Instantâneos
- Categoria: Opinião
- Criado em 06-08-2018
- Escrito por Carlos Rezendes Cabral
INSTANTÂNEO 1 – TURISMO. Com o bom tempo que tem feito, tenho dado umas voltas por aí para apreciar, não só a paisagem, mas também para ver, no local, como está a minha terra com o fluxo turístico que presentemente se verifica.
Devo confessar que não gostei muito do que vi, por via da chamada pressão turística que, não só está a influenciar o nosso custo de vida que subiu bastante, como está a deteriorar a qualidade, o sossego e a paz nalguns dos lugares de maior afluência. São os casos da Vista do Rei, da própria freguesia das Sete Cidades, da Lagoa do Fogo, da Caldeira Velha, das Furnas, da Ribeira Quente, da Povoação, da Ribeira dos Caldeirões, dos miradouros da Ponta do Sossego e da Ponta da Madrugada, só para citar alguns.
Ainda na passada sexta-feira este nosso Correio dos Açores trazia uma foto do porto da Caloura “abarrotando de gente” onde as pessoas mal se podiam mexer. Em boa verdade, não gosto de ver a minha terra “invadida” deste modo.
Se é certo que os hotéis, o alojamento local e os restaurantes enchem, não é menos certo que a exagerada quantidade de pessoas, ao mesmo tempo, e no mesmo lugar, tem também efeitos perversos. Só para citar dois exemplos diria: a falta de lugar para estacionar, de modo especial na Lagoa do Fogo que é gritante, como também é gritante a falta de estacionamento na Ribeira dos Caldeirões.
Devo também dizer que, na Vista do Rei, bem como na estrada regional até ao cruzamento para as Sete Cidades, foi feito um bom trabalho.
A reorganização do miradouro e a construção dos parques de estacionamento de longa e curta duração, e ainda o arranjo da berma da estrada que transmite ao condutor uma sensação de segurança, são trabalhos dignos de realce, só pecando por tardios.
A ampliação (em curso) do parque para autocarros no miradouro da Ponta do Sossego também é de realçar. Pena é que ainda não se tenha tomado as mesmas medidas nos acessos a outros locais muito visitados. Sei que Roma e Pavia não se fizeram num dia, mas já é mais do que tempo de pôr mãos à obra.
INSTANTÂNEO 2 - A SECA. Foi com gosto que tomei conhecimento que o governo iria iniciar os “procedimentos legais” com vista ao aproveitamento das águas de nascentes e ribeiras que, neste momento, correm para o mar. Não sei se é para levar a sério esta informação, uma vez que este problema se arrasta há mais de uma década não tendo o governo, até agora, “mexido uma palha” para o resolver de modo duradouro.
Ainda segundo a informação que obtive, a solução “achada” pelo Governo Regional, parece ser o encaminhamento daquelas águas para reservatórios a construir, pensando resolver assim o problema da seca para a agricultura e agropecuária. Com esta medida, pensa o governo, seriam poupados vários milhões de euros em subsídios.
Ora, não sendo eu engenheiro do que quer que seja, mas tão-somente um cidadão comum que se interessa pelo desenvolvimento da terra que o viu nascer, pergunto a quem me souber responder:- não seria mais rápido, mais fácil, e mais económico, a construção de mini-barragens em vários pontos das inúmeras ribeiras, das várias ilhas de modo a permitir aos lavradores e agricultores a captação de água na barragem mais próxima das suas explorações? Ou será que tencionam construir vários depósitos ao longo do percurso das várias ribeiras?
É que, segundo os serviços meteorológicos, as alterações climáticas estão aí para durar e, como todos nós sabemos, a água é fonte de vida!
INSTANTÂNEO 3 – PARTIDOS REGIONAIS. Já não me recordo em que cerimónia foi que o nosso Presidente do Governo afirmou ser da opinião de que a proibição à criação de partidos regionais deveria ser retirada da Constituição da República Portuguesa.
O Presidente do Governo, que é também presidente da delegação do PS nos Açores – eu quero lembrar aos mais distraídos que PS/Açores não existe, tal como não existem o PS/Alto Douro ou PS/Trás-os-Montes, ou outro PS qualquer coisa. Todos são Partido Socialista Português, cujo símbolo é um punho esquerdo cerrado, que não a rosa da Internacional socialista, devia saber que, o seu PS foi, um dos partidos que votou a favor da tal proibição.
Só quatro décadas depois é que vêm com esta “conversa mole”? Quer que acreditemos? Houve quem batesse palmas e cantasse loas à afirmação. Eu não. Para mim não passaram palavras de circunstância que não terão qualquer consequência.
Em meu entender o senhor Presidente do Governo, pessoa por quem tenho muita estima e consideração, só tem uma maneira de exprimir esse seu entendimento que é mover influências para abolição da proibição, “forçando” uma revisão constitucional. Sem querer fazê-lo um Carles Puidjmont (?) poderia, todavia, lutar por uma verdadeira democracia, fazendo com que o Estado Português se transformasse num verdadeiro Estado de Direito que, presentemente e em minha opinião, não é.
É que… palavras leva-as o vento!
P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
5 de Agosto de 2018
Um Jardim Comestível
- Categoria: Opinião
- Criado em 06-08-2018
- Escrito por Teófilo Braga
O Jardim Botânico José do Canto, com a área de 5,8 hectares, embora não possua a riqueza existente no tempo do seu criador que inventariou cerca de 6 000 espécies, continua a ser um espaço de grande riqueza botânica com espécies de plantas dos quatro cantos do mundo.
Uma das curiosidades do Jardim, talvez menos conhecida, é a presença, na lista das suas espécies, de um conjunto de plantas produtoras de frutos comestíveis.
