Um mundo de migrantes
- Categoria: Opinião
- Criado em 24-08-2018
- Escrito por Fernando Marta
Os conflitos armados têm como uma das suas grandes consequências a migração em massa. Para fugir à guerra, à opressão, à fome e à miséria, muitos milhões de seres humanos atravessam países e continentes inteiros. Os movimentos migratórios fazem parte da génese humana, mas são de sobremaneira reforçados pelas convulsões políticas vividas dentro de cada país, degenerando depois em largas peregrinações.
As fronteiras dos estados que ainda as têm, passam assim a ser o objetivo primeiro de quem decide abandonar o seu país. Para fugir às balas, para procurar uma vida melhor. Ou uma vida apenas.
Na fronteira ente os Estados Unidos da América e os Estados Unidos Mexicanos (designação constitucional do México) somam-se as tentativas de deixar este país e tocar o sonho americano. Muitas têm sido as notícias da separação vivida pelas crianças e seus progenitores, capturados do lado norte-americano como criminosos, e enjaulados até serem despachados para o outro lado. Enjaulados e separados. Esta situação, fruto da política de “tolerância zero” à imigração ilegal de Donald Trump, faz parte da promessa de construção de um muro que servirá de repelente aos mexicanos que queiram continuar a sua vida do lado de lá da fronteira. Mas o caso não é o único.
No espaço europeu, Viktor Orbán fez aprovar no parlamento húngaro legislação que tem o mesmo objetivo: limitar a migração. Através da criminalização da ajuda aos imigrantes ilegais, a Hungria torna-se assim o primeiro país pertencente à União Europeia a colocar em prática políticas que põem em causa o acolhimento de refugiados, precisamente os migrantes, as maiores vítimas dos conflitos armados e das convulsões políticas nos países de origem. Em Itália, o acerto governamental tem a pretensão de expulsar 500 mil imigrantes em situação considerada irregular. Na Áustria, a coligação de governo que integra a extrema-direita terá a mesma ambição. E na Polónia, nem a ameaça de Bruxelas em aplicar, pela primeira vez, o artigo 7 do Tratado Europeu, suspendendo assim o direito de voto polaco em Bruxelas, levou o executivo a recuar no desejo de criar, na fronteira, campos de retenção de migrantes.
Voltando ao continente americano, ainda não chegada a uma situação formal de conflito armado, a Venezuela vive enormes conflitualidades sociais devido à colossal crispação política que o país vive há anos. Como em todos os restantes casos, a migração tem-se feito sentir, nomeadamente em direção ao Brasil, Peru, Colômbia, Chile e Equador. A crise venezuelana levou já ao êxodo de 2 milhões e meio de pessoas, que procuram noutros países o que não encontram na sua pátria. O Brasil tem sido aquele que mais imigrantes tem recebido, tendo já sido noticiados conflitos entre os migrantes que chegam ao país e autóctones. Maduro é acusado de promover a emigração para mais facilmente distribuir os recursos pelos que ficam. Chamam-lhe «mecanismo de controlo social e político» traduzido numa «política de expulsão». A Portugal e Espanha terão chegado mais de 10 mil lusodescendentes. Os conflitos armados e as convulsões políticas não são positivos para ninguém. E os migrantes, que fogem do seu país, são as primeiras vítimas.