A cambada

Cansará quem me lê - se houver quem o faça - que só critique e aponte defeitos a este regime e à sua classe politica. Seria muito mais simpático, e talvez até pessoalmente vantajoso, enaltecer e valorizar qualidades do que apontar vícios, mas revolta sentir que nos enganam e prejudicam deliberadamente, por incompetência, mesquinhez e garotice, na defesa de interesses impróprios para quem se arvora em defensor da causa pública.
Os que criticam, de forma desinteressada e sem inveja, serão seguramente os maiores defensores deste regime, ao tentarem - sem qualquer sucesso, aliás - promover a sua correcção e melhoria, eventualmente permitindo até a sua sobrevivência.
Os que interesseiramente o louvaminham, tirando disso proveitos imediatos, são afinal os seus piores inimigos e os promotores da sua descaracterização e da já perceptível destruição do próprio regime.
O erro, reconhecido com humildade, pode desculpar-se. A constante mentira, a permanente distorção e ocultação da verdade e o aproveitamento impróprio de benefícios injustificados, fatalmente acabam por ter consequências catastróficas (estamos a senti-las!) e, por previsíveis, serão indesculpáveis e os responsáveis deveriam ser severamente punidos.
Já nos cansa que os actuais protagonistas políticos, invocando os altos valores da “democracia”, cometam atropelos e abusos para defenderem – dizem eles - o “país, o povo e os trabalhadores”. Agora também entrou no discurso político defender os interesses dos “pensionistas”. É bonito e fica bem! Como se isso lhes perturbasse o sono…
Já demonstraram, ao longo destes 40 anos, que o que lhes interessa é o partido, o poder, os cargos, os seus negócios, as suas fundações, etc.
Os poucos que os tentaram contrariar e conter, nem sempre pelas melhores razões, foram rapidamente afastados, sempre que possível silenciados e pessoalmente preteridos e prejudicados.
Os que os apoiam prosseguem, com total impunidade, na senda da destruição do pouco que ainda resta do país.
Neste regime muito poucos serão inocentes. Mesmo os que, dando prova da maior seriedade, não se serviram do regime e o serviram com isenção e honestidade, na sua larga maioria, ou morreram ou, por impotência, desistiram. Estão agora silenciosos e distantes.
Será muito difícil, já se percebeu, o actual regime regenerar-se porque o que verdadeiramente importa é defender os interesses dos partidos e dos instalados, que nada têm a ver com os interesses do país.  
Falam, sem ponta de vergonha, em defender os interesses do “povo” e tudo fazem e fizeram para o prejudicar e empobrecer.
Falam em solidariedade social mas nunca as desigualdades sociais, por eles provocadas e agravadas, foram tão evidentes, nem existem perspectivas de que venham a melhorar.
Falam em defender o Estado Social mas todos os partidos, digo todos, contribuíram para o seu enfraquecimento e serão responsáveis pela sua destruição. Uns por exigências inverosímeis e delirantes. Outros por incompetência e permissividade.
Todos o fizeram ignorando o “país, o povo e os trabalhadores”. E os “pensionistas”, lá me esquecia! Fizeram-no e fazem-no apenas na mira do voto e para satisfação das cliques partidárias, como mero trampolim de acesso ao festim do poder.