No texto de hoje, damos a conhecer algumas das plantas referidas, indicando alguns usos dos seus frutos.
Começamos pela bananeira-prata (Musa x paradisíaca) que é uma variedade de bananeira menos comum na ilha de São Miguel e que se distingue das outras por possuir uma maior altura e pelo sabor dos seus frutos.
O castanheiro (Castanea sativa), muito conhecido e apreciado pela sua madeira e pelos seus frutos, também está presente no jardim através de, entre outros, um bonito exemplar.
A anoneira (Annona cherimola), planta nativa da cordilheira dos Andes, cujos frutos para além de muito saborosos têm propriedades nutricionais e medicinais dignas de relevo.
No jardim, também, está presente a nespereira ou moniqueira (Eriobotryajaponica) cujos frutos são muito apreciados e usados em compotas e tartes.
O género Psidium está presente com duas espécies, cujos frutos são muito apreciados em São Miguel. Assim, temos a goiabeira (Psidiumguajava) e oaraçazeiro (Psidiumcattleianum).
Outra planta presente no jardim é o tomateiro arbóreo ou tamarilho (Solanumbetaceum) cujos frutos, também conhecidos em Vila Franca do Campo por mamonas, são muito nutritivos e pobres em calorias, sendo usados em compotas, geleias, saladas ou para fabrico de licores.
A pitangueira (Eugénia uniflora) mais rara na ilha de São Miguel e muito comum na Madeira é outra espécie que marca presença no jardim, podendo os seus frutos doces e perfumados ser comidos ao natural ou usados em licores, geleias ou sumos. A pitangueira é, também, muito usada como planta ornamental.
Outra planta muito usada como ornamental é a costela-de-adão (Monstera deliciosa) que poucas pessoas sabem que o seu fruto, para além de comestível, é muito saboroso, devendo ser consumido apenas quando está muito maduro, isto é quando a sua casca verde cai de forma natural.
Pouco conhecido entre nós é o jambeiro ou jambo-rosa (Syzygium jambos) cujos frutos sabem a rosas.
Mais raro, é o diospiros-americano (Diospyros virginiana), espécie nativa do este dos Estados Unidos da América. Os seus frutos, muito ricos em vitaminas, quando maduros são muito doces.
Outra planta existente no jardim é a guabiroba (Campomanesiareitziana) que é uma espécie originária do Brasil cujas flores são melíferas e os seus frutos muito deliciosos, desde que consumidos bem maduros.
A palmeira-da-geleia (Butia capitata), originária do Brasil, Uruguai e Argentina, produz uns frutos que no Brasil são usados para fazer sucos, geleias e licores.
Por último, também pode ser observada a mangueira (Magnifera indica), originária do sul e sudeste da Ásia, cujos frutos são muito ricos em vitaminas, minerais e antioxidantes.
Livro Aberto
- Categoria: Opinião
- Criado em 04-08-2018
- Escrito por Álvaro Dâmaso
I
Autonomia contra o Estado
“(…) sendo contra nossa defesa que nenhuns capitães (donatários) entre nas câmaras porque nós o não havemos por nosso serviço (…) havemos por bem que quando a elas for não tenha mais de uma só voz como qualquer dos oficiais das ditas vilas…”, Alvará Régio de 8 de Maio de 1521.
No início dos presentes trabalhos sublinhei o tema essencial desta primeira parte da obra que entendi levar por diante: o Estado poderia ter ido mais longe no modelo autonómico outorgado aos seus arquipélagos atlânticos? O modelo vigente é suficientemente robusto?
Nestas quatro décadas decorridas de autonomia político-administrativa podem ou não ser identificados um ou mais modelos de autonomia e, se sim, quais são as diferenças entre eles e as correspondentes mais-valias? Detetam-se melhorias? Ou piorias?
O Decreto-Lei nº 38/2015 e o Acórdão nº136/2016, os mais recentes manifestos do poder central em relação à autonomia insular, vieram comprovar que o novo modelo de autonomia não é suficientemente robusto porquanto o Estado pode por um simples decreto-lei, no âmbito de convergente e adequada proteção judicial, recuperar poderes transferidos em clara violação dos princípios autonómicos e do próprio Estatuto Político-Administrativo.
Em boa verdade, antes da última revisão constitucional, o Estado já lograva conseguir tal feito com o mesmo método e idêntica facilidade. A barreira jurídico-constitucional – um verdadeiro muro centralista - que impedia as iniciativas legislativas regionais e inovadores de então denominava-se “lei geral da República”. E, hoje, como se chama?
Domínio público estadual ou dominialidade. O Acórdão nº 136 defende esse novo “muro centralista” até à exaustão. No caso em apreço, refere-se a “todo o mar territorial e toda a plataforma continental, incluindo as áreas adjacentes das Regiões Autónomas”, como excluído das competências da Região Autónoma dos Açores. Não será difícil estender o conceito a outros “domínios públicos” e assim encolher o domínio público regional e acabar por abolir a sua existência. O Decreto-Lei e o Acórdão constituem um teste à resistência do segundo modelo constitucional de autonomia, não me canso de o repetir. Foi derrubado um muro centralista “a lei geral”, mas logo se deixou construir outro, à medida, para encurralar o novo modelo, a “autonomia cooperativa”. “Cooperação” sim, mas eu Estado tomo a decisão final.
A formulação da disposição estatutária em causa, os nºs. 1 e 3 do artº 8º do Estatuto, não é perfeita, todavia, pelas melhores razões. O que, desde logo, nela de errado se pode encontrar decorre da preocupação de não ferir a soberania nacional, de fazer passar o Estatuto pelos crivos centralistas, todavia, com alguma ingenuidade.
