viatura, receando o contágio, recusou conduzir o automóvel alegando problemas de saúde. A situação foi resolvida pelo voluntarismo do condutor da camioneta de carreira da vila, entretanto regressado da única viagem diária à cidade. Teófilo da Fonseca demonstrou o que ficaria descrito como uma abnegação excecional, oferecendo-se para conduzir o carro com o doente “[…] sem olhar a perigos que de tal resolução poderiam advir, inclusive o seu internamento […]”,ganhando para além do reconhecimento popular; uma gratificação de 50$00 e um louvor ao comando da Legião Portuguesa, a constar nos seus documentos de matrícula.
É sabido que outros açorianos deram bons exemplos aos portugueses, no respeito pelo Erário Público, casos de Manuel de Arriaga e Teófilo Braga, Presidentes da República conhecidos por usarem os transportes públicos para trabalhar, à semelhança do que hoje fazem alguns políticos do norte da Europa. Apesar de até ganhar bem, Manuel de Arriaga teve de mudar para uma casa maior, pagando o mobiliário e a renda do seu bolso. Não lhe era dado dinheiro para transportes, não tinha secretário, nem protocolo e nem sequer Conselho de Estado, tendo sido aconselhado a comprar um automóvel para as deslocações. Não ficou rico pelo cargo, pagando todas as despesas do seu ordenado porque a Constituição de 1911 determinava que “nenhuma das propriedades da Nação, nem mesmo aquela em que funcionar a Secretaria da Presidência da República, pode ser utilizada para cómodo pessoal do Presidente ou de pessoas da sua família” [artigo 45º]. O seu antecessor e sucessor Teófilo Braga foi até fotografado a caminho do trabalho, de elétrico. Entre muitos outros casos ressalve-se também que em quase meio século de ditadura, António de Oliveira Salazar beneficiou apenas de três carros, usados para efeitos de representação oficial, dois deles muito específicos por serem blindados, o que se entende… Dava o exemplo, indo para o trabalho a pé.
Regressando às ilhas, contei recentemente, no âmbito de uma das minhas investigações no terreno, a um concidadão de respeitável idade, a excecional abnegação do legionário Teófilo da Fonseca. Para minha surpresa, respondeu-me que era desse concelho e que se lembrava muito bem da fase final da ditadura: a 25 de abril de 1974, o senhor Presidente de Câmara ainda não tinha viatura, deslocando-se como podia entre as freguesias. Decorrido algum tempo após a Revolução de Abril, na transição para a década de 1980, lá lhe arranjaram um jipe “Land Rover” usado e esburacado, que lhe permitia umas aventuras nas demandas relacionadas com as obras, um pouco por todo o lado. A viatura, que cairia de podre, apenas foi substituída tardiamente, por uma viatura mais formal, preta, estilo “Peugeot”, que mesmo assim não era nova. Concluiu que, fazendo-se o que se podia, era um facto que não existiam dívidas por parte da edilidade.
Neste ponto, obviamente que lhe perguntei “e hoje?” respondendo-me: “Hoje? Têm uma frota de carros pretos, incluindo carros de alta cilindrada, que não se entende para quê mas que já se sabe que é para o Povo pagar. Estão repletos de dívidas, mas têm os carros com um condutor o dia inteiro, à espera”. O “Diário de Notícias” de 9 de outubro de 2017 refere serem quase 26 mil viaturas ao serviço de entidades públicas, num custo estimado de 36 milhões de euros por ano. Resta saber se este estudo inclui as viaturas das regiões autónomas, e camarárias, dos dois arquipélagos. Obviamente que não se debate a necessidade das viaturas para serviços técnicos, uma vez que não só são necessárias para o funcionamento da Sociedade, como são de justiça para o funcionário que, sem excecional ordenado, se desloca para o trabalho com o seu próprio meio de transporte. Debate-se os “carros pretos (ou azuis)” que pelas nove ilhas, transportam os representantes do Povo para todo o lado e muitas vezes a família, levando por exemplo, os filhos à escola. Mas a questão ultrapassa a mera falta de exemplo, e prepotência desses representantes, uma vez que estão aliados a várias outras mordomias... pagas pelo Erário Público ou seja pelo Povo.
Em resumo, quantos “carros pretos (e azuis)” têm as entidades públicas nos Açores; quanto se gastou na sua aquisição; qual o tempo de duração dos últimos usados em especial nas “cúpulas” do poder; que fim tiveram, quando descontinuados; quanto custa a sua manutenção, e serão efetivamente necessários? Então o detentor de um cargo público, para além do excelente salário que lhe é atribuído, não deverá dar o exemplo aos que o elegeram, ao deslocar-se para o seu trabalho como os seus eleitores, com a sua viatura? Com tantos escândalos relacionados com dívidas, admiram-se dos altos valores da abstenção e do distanciamento entre os cidadãos e os políticos. É necessário encomendar estudos atrás de estudos e criar comissões sobre comissões para, em boa demagogia, nada se dizer? Até já se sabe que, para os lados do grupo central se ocupam cargos de motorista, sem carta de condução…
O que o Povo procura nos seus líderes é o exemplo e a competência. Que se reduzam estes “carros pretos” ao indispensável; à cúpula estrita e necessária, para missões de representação ao mais alto nível. Que como qualquer comum, todos os Políticos que temporariamente governam, usem e paguem as despesas relacionadas com a deslocação para o seu trabalho, como faz o seu eleitorado. Talvez assim, os combustíveis não andassem constantemente a subir de preço.