As sacas de encomendas da América

As “novas sacas de encomendas” da América, expressão feliz utilizada por Diniz Borges no aniversário de Angra do Heroísmo, remetem os Açores para um universo em que nunca nos soubemos envolver, mas que pode ser o ovo de Colombo para nos projetarmos numa dimensão que talvez nunca tenhamos sequer imaginado.
Os Açores perderam demasiado tempo estabelecendo relações privilegiadas e quase exclusivas, com uma determinada dimensão das nossas comunidades emigradas onde os valores essenciais são a saudade e ilhas imaginadas à imagem e semelhança dos tempos maus que determinaram fluxos de emigração. A esta relação já chamámos “diplomacia do torresmo, do vinho de cheiro e do pão de milho”.
É óbvio que este modelo de comunidade existe, o que significa que é uma realidade. Existindo, deve merecer a atenção da região-mãe. E os valores dessas pessoas devem ser respeitados. Há espaço para todos no nosso quotidiano. Referimo-nos nesta nota a uma política de interesses, não ao abandono das nossas comunidades que se querem relacionar com as ilhas duma determinada forma. Uma coisa é a relação fraternal que queremos manter com os nossos, outra são os interesses da Região - ou aqueles que pensamos que devem ser os interesses da Região.
É fácil perceber que na “nova saca de encomendas” podemos contar com gente nossa no topo do mundo, quer na finança, na economia, na cultura, etc., etc. Uma política de interesses deve apostar no relacionamento com estes descendentes de açorianos que singram na sociedade mais competitiva do mundo e que chegaram a um ponto nas suas carreiras e vidas que os constituem como exemplos para nós, que por aqui ficámos e precisamos de nos abrir ao melhor que se faz no mundo. Quantas vezes procuramos a mediocridade “lá de fora”, bem paga e melhor enfatuada, quando na nossa emigração temos do melhor que há? Quantas vezes atamancamos soluções cá por casa quando nas nossas comunidades poderíamos beber do melhor conhecimento? Quantas vezes atiramos milhões de euros pela janela a contratar artistas e grupos que valem bem pouco - em nossa opinião, claro -, quando gente nossa, das comunidades e de cá, pode cumprir essas funções com muito mais qualidade? Etc., etc.
Quem pensar que a América é Trump não vive neste mundo. Há muitas américas e os melhores de entre os nossos frequentam mundos de elite no pensamento, nas empresas, no desporto, nas artes (incluindo no cinema, no teatro...). Precisamos essas “sacas de encomendas” como de pão para a boca.