No primeiro caso, o citado artigo 8º estabelece o direito da Região a uma gestão conjunta com o Estado sobre o mar dos Açores, mas complica porque acrescenta, respeitando a integração dos bens em causa no domínio público marítimo do Estado. Não era necessária tanta preocupação com a propriedade do Estado, pois cooperar com a Região na sua gestão não é aliená-la. Só veio complicar o alcance da disposição favorecendo interpretações restritivas dos poderes regionais.
No segundo, determina a gestão partilhada entre o Estado e a Região relativamente aos “poderes reconhecidos ao Estado Português sobre as zonas marítimas sob soberania ou jurisdição nacional adjacentes ao arquipélago dos Açores (…) e acrescenta salvo quando esteja em causa a integridade e soberania do Estado”. O mesmo erro cometido no nº 1 do artº 8º.
Não são aquelas frases finais que afastam a temida inconstitucionalidade. A questão que se coloca no modelo de autonomia cooperativa, decantado em “gestão conjunta” e “partilha de gestão” com o Estado, não reside na eventual lesão da constitucionalidade porque a soberania está presente na gestão, mas sim na sua eficácia e na defesa da autonomia de gestão dos interesses regionais.
Continuarei a análise dos modelos de autonomia em próximos trabalhos, depois de um período de férias para “recarregar baterias” e iniciar o trabalho de densificação e montagem do primeiro capítulo do livro que ando a escrever como uma verdadeira “obra aberta”.
Filarmónica Minerva - O Maestro
- Categoria: Opinião
- Criado em 04-08-2018
- Escrito por Alberto Ponte
Mais uma vez, neste Domingo, por cá há festa. A nossa Filarmónica pioneira neste género de eventos que agora se multiplicam pelas várias freguesias de S. Miguel, sobretudo nas que possuem uma Filarmónica, terá mais uma vez o seu ponto alto concentrado no cortejo etnográfico que percorre as nossas ruas este Domingo, espelhando assim o talento das várias gerações que se vão sucedendo cada ano.
Foi aqui nos Ginetes, por iniciativa do senhor Alberto Leça que tudo começou há já algumas décadas. Recordo-me perfeitamente do primeiro cortejo, das cantigas populares e até de um ano “a meio do Concerto no Coreto do Largo do Tanque” a luz repentinamente faltar por breves instantes mergulhando todos na escuridão mas a Banda entre risos e palmas de apoio continuar a tocar até ao final da peça.
Apesar de todas as dificuldades, entre altos e baixos, esta é uma festa que normalmente atrai muita gente. Emigrantes filhos dos Ginetes e não só marcam presença anualmente nesta primeira semana de Agosto, data pré estabelecida há já alguns anos para dar um merecido apoio a esta grande Instituição muito nossa que sem a qual esta freguesia “não seria certamente a mesma”.
Todos os anos tenho dedicado neste dia a minha crónica a um dos vários protagonistas que fazem parte da alma da Minerva, como alguns dos seus músicos que dedicaram uma vida ao serviço de tão bela instituição. Foram várias as gerações que por lá passaram, uns com mais talento que outros, mas todos, estou certo, procuraram dar sempre o melhor.
Este ano decidi dedicar a minha crónica ao Maestro, senhor José Fernando F. Almeida, natural da freguesia dos Mosteiros que há cinco anos tomou a seu cargo a Direcção Musical da nossa Filarmónica.
Apesar da sua imagem já ser parte desta nobre Instituição que toca “sentimentalmente” a grande maioria das gentes dos Ginetes quis ir um pouco mais além. Encontrei neste jovem senhor um homem motivado, calmo, sorridente e delicado que amavelmente me recebeu no edifício da Sede da nossa Banda. Conversámos um pouco sobre esta paixão pela música que iniciou tinha ele 13 anos. Foi na Banda Fundação Brasileira dos Mosteiros, igualmente berço de grandes talentos, que tudo começou em 1987. No ano seguinte já saía pela primeira vez incorporado na sua Filarmónica como executante de “Saxofone Alto”. Mais tarde, com o desejo de ir sempre mais além conseguiu dominar a que chamarei variada “família dos Saxofones” além dos instrumentos de “percussão”. Continuou a entregar-se de corpo e alma à sua formação bem como no ensino aos mais jovens até que aos 19 anos conseguiu integrar a Banda Militar na qual permaneceu durante 10 anos.
Direi que senti um homem feliz pois além da satisfação inigualável que transmite esta arte dos sons a todos os que a vivem mesmo a sério, a presença dos seus filhos, uma jovem com apenas 11 anos plena de talento que já tivemos ocasião de apreciar através do instrumento difícil de executar, chamado “Oboé” e o seu filho também com 17 anos são um acréscimo à motivação para encontrar na música o relaxamento bem merecido após um final de dia de trabalho.
Sempre esteve envolvido em vários projectos. Dizia-me que foi ele juntamente com um nosso conterrâneo, o Pedro Pimentel, entre os anos de 1997 e 1998, que estiveram na origem da formação da Orquestra Ligeira de Ponta Delgada. Em 2008 envolveu-se na sua terra natal, os Mosteiros, num projecto que direi bastante corajoso, como responsável da “Orquestra Ligeira de Mosteiros” formada por duas partes iguais de 50% com músicos da sua Fundação Brasileira e da Harmonia Mosteirense. Infelizmente não chegou ao fim por falta de patrocínios, mas para quem bem conhece como nós nestes lados este importante orgulho a que alguns chamam rivalidade das gentes dos Mosteiros tal iniciativa demonstra o sentido de união do maestro José Fernando assim como a força que a música é capaz de proporcionar como elo de ligação entre gente amante desta arte que é a única que possui uma linguagem universal.
