REMEXER A AGRICULTURA REGIONAL (IV)

Em relação a outras culturas agrícolas já tradicionalmente praticadas em S.Miguel, algumas tendo, até, constituído esteios valiosos nas nossas exportações, não podemos esquecer as da Fava, a do Tremoço e a da Chicória. Todas elas,ainda,no século XIX. E, mais recentemente, já dentro do Séc. XX, também tem de se considerar o valioso trabalho que se efetuou no melhoramento técnico no cultivo da Batata, sobretudo, na escolha criteriosa de novas variedades deste tubérculo e a sua adaptação e reprodução, assim como o surgimento de novas culturas, como, por exemplo, as do Amendoim e da Mary-Gold. Todas estas com grandes interesses para a exportação.
E, tudo isto, desenvolvendo-se sempre e simultaneamente, com muitos outros cultivos que já se praticavam e se começaram a praticar, nomeadamente na área importante e essencial da Horticultura, que, para além do abastecimento regular do mercado interno, também geraram importantes fluxos de exportação para as outras ilhas do Arquipélago e para a vizinha Madeira (Cebolas; Alhos; Pimentas; Etc.).
Quanto ao cultivo da Fava (Vicia faba, L.) embora não possamos dispor de muito elementos estatísticos sobre a importância das suas produções durante o Séc. XI podemos, no entanto, afirmar que esta leguminosa era já exportada, com regularidade e em boas quantidades, para o mercado continental.
Por exemplo, no número 120 do jornal da Ribeira Grande “A UNIÃO”, de 9 de Fevereiro de 1860 e no Relatório Anual do Governador Civil sobre as exportações do distrito relativas a 1859, refere-se que as de Fava foram de 181.284 alqueires. Ora, se considerarmos em 14 quilos o peso de cada alqueire de Fava,  isto dará tanto como,  2.537.976 quilos (mais de duas mil e quinhentas toneladas).
E, no numero 16 de “0 FÓRUM”, outro semanário da Ribeira Grande, de 2 de Julho de 1868, pode ler-se que “saiu do porto de Sancta Iria o hiate ‘LEALDADE’ com 60 Moios de Fava (60 moios = 3.600 alqueires = 50.400 quilos), indo acabar de carregar a Ponta Delgada”. E, nessas alturas, nestes jornais da nossa Terra, anúncios destes eram frequentes.
Já no Séc. XX, nos elementos que fomos encontrar nos boletins da extinta Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, verifica-se que no período de 1949 a 1953, em médias anuais, a cultura da Fava, apenas no concelho da Ribeira Grande, ocupava uma área de 310 Hectares (3.100 alqueires de vara pequena) interessava a já 1.671 Agricultores e produzia 583,82 toneladas desta leguminosa já seca. E,  isto representava 32 % da produção de toda a ilha.
Mais recentemente, no quinquénio de 1993 a 1997, também em médias anuais, na nossa ilha, cultivavam-se 264 Hectares de Fava que produziam 405,7 toneladas dela, já seca.
Refira-se que todas estas quantidades de Fava seca podiam,  ainda,  ser acrescidas daquela verde e em vagem que eram colhidas logo no inicio da sua produção, para assim ser vendida para consumo imediato. Talvez, um tanto ou quanto empiricamente,  se possa dizer que aquela que era colhida em verde,  talvez representasse metade da outra que ficava na planta até estar seca.
Ainda acerca desta importante cultura agrícola, certamente, muitos ribeiragrandenses retêm ainda nas suas memórias, os diferentes locais da sua vila onde alguns Contratas (empresários que adquiriam a Fava aos Agricultores e a preparavam para a exportação) concentravam essa leguminosa, para a sua posterior exportação ( ao fim da rua do Atalho, que ligava a vila à Ribeira Seca, e já no inicio desta freguesia, a firma da Ponta Delgada, AMARAL E FILHOS, LDA. era uma dessa, trabalhando num grande granel que havia ali. No tempo da colheita da Fava, nesse espaço, trabalhavam algumas dezenas de mulheres e de homens, atarefados na recepção da Fava dos Agricultores e nas preparações dela para a exportação (seleção; de casque, ensaque, etc.). E, havia muitas pessoas que, diariamente, iam ali, levavam Fava às quartas e alqueires e, depois, nas suas casas, ao serão, muitas vezes à porta da rua e em cima de capachos de tábua, entretinham-se a fazer o seu descasque e separação dos lóbulos de cada grão. Feito este serviço, voltavam ao granel, com as favas já descascadas e com as cascas, para a conferencia das medidas para a paga do seu trabalho e para a recolha de nova remessa.
E, para além de todo esse trabalho que se realizava pela Ribeira Grande a partir desse granel dessa empresa, havia outros idênticos espalhados pela vila.
Esta nossa Fava, assim descascada,  era exportada para a América e para o Canadá, em sacas de fardo, de cinco alqueires cada uma, para os Açorianos da nossa grande Diáspora se deliciarem com as belas sopas que com elas se fazem. Não entendemos as razoes que nos impediam de sermos mais apurados nessa exportação,  fazendo-a em embalagens mais cuidadas. Era o signo da “mediania” continuando a imperar !
Em tempos muitos mais recentes,  talvez na década de 60 do século passado, o Japão mostrou interesse pela nossa boa Fava. O que mais atraia esse grande mercado era o tamanho do seu grão e a sua cor clara e limpa. Muito diferente daquela que, agora, nos aparece por aí, provinda de muitas outras partes, de cor acastanhada, mais miúda e cuja casca, mesmo depois de cozida ( Fava rica ) continua rija.
Tivemos a oportunidade de acompnhar parte da visita que fez a S. Miguel um grupo de Japoneses interessados neste negócio, em cooperação com os Serviços Agrícolas locais. Visitamos vários Agricultores,  sobretudo na zona oeste da ilha (Mosteiros: Ginetes; Várzea, etc. Os nosso visitantes viram muitas Favas e ficavam admirados e maravilhados com a sua qualidade.  0 seu grande interesse por esta nossa Leguminosa relacionava-se com a sua utilização especifica, por grão, na sua rica Gastronomia. E como elemento de decoração. E o preço que estavam dispostos a pagar, era mais pela “unidade” grão,  do que pelo alqueire dela !
Porém, depois de alguns contactos,  esses nossos visitantes, certamente, aperceberam-se que seria muito difícil alcançar as quantidades que pretendiam e a uniformidade de qualidade que desejavam e, desta maneira,  o interesse pelo negócio acabou por se gorar. Mas,  se voltasse a haver algum interesse da nossa parte e um bom trabalho de organização da produção desta leguminosa,  estamos em crer que, talvez fosse possível recuperar os desejos de negócio desse grande mercado.
Para arrematar este assunto da Fava de S. Miguel e toda a sua história, resta-nos referir que esta cultura era,  tradicionalmente, uma das culturas de cada rotação anual. Como se trata de uma Leguminosa, era uma cultura enriquecedora dos solos e ocupava-os, para a produção da Fava seca, durante um pouco mais de cinco meses. O seu rendimento, apenas para a Fava seca, nesses tempos de 1949 a 1953, era o de 3.135$ 00 por hectare/ano. Nessa mesma altura, o rendimento anual para uma área idêntica de pastagem, era o de 2.097$00 .
E, é assim que temos sabido tratar da boa evolução da nossa Agricultura! Vamos continuar.
Ponta Delgada, Maio de 2013