Da falta de palavra e das palavras a mais
- Categoria: Opinião
- Criado em 15-05-2013
- Escrito por Gustavo Moura
A Maria Corisca tirou-me o tema que escolhera para esta minha crónica semanal. É que o protagonista do episódio a bordo de um avião da “Sata Internacional” contara-me o que se passou e era minha intenção comentá-lo. Perdi o tema, mas o caso ganhou maior divulgação pois, certamente, a Maria Corisca tem muitos mais leitores do que estas minhas reflexões.
No entanto, não quero deixar de alinhavar dois ou três comentários, especialmente depois da patética intervenção do representante sindical no programa televisivo do João Soares Ferreira, mesmo correndo o risco de incendiar as sequências das conversações previstas para ontem, preocupação tão veemente expressa pelo deputado social-democrata Jorge Macedo no referido programa e que na sua ânsia de criticar o Governo dos Açores e a administração do “Grupo SATA”, transmitiu a imagem pública de um supletivo apoio à plataforma sindical.
Enfatizou, no mesmo programa, o representante da plataforma sindical, os riscos que correm os pilotos da “TAP” e da “SATA” quando voam para os Açores e entre as suas ilhas. Serão os riscos inerentes à sua profissão, que os há em todas e quem as escolhe assume ao preferi-las. Mas o dito aviador quase se elevava, e aos seus colegas, à categoria de heróis, a quem no seu entender os açorianos deveriam estar reverentes e obrigados, em vez de manifestar a sua indignação pelas datas escolhidas para a greve. Então o que dizer dos marinheiros dos barcos do canal que enfrentam as fúrias do mar em dias de temporal, assegurando a ligação Pico/Faial, que raramente são canceladas, mas quando chegam a terra não descansam três dias em hotéis de quatro ou cinco estrelas, com as mordomias inerentes?
Quando muitos milhares de portugueses sofrem as trágicas consequências do desemprego e arrastam com as dificuldades de um tremenda crise financeira e económica, é desolador ver uma classe que ganha muito acima da média, tem benesses extra a que nenhum outro sector profissional ascende, usar a sua posição dominante para fugir aos sacrifícios impostos à maioria dos portugueses e exigir um tratamento privilegiado. E, em cúmulo do seu egoísmo, usarem ocasiões da maior relevância económica, social e religiosa para os açorianos, como forma de pressão para alcançarem os seus privilégios.
Perante o caso que a Maria Corisca relatou, desafiamos o representante da plataforma sindical a publicamente dizer se o procedimento do seu colega de ofício foi correcto. Se sim, em que regulamentos se baseia e se não, que consequências se devem retirar. Fica o desafio.
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Vamos agora ao que justifica o título da crónica de hoje. A coerência não é, nem de longe, uma virtude dos políticos. São muito raros os que a cultivam. E os portugueses acabam de ter uma forte prova desta verdade. Em escassos dias, Paulo Portas passou de um firme não a uma medida preconizada por Passos Coelho atingindo violentamente os pensionistas, para uma concordância, dita condicional, que só o tempo que aí vem esclarecerá. É política, dirão alguns. É tergiversação dizemos nós. Quando se aproximam eleições as cambalhotas dos políticos desafiam todas as regras da coerência e, até, do bom senso comum, tornando a desejada, e tantas vezes prometida, renovação mais uma vez adiada.
O “PSD” e o “CDS/PP” dos Açores tem tido alguma dificuldade em perceber que a submissão às suas cúpulas centrais lhes trará custos eleitorais. Em vez de se unirem no combate aberto e intransigente às decisões da República que afectam os Açores, e assim tentar minimizar a influência eleitoral da actuação do poder central, empenham-se no combate interno, numa oposição, por vezes sem suporte racional, ao Governo da Região, causando na opinião pública perplexidade e, até, a ideia de que o mais importante é criticar o executivo açoriano do que defender os interesses regionais. Só um exemplo, e o mais recente. Bramir contra o actual esquema dos transportes aéreos e esquecer que o Governo da República tem há cerca de um ano uma proposta de revisão a que nunca respondeu, é, claramente, fugir à verdade, agir de má fé, utilizando uma questão do maior interesse para os açorianos com intuitos políticos eleitoralistas, numa submissão total à obediência partidária. De que estão à espera? De mais um lugar no Governo da República?
O mesmo é utilizar os efeitos da crise económico-financeira, com o desemprego sendo um dos seus mais graves flagelos, sem sugerir formas exequíveis de o minimizar.
Em Outubro passado, os eleitores deram a resposta. No Outubro que se aproxima voltarão a dizer de sua justiça. Veremos, então, de que lado está a razão.