Frequentou o Conservatório de Ponta Delgada durante vários anos após ter dado entrada na Banda Militar. Durante todo o seu percurso tem continuamente feito diversas formações no sentido de melhor transmitir como maestro aos seus músicos a sua própria personalidade. Sente um grande orgulho em fazer parte da Minerva dos Ginetes, pois diz ter sido a primeira Banda que lhe deu a oportunidade de ser “Maestro efectivo” graças ao convite que lhe foi dirigido em 2013 pelos senhores Armando Rodrigues e António Costa, respectivamente Presidente e Vice-Presidente, embora algumas vezes no passado tivesse dirigido a Fundação Brasileira quando não era possível o responsável estar presente.
Curiosamente diz que até hoje o que mais o marcou foi a primeira vez que dirigiu a Minerva. Digo curiosamente porque não imaginava ter origem num local e momento tão simples. Recordava-me que foi no dia do Império de S. Pedro comemorado na Rua do Moio, sem grandes condições acústicas pois bem sabemos que é realizado sempre ao lado do Triatro do Divino Espírito Santo ao ar livre. Pequeno momento inesquecível mas de grande importância pois foi o início de um grande desafio que continua ainda hoje e que pelo brilhar do seu olhar mostra que o faz com muita dedicação à Instituição e respectivos músicos.
Evidentemente que um dos seus grandes desejos seria que tivéssemos uma Banda mais completa pois são tantos os talentos jovens e mais idosos que vivem nesta terra dos Ginetes.
Falava-me do ambiente excepcional, marcado pelos sentimentos de alegria e respeito. Procura estar perto de todos, demonstrando admiração sempre que o momento se proporciona aos mais velhos mas também quando necessário desce um pouco ao mundo dos mais jovens para tornar possível o equilíbrio necessário para a sobrevivência desta grande Instituição que é a nossa Filarmónica Minerva.
Neste dia sempre especial que se vai repetindo anualmente resta-me desejar o maior sucesso a esta maravilhosa Instituição, aos seus músicos, ao Maestro e à Direcção, pois afinal acabamos todos, mesmo que ligeiramente, por pertencer a esta grande família que é a Filarmónica Minerva dos Ginetes.
Requiem para uma gentil amiga e nobre intérprete
- Categoria: Opinião
- Criado em 03-08-2018
- Escrito por Carlos Amaral
SÓ NÓS, assim como eu privilegiado fiquei, que privávamos da sua intimidade, conhecemos o seu íntimo humildemente acutilante, ilustrado, sabedor, ciente, revelador de um bom gosto e de uma peculiar convergência para o belo no olhar de quem sempre descobre admirável e oculta pintura, ou então, escuta atentamente os diáfanos acordes de uma voz desconhecida que se testa para uma nova jornada ou apenas mais um ensaio... De facto, a luz do dia era apoucada confrontada com a sua própria claridade, lucidez e fulgor. Por onde passava, e se quedava, espalhava-a, derramava harmonia e quietude. Era calada. Ouvia mais do que falava. Por norma, era confidente e amiga de quem se aproximava com natural humana entrega e ternura. Por certo, o seu velório revestir-se-á da beleza da juventude que a sua provecta idade cronológica não conseguiu suprimir, qual bando de passarinhos chilreando num canto melancólico do amanhã. Este, por certo, será o maior enfeite poético da sua despedida, pois ela, na sua simplicidade e recôndito das muitas conversas em surdina tidas, já havia anunciado um velório sem coroas e adereços. Apesar dos muitos anos que comungámos de uma profunda e recíproca amizade sincera, gostaria de ter mais podido conviver com essa Grande Senhora, também apreendido, de verdade, a lição suprema da humildade, da paciência, da solidariedade, da própria resignação e alegria de viver. Em tempo algum ouvi da sua boca nenhum tipo de reclamação. Sempre que alguém perguntava por algo importante, eu próprio, a resposta era sempre a mesma: “Tudo bem. Lindo! ”. Mesmo quando, no contexto do Fado e interpretação dada ao mesmo houvesse algum pressentido desacerto, jamais assinalava negativamente o eventual erro. Pelo contrário, encorajava, animava e alentava a continuação de uma sempre possível mais perfeita interpretação e canto!
QUERIDA e já SAUDOSA CELESTE RODRIGUES, a tua alma exclusiva, mesmo perante a tua não-crença, resolveu voar rumo ao infinito, deixando-nos órfãos, mais humanamente despojados, indigentes, carentes e desprovidos da tua tão agradável e terna companhia física. Quero aqui deixar este meu testemunho, estimada amiga Celeste Rodrigues, através deste REQUIEM feito apenas palavra, e expressar a todos os que podem lê-lo que, depois de tê-la há muitos anos conhecido e convivido consigo, cresceu em mim a convicção de que pessoas “Cheias de Infinito”, isto é, as pessoas santificadas são sempre silenciosas e humildes. Para mim, e por certo para todos os que a conheceram e rodearam, a Celeste Rodrigues era um mundo de zelo e ternura. Para todos nós a sua partida é profundamente triste, pelo que haveremos de sentir abundantemente a sua falta. ESTEJA em PAZ, MINHA AMIGA, peço-lhe PERDÃO por não me ter doado mais à sua generosa e luminosa amizade e ao seu FADO. AQUI, pois, permanecerei à espera do apalavrado reencontro!
