A beligerância e o agravamento das subsistências públicas: o ano de 1916
- Categoria: Opinião
- Criado em 11-08-2018
- Escrito por Sérgio Rezendes Doutor em História Insular e Atlântica (Séculos XV-XX)
A poucos dias da requisição das embarcações alemães e da declaração de guerra a Portugal, José Bruno Tavares Carreiro dizia estar Ponta Delgada sem hipóteses de recorrer aos mercados de importação tradicionais de cereais, entretanto fechados como os portos russos ou fora de hipótese como os celeiros de Marrocos, absorvidos pelos países beligerantes. A alternativa era o milho americano, pouco acessível dado o astronómico preço resultante dos mercados internos e dos fretes. A solução passava, como sempre, pelas colheitas, por forma a evitar-se as importações. O governador civil de Ponta Delgada (GCPD) proibiu a exportação, iniciando o controlo e rateamento até às colheitas, referenciando-se nos anos anteriores. Tais medidas atenuavam mas não impediam a instabilidade económica e social à volta de géneros como o pão, gerada pela incapacidade de controlar eficazmente a exportação dos cereais. Sem dados credíveis, conjeturas e cálculos aproximados não ofereciam garantias, tornando difícil ajuizar e autorizar a saída de milho. Para José Bruno T. Carreiro, erafundamental acautelar os géneros de produção anual porque “[…] povo com fome na rua era povo ingovernável […]”, sendo de mestria, o equilíbrio com a entrada de riqueza, evitando a ruína dos comerciantes. Mas eram muitos os que não partilhavam desta responsabilidade social.
Era a ilha de São Miguel constituída por 130.000 almas, 80.000 das quais beneficiariam da grande obra projetada ao tempo (1913): o caminho-de-ferro elétrico, que iria absorver o desemprego e revolucionar a economia, transportando pessoas e cargas, em especial o ananás e a beterraba entre Ponta Delgada e as Furnas, tornando-se numa mais-valia turística ímpar para o futuro da ilha. Com apenas duas estradas dignas desse nome, ambas com origem e fim nesses povoados, foi o projeto suplantado pelos veículos de combustão interna, hoje tão poluentes e exigentes de infraestruturas, que anualmente absorvem grande parte dos nossos impostos. 105 Anos após, é de lamentar ter-se perdido esta magnífica oportunidade de, usando os mesmos argumentos e novamente rumo ao futuro, libertar os micaelenses dos combustíveis fósseis e da dependência externa (entre mais), evitando-se problemas relacionados com a rede de transportes, poluição e monopólios. Imagine-se, a durabilidade (entre outras vantagens), deste caminho ferroviário elétrico alimentado hoje, a energia geotérmica, à volta da ilha.
Na esteira dos últimos meses de 1915, em inícios de 1916 chegavam a Ponta Delgada notícias da proibição do governador civil da Horta à exportação de queijos, e do continente, a aterradora subida do valor da arroba do carvão e do papel. Declarada a guerra, a saída das diligências militares para defesa dos principais povoados nas ilhas capitais de distrito, acabou por sobrecarregá-las por ser a logística da responsabilidade das autoridades civis e população. A chamada dos jovens ao serviço militar e a subida de preços penalizaram duplamente as famílias, dada a saída do “homem da casa” e a crise nos trabalhos agrícolas, refletindo-se na miséria social. A sua ida ao serviço militar não só retirou o ganha-pão à família como instalou a crise na jorna dos não abrangidos, que fizeram subir o preço do seu trabalho. Como resultado, os campos deixaram de ser cultivados na devida proporção, havendo mais consumidores e menor produção. A falta de modernos granéis e pragas como o rato, agravaram a situação. Na Terceira pedia-se a intervenção do Cofre de Caridade da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, e em Ponta Delgada formou-se uma Comissão de Apoio às Famílias dos Soldados Pobres, com a missão de angariar fundos para os apoiar. Dado o permanente “cerco” das mulheres e crianças aos comandantes militares, e a crise cerealífera que se estava a prever, o Ministério da Guerra autorizou o licenciamento de pequenos grupos de trabalhadores para auxílio nos trabalhos agrícolas, situação que cessou com o ataque de 4 de julho de 1917, a Ponta Delgada.
A crise estava instalada. Agravavam-se as condições de alimentação, proibindo-se exportações, em muitos casos na hora e já embarcados rumo ao continente ou ilhas, argumentando serem altamente prejudiciais às subsistências do distrito. Mais complexo de travar era o envio de milho ou o gado para a capital. Inter-ilhas, os abastecimentos começavam a falhar, caso do queijo de São Jorge, agravando-se a sensação de isolamento nas ilhas mais pequenas, dado o vapor já não parar como de costume. Sem portos, fundear transformara o navio num alvo aos submarinos alemães, o que aliado ao mau tempo, fazia com que os comandantes normalmente seguissem, estagnando a economia de ilhas como Santa Maria, que com os seus 7.000 habitantes, apenas contava com o vapor “São Miguel” uma vez por mês, travando-se a parca exportação, em especial de gado, quando este atingia preços elevadíssimos nos mercados em Lisboa, numa situação similar à das Flores, que solicitava sem sucesso, a saída de 266 animais via Horta. O abandono, agravava os efeitos das precárias importações e chegada de nova moeda à ilha. Como na II Guerra Mundial, o pagamento de impostos faria o resto, piorando a miséria das suas populações.
Claramente em recessão, a economia açoriana tendia a fechar-se embora com oscilações. Em ofício ao ministro da Marinha, a Empresa Insulana de Navegação afirmava que a exportação de cereais estava há muito proibida, sendo o fluxo de viajantes muito menor, gerando-se poucas receitas em contraciclo com a subida do preço do carvão e soldada às tripulações (em mais de 30%), ainda assim insatisfeitas. Os navios apenas transportavam encomendas e gado, tendo ainda que sofrer a concorrência dos veleiros e pagar seguros de guerra, exagerados. Renovados há dois meses, já se exigiam mais 10% (70.000$00) para os dois vapores da carreira, pelo que se solicitava autorização para aumentar em 75% os tarifários para os passageiros e carga; 50%para cereais e gado e 100% para o resto. Se proibido, seria apresentada a rescisão do contrato, assegurando-se uma viagem por mês até ao final da validade dos seguros. A comunicação social, que acompanha o processo, refere compreender a posição, não culpabilizando a companhia açoriana. Deferido, apesar do agravamento dos preços, a exportação de milho manteve-se durante o resto do ano para mercados como o de Santa Maria, continente e Madeira.
Entretanto o dia-a-dia de famílias e trabalhadores agravava-se. Por exemplo, em abril os padeiros de São Miguel reivindicavam mais trigo, dado o elevado consumo militar do pão, obrigando o GCPD a rastrear os grandes compradores de cereal no concelho da Povoação. Tal como na Terceira, em vésperas de “Estado de Sítio”, verificava-se um jogo de gato e rato entre os privados e as autoridades, fruto da ganância de exportadores que incessantemente pressionavam as autoridades para exportar. José Bruno T. Carreiro explica a urgente necessidade de os disciplinar para não adquirirem grandes quantidades, lembrando que “[…] com o intuito de forçar a mão à autoridade pela exposição de prejuízos iminentes, só poderia queixar-se de si próprio e não se poderia admirar de que a autoridade o não atendesse e se mostrasse indiferente a esses prejuízos […]”. Que grande lição, para tantas asneiras atuais!
No mês seguinte, a Terceira em “Estado de Sítio” pela chegada dos prisioneiros alemães, não exportava sem autorização do comandante militar dos Açores, agora governador da ilha durante seis meses. Incapacitados de receber cereal a partir de outras ilhas ou do continente, equacionava-se em Ponta Delgada a única opção: os EUA. Em Santa Maria, ao isolamento juntara-se a falta de farinha de milho; o fraco rendimento do único moinho operacional e a estiagem. Desde março que a recém-criada Comissão de Subsistências e o administrador do concelho de Vila do Porto haviam solicitado ao GCPD a proibição de exportar trigo, dificilmente a repor em caso de emergência. Não era de contar com dúbias importações, dados incertos e múltiplos fatores fora de controlo das autoridades, caso dos mercados abastecedores, meios de transportes, qualidade do género e preço final de venda ao público (por exemplo). À semelhança de São Miguel e Terceira, e certamente no resto das ilhas, procurava-se um equilíbrio entre o trigo e o milho de modo a que na falta de um, existisse o outro. Para tal era vital um estreito controlo e gestão dos recursos entre concelhos; a perseguição ao comércio ilegal e a rápida deslocação do cereal: em inícios de agosto de 1916, o rebocador a vapor “Furnas” descarregou em Ponta Delgada cereal do Nordeste e Água Retorta, carregando de seguida farinha de Vila Franca do Campo para Vila do Porto, sempre em missões com caráter inadiável.