Assistimos às discussões nos Parlamentos - mera exibição burlesca do que é a política nacional - onde se finge discutir seriamente as opções políticas mas que se destinam unicamente a justificar a função e à exibição nas reportagens dos jornais e das televisões. E, claro, para beneficiarem de privilégios imerecidos e serem aplaudidas pelos entusiastas do costume.
Ao arrepio de tudo o que se apregoa e que o bom-senso exigiria, a ALRAA, entre jogos de poker e navegação no facebook, aprovou uma ante-proposta de lei para o aumento do ordenado mínimo regional.
Quando não há dinheiro para nada, quando as empresas entram em falência de supetão, quando há famílias a passar fome, quando a taxa de desemprego atinge níveis impensáveis, S. Ex.as, em nome do que dizem ser a solidariedade social, agravam ainda mais a situação das pessoas, das famílias e das empresas.
Numa altura em que se fazem despedimentos, quando são incontáveis os jovens desempregados - licenciados ou não - condenados à fome ou à emigração, pela incompetência e ganância duma classe política sem categoria e sem vergonha!
Não seria mais solidário distribuir esse “aumento” pelos que nada têm do que entregá-lo aos que têm a sorte de ter ainda algum trabalho?
Não seria mais solidário reduzir os titulares de cargos políticos, em número e encargos, do que prejudicar ainda mais as famílias e as empresas?
Chamam solidariedade social ao que parece ser uma criminosa insensatez política e um mero acto de propaganda no mais puro estilo dos que afirmando ter um governo do “povo” e para o “povo”, só o fazem ao engano, silenciando-o e escravizando-o.
Ao que parece será apenas para constar, com a perspectiva de que será a AR a vetá-lo, para permitir que S. Ex.as fiquem bem na fotografia (aplaudida apenas por ceguinhos…) e poderem insultar e acusar Lisboa de mais uma vez atentar contra a “autonomia”, seja lá o que for que isto signifique.
Meros jogos infantis, que nos custam caríssimo, não servem para nada e se destinam aos que por deficit cognitivo não têm discernimento ou nem sequer sabem juntar as letras!
Fala-se agora na criação de um canal de televisão para transmitir os debates da ALRAA - mais uma louvável poupança que nos será “oferecida”!
Para além de ser um programa impróprio e indecoroso, pela falta de ideias com que nos brindam e pelos insultos e ameaças que lá acontecem, não acredito que interesse a alguém ouvir constantemente a lengalenga do costume.
Que o PS é o maior e mais sensato, que o PSD é o melhor e mais puro, que o CDS é quem tem ideias brilhantes e as atitudes mais correctas, que só o PCP e BE são verdadeiramente democráticos, nos concedem “amplas liberdades” e defendem, desinteressadamente, “o país, o povo e os trabalhadores”! E já agora, os “pensionistas”, claro!
Ao cidadão já é indiferente o partido que governa ou a maneira como o faz.  
Com estes figurões caminhamos, a passos largos, para o abismo e derrocada final. Variará apenas a velocidade. Com uns, sem apoios, rapidamente. Com outros, mais amparados, de forma mais lenta. Mas segura!
Sabe-se que lá estão todos para defender o seu partido, os seus privilégios e os seus militantes, pouco lhes importando o “o país, povo e os trabalhadores”. E os “pensionistas”, com os diabos!
Venha o que vier o resultado e os objectivos são sempre os mesmos. Só mudam os nomes. Quando mudam!