(O autor tem o direito e prefere não usar o acordo ortográfico)
Tempos comichosos
- Categoria: Opinião
- Criado em 03-08-2018
- Escrito por Vasco Garcia
Houve um editorial da revista “Fortune” que há um ou dois anos tratou de forma contundente o processo de crescimento de algumas empresas, as quais eram aconselhadas por gabinetes especializados a absorver outras mais pequenas - mediante uma “fee” que revertia para os cofres dos tais gabinetes – para passados anos, atingida a dimensão adequada, serem desmembradas e vendidas novamente, com evidentes e chorudas comissões para os bolsos dos “conselheiros” e dos vendedores. Neste vai e vem, toda gente ganha: empresários, acionistas, vendedores, compradores e gabinetes jurídico-económicos. O volume das comissões cobradas nas fases do negócio era proporcional à dimensão financeira envolvida, o que explicava a apetência de fundos especulativos por este setor e o interesse dos intermediários.
Claro que o cume da estratégia coincide com épocas de crise, o que aconteceu em Portugal nos tempos da troika e teve como alvo preferencial a banca, as seguradoras e, de um modo geral, as empresas públicas de maior dimensão. O que se propagandeou foi que os bancos, a exemplo do BES, ao ser retalhados e vendidos “às peças” evitariam risco sistémico. Assim, com papas e bolos se enganaram os tolos, embolsando alguns (poucos...) chorudas comissões e se endividou o país em 4 vezes o valor da riqueza anual que produz, o conhecido PIB. Mas como banca, seguros e grandes corporações são demasiados grandes para falir, o contribuinte português… pagou. Senão, vinha aí o diabo! O demo estará a rondar por aí, pelo que permanece insaciável, não hesitando em sugar seja quem for – sobretudo, se for das vítimas mais indefesas. Comecemos por um caso que conheço bem e envolve um grupo segurador internacional, responsável pela cobertura de um acidente automóvel. O sinistro aconteceu há 3 meses em Lisboa, os peritos concordaram todos sobre a responsabilidade do último carro (foi um choque em cadeia envolvendo 4 viaturas) e a primeira coisa que o proprietário da 3ª viatura recebeu foi uma proposta para uma “negociata” –obviamente recusada - constando da entrega a uma empresa intermediária do carro acidentado por uma soma ridícula, a que juntariam uma indemnização pecuniária considerada “razoável”. Perito para cá, perito para lá, seguradora vai, seguradora vem e… nada. Vão acabar mal, mimetizando o que dizia João Manuel Fernandes no “Observador”.
Outro caso, este bem mais merecedor de atenção, aconteceu nesta ilha do Arcanjo, onde uma família de poucos recursos e que tem uma filhita com problemas sérios de saúde, está em risco de ser despejada da residência alugada, porque a mesma foi penhorada ao proprietário pelo banco. Já foi bater-lhes à porta um desses “mercadores da desgraça”, brandindo a ameaça de despejo a concretizar. À vista, estará mais um apetecível negócio, desta vez com beneplácito de uma entidade bancária resgatada com dinheiros públicos e tão ou mais impiedosa que os inteiramente privados. Aterrorizada, a mãe da menina recorreu ao conhecimento de alguém que, felizmente, alertou quem na Segurança Social Regional se ocupa destes casos e tem possibilidade de analisar o processo. Porque do lado dos vampiros, o sangue da vítima é sugado até ao limite, mas às vezes enganam-se e ocorre o desastre. Num Estado moderno, a Justiça não pode acobertar-se do Direito para cometer atentados aos mais elementares princípios humanitários, sobretudo quando os visados são famílias com crianças com dificuldades. Há muito a rever nestes processos que conferem um poder majestático aos detentores do dinheiro – e que, na banca estatal, sobrevivem à custa do erário público, alimentado pelos nossos impostos.
Não satisfeito com o verdadeiro saque a que submeteu os portugueses, o sistema bancário nacional ufana-se do regresso aos lucros, aplicando comissões, taxas, taxinhas e taxetas sobre tudo quanto lhes enche os cofres. Considerando os valores médios em vigor na União Europeia, em percentagem dos respetivos PIB/PPP (os que refletem o real poder de compra do país) vemos que em Portugal se pagam em média 78 euros anuais de comissões bancárias, contra 67 na Holanda, 38 na vizinha Espanha e 20 no Reino Unido. Na UE-28, a média é de 91, mas os ricos alemães, cujo PIB em paridades de compra é quase duplo dos portugueses, pagam 181. O rácio comissões/rendimento varia na Europa de 1:200 na Alemanha, para 1:295 (Portugal) 1:737 (Espanha) e 1:1575 no Reino Unido. Os britânicos, com um poder de compra paritário ligeiramente superior à média europeia, pagam comissões bancárias 5 vezes menores e nós pagamos quase 3 vezes mais que os espanhóis. Não se inventa nada, é suficientemente claro consultar os dados oficiais e saber fazer umas operações aritméticas. Afinal, as bases de cálculo estão disponíveis no BCE e Bancos Nacionais, além de consultoras especializadas. São estas comissões que causam uma desagradável e inquietante comichão, retratando bem os tempos comichosos que vivemos.
Bruxelas partiu para parte incerta
- Categoria: Opinião
- Criado em 03-08-2018
- Escrito por Frederico Cardigos
Chegou o Verão.
Para além das temperaturas elevadas que assolam Bruxelas, a cidade esvaziou-se de pessoas, parecendo mesmo que partiram para parte incerta. As férias escolares levam muitos funcionários a, naturalmente, pedir férias durante o Verão e como por aqui se trabalha essencialmente em rede, faltando tantos “nós” dessa rede, os restantes funcionários acabam por partir também ou, no máximo, aproveitam para meter o escritório em dia. Portanto, a azáfama que normalmente se vê pelas ruas das instituições europeias, seja por ausência geográfica ou seja por o trabalho estar mais concentrado no interior dos escritórios, é substituída por uma cidade essencialmente fantasma.
