Para o João David
- Categoria: Opinião
- Criado em 25-08-2018
- Escrito por João Carlos Abreu
Levantou-se o poema
Sem mais imagens que palavras
E as palavras rasgadas do
silêncio
E o silêncio igual em toda a
parte.
Cristovam Pavia
Eu sei que não me ouves, mas hoje tinha tanta necessidade de te falar, de te dizer que a nossa amizade não morreu, porque estou vivo ainda e por isso, na minha memória e, na memória do tempo em que vivo, continuarás a povoar os meus pensamentos, porque me ajudaste a enriquecê-los, com a tua sabedoria, com a tua cultura, com a tua compreensão, quando eu, com esta minha forma de ser, te arrancava dos teus silêncios para que risses, para que aligeirasses a vida; porque um poeta, como tu, de uma envergadura intelectual rara, deixavas-te invadir, às vezes, pelas vozes do mal - dizer da “ilha”, invejosa e cruel. E tu rias-te, tu divertias-te ouvindo as minhas caricaturas e a forma como encarava os meus problemas.
Tu, poeta, cuja sensibilidade requintada e amor, sim porque amavas, a ilha e as suas gentes, tu, que deste a este país um património valiosíssimo fruto das tuas saturadas investigações na literatura portuguesa, na literatura oral, foste um Professor competente, um orientador sábio, e às vezes deixavas-te naufragar nos problemas que te criavam. Era natural que assim sucedesse, porque eras demasiado sensível, sentias a vida no mais ínfimo ritmo que ela nos impõe, eras humano e, como tal, tinhas que viver intensa e profundamente, segundo a segundo, todos os teus quotidianos.
Lembras-te que um dia escreves-te este belíssimo poema:
Eu sei que a ilha é um passo súbito/entre a dor e a festa: basalto/rouco entre húmidas urzes/ pelos calhaus silenciados e pelos vales/ de um soluço imerso e mágico/ sem fim.
Eu sei eu sei que a ilha tem linhas súbitas / de horizontes próximo / e ao longe de entre os abismos / azulejam místicas memórias / e labores poéticos / de dias a fio sem certezas / e sem mágoas: os ecos / e os penhascos desertos / de mim.
Recordas-te que, após mais de trinta anos, sem nos vermos, encontramo-nos em Macau, por mera casualidade… Meu Deus! Que festa fizemos, que alegria vivemos… Apesar da distância no tempo, da ausência, a amizade estava, tão viva e fresca, como quando nos conhecemos, no primeiro encontro, eras tu aluno da Jaime Moniz e eu andava pelo jornalismo, e tu já te manifestavas como um poeta, com talento. Falámos da ilha, esta ilha que é uma espécie de paixão desencontrada dentro de mim; falámos de velhos amigos. Enfim, pusemos em dia a escrita de trinta anos!...
Na introdução da 2ª Edição do meu livro “Sobre o Voo da Gaivota”, escreveste:
1) Na apresentação de um livro querer-se-ia sempre concisão e brevidade;
2) Na apresentação de um livro de um amigo, há que sempre ser-se sincero, verdadeiro, comedido e também, se for caso disso (e é o caso presente), elogioso, o que não pode ser em demasia, a fim de não tornar suspeita a tentativa crítica.
3) Por isso deverá pensar-se que o maior elogio de um belo livro de um amigo – como é este “Sobre o Voo da Gaivota”, do meu queridíssimo amigo João Carlos Abreu – será apresentar-se uma apreciação valorativa, no sentido de manifestar as significações profundas da obra e propor também pistas de leitura para os interessados.
Lembras-te? Quando estavas na Presidência da Instalação da Universidade da Madeira, deste o teu melhor, a tua sabedoria, num período muito difícil. Todas as iniciativas têm dificuldade quando iniciam as suas actividades.
Eu estava então no Governo e apercebi-me de que te ias abaixo, sobretudo porque a bilhardice local dava azo às delirantes conversas, entre pseudo-intelectuais. Convidei-te para um jantar. Fomos para fora do Funchal, chorámos os dois – porque é mentira quando se diz que o homem não deve chorar – chorámos magoados pela ingratidão. A determinada altura, tu disseste-me: Não quero que te prejudiques, por minha causa”. Eu respondi-te: entre o Governo e a tua amizade, escolho a tua amizade que tem “séculos”, tem verdade. Não está poluída. É autêntica.
Outro dia telefonei ao Marcelino – teu grande amigo e que foi teu aluno – e disse-lhe que te pedisse um texto para “O Livro da Amizade”, que virá a público em outubro próximo e também que te convidasse para participares no “Encontro Internacional de Poetas no Porto Santo”.
Tu, como sempre, gentilmente respondeste positivamente. Enviaste-nos o texto e confirmaste a tua presença no “Encontro”.
Tinhas de estar neste “Livro da Amizade”, porque ninguém, melhor do que tu, soube cultivar a amizade.
O livro tem textos de 10 escritores de S. Miguel e 10 escritores da Madeira. É um forte abraço entre dois arquipélagos que se admiram mutuamente.
É do teu texto o que transcrevo seguidamente:
“Penso que a dupla Madeira /Açores começou a germinar na minha consciência de infância, face ao mar: eu sabia que havia barcos pequenos, grandes, e também já “navios”, que chegavam à minha ilha, vindos principalmente de duas direções – uma da minha esquerda e outra, da minha direita. Uma coisa que aprendi muito cedo foi que os “grandes” barcos que vinham da esquerda procediam de Lisboa e os que vinham da direita, dos Açores… E eles tinham nomes. Nessa época, eram o “Carvalho Araújo” e o “Lima”: no meu ecrã cerebral, o primeiro era mais bojudo, mais “gordo”; o segundo, mais elegante, e diziam os familiares que mais confortável para as viagens.”
Julgo que este panorama registado nestas poucas páginas nos convida e convence a continuar a acreditar que as relações culturais entre açorianos e madeirenses continuarão e virão a ser (sempre) optimizadas; com certeza, se demonstrará mais uma vez isto com a realização deste II Congresso de Poesia, agora em solo de outra ilha da Região Autónoma da Madeira, Porto Santo.
O Marcelino de Castro publicou (na imprensa) um longo e expressivo texto sobre ti, em que enaltece a tua valiosa obra. Um texto que constitui a melhor homenagem que poderias, alguma vez, receber. Respira amizade, sincera, e justiça. É um texto que permanecerá, através dos tempos, como documento de cultura e de estudo sobre a tua obra e a tua pessoa.
Estivemos três semanas sem sabermos de ti e sempre que telefonávamos, ninguém respondia, até que, por fim, recebemos a triste notícia da tua morte!
Vou tentar contar-te o que me diziam quando eu era criança: “quando se morria encontravam-se as pessoas no céu”. Durante anos acreditei que era verdade. Por isso alimentava o sonho de encontrar tantos amigos que amei e que tinham morrido.
Hoje é diferente deixo-me levar pela imaginação: esta manhã fui ao cais, debrucei-me e vi o mar — este mar que tu tanto amavas – Atlântico da Saudade. Olhei para o céu e segui o silêncio magnético do voo geométrico das Gaivotas, curvei-me respeitosamente e bebi a tua poesia:
… e ao longe por entre abismos
azulejam místicas memórias
e labores poéticos
de dias a fio sem certezas
e sem mágoas: os ecos
e os penhascos desertos
de mim.
Até breve, João David!