Este fenómeno é também conhecido na II Guerra Mundial, sabendo-se de mortos de fome em concelhos como Lajes das Flores. O cereal “exótico” (importado) a partir das colónias portuguesas até existia, mas dado o seu altíssimo preço; os altos níveis de desemprego e os parcos apoios sociais, acabava por apodrecer nos granéis ficando a classe mais pobre, a operária (o camponês sempre tinha terra para explorar), vendo-o passar por não ter ordenado, numa nefasta lição às autoridades que seriam obrigadas a recuperar posturas do passado, gerando emprego (subsídios, só aos idosos, órfãos e indigentes por deformação física…). Esperemos que a História não nos relembre estas velhas lições, hoje devastadoras pela quantidade de subsídio-dependentes; famílias que moram em apartamentos ou incapazes de trabalhar a terra, e trabalhadores dependentes. Hoje, a História só serve para discursos de circunstância, quando na realidade para além de avisar e ensinar, irá marcar para o bem e para o mal, as hostes políticas atuais e a sua ação no futuro…
A crise dos cereais, agravada em 1916, seria momentaneamente aliviada pelo tabelamento a 2 de setembro, de mil sacas de farinha resgatadas da galera inglesa “Langdale”, perdida próxima a São Miguel a 8 de agosto, e nas exigências à panificação, do seu rateio. Em São Miguel, em novembro, novas tentativas de exportação para a Madeira ganharam a repulsa popular, mesmo se entendidas como um mal necessário, denunciando-se que padarias de Vila Franca do Campo apresentavam diferentes preços para um único tipo de pão. Geravam-se pequenas crises, podendo já ser ultrapassadas no mês seguinte, com ou sem hipótese de exportação para outras ilhas, caso de Santa Maria. Entretanto, as autoridades refinavam; relembravam e procuravam novas soluções: em finais de setembro o GCPD solicitava ao delegado agrícola para assegurar junto do Ministério do Trabalho, uma quantidade mensal de trigo americano até ao fim do “Pacote de Ajuda” (30 de junho de 1917). A presença dos “U-boats” no mar entre os Açores, a Madeira e o continente acabou por condicionar a sua vinda, por colocarem risco a travessia, tal como as fontes do ataque do “U-139” ao “Augusto de Castilho” referem. Eram de tal forma comuns os alertas para “submarino avistado” que as tripulações já não lhes davam o devido crédito. Mas apesar do grande mar, os ataques aconteciam. Nestas condições, e dado o elevado preço dos fretes, entende-se a relutância dos armadores em fazer chegar farinha a preços cómodos aos açorianos. A solução continuava a recair na capacidade de autarcia das ilhas, procurando-se não depender de ajudas externas. Promissoras colheitas de trigo, como as da Ribeira Grande em 1917, fariam sossegar os espíritos mais inquietos mas não o suficiente questionando-se as autoridades sobre a origem dos diferentes preços que originavam o encerramento de padarias, e a abertura de novas.
Neste ponto, o paralelismo com a II Guerra Mundial poderá auxiliar. Estudos comparativos permitiram perceber que, apesar das limitações, as ilhas mais pequenas eram passíveis de se viver melhor do que nas maiores. Com menos população, e conhecendo-se melhor, era mais fácil gerir a ação dos açambarcadores, verificando-se um maior equilíbrio entre o custo e a venda de bens agrícolas locais como a fava, a batata e o feijão, em São Miguel bem mais caros. Na I Guerra Mundial, o Depósito de Concentrados Alemães na ilha Terceira reflete esta capacidade de “desenrasque” ao fazer substituir produtos importados, ou em falta, por outros como os ditos, nomeadamente na sopa. Hoje, tirando o caso da batata (pouco rentabilizada para exportação); fava, só para os mais puritanos; feijão em grande escala, só por importação (ao consumidor, em lata ou congelado) assim como o milho, exceção feita ao de “matar saudades” e alimentar o turista no verão. Não há visão nesta terra? Porque não existem fábricas de tratar a nossa batata e congela-la para exportação, podendo fazer o mesmo com os nossos legumes, de qualidade excecional, criando e mantendo empregos durante todo o ano? E as nossas corretoras não podem para além do atum, embalar em lata feijão, ananás aos pedaços, tomate, cogumelos, etc, gerando mais trabalho nos campos e mais emprego, ao longo do ano? Não são ideias novas, sendo muitas operacionalizadas com sucesso apesar de terem desaparecido no tempo por outros fatores. Esta mornaça açoriana a caminho de meados do século XXI, está com a ajuda de imensas políticas, a gerar uma sociedade (e governos) subsídio-dependentes, originando alarmes generalizados quando a União Europeia diz que se vai cortar algo, ou a partir da capital, entre outros exemplos. E trabalhar a nossa autarcia, não? E gerar emprego, em indústrias que não estejam dependentes de fatores exteriores, não? E habituar as novas gerações a trabalhar em vez de reclamarem subsídios, não? Em muitos casos, já nasceram neste registo, e agora com filhos, repetem o que viram os seus progenitores fazerem. Entretanto, mantêm-se a receita tradicional do agravamento de impostos, enquanto se aguarda que outros de fora, resolvam os nossos problemas de raiz enviando dinheiro, fazendo entretanto operações de cosmética e discursos de charme (numa “caça ao voto”), muitas vezes usando a “História” para depois a colocar na gaveta.
Em 1916, tal como hoje, será de relembrar que nem todos os danos se resumiam à alimentação. Durante o verão o preço da gasolina atingiu valores exorbitantes assim como o das viaturas; o vapor “Funchal” deixou de fazer a carreira das ilhas por estar em reparações e os preços das ferragens, do aluguer das carruagens, do açúcar, do papel ou até mesmo do corte de cabelo aumentaram de forma assustadora. Em Vila Franca do Campo reinava o desânimo entre os cultivadores de ananás, agravado por furtos de vidros e a ausência de mercados. Muitos iniciaram a reconversão das estufas em terras de pastagem, e nem mesmo a ideia de formar uma cooperativa para a compra de navios fruteiros se concretizaria, apesar de muito bem recebida. O preço das importações afastava o interesse em os adquirir.
Na Terceira, mediante as múltiplas obras de construção civil a realizar no forte de São João Batista para acomodar militares e prisioneiros, a engenharia militar informava o Comando Militar dos Açores que dada a falta de materiais, ninguém se arriscava a concorrer à sua execução. E como o Estado normalmente não ajuda nestas coisas, internamente, o problema financeiro agravava-se dada a burocracia, comprometendo a urgência. Em Ponta Delgada, a chegada da autorização governamental para sacar os valores ao Banco de Portugal era de tal forma lenta que, dadas as constantes mudanças de preços, inclusive dos transportes, quando obtida a verba, havia que atualizar os orçamentos. A solução, parece-me (infelizmente) muito atual, passava por fazer acumular mais 50% do valor ao concurso, dado o interregno entre o lançamento e o desbloquear da verba. Mas hoje há uma diferença: como um político há tempos me disse “não estamos em período de guerra”. Há cem anos, à chegada da verba, já os preços tinham sido modificados inúmeras vezes, mas hoje não… Há cem anos a burocracia e a escassez de comunicações na transferência de verbas juntavam-se à subida dos preços no continente, nos transportes, nos seguros e à vaga possibilidade de serem adquiridos a preços exorbitantes, nos mercados locais. Não sendo uma questão a colocar de parte, não é esta a realidade atual, quando qualquer obra custa logo à partida, 1, 4, 6, 8 milhões de euros (ou mais). E algumas com uma eficácia fantástica, podendo até eventualmente servir para viveiros de camarão…
À burocracia estatal, juntavam-se as finanças públicas que começavam a sofrer problemas, reforçando-se o tradicional pagamento de impostos. A 26 de setembro de 1916, o GCPD comunicou à junta geral a urgente necessidade de pagar aos cantoneiros de Vila do Porto, sem receber salário desde julho. Com o preço do alqueire de milho nos 600 réis, e da farinha nos 700, pedia-se a intervenção da Comissão de Subsistências. Paralelamente, os lavradores tentavam inflacionar o leite para 120 réis a canada, conseguindo o aumento do preço da carne no mês seguinte, quando já escasseava a batata inglesa. Quanto mais aumentava o preço, maior a tentativa de explorar o próximo em várias áreas, destacando-se por esta altura, a intervenção do delegado de Saúde ao fazer cessar o abuso na venda de medicamentos em Vila do Porto.