Algumas instituições levam este período de uma forma tão rigorosa que, simplesmente, fecham. Por exemplo, o Parlamento Europeu encerrou todos os trabalhos no edifício principal aqui em Bruxelas no dia 13 de julho e apenas voltará a estar em pleno funcionamento no dia 27 de agosto. Durante esse tempo, os eurodeputados deverão ocupar duas semanas em visitas às circunscrições que os elegeram e gozar o seu período de férias. Em termos genéricos, o mesmo acontece no Conselho, ficando apenas ativa a Comissão Europeia.
O Comité Económico e Social e o Comité das Regiões são órgãos consultivos do Parlamento Europeu, Conselho e Comissão e mantêm os seus trabalhos até um pouco mais tarde, efetuando algumas das audições públicas que ajudam a estruturar as suas opiniões. Nessas audições encontramos alguns dos representantes de setores, os chamados lobistas, e os representantes regionais com presença permanente em Bruxelas.
O Gabinete dos Açores em Bruxelas mantém as suas portas abertas até ao início de agosto, sendo um dos raros casos em que isso acontece. A maioria das representações regionais vão partindo a partir do meio de julho até que, na última semana desse mês, quase nenhuma está por Bruxelas.
Na representação da Região Autónoma dos Açores fazem-se os últimos relatórios de participação em reuniões e audições, preparam-se os boletins informativos temáticos que serão emitidos durante o mês de agosto e prepara-se o mês de setembro, agendando reuniões e analisando o final do período legislativo. A especial ênfase ao final do período legislativo justifica-se porque o Parlamento Europeu terá eleições no mês de maio de 2019 e, até lá, nova e complexa legislação terá de estar discutida e aprovada. Entre os diferentes dossiers, assumem particular importância o quadro financeiro plurianual de 2021 a 2027 e seus derivados nas componentes relacionadas com a coesão, agricultura, pescas, ambiente, energia e ciência.
No dia 4 de agosto e até dia 27, também nós partiremos, deixando Bruxelas ainda mais perdida na sua particular solidão. A cidade será devolvida aos seus legítimos donos, os belgas, e partilhada com aqueles turistas que procuram a cidade da arte nova, das florestas, dos jardins e dos museus que, no restante ano, é positivamente esmagada por 20 mil funcionários europeus e, talvez, o equivalente ao dobro em funcionários de estruturas de apoio e de sensibilização.
Do Gabinete dos Açores em Bruxelas olho para a rotunda de Schuman. Este espaço, que no restante período do ano está ocupado com manifestações e ações de sensibilização ou motivação para políticos, está com um ar desolador. O senhor que num dos extremos vende flores e o seu amigo que vende fruta já se despediram de mim na semana passada. Estavam felizes, celebrando o Verão, as férias e o descanso, tal como daqui a algumas semanas celebrarão, com empenho, a chegada do frio e do trabalho. Todos nós!
A vida tal e qual eu a vivo, sinto e penso
- Categoria: Opinião
- Criado em 03-08-2018
- Escrito por Pedro Paulo Carvalho Silva
Antes de mais destino é tudo aquilo que não se pode escolher, tudo aquilo que acontece na vida independentemente da vontade e intervenção do indivíduo.
Desde logo a começar pelo facto do nascimento; ninguém escolhe nascer ou não nascer, ninguém escolhe os pais biológicos, ninguém escolhe o país ou a época da história em que nasce.
A tudo aquilo que o indivíduo não pode escolher Sartre chamava a “facticidade”; Sartre alegava que os indivíduos usavam de má-fé para consigo mesmos e para com os outros porque atribuíam ao destino determinados factos e acontecimentos adversos quando de facto deviam era queixar-se de não serem capazes de ser livres. Mas apesar disso é mais do que claro que o homem é ele e a sua circunstância como disse Ortega YY Gasset e disse-o de forma definitiva.
A circunstância económica, nascer rico em dinheiro ou pobre, nascer na América ou no Bangladesh condiciona muito a liberdade do indivíduo; nascer na vivência de uma democracia ou de uma ditadura não é a mesma coisa.
Para além da liberdade económica e política há a liberdade interior que só está ao alcance de muito poucos; ou seja a liberdade é algo de muito complexo porque sofre inúmeros condicionamentos ao longo da vida de cada pessoa.
Portanto a essência de um homem, aquilo que cada um é, a essência individual não é só o resultado do uso da liberdade mas igualmente, e até mesmo em maior grau ou medida, o produto das circunstâncias ou da intervenção do destino; na vida humana o destino tem sempre uma palavra a dizer geralmente a última palavra.
Claro que há coisas que acontecem na vida não por obra do destino mas porque o indivíduo fez ou deixou de fazer alguma coisa que poderia e deveria fazer ou deixar de fazer e o resultado seria diferente. O destino é um poder acima do homem; tudo aquilo que depender da vontade e poder do homem não é destino e consequência do bom ou mau uso da sua liberdade.
O acidente de automóvel que vitimou Albert Camus aos 48 anos de idade foi destino; porque Camus não ia a conduzir, nada podia fazer ou deixar de fazer para que o acidente mortal não tivesse acontecido.
A tese existencialista de Sartre é falaciosa porque pode conduzir a conclusão errónea de que não existe nenhum poder acima dos homens; que, porque está condenado a liberdade tudo o que acontece ao indivíduo na sua vida de bem ou de mal e da sua única e exclusiva responsabilidade.
Ora como se demonstra na verdade não é assim. Há efectivamente a força ou o poder do destino que explica muitas das coisas, quiçá as mais importantes, que se passam na vida dos homens. A este respeito é quiçá relevante trazer nesta sede a colação o que Séneca, (o advogado e insigne escritor perceptor do imperado Nero é natural de Cordova, Espanha), acerca do destino a que ele chamava fortuna (os a romanos antes das batalhas exclamavam habitualmente; “alea jacta est” a sorte está lançada.
