Conversas dispersas
- Categoria: Opinião
- Criado em 21-08-2018
- Escrito por João-Luís de Medeiros
1) - Atrevo-me a vozear sentimentos que muitos admitem na ligeireza da rotina vivente: a perda de vidas humanas dói aos que permanecem vivos. Mais: fazer da tragédia um espectáculo televisivo, também dói...
Gostava de lembrar que a geografia também concorre para a miséria humana. O continente africano apresenta países enormes: até Julho, 2011, o Sudão era o maior país africano – época em que foi “separado” em duas fatias territoriais... Agora, falando em tamanho geográfico, a Nigéria continua a namorar o sul europeu da sua varanda africana...
Ora, o conflito étnico-politico não é maldição recente. Háantecedentes que se foram arrastando nos últimos 20 anos; estoua lembrar a prolongada “seca” entre 1983-85 (que liquidou cerca de 100.000 pessoas) o que nos leva a observar o fervor das mudanças climatéricas, nos últimos 50 anos -- mudanças que não se compadecem com os métodos artesanais do cultivo da terra...
Há por vezes a tendência politica de confundir filantropia e caridade.O chamado “mundo civilizado”costuma reagir, emocionalmente, com o envio maciço de produtos alimentares, por vezes estranhos à dieta tradicional daquelas tribosque sobrevivem há séculos isoladas, na periferia do Saará.
Os mercenários da confusão global gostam de “islamizar” o conflito. Mas a realidade do DARFUR (Sudão ocidental) aponta causas próximas e remotas: no período de 2004 / 2008, mais de 2 milhões de desgraçados foram empurrados como refugiados, e cerca de 200 mil morreram...
Falta registar que o Conselho de Seguraça das Nações Unidas autorizou, na época (2006) o envio de 26,000 soldados e polícias para o DARFUR -- uma operação avaliada em 2 biliões de dollares/ano.
Mas o essencial da questão não foia verba financeira, nem o estudo académico das causas. A urgência estava em atenuar algunsefeitos, designadamente: primeiro, criar as condições para um “cessar-fogo”; depois, estabelecer um corredor de segurança para socorrer as vítimas...
Ficamos às vezes com a impressão de que a política externa norte-americana diverte-se a jogar na velha equação –“em frente, quanto pior, melhor!”. Aliás, a teimosia de “rearmar” alguns países do médio-oriente para “cercar” o terrorismo, não é manobra original, o que nos faz lembrar o velho ditado maquiavélico: “devemos amar os inimigos dos nossos inimigos”...
2) - Prezad@s leitor@s; Acabei há pouco de completar o regresso a casa, oriundo de Santa Monica (mais concretamente duma improvisada visita ao famoso J.Paul Getty Museum- referência ímpar para os amantes da cultura clássica).Consolei-me a admirar algumas das peças únicas da antiguidade clássica, entre elas, obviamente, aquelas que continuam reclamadas pelo Estado Italiano.
O caso é complexo e merecia uma conversa mais longa sobre o direito de posse do património universal. Segundo as notícias correntes, na década de 1970, o Museu Paul Gettyadquiriu as tais 40 peças agora em litígio, por cerca de 40 milhões de dollars. Uma dessas peças tem cerca de 2,400 anos, e pensa-se ser a estátua Afrodite-- a deusa grega do amor e da beleza.
Não me considero competente em direito internacional para me demorar nesta conversa. Mas já agora tenho uma opinião antiga que gostaria de partilhar: o património artístico da antiguidade não deveria pertencer ao capital privado – quando muito, a comunidade internacional, institucionalmente representada, deveria ser o “guardião” desse património...
3) - Começo a ficar cansado do chamado jornalismo da agressividade sorridente. O medo está bem instalado na sociedade portuguesa (inclusivé, nos Açores); o medo encontrou o terreno propício na insegurança e na falta de autonomia pessoal da maioria silenciosa. As pessoas não têm medo do “estalar” das roqueiras, nem hesitam gritar para lhes repetirem a dose do copo esvaziado. Sim, trata-se do medo de exercer a cidadania...
Pessoalmente, dou-me muito bem com aqueles que andam em busca da verdade; mas fico apreensivo quando ouço gente a dizer que já aprendeu a conviver com a verdade enferma residente no “palácio da mentira”...
4) Estimada “boa-malta”: creio ter sido há pouco novamente alertado para recordar episódios dos velhos tempos!
Nos anos 60 (do século passado), um bilhete para o segundo balcão do Teatro Micaelense (a gente chamava a “casa da folha”) custava 5 patacas; no intervalo, a malta não tinha acesso ao salão nobre para o convívio com a alta burguesia local...
À mistura com os filmes de “cowboyada”, o antigo CEO do Teatro (Mr. Santos Figueira) coleccionava algumas das chamadas fitas de “peso”, como aquelas dirigidas pelo sueco, Ingmar Bergman... Lembram-se?
Recordo com viva emoção alguns dos filmes do genial sueco: “Morangos Silvestres”, “A Fonte da Virgem” “Os Irmãos Karamazov”... digo isto a correr para não demorar a espera do neo-realismo italiano, “Noites Brancas”...
Até logo, conversas dispersas. A arte dispensa o luto... mas a nossa memória pára e regista a mágoa...
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(*) texto escrito à revelia da nova grafia.
Agosto, 2018