Em outubro seria o açúcar a subir de preço, por solicitação do presidente da Direção da União das Fábricas Açorianas do Álcool, seguindo-se uma comissão representativa dos cultivadores de beterraba a exigir o aumento em um centavo por cada quilo de beterraba, ou o pagamento do frete, à semelhança dos cultivadores da Maia. Gerava-se o efeito de “bola de neve”. Nos últimos dois meses de 1916, atualizaram-se as tabelas de preços de acordo com as informações de ambas as margens do Atlântico. O GCPD tentava manter-se atualizado pelo seu congénere de Lisboa e pelo cônsul português em Nova Iorque, em preço de géneros como o trigo, tentando fixar os preços do trigo importado. Na ilha Terceira, ultrapassado o “Estado de Sítio”, gerou-se um equilíbrio sensível entre a população, agora com cerca de mais de mil novos habitantes e a alimentação, tornando-se muito curta a vigilância ao comércio clandestino e aos açambarcadores. As ações como os240 editais fixados pelo administrador do concelho da Praia da Vitória em todas as freguesias, obrigava os produtores de géneros como o milho, arroz, batata e mosto a declarar as suas produções, e rusgas militares confirmavam suspeitas de fraudes nas declarações, pelo que os valores não declarados alimentavam um mercado paralelo, provocando ainda em novembro um novo aumento do preço do milho, incrementando a crise cerealífera...
Rescaldo da Festa da Minerva
- Categoria: Opinião
- Criado em 11-08-2018
- Escrito por Alberto Ponte
Como descrevi na minha crónica da passada semana dedicada ao Maestro da nossa Filarmónica Minerva, vivemos por cá alguns dias de festa entre 2 e 6 do presente mês.
Para quem não possui viatura própria ou que a idade não permite grandes deslocações, evidentemente que são dias aguardados com algum entusiasmo pois é sem dúvida uma oportunidade de convívio com amigos, mas também um momento especial de mostrar a outros o que muito gostamos de chamar “orgulho Ginetense”. Somos uma terra repleta de talento mas não é só dizer que o temos, mais que isso é necessário demonstrá-lo participando, cada qual “à sua maneira” pois não somos iguais, e é aqui na variedade que se encontra a beleza das nossas tradições dividida entre as nossas Instituições.
Antes de manifestar algum desencanto, que faz parte da minha liberdade de expressão, quero felicitar a Junta de Freguesia de Ginetes pelo envolvimento na festa da nossa Banda, a Direcção da mesma, o Maestro assim como os Músicos, muitos ainda bastante jovens que vão cultivando o gosto por esta arte maravilhosa com o apoio igualmente de alguns indispensáveis e exemplares veteranos. Da minha parte igualmente quero enviar um abraço de estima e admiração ao Gilberto Arruda, sua mulher Maria do Carmo assim como os restantes elementos que compõem o grupo “Pedras Vivas” que nos brindaram com uma magnífica coreografia transportando-nos a um passado não muito longínquo, no recinto do Largo do Tanque aqui nos Ginetes. Fiquei verdadeiramente surpreendido pelo “profissionalismo” de supostos amadores que sem receio ouso mesmo apelidar “grandes artistas”. O Gilberto, o grande responsável por esta arte de representar, simples empregado numa fábrica de lacticínios, a Maria do Carmo, sua mulher, que trabalha como “caixa” numa grande superfície em Ponta Delgada mereciam viver num país onde a cultura ocupa o lugar de destaque que merece numa sociedade como a nossa. Sem intenção de ofender quem quer que seja, de um modo especial aqueles que “fizeram a sua parte”, devo dizer que foram eles, o Gilberto e a Maria, a “alma” desta festa que já foi considerada uma das maiores no género que se faz por estes lados mas que ano após ano, como tudo o que é bom, começamos a verificar um manifesto desinteresse da população.
O Gilberto, filho desta terra dos Ginetes, mas residente nos Remédios da Bretanha, há alguns anos que nos vem surpreendendo com o seu talento, a pronta colaboração de sua mulher, e até mesmo do seu filho apesar de jovem, consegue igualmente trazer consigo um bom grupo de amigos desses lados da Bretanha, como aqui dizemos, que à mistura com uns poucos dos Ginetes, sobretudo jovens mulheres, consegue realizar um trabalho de uma riqueza cultural extraordinária. Foi ele que organizou ainda uma magnífica exposição na Sala de Reuniões da Junta de Freguesia intitulada “Ginetes Berço da Etnografia” com “muitas réplicas” de Coroas do Divino Espírito Santo, a maioria moldadas por ele próprio sempre com a colaboração de sua esposa, além de trajes tradicionais da nossa terra que direi quase por “magia” transformaram o espaço num encanto que tocou a todos os convidados de honra presentes no momento da inauguração assim como os mais diversos visitantes que lá acorreram durante os 4 dias que esteve a mesma aberta ao público gratuitamente.
Sei que é um trabalho desenvolvido ao longo do ano, pois dizia-nos que após o encerramento das festas na semana seguinte dá início aos preparativos da próxima que neste caso será para 2019. Há pessoas que desinteressadamente são assim e são felizes porque precisamente conseguem partilhar com outros a felicidade que eles próprios construíram através de coisas aparentemente pequenas mas que “enchem profundamente a alma e o coração” de todos nós.
A Filarmónica Minerva dos Ginetes tradicionalmente é uma das grandes Instituições de prestígio desta terra. Felizmente que ao longo dos anos tem caminhado lado a lado com a nossa Igreja, com a Junta de Freguesia e até participado quando solicitada com outras Instituições que por cá existem sem qualquer recompensa monetária. Houve tempo que todos se uniam e de “mãos dadas” chegado este momento alto que é o aniversário da nossa Banda faziam-se por cá “coisas lindas”. Infelizmente este ano, não fora o envolvimento do Gilberto Arruda, da sempre presente Rua do Moio, além de uns pouquíssimos habituais colaboradores teríamos ficado um pouco perdidos.
É tempo de trabalharmos todos em conjunto, de colocar de parte opções político partidárias pois estas têm o seu tempo próprio para serem discutidas. As Instituições não são propriedade de quem quer que seja em particular, possuem apenas pessoas que têm a obrigação de as gerir no interesse de todos nós os filhos e por inerência os verdadeiros donos desta terra.
Eis novamente a dança do fogo!
- Categoria: Opinião
- Criado em 11-08-2018
- Escrito por Valdemar Oliveira
Uma dança ao som da música da agonia, da angustia, do pavor, da incerteza, do desnorte, do desânimo e da tristeza; uma dança antiga, à portuguesa, ao sabor da imbecilidade da improvisação, igual a muitas danças do passado em que as notas musicais, já gastas, não mudaram, continuando iguais àquilo que causou desgraça, destruição, sofrimento, e morte; uma música tocada, na sua essência, por cobardes, por gente pequenina, sem coragem, sem a noção do valor, exercendo, apenas, aquilo que querem e não o que deveriam querer para o bom propósito e protecção de quem a ouve e nela confia.
Em 2003 a serra de Monchique ardeu durante 11 longos dias sem que o fogo fosse dominado a não ser por ele próprio, certamente já cansado de tanto queimar e devorar nas entranhas das suas chamas, sem dó nem piedade, tudo aquilo que se lhe deparava; hoje, passados 15 anos, a serra de Monchique, tornou-se, novamente, pasto de chamas que, sob a força diabólica do vendaval, queimam milhares de hectares de floresta, despindo a sua capa protectora da fauna que nela vive e busca protecção; na serra de Monchique ardem uma diversidade de bens imóveis, pertença dos sonhos de um número enorme de pessoas, na esmagadora maioria idosos, que tinham a sua vida rural alicerçada no amor à terra, à natureza, aos mistérios e premissas de uma vida tranquila ornando a beleza do seu olhar; naquela serra as pessoas viram os seus animais, seus companheiros, perecerem tragados pelo fogo que, sem dó nem piedade, os aniquilou pondo termo a uma relação íntima do homem com a sua criação.