PS - Escrito antes da notícia da quebra das conversações para um acordo de salvação nacional.
O sempre corajoso e (in)Seguro “leader” propõe uma série de investimentos, sem cortes na despesa e, pelo contrário, aumentando-a! Com o brilhantismo e clarividência a que nos habituou não explica como se financia e onde arranja o dinheiro.
”É muito simples”, diz ele. “O país, o povo e os trabalhadores” que vão às urtigas. E “os pensionistas”, obviamente!   
Não temos, felizmente, inimigos estranhos no exterior. Os nossos verdadeiros inimigos estão cá dentro e são conhecidos…

O efeito ricochete dum não acordo

Num momento particularmente sensível para cada cidadão e o todo nacional, esta coligação identificada no mesmo ideário político e de propósitos, junta à instabilidade financeira, económica e social resultante das vicissitudes do sistema de troca que sustenta a vivência comunitária da globalidade, uma crise política de cariz interna, movida por incompatibilidades e audácias de gestão partidária, surpreendendo muitos, inclusive os agentes da mesma, pelos efeitos que produziu.
     Goradas as expectativas dum entendimento a quatro, esta crise faz com que nos questionemos sobre o real sentido do desafio colocado pelo Presidente da República aos três partidos da oligarquia do poder, a quem exigiu um compromisso que pretendia criar as condições para a realização de eleições em Junho próximo, o garantir dum deficit a que estamos sujeitos, a estabilidade adequada para a exequibilidade da polémica reforma do Estado e a concordância dos mesmos para um prolongamento do prazo para o pagamento das responsabilidades assumidas, vontades à partida condicionadas ao fracasso.
     Tendo feito parar o país em total dependência externa, esta crise política que se multiplicou numa turbulência de incertezas e preocupações várias, fez emergir o Presidente da República parte ativa desta solução governativa, cuja atuação valida, renova e reconduz o atual executivo de Passos Coelho, que prossegue assente nos mesmos pressupostos e viciado pelos mesmos pretensiosismo pessoais, e que num fazer de conta, faz valer ao país e ao exterior, uma coesão e determinação que não convence.
     Não sendo possível o acordo com o PS para uma governabilidade a quatro, o Presidente da República eximindo-se do seu papel de provedor do cidadão, com a sua decisão, corrobora as medidas de Passos Coelho por muitos contestadas e ratifica o apego deste ao poder, por meio da recondução que manda executar, agora para um período que se estende até ao fim da legislatura.
     Este novo enquadramento político, líquida no futuro próximo o atual líder do P.S., condicionado na sua vontade por fações várias do partido, e coloca a prazo o líder do C.D.S/P.P., Paulo Portas, que sucumbirá às vicissitudes resultantes do poder que ombreia e do comprometimento que renova como agente político agora determinado e convicto, numa coligação que internamente disputa lideranças.
    Em todo este processo cujos protagonistas conheciam desde o início o resultado do mesmo, este executivo, sai paradoxalmente reforçado pela atitude errada do Partido dos Verdes, que ao apresentar uma moção de censura logo convertida pela maioria numa de confiança, faz juntar no momento e aparentemente os protagonistas desta solução desgastada e que mesmo descredibilizada, se ligitima, para prosseguir com a devastação económica que a todos sujeita, num clima de desassossego já institucionalizado no sentir de cada um e do todo, granjeando do “melhor povo do mundo” o suporte, a ratificação e a sustentação dum agir político que torna tudo possível.

“Governos” mas pouco…

Governo da República – Portugal é um país em constante crise e pelos vistos só assim, em crise, é que sabe viver. A resolução do problema político criado pelo ex-irrevogável Portas custou tempo, dinheiro e um governo. Neste momento não fosse a obrigatoriedade de se manter em funções por causa do programa de assistência financeira, aposto que Passos Coelho e o PSD jamais aceitariam tal comportamento do seu parceiro de coligação, o seu actual peso, nem aceitariam a forma como foram tratados por Cavaco Silva ou a falta de credibilidade junto dos portugueses. Mas não obstante tudo isto, continua a persistir no erro. Então numa altura em que necessitava dar sinais claros de confiança, aproveitando a entrada para o governo de pessoas que estivessem fora de qualquer suspeita, como é o caso do competentíssimo Jorge Moreira da Silva, escolhem de novo um elemento associado ao BPN – Rui Machete. A ministra das Finanças parece estar a ser apanhada numa mentira em relação aos chamados contratos SWAP e o governo passa de uma promessa de 10 para uma realidade de 14 ministros com dezenas de secretários de estado. De facto, reproduzindo a afirmação do General romano Galba “há na parte mais ocidental da Ibéria um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar”. Acresce a tudo isto o facto de se olhar para o lado, para alternativas e vê-se um enorme e inseguro vazio.

 Abacaxi – Saiu esta semana o programa de apoio para a aquisição de produtos regionais que inclui alguns que não são regionais e deixa de fora outros que o são, sem esquecer a referência ao nosso ananás que aparece associado ao abacaxi. Assim, percebe-se que este programa, ao não reflectir a realidade dos produtos regionais, não é mais do que um subsídio encapotado à restauração. Não que tenha alguma coisa contra, mas que se assuma mais este subsídio e que não se volte a cometer erros neste sector, pois, por exemplo, quem não se recorda da polémica relacionada com a abertura de espaços de restauração nas Portas do Mar, promovida pelo Governo Regional, que vieram prejudicar a situação dos estabelecimentos existentes na cidade? Nas reacções às críticas ou é preciosismo ou não há problema porque depois se acrescenta à lista ou se poderá comercializar no futuro. Entretanto lá se vai o rigor, o profissionalismo e as nossas especificidades…

 
Diferencial fiscal – Neste caso as mentiras são repetidas até à exaustão para que se tente que passem a verdade. Se apreciei a forma como no passado e pela nossa frente o Partido Socialista bateu o pé a Lisboa, digo pela nossa frente, porque às nossas escondidas foi lá pedir dinheiro emprestado e assinar memorandos que hipotecavam a nossa Autonomia, não posso deixar passar em claro que foram os governos do P.S., de César e Sócrates, que aceitaram e até desvalorizaram a redução do diferencial fiscal dos Açores, de menos 30% para menos 20% nos impostos em relação ao continente, no âmbito do memorando de entendimento com a Troika. Acusar agora o governo PSD-CDS/PP de querer aumentar os impostos nos Açores é mentir, é pura demagogia e fuga às suas próprias responsabilidades.

