Gorjeta para a Saúde
- Categoria: Opinião
- Criado em 15-05-2013
- Escrito por Osvaldo Cabral
Os governos possuem nos seus departamentos, invariavelmente, gente iluminada.
Pela Secretaria Regional da Saúde passou muita gente assim, não admirando que, desde que Carlos César tomou posse, a dívida do sector tenha aumentado 30 vezes mais.
Pelos vistos, por lá permanecem algumas luminárias, a julgar por uma recente decisão sobre análises clínicas, que me surpreendeu na semana passada.
Quem residir nos concelhos de Ribeira Grande e Vila Franca do Campo já não pode recorrer aos laboratórios de análises de Ponta Delgada, a não ser que esteja disposto a pagar cerca de 80 euros.
A obrigatoriedade, agora, é recorrer aos Centros de Saúde do respectivo concelho, onde paga a taxa moderadora.
Eu até percebo a tramóia: deixa-se de financiar os laboratórios privados, para sustentar o Serviço Regional de Saúde.
Só que nem toda a agente está disposta a perder uma manhã ou umas horas do emprego para se deslocar a Centros de Saúde congestionados e, para muitos, longe do local de trabalho.
Mas da Saúde já se espera de tudo. Até o milagre do equilíbrio financeiro do sector, que tinha sido anunciado em 2011 como “meta fixa” para 2012, ou seja, no ano passado. Alguém notou?
Já em 2010 anunciou-se um “Plano de Contenção” para poupar 14 milhões de euros nos hospitais da região. Chegou-se ao final do ano e verificou-se uma poupança de... 4 milhões!
De falhanço em falhanço, vamos assistindo, incrédulos, a medidas avulsas e a uma desorientação inquietante, sem que ninguém seja responsabilizado por nada.
Não são apenas os gestores das unidades de saúde que devem ser responsabilizados por má gestão, como acontece de tempos a tempos, em resultado das auditorias do Tribunal de Contas. Tem que se ir mais acima, responsabilizar hierarquias e até o responsável máximo pelas orientações no sector (o que se passa na gestão de muitas empresas públicas regionais é de bradar aos céus).
O que é que aconteceu perante o descalabro na Saúde? O anterior responsável foi promovido para a administração dos Portos dos Açores e os anteriores a este continuam por aí a fazer política com declarações desastrosas...
Confiemos, pois, no novo Secretário da Saúde, que após um arranque pouco feliz, parece agora interessado em mudar a política do sector.
A anunciada reformulação do Sistema Regional de Saúde, que o nóvel Secretário quer que resulte no “maior consenso possível”, não apenas na esfera política, “mas envolvendo também a população em geral”, é um bom sinal.
Não sei quais as soluções milagrosas para reformular um sector que já se endividou em mais de meio bilião de euros e deixa, ainda, como herança, responsabilidades futuras em parcerias público-privadas que ultrapassam os 100 milhões de euros.
Mas sei o que não se deve fazer.
Desde logo, é cortar com os exemplos do passado.
Todo ele foi um desastre: listas de espera crónicas, milhares de utentes à espera de cirurgias com mais de um ano, cuidados primários desorganizados, economia de recursos hospitalares inexistente, atrasos no pagamento a fornecedores, nomeação de administradores incompetentes, falta de médicos de família, recordes nas taxas de prevalência de doenças, desde cardiovasculares a diabetes e desperdícios imensos que os Enfermeiros estimam à volta de 30% nos gastos com a Saúde.
Tem sido sintomático o falhanço dos planos orientadores para o sector.
O Plano Regional de Saúde 2009/2012 gastou mais de 1,2 milhões de euros para uma suposta reformulação, deixando tudo na mesma... ou pior.
Uma das maiores irresponsabilidades no sector aconteceu em 2006, com a adjudicação da informatização em rede do Serviço Regional de Saúde, que deveria ficar concluída em 2008.
Estamos em 2013 e nada funcionou. A informatização é um monte de lata e gastou-se neste projecto – segundo cálculos de gente que conhece o escandaloso processo – qualquer coisa como 6 milhões de euros.
Os três hospitais da região vêm apresentando prejuízos crónicos todos os anos: 83 milhões em 2007; mais 51 milhões em 2008; outros 60 milhões em 2009... e por aí fora, sempre na casa da meia centena de milhar.
Prometeram-se no ano passado mais salas de cirurgias, mais reforços nos blocos operatórios, para atingir mais 2 mil cirurgias em 2012 e outras 3 mil em 2013. Nenhuma das metas se cumpriu.
Prometeu-se que os centros geriátricos, que em 2007 tinham apenas capacidade para 104 doentes, seriam aumentados para 259, acrescido de mais 100 com o tratamento no domicílio. Outra meta não atingida.
Venha, portanto, o novo documento da reformulação do sector, mas que não tenha o mesmo destino dos outros.
E se o Sr. Secretário quer começar pelo mais básico, acabe com essa bizarria de se ter que ir, obrigatoriamente, ao Centro de Saúde do meu concelho para fazer análises e dar gorjeta ao sistema.
Pico da Pedra, Maio de 2013