Em 2003 dever-se-ia ter aprendido com a desgraça, e se ter corrigido aquilo que estava mal na serra de Monchique, reclassificando e ordenando a floresta, mas nada se fez; depois daqueles fogos consumirem tantos bens, nada se aprendeu, esfregaram-se as mãos certamente à espera de algo que ninguém entende, esquecendo-se que o lume poderia voltar, qual besta destruidora, sem ninguém que lhe travasse; e eis que por impossibilidade de se enfrentar o poder das chamas perante a inacessibilidade existente em muitos lugares da serra de Monchique, lamentável e imperdoavelmente, por não fazer sentido, sucede aquilo que agora se passa.
Embora se diga que a política dos fogos melhorou, não é uma afirmação verdadeira porque a sua história ainda está longe de ser contada.
E está longe de ser contada porque embora o lunático do nosso Primeiro Ministro, António Costa, e o patético Ministro Eduardo Cabrita, tenham elogiado, em Junho, o trabalho de prevenção feito na serra de Monchique, aquela serra, até que o fogo a começasse a devorar, padecia exactamente dos mesmos problemas que tinha em 2003.
Para agravar tudo, os desencontros existentes entre o Ministério da Administração Interna, a Autoridade Nacional da Protecção Civil, ANPC, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, ICNF, a Liga dos Bombeiros Portugueses, entre outras instituições, sacudindo cada qual a água do capote esqueceram, surpreendentemente, que há mais de um ano que se sabia que Monchique e Pampilhosa da Serra, estavam no topo das zonas com maior risco de incêndios florestais.
Aquilo que, quanto a mim, seria importante fazer, seria retirar o mando aos políticos que nada sabem do assunto, e entrega-lo a quem percebe do assunto, como são alguns dos competentes comandantes de bombeiros nacionais.
Está provado que a Autoridade Nacional da Prevenção Civil, não tem tido nem cabeça nem tino para ela própria comandar a operacionalidade dos combates aos incêndios, e se são os bombeiros habilitados que mais sabem da matéria, eles por inerência deveriam ser os coordenadores nacionais da prevenção e do combate aos incêndios, comandando as operações ou fazendo parte de um colégio de gente competente e mandatada para o efeito.
Por exemplo enviar bombeiros de Loures apagar incêndios para a serra do Monchique, para uma zona que não conhecem de todo, é um grande exemplo daquilo que nunca deveria ser feito.
Outra questão que se põe é a necessidade que um piloto, teria que ter, como informação para maior eficácia do seu trabalho. Deveria, por isso, ter um bombeiro experiente ao seu lado comunicando constantemente com os seus colegas a combaterem o incêndio no solo os quais lhes forneceriam valiosas informações sobre a direção e velocidade do vento junto ao solo, os obstáculos existentes, como cabos de alta tensão ou de outra qualquer natureza, que tipo de floresta se rasteira ou alta, assim como que tipo de arvoredos, pois a forma de arder de uma esteva, é bem diferente de um eucalipto e este de um pinheiro.
Tal qual se desenrola o combate, muitas vezes, os pilotos devem agir, um pouco, de improviso, arriscando, desnecessariamente as suas vidas.
Viagem às nossas escolhas
- Categoria: Opinião
- Criado em 11-08-2018
- Escrito por Helena Castanho - Gestora Turística e Hoteleira
É chocante, a prioridade que se tem dado de forma exclusiva às estatísticas de dormidas e permanências, em relação ao Turismo! Estes dados são meros indicadores do que qualquer um de nós, residente, já sabe e vai aferindo, no início de cada dia, quando sai da sua casa apenas para tomar café… as estatísticas da SREA não são indispensáveis para sabermos que cada vez mais temos maior procura… são números a que as entidades devem associar um percurso, masque de longe prepararão o futuro! Naturalmente que contribuímos para o aumento a nível nacional do Turismo, alguém duvida?
A preocupação que teima em não surgir, é a avaliação obrigatória da satisfação de serviços de quem nos procura, o bem-estar de quem por aqui escolheu passar as suas férias, se está ou não a corresponder ao que foi promovido, se temos ou não condições de competir com outros destinos, com a qualidade do que nos propomos identificar como nosso! Onde estão estas estatísticas? Alguém tem tido a preocupação de as reunir?
Quando o GRA (Governo Regional dos Açores) pensou nesta indústria como uma das mais importantes para o nosso futuro, não teve a sensatez de atribuir uma tutela única a esta área? Como é possível entender-se que é exequível gerir três áreas tão complexas, como Turismo, Ambiente e Energia apenas numa pasta? Pois naturalmente, não é… Por estas paragens a genialidade parece imperar, pois para além de se entender que um responsável pode estar devidamente apto a tomar decisões em três setores tão diferentes, ainda o pode fazer sem possuir formação específica em nenhum deles! A máquina de gestão deste governo está, para além de obsoleta, viciada, com bateria descarregada e sem qualquer tipo de manutenção…
Convido o leitor a fazer comigo esta viagem de reconhecimento: temos uma entidade governamental, uma secretaria ampla em puxar para si questões estritamente relacionadas com a Energia, Ambiente e Turismo, um Diretor do Turismo e uma Direção Regional de Turismo! Muito bem, espera-se que chegue e sobre para legislar, colocar em prática, planear, promover, fiscalizar e acompanhar tudo o que se vai fazendo por aqui...Mas não!
Ainda se criaram coletividades como a ATA (Associação de Turismo dos Açores) e mais umas quantas «entidadezinhas» que vão aparecendo esporadicamente, para ir atirando areia aos olhos de quem anda distraído, que se vai fazendo alguma coisa… O objetivo final da ATA é necessário e tem que existir, porque encerra em si a promoção coletiva da nossa região, mas a associação é totalmente dispensável, uma vez que o elo entre o GRA com os fundos comunitários e políticas europeias, é uma obrigação do próprio Governo. A resolução passa por utilizar e rentabilizar os recursos técnicos e humanos distribuídos e incluídos nas entidades já existentes… tenham juízo e vergonha! Os privados, há semelhança do que vem acontecendo há décadas promovem muitíssimo bem o nosso destino, são inclusivamente os principais responsáveis pelo aumento nas próprias estatísticas, goste-se ou não. A liberalização do espaço aéreo veio por si só apostar numa visibilidade dos Açores que lhes garante, obviamente, que as suas rotas sejam do ponto de vista empresarial, rentáveis…E porque não há dia em que não surja mais uma ideia brilhante, sabemos agora que uma das resoluções para a frequência de um local com interesse turístico, como a Ferraria, vai ser alvo de um controlo de período de permanência pelos seus utilizadores… Não há capacidade de absorção possível! Numa zona balnear, que depende exclusivamente da preia-mar e baixa-mar para oferecer o que a distingue? Quem irá ter a difícil e inglória tarefa de solicitar ao turista que saia da água do mar, por já ter expirado o tempo em que lá pode permanecer? A sério que nem sequer conseguem ver o ridículo a que se expõem?
Iludem-se, se pensam que as suas decisões catastróficas, não estão a ser acompanhadas por quem vê os Açores como um bem maior!
Estamos e estaremos atentos… os Açorianos exigem um futuro de incontestável sucesso turístico!
A Profrutos é necessária
- Categoria: Opinião
- Criado em 11-08-2018
- Escrito por Álvaro Dâmaso
A Profrutos é essencialmente uma cooperativa de comercialização de ananás e banana. Quando foi constituída a cultura de ananás em cama quente, solo rico em matéria orgânica, cobertura de vidro começara há mais de cem anos na ilha de S. Miguel.
A cultura do ananás nos Açores não foi obra da espontaneidade da natureza, mas da racionalidade do homem. Emergiu de uma necessidade de índole socioeconómica, do tipo das que aguçam o engenho. A cultura e exportação da laranja, que fizera despontar uma elite económica residente e uma expressiva e consistente iniciativa comercial,colapsara por ação de dizimadora praga. Havia que encontrar culturas novas que colmatassem a grave lacuna aberta: o chá, o tabaco, a beterraba, por exemplo, resistindo, ainda hoje, a notabilíssima cultura do chá. Os açorianos meteram mãos à obra, não se tendo deixado vencer.
Foi o ananás, numa das suas variedades, o fruto escolhido, possuído de caraterísticas próprias e distintivas do cultivado ao ar livre nas regiões tropicais, e com o objetivo de o lançar no mercado internacional aproveitando os circuitos comerciais instalados com a exportação de laranja. Sempre com os olhos bem-postos no mercado inglês. E, assim, foi conseguido um fruto único no Mundo e um mercado para ele.
