SEGURAR AS RÉDEAS DO DESTINO

Na qualidade circunstancial de ‘missionário’ açoriano da distância, atrevo-me a dizer que não precisamos da licença dos evangelistas da globalização para afirmar que a diversidade étnica deve ser firmemente exercida, e não apenas (cinicamente) tolerada.  Em relação ao mistério da religiosidade dos povos, esbarrar na tentação de tecer comentários originais seria como cumprir o atrevimento de “endireitar a sombra duma árvore torta”.  
Seja-me permitida a insistência: pouco de novo haveria a dizer –  “para os não crentes, nenhuma explicação é suficiente; para os crentes, nenhuma explicação é necessária”. Simplificando ainda mais a conversa: o fenómeno religioso é semelhante ao cristal que divide e subdivide a claridade solar…
Há dias, através da hesitante janela da televisão lisboeta, procurámos decifrar a vontade divina através dos sinais do tempo que se fazia sentir no passado Domingo da procissão magnânima do Senhor: perante a suave ameaça do tempo chuvoso, não seria agradável ouvir alguém a insinuar que, nestes tempos de crise, as promessas não foram suficientes para enxugar ‘as lágrimas de Nosso Senhor’.
Como soldado-raso do ideário cristão (quase sempre avesso à exploração emocional da religiosidade popular) sinto o dever de ser prudente ao comentar as preferências religiosas dos meus conterrâneos. Contudo, não é pecado notar que a sensibilidade católica do Cristianismo nem sempre resiste às superficialidades das manifestações do infatilismo religioso. À medida que vamos penetrando na última etapa do nosso percurso existencial, somos visitados pela suspeita de que as actuais religiões não são miradouros de superioridade espiritual; as religiões (todas elas, em princípio, respeitáveis) são porventura ferramentas pragmáticas, concebidas para estreitar distâncias entre o Criador supremo e a finidade  humana…  
Seria ingenuidade gratuita o exercício de polir o mural da indiferença face ao calendário turistíco-religioso da açorianidade em trânsito.  Aliás, alguns dos empresários da saudade são exímios em tirar partido do tradicionalismo religioso, sobretudo na mercadorização das sacolas psico-religiosas para armazenar as suas (legítimas) patacas… E porque não? Sabemos que a generalidade da classe imigrante é presa fácil da tentação de aferir o progresso comunitário através da (enganadora) bitola do acesso ao reino do supérfluo… Desde logo, há o substancial aumento das chamadas necessidades escusadas, contudo, necessidades criadoras de ‘dependências’ por vezes dolorosas e susceptíveis de beliscar a dignidade cívica …   
Ó céus! Embora não conheça pessoalmente o meu ‘último dia’, diria que a existência humana é semelhante a uma ‘experiência universitária’ prenhe de saberes, mas o diploma-finalista é um privilégio fúnebre… ou seja: na vida, estamos em permanente NDE (Near-Death Experience).
E assim vai a humanidade rolando e rindo nesta terceira ilha do sistema solar (sem ainda saber se uma árvore de frutos é capaz de apreciar o açúcar dos seus frutos). Nos dias em que a alegria se demora mais na divertida habilidade de nos  ‘piscar’ o seu olhar, sentimos  o apetite de imitar o humor filosófico: “… ó céus! se tivesse o poder do Criador, faria com que a saúde fosse doença contagiosa…”   
Avante! Enquanto alguns procuram contrariar a tendência ilhoa para (socialmente falando) continuar ilhados, outros preferem ensimesmar-se na exiguidade do respectivo orçamento doméstico, que (quase sempre) aconselha amarguradas transigências. Ora, antes de interromper esta breve conversa, creio não ser difícil imaginar quantos já disseram semelhantes ‘falas’, porventura com mais eloquência e oportunidade. Foram muitos, espero bem. Contudo, oxalá a nossa voz não desafine o coro dos que desejam aproximar os imigrantes uns dos outros e, consequentemente, fortalecer a união açoriana.
Entrementes, vamos (democraticamente) cooperar na segurança das rédeas do destino da Autonomia política dos Açores – inacabada experiência em trânsito…

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Rancho Mirage, California
Maio, 2013
(* texto redigido à revelia
do recente acordo ortográfico)