Turismo – O atento jornalista João Paz publicou uma reportagem sobre o péssimo estado dos trilhos pedestres na ilha de São Miguel. Esta vertente do turismo de natureza de que os Açores dispõem e que deveria ter uma aposta clara por parte das entidades competentes estão completamente abandonados, transmitindo uma má imagem da forma como tratamos a nossa natureza. Numa altura em que cada vez mais a componente ambiental é valorizada (desde o turismo até à agricultura) não faz sentido passarmos esta mensagem de desleixo a quem nos procura e que importa que, não só voltem, como possam ser bons “embaixadores”.

 SATA – Numa semana, por duas vezes os voos da SATA Internacional chegaram sem bagagens. Se elogio o facto de a empresa ter melhorado ao nível da informação e apoio prestados aos passageiros aquando da sua chegada a Ponta Delgada, não posso aceitar que se tenha utilizado como desculpa a “segurança”, pois “optaram por trazer mais combustível em detrimento das bagagens para o caso das condições meteorológicas obrigarem o regresso a Lisboa”. Estes aviões estão preparados para ligações de muito maior duração e só encontro factores economicistas, como um menor consumo de combustível, como a razão para tal situação.

 Ponta Delgada – Uma proposta para a maior cidade Açoriana. Uma vez que não temos cinema e que o actual presidente da câmara, José Manuel Bolieiro, se comprometeu com a resolução rápida deste problema (o que ainda não aconteceu), que tal aproveitar as noites de verão para sessões de cinema ao ar livre? É barato, as pessoas gostam e é mais uma forma de trazer as pessoas ao centro. Talvez fosse boa ideia uma parceria com o 9500 Cineclube que tem continuado com a exibição de filmes em salas de cinema…

Muitos bobos a uivar!


Se o escritor Onésimo Almeida vivesse permanentemente no nosso país, teria matéria em abundância para publicar, todos os dias, livros sarcásticos sobre a comunidade de bobos que por aí uivam.
Mesmo assim, visitando-nos assiduamente, o conhecido picopedrense e professor da Brown University vai anotando histórias do arco da velha que depois nos transmite em forma de livro.
A sua última obra chama-se “Quando os bobos uivam” (Fogo, espionagem e outros mistérios q.b., da Clube do Autor), que será apresentada hoje, às 19 horas, no Hotel do Colégio, em Ponta Delgada, por iniciativa da dinâmica Livraria Solmar e de Vamberto Freitas, o maior crítico literário entre nós.
Em cerca de 200 páginas, Onésimo Almeida narra, com o seu indispensável humor, estórias de encantar o bobo mais descuidado.
Onésimo é, sem favores, o maior contador de estórias que conheci até hoje, sabendo aliar a inteligência ao humor, o génio à reflexão humilde e a ficção às coisas mais rocambolescas da nossa realidade quotidiana.
Neste livro Onésimo revela-se também como homem de coragem e de liberdade.a
A narração do incêndio da Universidade dos Açores e o processo que se lhe seguiu, envolvendo o próprio autor, é de uma tragédia vergonhosa para quem envolveu o seu nome naquele acto.
Onésimo Almeida trata a história com um diário sarcástico e irónico, próprio de quem sabe encaixar com elevado sentido de humor e bom senso as porcarias com que a nossa sociedade “intelectual” gosta de enxovalhar os outros.
Só um homem com imensa bondade e profundo carácter encararia a história como Onésimo a conta.
A nossa universidade já lhe deveria ter atribuído o doutoramento honoris causa.
O diário da sua viagem pela China profunda é de outra dimensão, confundindo-se o filósofo com o diarista e contador de estórias.
Já na obra anterior, “Utopias em dói menor”, num diálogo lúcido e profundo com o filósofo João Maurício Brás, Onésimo tinha-nos mostrado um pensamento de outro tempo muito à frente.
O melhor é ouvi-lo logo à noite, bem disposto como sempre, à espera que desvende mais algumas estórias rocambolescas, desta vez do seu tempo de seminarista, que, ao que parece, vão aparecer em forma de romance, num título que promete: “Manhãs subversas”!
Precisamos de gente como Onésimo, que se ri dos nossos bobos, mas também sabe rir de si.
Como o descreve Clara Ferreira Alves: “um intelectual português que pensa as questões da identidade como poucos a pensaram. Com erudição e lucidez. Sem desânimo”.