Em 1875, existiam já 40.000 plantas. Em 1950, a exportação excedia 1.000.000 de frutos. Hoje, o mercado global do ananás nos Açores valerá, sem adição do subsídio comunitário à produção, um pouco mais de 3.000.000,00€, e a ocupação fundiária com a sua produção situar-se-á acima dos 50 hectares. Não é muito. O PIB dos Açores aproxima-se dos 4.000.000.000€. Porém, o seu pequeno contributo é amplamente compensado pela qualidade ímpar do fruto, assente nas suas “caraterísticas físicas, químicas e organoléticas próprias de um produto biológico”. Uma produção inovadora.
Em termos económicos, é um produto verdadeiramente premium. Tem, todavia, um ciclo produção longo que se aproxima dos dois anos e um período de validade, depois de cortado, inferior ao de um ciclo lunar. Precisa, para surgir, de terreno enriquecido – leiva, ramada de incenso moída - e de um habitáculo próprio, a estufa. A sua produção é vincadamente sazonal, de tal modo que é no final do ano que aparece no mercado mais de 60% do que é produzido. Em suma, um fruto de excelente qualidade, produção cara e comercialização condicionada. O negócio do ananás não é especulativo, quero dizer, que gere rápido enriquecimento ou constitutivo de uma rica herança. Mas é uma imagem de marca.
A Profrutos ergueu-se, ainda não há 50 anos, por iniciativa dum conjunto muito relevante de produtores de ananases formado precisamente para consolidar a oferta local daquele fruto e assegurar o escoamento da respetiva produção em prazo, quantidade e preço que justificassem o investimento.
O mercado local era, então, estreito e pouco profundo, isto é, com uma procura pouco diversificada, formada por poucas unidades e de limitado poder de compra. Por isso, a exportação, contando com nichos de mercado de colocação, sempre se revelou como a via de escoamento da produção que se concentrava no final do ano. Sem a Corretora e a Profrutos, dificilmente a cultura do ananás teria chegado aos nossos dias.
A Profrutos enquanto dominou o mercado de compra, tendo atingido um valor de comercialização equivalente a mais de 80% da produção global, não teve dificuldades financeiras, distribuiu benefícios pelos seus associados, tomou-lhes estufas de arrendamento, forneceu-lhes plantio e prestou-lhes serviços de manutenção.
Todavia, tal como a evolução das espécies, a das coisas e dos processos é inexorável. A Profrutos não escapou à ação erosiva da alteração das circunstâncias, sociais e económicas que determinaram o seu surgimento. Fundamentalmente de duas ordens: a que provocou o desgaste do seu modelo de organização por diluição do espírito cooperativo inicial, entorpecendo-o e impedindo-o de responder com oportunidade a novas exigências; e a económica, a mudança de paradigma do mercado, que desatualizou o seu modelo de negócio empurrando-a para situações financeiramente tormentosas.
As duas forças perturbadoras: a progressiva modificação da natureza dos associados que provocou o desbotar do espírito cooperativo, pois os fundadores foram sendo progressivamente substituídos pelos seus sucessores e por arrendatários; a situação económica nova, um mercado contemporâneo, com mais e aguerridos intermediários e uma crescente procura local como consequência da crescente pressão turística atuaram em convergência.
A Profrutos em 2007 ainda vendeu 1milhão de Kg, mas daí para cá foi perdendo em média100.000Kg, por ano. Hoje, a produção global de ananás ainda rondará 1 milhão de Kg e a Profrutos comercializa menos de metade. Precisaria de vender o dobro para sustentar a sua atual estrutura.
Os associados desvalorizaram a modernização orgânica da Profrutos porque lhe conferiram, tácita e paulatinamente,uma nova razão de ser: uma espécie de mercado de apelo, uma alternativa segura para o produto que não conseguiam colocar em condições mais vantajosas e para os períodos de ponta, de grande concentração da oferta.
O capital estatutário da Profrutos é modestíssimo e cristalizado há muitos anos.Não foi ponderadaa rigidez dos elevados custos de estrutura da cooperativa concebida para comercializar cerca de 80% de uma produção global que até decresceu.
A Profrutos não foi concebida para atuar num mercado concorrencial, mas para servir os seus associados e assim parecia continuar, só que os seus custos de estrutura pularam, com os serviços prestados e a produção própria a que se dedicou.
Em consequência, começou, sem se aperceber, a enfrentar um futuro que objetivamente lhe era adverso, a ter de navegar num mar revolto, orientada por um leme fora de água, sem meios financeiros suficientes e sem quadros técnicos, porquanto, os que existiam, tinham-na abandonando.
Assim, a sua tesouraria não podia resistir. Em 23 de agosto de 2013, a RTP-Açores noticiava que a Profrutos estava com atraso significativo nos pagamentos devidos aos associados por fornecimento de frutos, acrescentando então que o recente acordo com a MacDonald’s “poderia ajudar a cooperativa a sair da crise”. Haveria de repetir semelhante notícia cinco anos depois. Voltava a cooperativa a confrontar-se com dificuldades semelhantes e sem a Macdonald’s que, em verdade, nunca foi boia de salvação.Na realidade, as dificuldades de tesouraria tinham causas estruturais de muito difícil remoção e outras operacionais possíveis de serem superadas, mas nunca decididas.
Como que empreendendo uma corrida de sobrevivência, entre aquelas datas, lança mão de um investimento em instalações novas financeiramente volumoso e não adequado ao seu modelo de negócios, compra - exclusivamente a associados - de fruta muito perecível para posterior venda, no exterior, sem possibilidade de congelação. Imaginou dedicar-se à IV GAMA. Apetrecha-se em instalações novas apenas com recurso a capitais alheios e sem desinvestimento que cofinanciasse o empreendimento. Valoriza-se patrimonialmente, mas vai caindo em produtividade e rendimento.
A Profrutos fica detentora de património com valor suficiente para equilibrar o seu balanço, mas que todos os anos a sua conta de resultados vai reduzindo.
É preciso travar essa marcha desgastante.
Primeira pergunta: a Profutos ainda é necessária? Segunda pergunta: a Profutos tem viabilidade?
É minha convicção que a Profrutos, vencendo percalços de vária ordem que sumariamente referi, como o comum das unidades da sua tipologia empresarial em economias de pequena escala, tem procurado cumprir e cumprido a sua missão, impulsionada ainda pelo valor do seu curriculum, mas com custos insuportáveis.
É, não obstante, necessária porque o mercado do ananás é diversificado do lado da oferta, mas muito restrito do lado da procura e suscetível de domínio por um restrito número de intermediários, que rápida e inevitavelmente o cartelizam. Especialmente num mercado composto por uma procura local que cresce rapidamente na primavera/verão com pouca correspondência do lado da oferta e por uma procura externa (continental) que só se forma verdadeiramente nos últimos meses do ano, em consonância com a tradição. A cartelização do mercado, por via da intermediação, traduzir-se-á sempre em perdas para os produtores.
A Profrutos é necessária como um intermediário forte e credível para garantir o equilíbrio e a justiça de preços pagos à produção, mesmo para assegurar qualidade do produto dado que o seu objetivo é primordialmente o interesse dos seus associados, designadamente os de pequena e média produção.
A Profrutos, como cooperativa de comercialização - o seu core - é viável, tem património que permite resolver as dificuldades atuais, que são de tesouraria, desde que reduza significativamente os seus custos de estrutura – serviço da dívida e recursos humanos – aumente a sua produtividade e desinvista o suficiente, em ordem ao que deliberou a sua Assembleia Geral:
• Concentrar-se, no próximo futuro, na sua missão: a comercialização de fruta (ananás e banana), como organização de produtores;
• Libertar-se de algumas funcionalidades como a produção de ananases porque não foi constituída para concorrer com os seus associados e sobrecarrega perdulariamente as suas contas;
• Conferir uma estrutura organizacional financeiramente equilibrada à prestação de serviços aos associados, com preços que devem ser orientados para os seus custos e não para o lucro;
• Definir uma parceria com associados que lhe garanta o alívio do pesado serviço da dívida, permita preservar o recente e avultado investimento, coopere no escoamento da produção dos associados, tendo em vista o equilíbrio da sua conta de exploração.
• Promover, como já o fez, a constituição de uma associação de produtores de ananases aberta a não associados para defender os interesses de todos os produtores, a qual será constituída no próximo dia 16 de agosto.
Não é obra fácil, mas é necessária e possível, conjugando a cooperação de vários.
