A matança da galinha dos ovos e ouro!

Quanto rende o turismo aos Açores e aos açorianos, tal qual está a funcionar?
Esta é, quanto a mim, a pergunta, mais pertinente, que poderá ser feita, ao Presidente do governo açoriano e aos políticos que têm a seu cargo a responsabilidade deste importante sector.
Estive uns dias na costa Vicentina, na vila de Aljezur, no Algarve, em Julho passado, deste ano, e confesso que vivi uma experiência, diria um pouco assustadora, mas bastante esclarecedora, daquilo que o turismo de massas poderá acarretar às regiões onde entra, quase sem controlo, apenas sob a égide, de “venham quantos vierem, e quanto mais vierem melhor”.
Com essa indiscriminada avalanche de gente que nos chega todos os anos, nos meses mais quentes, estou convencido, que não era, propriamente, este o género de turismo que se quereria para os Açores mas que, levianamente, se deixou estabelecer. E digo que foi levianamente, por não se ter tido a humildade de aprender com quem sabia do assunto, copiando-se algumas regiões que respeitando a sua natureza, como fez a Islândia, salvaguardaram-na, preservando-a, e defendendo-a, em vez de a deixarem destruir a troco de dinheiro efémero, tal qual está a suceder-nos Açores, declarando-se a sua sentença de morte, em poucos anos.
Note-se que os preços entre nós, nos últimos anos, têm vindo sempre a subir, sem que se vislumbre onde isso vai parar.
Por exemplo o robalo ou a dourada, de aquacultura, que se vende nas grandes superfícies de Lisboa a um preço médio de cerca de 5€/kg em Ponta Delgada, vende-se, pelo dobro, ou seja, cerca de 10€/kg. Todo o nosso peixe disparou para preços disparatados em Ponta Delgada, havendo até muito dele exportado para Lisboa e vendido lá muito mais barato, como é, por exemplo, nas grandes superfícies da cadeia Pingo Doce. Mas não ficamos por aqui pois a esmagadora maioria dos vegetais e frutos, são importados, de Portugal e do Estrangeiro, por preços inflacionados, com qualidade muito duvidosa. Por isso, talvez a pergunta mais importante que poderei fazer, prende-se com o que deixa a indústria turística nos Açores, que beneficie as populações que os aturam e servem?
Quem paga a limpeza do lixo que os turistas produzem?
Quem paga a reposição e recuperação do pisoteio e da destruição que causam, nas nossas ilhas?
Quem paga a limpeza e a conservação dos trilhos que eles percorrem e querem limpos e seguros?
Quanto gasta a nossa região para acolher esses pardais que debandam aos Açores, usando-os à borla?
Por isso pergunta-se: É bom que nos visitem? É; é óptimo que nos divulguem como uma paragem paradisíaca? É; assim como, é salutar sermos rotulados de bem receber? Claro que também é.
Mas isso não implica, jamais, que cá entrem sem regras que protejam a nossa natureza, o sossego e direitos da nossa gente, assim como aquilo que os faz chegar aos Açores: a nossa beleza paisagística e esta rara segurança que nos rodeia.
Assim, temos que, urgentemente, fazer contas à vida como fez o governo da Islândia, para defendermos a nossa galinha dos ovos de ouro.
Por tudo isso, temos que, urgentemente, saber quantas pessoas poderemos receber, principalmente nos nossos lugares mais frágeis; quanto temos que lhes cobrar, diariamente, para reparar, e repor muito daquilo que destruíram?
Os Açores, com o seu fascínio e fragilidade ambiental, têm que instituir, urgentemente, um limite invasivo; um limite que, para além de vir proteger os sacrários naturais das ilhas, libertará para um maior conforto, a acção e a acessibilidade, das próprias pessoas que nos visitam, muitas delas provindas de lugares muito, muito distantes; esse limite criará também, para além de tudo, o desafogo estrutural da nossa Região, oferecendo a quem chega, e a nós próprios, a oportunidade de usufruírem, com calma e serenidade, os seus ímpares recantos de águas quentes, a religiosidade do silêncio das nossas lagoas, ora desaparecido, enfim de se comerem nas diferentes mesas espalhadas pela Região, os singulares petiscos existentes sob fragrâncias de enxofre, ou de clorofila, que a natureza generosamente nos oferece, sob um sol radioso, ou sob a mornaça da bruma, misturada com odores de maresia.
E digo isso porque que penso que, como residentes, também temos esse direito: porque vivendo aqui, merecidamente, temos o direito de, livres de taxas, ou de outros quaisquer impostos, usufruir de todos estes fabulosos recantos que as nossas ilhas possuem à ilharga das nossas casas.
Outra coisa que se faça ao povo dos Açores será sempre um roubo.
Assim como qualquer descuido que se tenha em relação ao nosso ambiente, será sempre um hediondo crime.