“Aleluia”
- Categoria: Opinião
- Criado em 14-05-2013
- Escrito por António Pedro Costa
Foi notícia a semana passada, o facto do Ministro das Finanças português ter mostrado em Bruxelas uma outra faceta sua, até agora desconhecida, ao declarar que estava preocupado com as políticas de disciplina orçamental, em vez de manter a habitual postura do aluno bem-comportado da Troika, pelo que apetece-nos dizer como na gíria: aleluia! O “homem” parece que começa a ficar sensibilizado para os problemas reais das pessoas, que não são apenas números.
Apesar de Vítor Gaspar estar satisfeito com a operação de emissão de dívida portuguesa, realizada a semana passada, ele admitiu que o desemprego é realmente um problema irresolúvel, a não ser que se avance com um programa de políticas ativas de emprego. Ora aí está o busílis da questão, pois o programa de austeridade que ele quer levar a cabo a todo o custo não é solução para que o nosso país levante a cabeça e acabe por morrer da cura imposta pelos países do centro da Europa.
Na sua voz pausada e monótona, Vítor Gaspar considerou que a União Europeia tem de respeitar o princípio de permitir aos Estados que assegurem aos seus cidadãos os direitos sociais que estes exigem, sendo mais surpreendentes para nós quando lembrou ao Ministro das Finanças Alemão Schauble que também ele tem de lidar com o incómodo Tribunal Constitucional, alertando o colega para o facto de não estar a salvo de problemas com credores, semelhantes aos portugueses, o que foi considerado uma alfinetada direta ao seu homólogo.
Esta posição resulta possivelmente do facto de Vítor Gaspar estar a ser pressionado pelos membros do governo e mesmo pelos deputados da maioria parlamentar e o clima de crispação no seio da maioria é grande, ao ponto de Miguel Frasquilho, deputado do PSD, vir defender que a pesadíssima carga fiscal sobre as famílias e empresas dever ser aliviada, pedindo mais sensibilidade ao Governo para com alguns sectores da sociedade, que estão em situações verdadeiramente dolorosas e isso devia ser tido em consideração, receando, ao mesmo tempo, que as medidas de austeridade estejam a ser verdadeiramente desastrosas para algumas pessoas.
Como se sabe e acordo com os dados agora divulgados pelo INE, o desemprego sobe e afeta já mais de 20 mil açorianos e 950 mil portugueses. Trata-se de um número record que nos leva a temer o pior, dado que a taxa de desemprego subiu em Portugal para os 17,7% no primeiro trimestre, face aos 16,9% observados no trimestre anterior, com o número de desempregados em Portugal a rondar o milhão.
Por outro lado, a taxa de desemprego entre os jovens em Portugal continua a agravar-se e estar a tornar-se numa tragédia, pois chegou no primeiro trimestre aos 42,1%, afetando 165,9 mil pessoas entre os 15 e os 24 anos, em que no primeiro trimestre de 2012, a taxa de desemprego nesta faixa etária era de 36,2% e no quarto trimestre era de 40%.
Numa altura em que se festejou o Dia da Europa, a sensação que temos, é que o velho Continente está a regredir e a vir para trás a olhos vistos, não sendo capaz de lidar com os problemas concretos e reais das pessoas, designadamente com o desemprego que está a atingir números assustadores.
Onde está a solidariedade europeia? Um exemplo paradigmático: Portugal e a Alemanha foram aos mercados a semana passada, mas enquanto a emissão de dívida portuguesa resultou numa taxa de 5,6 por cento, a emissão alemã registou um juro negativo de 0,4 por cento. Por aqui se vê que o sonho europeu já lá vai…