DIREITO AOS DIREITOS

 Continuam a existir muitas confusões em relação àquilo que a democracia, de facto, é, assim como aqueles que são os direitos de cada cidadão. E digo isto porque a democracia não é, nunca foi, nem será, jamais, uma espécie de estatuto em que o indivíduo faz, diz, ou age, como quer, como que impondo aos outros aquela que é a sua particular vontade. Por isso, democracia é, e será sempre, agirmos reconhecendo nos outros os direitos que queremos ver reconhecidos em nós próprios.
Fala-se, por exemplo, do direito ao trabalho que toda e qualquer pessoa constitucionalmente tem, recebendo a renumeração que se coaduna com aquelas que são as suas reais habilitações ou disponibilidade para o fazer; como se fala do direito à saúde, à educação, e a tantos e tantos direitos que se nos apresentam num Estado dito democrático e que nós, por ignorância, conveniência, ou maldade, moldamo-los à medida das nossas conveniências.
Um dos direitos que muito se apregoa é o do direito à greve. Contudo, esse direito em Portugal passou a ser como que uma arma de arremesso, principalmente dos sindicatos conotados com a esquerda, que, sob a sua influência, muitas vezes usam esse direito, de uma forma indigna. Por outras palavras, embora a greve seja um direito de todos os trabalhadores, essa greve oportunisticamente usada, torna-se danosa, sendo exercida de uma forma que para além do direito esbarra na violência do atropelo do bom funcionamento da cidadania. Além disso, sendo a greve uma manifestação de descontentamento, ela deverá suceder como um marco representativo desse mesmo descontentamento, mas de uma forma natural, e nunca na forma premeditada como muitos sindicatos a usam, escolhendo os momentos cruciais do funcionamento das sociedades, como uma atitude de força encapotada na vingança.
Aquilo que se passou com a greve da Sata não foi, portanto, senão o uso de uma greve encapotada na violência de um oportunismo que lesando milhares de pessoas e a própria Região, deram a força que a cobardia dos sindicatos julgariam suficiente para vergar a vontade e o direito dos seus empregadores.
Enganaram-se os sindicatos pois não conseguindo os seus objectivos alicerçados na extorsão, pelo uso de datas de eventos cruciais, prejudicaram seriamente os Açores e as pessoas que tinham agendado as suas vindas a S. Miguel ao Sata Rallye Açores, assim como aqueles que tinham programado nos visitarem nas festas do Senhor Santo Cristo.
Para que se entenda o meu raciocínio, direi que os trabalhadores da Sata, como qualquer outro cidadão, têm o direito constitucional à greve. Mas, por uma questão de coerência, não têm o direito de a escolherem, maliciosa e oportunisticamente, com bastante antecedência, nas datas separadas onde se registavam dois dos principais eventos que trazem à nossa ilha milhares de pessoas. Por isso julgo que sendo a greve um marco que assinala um descontentamento laboral, esse mesmo descontentamento não necessita de eventos especiais para ser feito mas apenas sê-lo de forma natural, na primeira oportunidade posterior ao desentendimento das partes, naqueles que foram os direitos laborais discutidos e não aceites nas reuniões para o efeito.
Por essa razão, tal qual se processou a greve dos trabalhadores da Sata, permite-me julga-la como uma forma suja e oportunista de gente que não se compadece com o estado económico da Região, regulando-se apenas pelo seu próprio umbigo; que ainda não perceberam que são uns privilegiados por terem trabalho quando o país se afunda num desemprego como não há memória, devendo por isso ajudar quem lhes emprega e não levá-los à insolvência, como que matando a galinha dos ovos de ouro que lhes enriquece; que ainda não puseram na cabeça que os salários que auferem são muito mais altos do que aqueles que auferem a esmagadora maioria dos portugueses que, ainda, têm a fortuna de terem trabalho; que a entidade que lhes paga, fá-lo à custa dos impostos dos cidadãos, pois a Sata é uma empresa pública alimentada por dinheiros provindos dos nossos impostos; que não foram nem são apenas os trabalhadores da Sata a verem diminuídos as suas regalias salários mas todos os portugueses por força da bancarrota em que o país caiu; que todo e qualquer trabalhador da Sata, deveria agir sob a ideia da salvaguarda da sua empresa e nunca sob o mando de gente que outra coisa não faz do que semear ódio, discorda e mal-estar.               
Em suma, sendo a greve um direito dos trabalhadores, até quando esse direito pode por em causa o de tantos milhares de pessoas que se vêm prejudicados por esse facto? Não deveria esse direito ser exercido sem esbarrar nos dos cidadãos comuns que não têm culpa da maldade de sindicatos ordenados apenas na prepotência da maldade que defendendo uns poucos põem em causa todos os restantes?
Por tudo isso, no meu entender, a Sata fez muito bem em não aderir à extorsão que lhe queriam impor em datas muito importantes para a Região. Pena é que não extingam a empresa, ponham na rua a canalha que nela se abriga e abram outra companhia com outro nome e outra gente. Gente que encontrasse na companhia um trabalho honroso e não um mero emprego que asila muita gente sem preconceitos e sem brio profissional.