Relação da vegetação dos Açores com a vegetação da Macaronésia
- Categoria: Opinião
- Criado em 11-08-2018
- Escrito por Cláudia Ávila Gomes
A vegetação natural das ilhas encontra-se distribuída em comunidades específicas cuja composição é função de fatores fisiográficos e climáticos. De entre os processos que estão na origem da dinâmica da paisagem, no que diz respeito à componente geológica, destacam-se os fenómenos vulcanológicos, tectónicos e erosivos, todos com um papel importante na construção da paisagem açoriana. As componentes climáticas influenciam a paisagem de modo diversificado, não só pelo facto de os parâmetros climáticos determinarem, em grande medida, o funcionamento dos ecossistemas como também porque à paisagem está associada a sua água, essencial à vida. Nos Açores é possível verificar que as diferenças climáticas entre as ilhas são pouco acentuadas se comparadas com outros arquipélagos da Macaronésia, como por exemplo o da Madeira, cujo clima varia grandemente entre as ilhas da Madeira e de Porto Santo.
A Macaronésia é antes de mais um conceito, que continua a ser útil e usado no campo da biogeografia para designar o conjunto de territórios atlânticos – Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde – cuja paisagem foi moldada pelo isolamento até à descoberta pelo homem e que devido às suas características climáticas mantêm relíquias vivas da vegetação subtropical da Era Terciária. A elevada biodiversidade vegetal da Madeira e Canárias, em que surgem formações florestais complexas e espécies de vegetação reliquiais em latitudes onde se esperariam formações desérticas ou pré-desérticas, junto ao deserto do Sahara, deve-se ao isolamento e ao efeito de oceanidade, com o mar a proporcionar a humidade necessária para que florestas temperadas húmidas se desenvolvam. Aqui, o distanciamento dos continentes, o regime de ventos e a altitude ditam o surgimento de uma forte componente de oceanidade que a vegetação interpreta como sendo tropicalidade.
Foi há 100 milhões de anos, ainda no Cretácico, que o oceano Atlântico se começou a formar pela separação entre as massas continentais que iriam dar origem às atuais América do Sul e África. Por esta altura terminava um período glaciar e iniciava-se um outro período de maior amenidade climática no planeta. Na Era Terciária, iniciada há cerca de 65 milhões de anos, tinha-se instalado um clima subtropical húmido nas atuais Europa e América do Norte, a que correspondiam formações vegetais do tipo laurissilva. Estas formações ter-se-ão extinguido ou tornado residuais nas zonas continentais devido a posteriores alterações climáticas mas mantiveram-se nos arquipélagos que entretanto surgiram por fenómenos de vulcanismo, devido ao clima ameno de que os territórios insulares usufruíam. De entre estes destacam-se a Madeira e as Canárias mas também outros que entretanto imergiram, atuais baixios, como Josefine, Gorringe, Ampére, Ormonde, Siene, que poderão ter funcionado como um rosário de ilhas e permitiram uma mais facilitada dispersão de vida até aos arquipélagos mais isolados e que surgiram posteriormente, como os Açores.
É importante referir que as rochas mais antigas conhecidas nos Açores, em Santa Maria, datam de 8.12 milhões de anos, altura em que vegetação laurissilva já se encontrava extinta em grande parte do continente europeu, pelo que as relíquias vegetais que entretanto aí chegaram terão tido como única fonte os arquipélagos mais próximos, e por isso apenas as que tiveram condições de aí sobreviver e de se propagar eficientemente para territórios mais longínquos chegaram aos Açores. Este facto poderá ser uma das causas da menor diversidade florística natural dos Açores, se comparado com os arquipélagos da Madeira e das Canárias.
Assim, o modo como um território isolado como os Açores foi colonizado pela flora natural da laurissilva ainda não se encontra totalmente esclarecido, no entanto a hipótese de dispersão por meio de um rosário de ilhas conjugada com o transporte dos propágulos por parte de aves (para uma parte das espécies de plantas), do vento e de jangadas naturais provenientes de outras ilhas (para outra parte das plantas) é considerada a mais plausível, face aos conhecimentos atualmente disponíveis.
A “Grande Festa”
- Categoria: Opinião
- Criado em 11-08-2018
- Escrito por Carlos Abreu
A noite adormeceu por entre a azáfama da organização que elevaria, bem alto, na noite seguinte, a celebração da “grande festa”. Esquecia-me de referir que a noite adormeceu nos braços longos de duas araucárias (que um dia batizei com os nomes de Vera e Vasco) na Caloura, a ilha universal que a distinta família Neves criou dentro da imensa ilha verde de S. Miguel. Porque ali, onde quer que me sente, em miradouros incrustados nas pedras, esbarro com os olhos no mar, desafiando-me à viagem – um roteiro imaginário que me conduz a um mundo mais vasto…
A “grande festa” foi o concretizar do maior de todos os sonhos, que, embebedado de amor, chegou aos 50 anos: meio século de uma ligação matrimonial mantida e estável pelo espírito profundamente cristão de duas personalidades, generosas e inteligentes: a Sra. D. Ermelinda e o Sr. Joaquim Neves, protagonistas de uma fascinante história de amor, são dois açorianos de adoção que, há meio século, se apaixonaram perdidamente. Escolheram como habitat a exuberante ilha de S. Miguel. Ali, na capital, Cidade dos Poetas, quando o progresso ainda não tinha arrancado do sossego os moradores, porque mal a noite escurecia se deitavam para que a Lua se derramasse, em silêncio, e desenhasse sombras pelas românticas ruas, o casal construiu o seu pequeno “universo”. Ali, com os seus filhos, Teresa e Pedro, deram novas formas à vida e com eles segredaram projectos e sonhos que o tempo tornou em realidade. Ali, com os filhos e netos, ergueram a pequena ilha da Caloura, bem plantada no mar Atlântico, hoje “Catedral de Amizade”. Seiva e sangue de um sonho que se renova todos os dias, tal como as flores que crescem no respirar de cada minuto de vida. Um sonho que permanece, porque sempre se descobrem novos recantos, para meditação de quem os usufrua.
Foi precisamente na Caloura que, no dia 4 de agosto, os amigos e familiares se reuniram para celebrar uma efeméride importantíssima: os 50 anos de matrimónio do generoso e querido casal Neves. O segredo do meio século de existência juntos foi o amor que os guiou a uma longa caminhada. A grande vantagem foi que, no dia a dia, mais fortaleceram os laços de amor, justamente porque o amor pressupõe compreensão e esta é fundamental em qualquer união. Só assim a vida faz todo o sentido.
Perco-me na retórica e quase não falo da festa. Espetacular, única, porque a noite vestiu-se de luzes. Era como se estivéssemos num grande navio, com o mar aos nossos pés. O navio da amizade, onde até o Reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo esteve presente.
Os jardins iluminaram-se, artisticamente, de mil cores. Foi o despertar, belo e mágico, de uma noite que, como mencionei, adormecia nos braços das gigantes araucárias, Vera e Vasco. Luzes coloridas que iluminaram o olhar destes dois jovens que, ao saudarem os avós, fizeram das palavras, comovidas, a poética do amor. Disseram com as suas vozes cristalinas o que lhes ia na alma e como são importantes os avós em suas vidas.
Dois jovens que prometem e são a garantia de que a “Catedral da Amizade” se prolongará no tempo como homenagem sempre viva aos avós que um dia sonharam e tornaram realidade a Caloura.
As palavras da Teresa, que falou por si e pelo seu irmão, comoveram os convidados, justamente porque, conhecendo os laços fortíssimos que unem todos estes seres humanos maravilhosos, as beberam na beleza e no sentimento das mesmas. A exaltação da vida e do amor, na constante vivência diária do casal.
Enquanto na “Cidade dos Poetas” se festejava a já tradicional “Noite Branca”, com uma juventude esfusiante bamboleando-se com os ritmos modernos, tocados pelas bandas que enchiam as ruas de música, na Caloura, todos os amigos, igualmente, vestidos de branco, celebravam, euforicamente, o meio século do casamento do casal Neves. Festejado ao ritmo das músicas românticas dos anos sessenta e setenta.
Foi uma noite memorável, não só pelo que simbolizou de amor, de amizade e de união, mas também porque o ambiente da Caloura é inigualável. Uma noite em que mais se exaltaram os laços de amizade e de quanto essa é essencial nas nossas vidas, como relicário de um tempo feito de estímulos, de carinhos e compreensão. De uma interajuda desinteressada, despida de egoísmo. Essa grandeza de dar e dar-se inteiramente aos amigos.