Nas suas celebres cartas a Lucílio, Séneca escrevia que a partir de certa fase da sua vida começou a reduzir as suas posses cargos, haveres, circunscrevendo-as ao essencial porque era a única maneira de fazer com que a mão da fortuna quando lhe entrasse em casa não encontrar nada para levar ou cravar os dentes aguçados.
Descobri há tempos, através de uma obra de Fernando Savater intitulada Vida eterna, um autor russo chamado Leo Chestov.
Devo dizer que, desde muito jovem, através, da leitura das obras canónicas dos expoentes máximos da língua e cultura russa, fui alimentando um amor quase místico pelo melhor que existe na alma russa; acho que a alma russa, como se pode perceber pela leitura, das obras das suas referências iconicas, é ontologicamente universal e fraternal.
Nela coabitam o mistério insondável do homem e do seu destino e a sede de uma justiça para os excluídos da dignidade humana, para todos os explorados e injustiçados da terra dos homens.
Mas, como dizia atrás o autor russo Leo Chestov é uma das vozes espirituais mais poderosas e importantes do século XIX e XX e é decerto pouco conhecido entre o povo e mesmo das elites intelectuais, porque não é manipulável em qualquer sentido político e ideológico e por isso acabou por morrer exilado em Paris perseguido pelos sicários da revolução bolchevique.
Leo Chestiv escreve na sua pouco conhecida obra de Atenas a Jerusalém que se é verdade que os homens não podem tudo também é verdade que nem mesmo Deus pode tudo.
Deus não pode, por exemplo, agora fazer com que a morte de Sócrates em Atenas, na Antiga Grécia, não tenha acontecido.
Ou seja, nem o próprio Deus pode fazer no presente que o que efectivqamente aconteceu no passado deixe de ter acontecido; ou seja tudo o que aconteceu uma vez na vida aconteceu para sempre e o próprio Deus nada pode contra isso.
Quem viveu uma vez viveu para sempre e quem morreu uma vez morreu para sempre.
No que respeita ao problema da liberdade o marxismo e o capitalismo são, a meu ver, duas ideologias inimigas do bem da verdade da justiça e do amor fraternal da compaixão e da tolerância isto porque o marxismo parte de uma premissa falsa a saber: se as pessoas estiverem bem confortáveis economicamente falando estão salvas; o marxismo omite a dimensão espiritual do homem e suprime a metafísica.
O capitalismo, por seu turno também põe o acento tónico na liberdade económica e na liberdade politica.
Desde que a constituição dos povos da terra consagre os direitos e liberdades humanas fundamentais os homens serão mais felizes. Ora à semelhança do marxismo, mas de forma mais subtil o capitalismo suprime a dimensão espiritual do homem fazendo do mercado Deus e do dinheiro religião.
Ora o Papa João Paulo II e o actual Papa Francisco falam da conversão interior, e acho que estão certos.
Na verdade de nada ou de muito pouco serve ter liberdade política e económica senão se tiver liberdade interior, liberdade de consciência.
Digamos que a liberdade económica e política são condições necessárias mas não suficientes da plena realização do ser humano e de uma vida com sentido e significado.
Nas duas ideologias citadas não há lugar nem para o amor nem para a compaixão nem para a vida interior.
Querem melhorar o homem de fora para dentro, quando o homem só pode progredir espiritualmente a partir de dentro, da vera substância da sua alma.
Para isso a alma possuída pelo amor opera a sua própria purificação, tem que atravessar sozinha uma espécie de limbo ou purgatório até ser iluminada e capaz de ver claramente o caminho que tem a percorrer no mundo.
Portanto, tem que haver uma verdadeira conversão interior; sem isso nada feito.
O caminho da salvação não só é interior como é doloroso e acarreta frequentemente muitas incompreensões e injustiças, perseguições e mesmo a morte.
Sócrates disse e disse-o egregiamente que uma vida que não é examinada não merece a pena ser vivida. Por sua vez Kierkgaard disse que a vida é vivida para a frente mas é compreendida às arrecuas Ora temos de seguir em frente; este tempo que vivo é um tempo de vertigem.
As nossas cidades estão povoadas por bandos de indivíduos alucinados possuídos pela pressa de chegar não se sabe bem onde.
É preciso parar e reflectir para compreender e seguir em frente cheios de compreensão e de amor.
Lições e contradições insanáveis
- Categoria: Opinião
- Criado em 02-08-2018
- Escrito por Fernando Marta
A cada opção partidária, deve corresponder uma determinada maneira de se estar na vida e um padrão ético e moral definido, no qual se reflete essa mesma escolha. É desta forma que aqueles que exercem funções públicas levam a cabo essa conduta com vista a não serem acusados de contradições na comparação entre a sua prática e o discurso que fazem. Ainda assim, sabemos também que muitas vezes essas contradições existem em toda a linha partidária. Quantas vezes vimos já atores políticos rasgar as vestes a favor da importância do casamento, sendo mais tarde conhecidos casos de infidelidade e promiscuidade que os envolveu diretamente. Recentemente, alguns casos surgiram nos tories britânicos, apenas para dar um exemplo mais relevante.
Como sabemos, os partidos políticos assentam a sua prática numa conduta própria dependente da ideologia que perfilham, ideologia essa que serve de esteio às propostas e intervenções públicas que fazem nos parlamentos, nas assembleias, na rua. Não há muito tempo, um deputado centrista deu a conhecer, em entrevista, a sua orientação sexual, diversa da maioria dos membros do seu partido. À data, esta situação recebeu até algumas vozes de espanto por acontecer num partido conservador, mais indiferente às lutas das minorias, e sempre mais favorável à ideia tradicional de constituição de família, casamento e religião.