                                
                                   Pico da Pedra, Julho 2013

ditaduras & (dita)dores

Mesmo à distância, a ressonância do rodar da carruagem pré-eleitoral parece dar notícia de que as elites partidárias estão fascinadas na ânsia de ‘açorianizar’ a mensagem da sociedade do espectáculo. Para proteger a dignidade democrática, temos de atinar com as modernas formas de manipulação genético-biológica, ou seja: não vamos mastigar energia a dissecar as habituais ‘chicharradas’ partidárias (com pimentas sem tomates), nem avaliar a intensidade do apetite cívico dos adeptos das ‘sopas’ oferecidas pelas mordomias municipais; de resto, não dispomos de pílulas miraculosas para inebriar os gestores da incerteza política que grassa nos corredores do outrora florido ‘canteiro lusitano’…
Mas… afinal, o que faz com que a mudança seja um degrau necessário na vida colectiva? A resposta seria longa. Mas convém não ignorar a religiosidade moderna dos atletas do NWO (New World Order) – ultrapassar a desejável dor da transitoriedade. É evidente que as brisas de mudança vêm quase sempre acompanhadas de promessas de instabilidade. A conclusão parece simples: mudar, sim… mas prudentemente! Entretanto, a República portuguesa está a ser gerida por amanuenses treinados para carimbar atestados de pobreza, fingindo prantear a respectiva orfandade ideológica.
Seria porventura aconselhável às gerações mais jovens do Ocidente gerir  uma proximidade inteligente com o testamento histórico do histórico patriarca Confúcio, para melhor decifrar o sorriso silencioso, enigmático, dos modernos líderes chineses.
Precisamos de cultivar a humildade de aprender a formular perguntas. Estamos a observar que a ‘desocidentalização’ em curso ‘made in China’ dispensa a barulheira fanática do terrorismo bombista… Foi o próprio Confúcio que deixou dito: “a preguiça caminha tão devagar que a pobreza não tem dificuldade em alcançá-la”.
Com mais ou menos ingenuidade (sempre distante da opulência obscena do mandarinismo político-cultural) continuamos fiel ao princípio de que a (nossa) militância em prol do socialismo-democrático não consta do ‘Deve & Haver’ do percurso político-partidário.
Como valioso arco-de-ponte para o livre trânsito das ideias (sem todavia facilitar o tráfico das viciosidades trazidas pelo consumerismo), diria que o ideário político da Autonomia Regional dispensa ‘cinto de castidade’ ideológica. De resto, não seria justo considerar os órgãos de comunicação social como cúmplices do ‘fogo-de-artifício’ partidário para celebrar as conhecidas debilidades do quotidiano. Há mais de 100 anos, o nosso Antero de Quental prevenia de que “os jornais só vivem, fazendo-se confidentes de comédia do público, das suas paixões, dos seus erros, das suas ilusões, e não dos seus apóstolos”.
Pobre dos apóstolos! Concordamos com quem disse o seguinte: as campanhas eleitorais são anunciadas em poesia, mas a administração governativa é geralmente elaborada em prosa. De resto, as comunidades civicamente seguras da sua autenticidade democrática, não precisam ajoelhar perante o pedestal da ‘ditadura da necessidade’.
 Pessoalmente, não nos assusta a presença maçónica nos bastidores do actual desfile cavaquista-coelheiro. Sem mencionar referências históricas alusivas ao Papa Clemente XII, nem elogiar as ousadias do pioneiro-mação, Marquês de Pombal, não é contra a lei lembrar que a Maçonaria portuguesa foi a mais credível ‘madrinha-de-guerra’ da República: Teófilo Braga, Óscar Carmona, Norton de Matos, Humberto Delgado… e, mais recentemente, Palma Carlos, Luís Nandim de Carvalho, António Arnaut… (Até mais ver, deixemos a maçonaria açoriana em paz, a cantar a ‘sapateia’)…   
Para interromper esta breve conversa estival, sem ditaduras & dita(dores), vamos continuar a citar o histórico Confúcio: “amar e reconhecer os defeitos dos se amam, odiar e reconhecer as boas qualidades dos que se odeiam, são duas coisas raríssimas debaixo do céu.”  