Este meu modesto escrito leva, em si, a amizade e a admiração profundas pela família Neves, porque ela ensinou-me a amar, com mais força, a ilha de S. Miguel, fazendo-me descobri-la na grandiosidade das suas belezas escondidas e nos sentimentos nobres das suas gentes.
Como diz a minha amiga Nini Andrade – deusa por mim eleita – a respeito da família Neves: deu-nos o que havia de melhor – a amizade sincera, que muito nos enriquece.
A vida tal e qual eu a vivo, sinto e penso
- Categoria: Opinião
- Criado em 10-08-2018
- Escrito por Pedro Paulo Carvalho Silva
Cheguei a um tempo da minha escrita em que a consciência impõe às palavras escritas um desígnio que ela não consegue cumprir pois escrevi durante muito tempo com a esperança de que elas tinham o poder de chegar a um estádio em que elas por si mesmo se escreveriam; acreditava no seu poder de redenção, de purificação e mesmo de salvação da vida.
Acredito ainda no poder das palavras encarnadas e escritas com o sangue mas como forma de comunicação com almas irmãs.
Hoje toda a gente parece estar a escrever sobre tudo e mais alguma coisa, é um tempo em que se semeiam palavras que o vento rapidamente leva sem deixar qualquer vestígio na substância das almas.
De tanto usar e abusar delas perdeu-se o poder mágico e espiritualmente revolucionário da palavra e ela hoje serve apenas para encher, para vender jornais e revistas, como que abdicando do seu poder de enriquecimento e de transformação dos homens e da sociedade. Hoje há uma desilusão e um fastio de palavras como amor, amizade e revolução que outrora nomearam sentimentos que iluminavam e davam sentido e significado a nossa vida e a este mundo.
É o tempo da corda bamba moral e intelectual em que tudo está envolto num limbo, num mar de equívocos e de confusões incontáveis.
O presente esgota-se totalmente numa parafernália tragico-cómica sem que se vislumbre um lugar limpo e seguro onde ancorar as mais fundas esperanças da humanidade.
Mas adiante. Hoje neste escrito vou retroceder mentalmente no tempo.
Vou referir sucintamente Teixeira de Pascoaes (1896-1991) e a sua relação com profissões ligadas da justiça. Nasceu em Amarante e faleceu em Grafão, perto de Amarante.
Pascoaes é considerado símbolo do chamado saudosismo em Portugal com obra vasta em poesia e prosa, nomeado várias vezes para o prémio Nobel da Literatura.
Pascoaes formou-se em direito na vetusta universidade de Coimbra (onde eu também me formei) 1991.
Durante o tempo em que frequentou a mítica universidade da lusa Atenas não participava na boémia, optando por ficar no seu quarto de estudante a estudar escrever ler e pensar.
Eu fazia quase o mesmo quando lá andei, só que jogava futebol, coisa que me parece que Pascoaes não fazia por falta de jeito ou de paixão.
Pascoaes depois da formatura e do estágio de advocacia exerceu a profissão em Amarante e no Porto e foi também juiz durante dois anos.
Depois retirou-se para o seu solar de celibatário, onde viveu com a mãe e outros familiares, nunca tendo casado ou tido filhos dedicando-se a ler escrever e pensar, bem como a administração das propriedades que lhe couberam por herança, pois o pai era abastado para o tempo.
Do exercício da profissão de advogado Pascoaes escreve o seguinte: “Eu era o Dr. Joaquim na boca de toda a gente; precisava honrar o título. Entre o poeta natural e o advogado ia começar um duelo que demorou dez anos, tantos quantos a guerra de Troia e a formatura de João de Deus.
Vivi dez anos num escritório a lidar com almas deste mundo, o mais deste mundo que é possível, eu que nascera para outras convivências.
Pascoaes lá para os lados da Serra do Marão dedicou-se também à incansável contemplação da natureza pois era um eremita e um místico e “mutatis mutandis” pode ser comparado a Montaigne, o célebre autor francês dos Ensaios, que se retirou da magistratura para viver na sua torre do castelo de Bordéus rodeado de livros e onde escreveu a sua obra imortal. Pascoaes está sepultado em Gatão em campa rasa tem sobre a sepultura o epitáfio.” apagado de tanta luz que deu, frio de tanto calor que derramou”.
Quando Pascoaes escreve sobre o duelo que travaram dentro de si o poeta natural e o advogado à força, esclarece-nos sobre o conflito que existe entre o idealismo e a sensibilidade dos poetas em geral e dele em particular com a vida prática em geral e a profissão de advogado em particular.
O poeta vive no mundo das ideias e dos valores, no mundo da beleza e do ideal de justiça e de fraternidade enquanto o advogado vive no mundo da vida prática tal como ela e, o mundo dos interesses das paixões mesquinhas e da ganância dos homens.
Daí a sua expressão “dez anos a lidar com almas deste mundo, o mais deste mundo que é possível, eu que nascera para outras convivências”
Tem razão.A poesia os poetas e filósofos, nasceram para dar à luz, para através da luz de seu espírito, romperem as trevas, a densa escuridão do mundo.
Os poetas verdadeiros (mesmo que não escrevam poesia) nasceram para amar a vida, a liberdade e a justiça, para libertar os seus irmãos da opressão dos tiranos da terra dos homens das grades que aprisionam a liberdade e a inteligência e que apagam a luz que da vida ao coração.
Pascoaes, como poeta natural que era, não podia conformar-se com um mundo destes, com uma vida destas, materialista até ao tutanos, vulgar e interesseira até à demência.
Não podia contentar-se com uma advocacia em que os interesses se sobrepõem aos valores e princípios e em que a matéria triunfa esmagadoramente sobre o espírito.
A vida é um grande poema escrito por um grande poeta.
As penas da vida voam com o tempo para longe, mas fica a saudade eterna, não das penas que voaram mas dos puros sentimentos que as lançaram.
Não sei se a alma portuguesa é onticamente saudosista como escreveu Pascoaes, creio que no seu livro “A arte de ser Português”.
Sei que quando viajo pelo mundo (e eu não viajo muito por fora) nos primeiros dias parece que ganho uma alma nova; a simples mudança rejuvenesce, refresca, estimula; mas passado pouco tempo começa a sentir falta da minha terra, da minha língua, da minha gente.
Esta terra açoreana faz parte da substância da minha alma, é o meu cantinho do céu na terra.
O mundo é vasto e desperta a minha curiosidade; mas o mundo inteiro, por mais vasto que seja, não sacia por inteiro a minha fome de liberdade a minha ânsia de absoluto.
Aqui na ilha o meu coração repousa e quer repousar da ilusões do mundo e do desassossego da vida.
A minha inquietação espiritual é uma inquietação social que tem a sua origem numa inquietação metafísica.
Quando na vida, os únicos paraísos que temos são os paraísos perdidos, só nos resta a saudade.
Há gente excepcional (como o grande açoreano prof. Onésimo Almeida) que diz que em Portugal se tem saudades de tudo, até do futuro; numa entrevista ao Expresso dada há algum tempo Onésimo Almeida mostra não concordar com Pascoaes em vários aspectos.
O mundo mudou como muda tudo.
Há de facto uma globalização e um ritmo vertiginoso no estilo de vida actual que quase não dá tempo para sentir saudades dos lugares e das pessoas; sentimentos, como a saudade e o amor precisam de tempo e de distância para se verem em toda a sua verdade e dimensão; o que interessa saber é se essas mudanças ocorridas na história representam, de facto, um progresso efectivo
A visão do mundo dominante hoje é a visão do mundo aberta e não a visão do mundo fechada como por exemplo a visão portuguesa do mundo do salazarismo e do tempo de Pascoaes que morreu em 1901, 9 anos antes da implantação da República, em Portugal.
Devido à lei universal da mudança, o espírito dos tempos muda; as coisas têm que ser vistas e interpretadas à luz das circunstâncias históricas de tempo e de lugar concretos.
O que interessa saber é se essas mudanças ocorridas representam de facto um progresso efectivo da humanidade sobre a terra.
Afirmo peremptoriamente que não.
Espiritual e culturalmente há um retrocesso em muitos domínios da vida social política e intelectual no mundo.
Nem sempre o caminho certo é andar indefinidamente em frente; às vezes o melhor caminho e sentar-se à porta a ver a loucura do mundo passar sem ceder à tentação de segui-la. As catástrofes humanas maiores da história acontecem porque a maioria cavalga o primeiro cavalo que lhes passa à porta com medo de chegar atrasado à meta.
Perante a imbecibilidade e impassibilidade da maioria dos Portugueses e do governo a quem recorrer?
