Greve da SATA, respeito mas não concordo!

Sinto-me constrangido com este meu escrito.
E porquê?
Porque a companhia aérea SATA é uma empresa pública regional indispensável para o serviço público de transporte aéreo nos Açores e para o todo nacional, porque os profissionais da SATA são, na sua larguíssima maioria, competentes, diligentes e cumpridores nos seus desempenhos e porque, por fim, num Estado de Direito democrático é de todo legítimo a greve, desde que cumpra os serviços mínimos e seja exercida numa atitude pacífica, respeitadora dos cidadãos e da legalidade.
É um facto que tem sido excessivo o recurso às greves neste País, banalizando-as, principalmente quando não têm, no essencial, razão de ser em termos laborais e dos direitos dos trabalhadores, criando graves prejuízos ao erário público, aos cidadãos e às empresas, em suma, aos seus utentes, com fins, por vezes, essencialmente político-partidários, de ataque aos poderes políticos, como são exemplo algumas greves das empresas públicas de transporte ferroviário, fluvial, do metro e as greves parciais ou totais dos estivadores que paralisaram a maioria dos portos comerciais, durante vários meses, que muito prejudicaram a frágil economia do País, as empresas exportadoras e todo o comércio.
Não considero que os trabalhadores do grupo SATA ou os sindicatos que os representam têm praticado qualquer excesso de greves e que estes dois períodos de greve têm alcance político-partidário, mas na presente situação de crise económica e financeira do País, a que a Região não é alheia, não têm razão exigirem que não sejam sujeitos a cortes os vencimentos dos trabalhadores abrangidos, prestando o seu contributo ao erário da empresa e ao erário público regional, pelo que o Governo dos Açores e a Administração da SATA têm razão a não poderem acolher este tipo de reivindicações.
A opinião pública não conhece bem, e devia conhecer com toda a transparência, o processo que levou ao acordo entre os sindicatos dos trabalhadores da TAP, a sua Administração e o Governo da República, até há informações contraditórias e a própria comunicação social de expressão nacional foi omissa, mas se foi através de algum “mecanismo” que desrespeitou as normas impostas pela lei do Orçamento de Estado, está muito mal e é um péssimo exemplo.
Porque os diversos sindicatos envolvidos, que são os mesmos dos trabalhadores da SATA, não emitem um comunicado com o conteúdo do acordo estabelecido que permitiu cancelar a greve na TAP pelas mesmas razões? Porque o Governo da República não o faz com toda a clareza? Que “expediente” foi utilizado para contornar as disposições da Lei OE/2013 sobre a matéria? Não deve ser acordo de sigilo até porque é uma empresa pública!
Mas se a TAP “fugiu” aos cortes nos salários dos seus trabalhadores a isso sujeitos (que devem ser a maioria porque os seus estatutos remuneratórios são muito acima da média da função pública e da privada), não deve o Governo Regional e a SATA ir pelo mesmo caminho.
Também eu gostaria, tal como muitos dos quadros da administração pública, de não sofrer os cortes salariais, e desde há anos que isso vem acontecendo, mas devo aceitar essa obrigação com sentido de justiça social, o que não deixo de sentir a gravosa redução no meu rendimento familiar, mas é essa a atitude que se exige também dos trabalhadores das empresas públicas, da Caixa Geral de Depósitos, do Banco de Portugal, etc.
Também a larga maioria dos trabalhadores das empresas privadas e os próprios empresários viram reduzidos os seus salários e os seus rendimentos.
Bem sei que a vida profissional do pessoal de bordo, dos pilotos e restante tripulação (que são bons profissionais) é muitíssimo exigente, cansativa e arriscada, por isso é compreensível terem um bom estatuto remuneratório, mas tal não os deve isentar de darem o seu contributo. Porque não aceitarem os cortes nas suas remunerações?
O mesmo se passa com os técnicos de manutenção, do pessoal das operações e outras especialidades (que são também bons profissionais), sujeitos a horários de turno, etc., mas que devem também dar a sua ajuda financeira. Porque não?
Não há que ser razoável e perceber que todos devem fazer o sacrifício, principalmente aqueles que têm emprego e ganham melhor?
Não será egoísmo dos trabalhadores e uma arrogante afirmação de poder dos sindicatos? Pelo que me afirmou um ou outro trabalhador da SATA, até não concordaria com estas greves.
Quanto ao Tribunal Arbitral não ter definido serviços mínimos para a Ilha Terceira, todos que estiveram envolvidos neste incumprimento precisavam era de um inquérito para apurar responsabilidades e receberem a competente penalização.
Sobre o silêncio e incúria de responsáveis políticos relacionados com a defesa intransigente da Ilha Terceira quanto à fixação e cumprimento dos serviços mínimos, precisavam era de um “cartão amarelo”, para não falar em “cartão vermelho”.