Todos somos capazes de identificar determinadas bandeiras com os partidos políticos que existem no país. A generalidade das pessoas revê-se nas ideias que lhes dizem algo, que defendem o seu ponto de vista ou que julgam defender os seus direitos. Por exemplo, quem julga que o Estado deve ter um papel proeminente na sociedade, tenderá a simpatizar com os partidos que se situam mais à esquerda. Já se consideram mais importante dar força à sociedade civil sem qualquer tipo de regulação, apoiar sem reservas o investimento privado e acham que as forças particulares do mercado tudo resolvem, então verão com bons olhos e afeição os partidos mais à direita no espetro político.
Imaginemos, agora, que aquilo que se escrevi no parágrafo acima conhecia uma volta completa e que a esquerda começaria a defender com unhas e dentes o mercado, os capitalistas e especuladores imobiliários, enquanto a direita assumiria com fulgor a bandeira dos direitos dos trabalhadores, da defesa irrevogável dos serviços públicos, da segurança social plenamente pública e a sua intervenção nas ruas do país passaria a ser a regra.
A verdade, perante este exercício imaginativo, é que tal seria impossível, pois seria fundamentalmente contraditório em relação às raízes, ao eleitorado e à própria história político-partidária de cada um em particular e do próprio país. Criticar a especulação imobiliária e especular. Denegrir a existência de cuidados de saúde privados e escolher um hospital privado para se tratar. Defender uma coisa e fazer o contrário são tudo contradições. E nenhuma deve ser bem vista por aqueles que confiam nos seus eleitos.
Exercício físico e Asma – do mito à realidade
- Categoria: Opinião
- Criado em 02-08-2018
- Escrito por Miguel Paiva
A asma é uma doença respiratória crónica que afeta cerca de 7% da população portuguesa. Se não for adequadamente controlada, a asma interfere de forma muito significativa na qualidade de vida do doente, limitando, particularmente, a actividade física.
O exercício físico constitui um dos principais fatores desencadeantes de asma. Mais de 80% dos asmáticos têm sintomas com o exercício e, nalguns casos, os sintomas ocorrem, apenas, durante a sua prática. Por esta razão, não é de estranhar que a prática de actividade física constitua uma das principais preocupações do asmático e da sua família, sendo fonte de todo um conjunto de questões: pode um asmático praticar desporto? Qual a intensidade do exercício que pode realizar? Existe alguma actividade física mais indicada? A toma de medicação é compatível com a realização de exercício?
Mas antes de responder a estas questões convém perceber como o exercício desencadeia sintomas de asma. Durante o exercício inalamos uma maior quantidade de ar, sobretudo pela boca, o que dificulta o seu aquecimento e humidificação, expondo os brônquios a ar mais frio e seco. Nos asmáticos, o ar frio e seco provoca perda de água e calor na mucosa dos brônquios, induzindo a contração da musculatura brônquica (broncoconstrição) e a inflamação da sua parede. Disto resulta uma redução do calibre dos brônquios que dificulta a passagem do ar, aumenta o esforço para respirar e conduz ao aparecimento dos sintomas de asma: tosse, pieira, falta de ar e sensação de aperto no peito.
Após o que foi dito, poder-se-ia pensar que os médicos contraindicassem a prática de exercício físico pelo asmático. Tal não poderia estar mais distante da realidade! O exercício físico regular faz parte das recomendações para o controlo da asma, porque contribui para um melhor controlo da doença, podendo ser realizado sem restrições na sua intensidade.
Apesar de existirem modalidades desportivas com maior potencial para desencadear sintomas de asma (mais asmogénicas), não existe nenhuma que seja proibida, pelo que o doente pode praticar a sua favorita. Os desportos associados a esforço aeróbico contínuo e intenso, como o atletismo de fundo, o ciclismo e o ski de fundo, sobretudo se praticados em ambiente frio e seco, encontram-se entre os mais asmogénicos. Não obstante, alguns dos atletas que atingiram melhores resultados nestas modalidades são asmáticos, sendo exemplos bem conhecidos os casos de Rosa Mota e do ciclista Miguel Indurain. Os desportos associados a esforços intermitentes como os desportos coletivos (basquetebol, fútebol) e o ténis são, habitualmente, bem tolerados. De entre as modalidades menos asmogénicas, a natação indoor destaca-se pelas seguintes partiularidades: é realizada em atmosfera húmida e aquecida; permite o treino dos músculos respiratórios; a posição horizontal favorece a eliminação de secreções brônquicas.
Algumas práticas que podem ajudar na prevenção da asma induzida por exercício incluem: praticar exercício preferencialmente em ambiente aquecido e húmido; uso de máscara ou lenço de protecção das vias aéreas se realização em ambiente frio e seco; evitar a realização de exercício em zonas poluídas e a exposição a alergénios (ex: pólenes; ácaros); realização de aquecimento mais prolongado antes do exercício principal, com pequenos sprints (30s a cada 2 minutos), ou corrida de baixa intensidade durante 5 a 10 minutos, de forma a permitir a adaptação da via aérea ao ambiente.
O tratamento médico para a asma induzida pelo exercício é idêntico ao da asma em geral e depende da frequência e intensidade dos sintomas. Os doentes que têm sintomas apenas com o exercício podem efetuar tratamento com broncodilatadores 10-15 minutos antes do início da actividade desportiva. Os doentes com sintomas frequentes devem realizar tratamento preventivo diário, que também pode estar indicado nos que realizam atividade física mais de 2 vezes por semana, uma vez que a utilização isolada e frequente do broncodilatador pode conduzir à perda da sua eficácia. Não deixe que a asma o pare!
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