                  - - - * * * * - - -

Rancho Mirage, California
Julho, 2013
(o autor não aderiu ao recente
acordo ortográfico)

A actualidade de Aldo Leopold

Na procura de respostas para ultrapassar a situação em que nos encontramos, vários autores apontam a incapacidade ou insuficiência da ética tradicional para responder às questões levantadas pela atual crise, advogando a necessidade do homem adotar uma nova ética na sua relação com os outros e com o planeta.

Aldo Leopold (1887-1948), engenheiro florestal norte-americano, é um nome incontornável quando se fala de ética ambiental, sendo “Pensar como uma Montanha” (tradução portuguesa de A Sand County Almanac), para alguns autores, o “livro mais importante alguma vez escrito”.
Na primeira parte de “Pensar como uma Montanha”, Aldo Leopold apresenta, mês após mês, um registo das suas observações (e reflexões a propósito do que via e das alterações que aconteciam) sobre a região onde passava os fins de semana com a família numa quinta que recuperou a que chamava A Choupana. Na segunda parte do livro, é-nos apresentado um conjunto de capítulos de índole mais filosófica “deste engenheiro dos bosques e das planícies, que soube ver mais fundo que a esmagadora maioria dos filósofos profissionais do seu tempo” (Soromenho-Marques).
Em todo o livro perpassa a ideia da grande importância do contacto com a natureza, para o homem poder viver em harmonia com a terra e com os outros homens. Os seguintes extratos, elucidam bem o atrás exposto:  
“Há dois perigos espirituais em não possuir uma quinta. Um é o perigo de supor que o pequeno-almoço vem da mercearia, e o outro que o calor vem da caldeira.”
“Choramos apenas aquilo que conhecemos. O desaparecimento do Silphium do oeste da circunscrição de Dane não é caso para luto se o conhecermos apenas como um nome num livro de botânica.”
 Outra das questões abordadas é a da educação e do ensino que, de acordo com Emanuel Medeiros, docente da Universidade dos Açores, para além “de ser uma tarefa de lucidez e um compromisso com a verdade”, tem de “desenvolver a interdisciplinaridade, no contexto escolar, e o diálogo interpessoal em todos os contextos educativos”. A propósito da educação e dos professores escreveu Leopold:
“A educação, é esse o meu receio, consiste em aprender a ver uma coisa tornando-nos cegos para outra”.
“Cada um deles [professores] seleciona um instrumento e passa a vida a separá-lo dos outros e a descrever-lhe as cordas e teclados….Um professor pode tanger as cordas do seu próprio instrumento, mas nunca as de um outro, e se conseguir ouvir a música nunca deverá admiti-lo junto dos seus pares ou dos seus alunos. Pois todos estão coibidos por um tabu férreo que decreta que a construção dos instrumentos é do domínio da ciência, ao passo que a deteção da harmonia é do domínio dos poetas”.
 Há cerca de 60 anos, Aldo Leopold já considerava desequilibrado “um sistema de conservação da natureza baseado apenas no interesse económico próprio” porque tendia a “ignorar, e por isso eventualmente a eliminar numerosos elementos da comunidade da terra desprovidos de valor comercial, mas que são (tanto quanto sabemos) essenciais para que ela funcione saudavelmente” e acrescentava que as instituições de educação para a conservação não ensinavam nenhuma obrigação ética para com a terra.
No mais conhecido e debatido texto de Pensar como uma Montanha intitulado A Ética da Terra, Leopold, depois de referir que “a relação com a terra é ainda estritamente económica, implicando privilégios mas não obrigações”, afirma que “a ética da terra apenas alarga os limites da comunidade de forma a incluir nela os solos, as águas, as plantas e ou os animais, ou, coletivamente: a terra”
Com a ética da terra, não é impedida a alteração e gestão do solo, das águas, das comunidades vegetais ou dos animais mas é alterada a postura do homem que deixa de ser conquistador e passa a ser membro de uma comunidade alargada.