- Categoria: Opinião
- Criado em 10-08-2018
- Escrito por Carlos Amaral - prof.carlosamaral15@gmail.com
(entretanto, o primeiro-ministro está em repouso, os ministros e secretários esfriam os glúteos, e o Presidente da República refresca-se abrasado nos rios do norte)
É sabido, embora aparentemente por poucos, que Portugal registou até ao momento 118 ocorrências de incêndios rurais, segundo a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), que envolvem 2.230 operacionais, apoiados por 556 veículos e 49 meios aéreos. Em comunicado, a ANPC destaca o incêndio que lavra há mais de três dias no concelho de Monchique, distrito de Faro, Algarve que, mantém ainda no combate às chamas 810 operacionais, apoiados por 226 veículos, oito máquinas de rasto e nove meios aéreos. Este incêndio de grandes e tremendas proporções tem ainda 94 entidades envolvidas nas operações. Neste quadro desolador, a Proteção Civil retirou 110 pessoas (79 em 10 sítios e lugares no concelho de Monchique (Taipa, Foz Carvalhoso, Ladeira de Cima, Pedra da Negra, Foz do Lavajo, Corjas, Foz do Farelo, Ribeira Grande e Portela da Viúva) e 31 em cinco sítios no concelho de Odemira (Varja do Carvalho, Moitinhas, Barreirinhas, Vale das Hastes e Craveiras). O incêndio de Monchique, que lavra desde a tarde de sexta-feira, chegou na noite de terça-feira às portas da cidade de Silves. As chamas que atingiram a Fóia, o ponto mais alto da serra de Monchique, desceram uma das encostas na direção do concelho de Silves e ameaçam entrar na cidade algarvia. As populações das aldeias de Pedreira e Pinheiro e Garrado, também no concelho de Silves, estão em alerta. Pelas 22h50 desta terça-feira, o fogo lavrava numa área de eucaliptos, ajudado pelos fortes ventos que atiçam as chamas. Moradores estão assustados com a hipótese de o fogo chegar às casas. O número de feridos provocados pelo incêndio que começou em Monchique na sexta-feira subiu terça-feira (ontem) para 30, sendo que um dos quais se encontra em estado grave. Segundo o balanço realizado pelo Comandante Distrital de Faro, Vitor Vaz Pinto, pelo menos 79 pessoas foram assistidas e mais de 250 foram deslocadas para locais seguros. Ainda, e para que o cenário seja mais evidenciadamente atroz, um incendiário ateia sete fogos num dia, isto é, um manobrador de máquinas actuou de forma intencional e provocou fogos florestais junto a bombas de gasolina, em Lousada. Assim, num dia em que as temperaturas atingiram recordes históricos, um manobrador de máquinas ateou pelo menos sete fogos florestais em Cristelos, Silvares e Boim (Lousada), em poucas horas, no sábado. O incendiário, de 42 anos, actuou num quadro depressivo (?), dizimando cerca de 6 mil metros quadrados de floresta e pondo em risco um posto de abastecimento de combustíveis junto a um hipermercado, em Cristelos. Enfim...
A República está falida, sabemos bem isso! O Estado Português revela, além de várias outras inaptidões, “tremenda incompetência” em fogos florestais. É evidente que o combate aos fogos florestais tem que ser feito por pessoas competentes, pelo que Portugal tem que ter organismos públicos profissionais destinados a prevenir e a atacar fogos florestais à semelhança do que acontece em Espanha. A urgência não é tanto a floresta, é todas as actividades agro-florestais, que inclui com certeza a floresta, mas inclui a pastorícia, inclui todas as questões das árvores de fruto, inclui o olival e inclui a actividade agrícola. Aproveito aqui para alertar veementemente, que a gritante incompetência do Governo não pode encontrar justificação para os fogos na meteorologia. A indisponibilidade de vários helicópteros e o atraso no pagamento às equipas de sapadores florestais são exemplos apontados. De facto, há uma espécie de despreocupação grave que coloca em risco a floresta, pessoas, bens, uma riqueza, um recurso importantíssimo a nível nacional, tanto em termos económicos, como ambientais e paisagísticos. É sabido, que as condições meteorológicas constituem uma variável importante no número de ocorrências de fogos florestais, mas não é legítimo responsabilizar apenas as condições meteorológicas como o Governo está a tentar fazer. Existem outros aspectos bem mais complexos por detrás dessa grande cortina de fumo... Permanecem interesses, máfias, instâncias intocáveis de um poder corrupto que precisa ser extirpado, banido, desmantelado. Mas, pelos vistos, ninguém se atreve!
CONCLUO dizendo: quero ver quando algum tipo de fogo, intencional ou não, meteorológico, etc., colidir com a porta de casa de um ou dois dos meus leitores... O que acontecerá? Sairão às ruas no meio das chamas, desnudos e esturricados, para protestar? QUERO VER!
QUE ARDA a REPÚBLICA, mas que não incinere PORTUGAL!
O espertalhão
- Categoria: Opinião
- Criado em 09-08-2018
- Escrito por Fernando Marta
Por norma, o espertalhão é-o porque se aproveita das fragilidades dos outros. Ou porque está no lugar certo à hora certa. Ou, ainda, porque passar a perna ao outro é um modo de vida que tem dado frutos. Das coisas complicadas às coisas mais simples, a falta de respeito por quem está ao seu lado é um aspeto comum a todos os espertalhões.
O espertalhão rouba o equipamento médico ao técnico do INEM que acabou de salvar uma vida no autocarro. Espertalhão como é, aproveitou a distração e lá levou a mala que deve ter vendido por meia dúzia de euros. Imaginemos como terá ficado a senhora que nem percebeu que roubar a alguém que acabou de salvar uma vida é uma canalhice sem mais adjetivação. Mas para o espertalhão, isso é um pormenor sem valor.
O espertalhão que aguarda a sua vez no hospital, para fazer um raio-x, e que aproveitando a sua esperteza saloia, sempre maior do que a de qualquer outro, responde ao apelo do enfermeiro que chama “próximo”. Sem respeito pelo idoso, que não tem mobilidade própria, com problemas de audição, e avô de dois meninos em idade escolar, e que nem se apercebe que a vez era só sua, o espertalhão lá entra e sai como se nada fosse. Ser espertalhão dá lucro, lá conseguiu ganhar um lugar ou dois na ordem de chegada. E enquanto o espertalhão saía da sala, o idoso e os outros dois doentes, decidiram esperar pela vez que já tinha sido sua por um pouco mais de tempo. O espertalhão continuou sorridente à espera do próximo engano.
O espertalhão que não liga nenhuma ao anúncio inscrito em tamanho A3 para manter o telemóvel sem som, pois o silêncio é fundamental num serviço de urgência. Ou assim deveria ser. E quando, depois de ter o telemóvel a tocar quatro vezes, é chamado à atenção pelo funcionário de serviço, responde com a típica clareza dos espertalhões, retribuindo àquele que estava apenas a fazer o seu serviço, com uma panóplia de palavrões e outras linguagens azedas, como se fosse o único a marchar de forma certeira. Habitualmente, os espertalhões acham que têm sempre razão.
Outro típico espertalhão é aquele que acha que pode enganar tudo e todos na fila para entregar uma encomenda postal. Chega a dizer que tem uma filha com menos de dois anos que está à sua espera no carro, apenas para conseguir o que quer. Os funcionários, habituados ao comum engano deste tipo de clientes, aponta-lhe as cadeiras de espera. O espertalhão, contrariado e por isso irado, responde com a típica conversa de quem tentou ludibriar e saiu de mansinho. Os espertalhões não gostam nada de ver a sua esperteza descoberta.
O espertalhão que, não tendo filhos menores ou qualquer tipo de deficiência, continua a ocupar um lugar que não lhe está destinado. E quando confrontado por alguém que não se julga espertalhão, ainda responde de forma amplamente pouco educada, porque sabe que a sua defesa só se pode fazer se o que disser for pouco percetível e ainda menos respeitador. Nem a placa com a inscrição «já que ficaste com o meu estacionamento, fica também com a minha deficiência» os comove. Os espertalhões são mesmo assim.
Espertalhões há que, com a passagem do tempo e a alteração de mentalidades, foram sendo descobertos e com isso, a esperteza foi diminuindo até ficar perto de acabar. Nestes, incluo os crónicos fugitivos ao pagamento das suas obrigações fiscais. Menos crónicos, felizmente. Mas sempre com uma dose enorme de esperteza.
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