E regressamos aos camiões cisternas para o abastecimento de água…
- Categoria: Opinião
- Criado em 24-08-2018
- Escrito por Sérgio Rezendes
A questão da água para consumo público remonta ao povoamento das ilhas no século XV, sendo-lhes inerente porque sem água não há ocupação. Durante mais de quinhentos anos viveu-se numa permanente busca de soluções, mais ou menos aflitiva por ilha, ainda hoje visível no Património material e imaterial, caso de aquedutos, arquinhas ou fontanários… e na toponímia.
Ao nível dos aglomerados urbanos, a preocupação estatal gerou o aparecimento de chafarizes, exigindo-se desde cedo uma rede de obras que ainda hoje, nunca se poderá descurar. Em 1611, Filipe II de Portugal respondeu ao pedido da abadessa do convento de São João em Ponta Delgada, ordenando à Câmara Municipal que encaminhasse água do cano Real e construísse um chafariz à semelhança dos Jesuítas, com usufruto das gentes. O Rei atendia aos pedidos do Povo, corroborados pelo Corregedor e oficiais da Câmara, Juiz de Fora, Misteres e outras “pessoas de governança”. Como tal, desde cedo que em todas as edilidades dos Açores, se procurou corresponder à sede da população, captando e conduzindo a água por canais de pedra e tubos de cerâmica desde a“Mãe d’água”às arquinhas, distribuindo-a por fontanários, chafarizes e “penas d’água”, complementados por bebedouros para animais, e por vezes, lavadouros.
Datam do período liberal as primeiras bicas espalhadas nas ruas dos diferentes povoados dos Açores, num sistema incapaz de retirar as mulheres e os animais das ribeiras, destacando-se a construção de reservatórios na Graciosa, que ainda hoje evoca pela toponímia, Fontes Pereira de Melo. Na transição para o século XX, desenvolveu-se a canalização de ferro e chumbo no centro dos principais povoados, sempre complementada com poços e antigas cisternas. Propriedade do Estado, a água percorria sistemas velhos, fendidos e defeituosos, muitas vezes posicionados ao lado de coletores de esgoto a céu aberto, sendo raramente analisada. Enquanto elemento de primeira necessidade, a sobreposição de tutelas foi sempreum entrave, gerando fricções, em especial quando as nascentes são em propriedade privada. Em contexto de guerra, o seu abastecimento é primordial.
Se na I Guerra Mundial não constituiu um problema de maior, exceto ao Depósito de Concentrados Alemães na Terceira, na II Guerra Mundial foi fulcral nas três principais ilhas. Sobrecarregadas com 32.500 soldados e respetivos animais, era assegurada por camiões- cisterna do Comando Militar dos Açores ou por barcaças. A precária rede de canalizações abrangia poucas freguesias, renegando as suas populações para as ribeiras e lagoas. A sua elevada manutenção era difícil de assegurar dada a extensão e precariedade de materiais, numa permanente luta contra raízes e a passagem de animais, ou a ação humana nos desvios e vandalismo. Tratando-se de materiais importados, a falta de receitas e de transportes sentia-se de forma crucial, tentando-se nas ilhas sem guarnições militares, mantê-la e desenvolve-la. Para além das tubagens era necessário assegurar um conjunto de estruturas adicionais como arquinhas, depósitos, chafarizes, tanques e lavadouros, sendo a queda de receitas camarárias, evidente. A solução passava pelas comparticipações de Estado, mas a falta de técnicos e as exigências burocráticas atrasavam ou limitavam o processo. O apoio técnico estatal, apesar de tardio, até existia sendo cedido a expensas das edilidades, o que comprometia o seu envolvimento. Desta forma, apenas com muita persistência e envolvimento popular, estas infraestruturas cresceram, atingindo patamares satisfatórios, mercê em muitos casos de um elevado grau de sacrifício de alguns responsáveis, caso dos presidentes das comissões administrativas.
Nas ilhas alvo de reforço militar, a situação tendeu para o caótico. A chegada massiva de milhares de militares e animais fez duplicar as exigências, sendo utilizada desde a alimentação à higiene e limpeza de homens, animais e veículos. A rede não cobria todas as áreas de interesse militar, e mesmo que lá chegasse, as tubagens podiam não ter a secção necessária para dar vazão às suas demandas, mais população e economia. Não havendo capacidade financeira para as modernizar, ou fazer chegar em quantidade, foram os militares chamados à partilha de responsabilidades, exigindo-se ao Estado, rapidez nos lentos e burocráticos projetos e orçamentos. A situação na prática acabou por se resumir a uma simbiose entre as câmaras e comandos militares, optando os soldados e civis, pela divisão de esforços e partilha económica na construção de novas infraestruturas que gerariam um “Estado de Sítio” em 1942. Entre 1939 e 1945, pesquisou-se, explorou-se e depurou-se novas nascentes, instalando condutas e novos locais de abastecimento num pertinente legado do Exército a muitas freguesias das três principais ilhas.
Estudos efetuados para o Nordeste, demonstram que durante os anos de 1950 e em especial durante a década de 1960, o Estado Novo complementou o sistema, instalando chafarizes e depósitos de água em praticamente todas as ruas e freguesias, num processo que se manteve durante a década de 1980, complementado com a chegada das canalizações às casas, caracterizando-se a partir de 1990, a expansão ao primeiro sector num processo ainda não concluído. Contudo, para quem investiga estas questões, é notória a falta de investimento em mais reservatórios para prevenção das cíclicas faltas de água, hoje evidente. Um simples exemplo: sem reservas na II Guerra Mundial, só 68 anos após se inaugurou a segunda lagoa artificial do Corvo, quando há muito se sabe que este problema não desapareceu mas se agravou em todas as ilhas. Como de costume, a antecipação das cíclicas crises, usando-se as soluções já apontadas pelos nossos antepassados, falhou. Aposta-se na reação, quando a crise já se encontra instalada com os mesmos problemas, que por falta de espaço nem os menciono ou desenvolvo. Basta lembrar que regredimos aos camiões cisternas para o abastecimento de água às populações…