As Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres e a RTP-Açores

Há exactamente 28 anos as Festas do Senhor Santo Cristo chegavam junto dos açorianos espalhados pelo mundo, através da RTP-Açores.
Foi a primeira transmissão, em directo, das festas, num complicado sistema de satélites, que passava pela estação da Marconi na Fajã de Cima, seguia para Sintra, colocando o sinal num satélite internacional e, este, por sua vez, redireccionava-o para um satélite doméstico dos EUA e Canadá.
Tratou-se da primeira internacionalização das festas, via televisão em directo, graças ao empenho da equipa de então, dirigida por José Maria Lopes de Araújo.
Foi ele que moveu montanhas para se conseguir esta transmissão, que se viria a repetir até hoje.
A televisão açoriana dava os primeiros passos no contacto com as comunidades emigrantes, que tinha sido inaugurado um ano antes, com uma transmissão em directo para os EUA, durante um espectáculo de variedades, em que do outro lado, num estúdio em Boston, o interlocutor era o Prof. Onésimo Almeida.
Daí para cá estabeleceu-se uma ponte que nuca mais parou.
A RTP-Internacional não existia e, nos anos anteriores, as comunidades açorianas apenas poderiam assistir às festas através de alguns apontamentos de reportagem transmitidos pelo “Portuguese Channel”, na Nova Inglaterra, quase uma semana depois.
Eram reportagens efectuadas, todos os anos, pelo responsável do canal, José Rebelo Mota, que se deslocou às festas durante dezenas de anos para realizar, religiosamente, este trabalho.
José Mota faleceu no ano passado e era um dos principais colaboradores da televisão açoriana neste intercâmbio.
Seria bom que os responsáveis pelas festas se lembrassem dele este ano.
Com o aparecimento da RTP-Internacional, as transmissões passaram a ser integradas na sua programação, tendo-se acrescentado, para além das procissões de sábado e de domingo, uma transmissão à sexta-feira, a propósito da inauguração da iluminação, que apresentei ao longo de uma década, ao lado de Monsenhor Agostinho Tavares, o Provedor Eng. Costa Santos, o responsável pela iluminação, Humberto Moniz, e o comentador Jorge do Nascimento Cabral.
Porque já não se encontra entre nós, é justo lembrar as intervenções apaixonadas do Jorge Cabral, que já era conhecido nas comunidades emigrantes como “a voz de ouro”, pelo relato das transmissões que fez, durante anos, através da rádio.
Jorge Cabral e José Mota mereciam uma homenagem pela profunda dedicação que puseram na divulgação das festas.
Monsenhor Agostinho dizia que, após a RTP-Açores ter iniciado estas transmissões, foi notório o crescimento de peregrinos do estrangeiro, mas também das outras ilhas e do continente.
Estabeleceu-se, na verdade, uma ponte com a diáspora açoriana que merece agora, quase três décadas depois, novos contornos.
É lá - nos EUA, Canadá, Bermuda e Brasil - que a televisão açoriana tem a sua maior audiência.
A RTP-Internacional é pouco para estas transmissões. Houve mesmo anos em que retiraram da sua programação alguns momentos das festas, para transmitirem outros eventos que consideravam mais importantes, como as cerimónias de Fátima.
As transmissões das festas do Senhor Santo Cristo deveriam ter uma programação autónoma com destino à emigração, envolvendo transmissões de satélite para as estações e programas das nossas comunidades, envolvendo os próprios canais locais e os suportes de multiplataforma digital.
Estas transmissões não podem restringir-se apenas ao que a RTP-Internacional oferece na sua programação.
Temos que ir mais longe, alargando esta ponte atlântica, numa grande unidade açoriana.
É por isso que se torna urgente uma nova RTP-Açores, gerida por nós, programada por nós e que esteja permanentemente junto das nossas comunidades.
Como diziam os companheiros Jorge Cabral e José Mota, “o Senhor Santo Cristo há-de-nos ouvir um dia”.
Estou confiante que os dois vão interceder, porque agora estão ao lado dele.

Pico da Pedra, Maio 2013