Gorjeta para a Saúde


Os governos possuem nos seus departamentos, invariavelmente, gente iluminada.
Pela Secretaria Regional da Saúde passou muita gente assim, não admirando que, desde que Carlos César tomou posse, a dívida do sector tenha aumentado 30 vezes mais.
Pelos vistos, por lá permanecem algumas luminárias, a julgar por uma recente decisão sobre análises clínicas, que me surpreendeu na semana passada.
Quem residir nos concelhos de Ribeira Grande e Vila Franca do Campo já não pode recorrer aos laboratórios de análises de Ponta Delgada, a não ser que esteja disposto a pagar cerca de 80 euros.
A obrigatoriedade, agora, é recorrer aos Centros de Saúde do respectivo concelho, onde paga a taxa moderadora.
Eu até percebo a tramóia: deixa-se de financiar os laboratórios privados, para sustentar o Serviço Regional de Saúde.
Só que nem toda a agente está disposta a perder uma manhã ou umas horas do emprego para se deslocar a Centros de Saúde congestionados e, para muitos, longe do local de trabalho.
Mas da Saúde já se espera de tudo. Até o milagre do equilíbrio financeiro do sector, que tinha sido anunciado em 2011 como “meta fixa” para 2012, ou seja, no ano passado. Alguém notou?
Já em 2010 anunciou-se um “Plano de Contenção” para poupar 14 milhões de euros nos hospitais da região. Chegou-se ao final do ano e verificou-se uma poupança de... 4 milhões!
De falhanço em falhanço, vamos assistindo, incrédulos, a medidas avulsas e a uma desorientação inquietante, sem que ninguém seja responsabilizado por nada.
Não são apenas os gestores das unidades de saúde que devem ser responsabilizados por má gestão, como acontece de tempos a tempos, em resultado das auditorias do Tribunal de Contas. Tem que se ir mais acima, responsabilizar hierarquias e até o responsável máximo pelas orientações no sector (o que se passa na gestão de muitas empresas públicas regionais é de bradar aos céus).
O que é que aconteceu perante o descalabro na Saúde? O anterior responsável foi promovido para a administração dos Portos dos Açores e os anteriores a este continuam por aí a fazer política com declarações desastrosas...
Confiemos, pois, no novo Secretário da Saúde, que após um arranque pouco feliz, parece agora interessado em mudar a política do sector.
A anunciada reformulação do Sistema Regional de Saúde, que o nóvel Secretário quer que resulte no “maior consenso possível”, não apenas na esfera política, “mas envolvendo também a população em geral”, é um bom sinal.
Não sei quais as soluções milagrosas para reformular um sector que já se endividou em mais de meio bilião de euros e deixa, ainda, como herança, responsabilidades futuras em parcerias público-privadas que ultrapassam os 100 milhões de euros.
Mas sei o que não se deve fazer.
Desde logo, é cortar com os exemplos do passado.
Todo ele foi um desastre: listas de espera crónicas, milhares de utentes à espera de cirurgias com mais de um ano, cuidados primários desorganizados, economia de recursos hospitalares inexistente, atrasos no pagamento a fornecedores, nomeação de administradores incompetentes, falta de médicos de família, recordes nas taxas de prevalência de doenças, desde cardiovasculares a diabetes e desperdícios imensos que os Enfermeiros estimam à volta de 30% nos gastos com a Saúde.
Tem sido sintomático o falhanço dos planos orientadores para o sector.
O Plano Regional de Saúde 2009/2012 gastou mais de 1,2 milhões de euros para uma suposta reformulação, deixando tudo na mesma... ou pior.
Uma das maiores irresponsabilidades no sector aconteceu em 2006, com a adjudicação da informatização em rede do Serviço Regional de Saúde, que deveria ficar concluída em 2008.
Estamos em 2013 e nada funcionou. A informatização é um monte de lata e gastou-se neste projecto – segundo cálculos de gente que conhece o escandaloso processo – qualquer coisa como 6 milhões de euros.
Os três hospitais da região vêm apresentando prejuízos crónicos todos os anos: 83 milhões em 2007; mais 51 milhões em 2008; outros 60 milhões em 2009... e por aí fora, sempre na casa da meia centena de milhar.
Prometeram-se no ano passado mais salas de cirurgias, mais reforços nos blocos operatórios, para atingir mais 2 mil cirurgias em 2012 e outras 3 mil em 2013. Nenhuma das metas se cumpriu.
Prometeu-se que os centros geriátricos, que em 2007 tinham apenas capacidade para 104 doentes, seriam aumentados para 259, acrescido de mais 100 com o tratamento no domicílio. Outra meta não atingida.
Venha, portanto, o novo documento da reformulação do sector, mas que não tenha o mesmo destino dos outros.
E se o Sr. Secretário quer começar pelo mais básico, acabe com essa bizarria de se ter que ir, obrigatoriamente, ao Centro de Saúde do meu concelho para fazer análises e dar gorjeta ao sistema.

Pico da Pedra, Maio de 2013