Potencialidade dos Materiais Regionais como Revestimento

A arquitectura dita açoriana, terá na sua génese uma componente determinante resultante das condicionantes e potencialidades dos materiais de construção e recursos naturais existentes na região que, a par dos aspectos funcionais e culturais de uma vivência particular se reflectem na materialização dos objectos arquitectónicos, produzidos desde o povoamento do arquipélago. A nossa história recente não nos permite atribuir à arquitectura produzida nos Açores um estilo próprio, na medida em que, surge sobretudo da arquitectura tradicional portuguesa, introduzida com o processo de povoamento das ilhas, sendo ainda notórias algumas influências dos povos europeus que, em menor numero, contribuíram para esse processo, verificando-se posteriormente influencias determinadas pelos processos de imigração e emigração do povo açoriano. Até ao século XX, de uma forma muito simplista, poderá afirmar-se que a arquitectura de cariz regionalista se terá materializado mais pela utilização dos materiais endógenos das ilhas do que propriamente pela afirmação de um estilo próprio, independentemente da diversidade formal e conceptual que tem permitido diferenciar a arquitectura produzida nos Açores, conferir identidade própria á arquitectura desenvolvida nas varias ilhas do arquipélago e até mesmo na diversidade territorial de cada ilha, sendo o basalto nas suas diversas formas, um elemento sempre presente e diferenciador enquanto elemento construtivo ou de carácter plástico, mais ou menos explorado em função das suas características geológicas.
No século XX, com o desenvolvimento da arquitectura modernista no arquipélago, disciplinada por uma forte componente de estilo e de corrente que determina uma nova vivência do espaço arquitectónico, surgem novos materiais e processos construtivos que permitem uma maior liberdade plástica, sendo ainda perceptível, em boa parte dos edifícios produzidos nessa época, alguma ligação à origem, na medida em que a aplicação do basalto e de madeira de produção local foram amplamente explorados, no processo de concepção e construção.
Neste momento vivemos um período de globalização em que a arquitectura contemporânea assume cada vez mais um carácter universal. As influências são muito vastas, diversas e de rápida absorção na medida do desenvolvimento constante das tecnologias de informação. As exigências actuais relativas ao comportamento térmico, acondicionamento acústico e eficiência energética dos edifícios, a par dos fenómenos de globalização a que a arquitectura não escapa, colocam aos arquitectos que produzem arquitectura nos Açores o desafio constante de, a par da inovação e da concepção mais ou menos poética, conferir aos objectos arquitectónicos alguma identidade local.
A utilização de materiais de produção local, revela-se não só uma necessidade de identificação com o meio onde vivemos e garante de identidade à arquitectura, mas também uma forma mais sustentável de desenvolvimento futuro, face ao período conturbado que atravessamos, sendo esta uma oportunidade ímpar, para o estudo e desenvolvimento de novas aplicações para os materiais produzidos na região.
À materialização dos objectos arquitectónicos com recurso a planos alvenaria de pedra de basalto, à utilização de madeira como acabamento final ou de elementos pré-fabricados constituídos por inertes de extracção local, amplamente experimentados pelos arquitectos açorianos, impõe-se uma nova abordagem face aos constrangimentos técnicos e construtivos decorrentes da aplicação da regulamentação vigente, relativa à eficiência energética dos edifícios. Este processo, passa necessariamente pelo desenvolvimento de novos processos de revestimento e pela exploração e transformação dos materiais endógenos, de uma forma mais sofisticada, abrindo caminho a um processo de industrialização que vise o seu adequado processamento e posterior certificação.
Neste contexto, poderá vislumbra-se o desenvolvimento de um vasto leque de materiais de revestimento compósitos, derivados da pedra de basalto, da madeira de produção local ou dos vários inertes explorados no arquipélago, a exemplo da bagacina ou da pedra-pomes, para aplicação como revestimento final. Este poderá ser um factor económico determinante para a sustentabilidade do sector da construção civil, a médio ou longo prazo, permitindo minimizar o impacto das importações, obtendo materiais de valor acrescentado que permitam garantir alguma competitividade no mercado externo.

Luis Almeida e Sousa, Arquitecto

Nota:
Sob o mote “A Riqueza Natural dos Açores e a Construção Civil”, iniciamos a 18 de Abril a publicação semanal de um conjunto de artigos cujo objectivo é dar a conhecer ao público em geral a riqueza dos recursos endógenos na sua relação com a actividade da construção. Desde a semana passada, com o artigo - Incorporação de Pedra-Pomes como Agregado do Betão, alargamos este contributo a autores convidados, assumindo assim a coordenação de um projecto que se pretende abrangente.

Luís Leite, Arquitecto
Francisco Câmara, Eng. Civil
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
_______________________________________________________________