Destas ilhas de bruma que nos encantam

Escrevo da Calheta de São Jorge, terra dos meus antepassados maternos aonde passei muitos meses de férias e para aonde regresso sempre com a alegria do reencontro de familiares e amigos, estes cada vez menos porque a vida é irredutível na sua colheita. Mas, Graças a Deus, ainda vou encontrando alguns que a alegria e o calor fraterno do acolhimento dos familiares, incluindo os mais novos para quem o primo de São Miguel é a novidade das férias, ameniza a saudade dos que já partiram na viagem sem regresso.
São Jorge, ou para mim, mais propriamente a Calheta, tem pouco a ver com a terra da minha juventude, dos dias de férias passados na cais à beira mar, na baía abrigada pela alta falésia animada pela chegada das traineiras da pesca da albacora, a vinda dos iates do Pico que traziam os jornais e as noticias de casa e, uma vez por mês, o paquete, o velho e sempre adornado “Lima”, única ligação com o continente.
Hoje é tudo muito diferente, para muito melhor. O mundo está ao alcance de um clique do comando da televisão ou do computador, da ligação imediata e perfeita do telemóvel ou do mais prosaico dos telefones e o avião vem todos os dias com turistas que se espalham pelos caminhos da ilha, num encontro com a natureza, simples mas sempre bela, mesmo com a neblina que faz destas ilhas as terras de bruma cantada pelo poeta. Os barcos aparecem por aqui, praticamente, todos os dias. Os pequenos cargueiros do tráfego interilhas na sua tarefa constante de trocar mercadorias ou os confortáveis barcos rápidos, como por cá dizem, complementando o trabalho do velho, mas confortável e eficaz, “Expresso Santorini”, que até traz os automóveis, o que nos meus tempos de rapaz era impensável.
Sessenta anos depois tudo é diferente, para melhor, muito melhor, testemunho da valia da Autonomia, que permitiu mudar os Açores. Em pouco mais de trinta anos, todas as ilhas avançaram como nunca no passado acontecera. Ganharam qualidade de vida, traduzida em boas redes de estradas, possibilidades de completar a instrução até esgotar o velho secundário, um sistema de saúde que transmite confiança, de acessibilidades e de apoios sociais, na inquestionável prova de que “a livre administração dos Açores pelos açorianos” é o caminho certo. Não está tudo feito, é verdade. Mas para concluir o que falta e melhorar o que já existe, tarefa de todos os dias e de todos nós, é indispensável o espírito de unidade e de realismo que alguns, dominados pelo exacerbado bairrismo ou partidarite aguda, tentam minar.
O que é sempre igual, louvemos a Deus, é esta paisagem magnífica que se desdobra em nossa frente, por estes dias emergindo do cinzento das nuvens baixas, de um Pico altaneiro, olhando, de vez em quando, sobranceiro, mas magnífico, para um mar que bravio ou manso, é a seiva que cria e alimenta este espírito de açorianidade que nos irmana.
E porque a Calheta de São Jorge está, como acima saúdo, a um clique do mundo, as balbúrdias políticas que o rectângulo, como diria Alberto João Jardim, vive e o auto reconhecimento de fracasso que Cavaco Silva exibiu domingo passado, também foi aqui escutado, mas não perturbou a alegria das Festas de Julho que trouxe muitas centenas de visitantes à Calheta, embora adense o clima de insatisfação e apreensão em que lançou o País, na certeza de continuarmos a ser governados por uma administração em desagregação interna, fixado numa política de austeridade que sendo necessária, temos de admitir, poderia, como muitos autorizados defendem, assumir contornos menos penalizadores dos portugueses e, muito especialmente, dos açorianos que tem as contas da sua vida colectiva, bem arrumadas, a fazer fé nas repetidas declarações dos responsáveis.
E, também, não passa desapercebida a preocupação pelo que irá sair da apreciação, prevista para hoje, de uma nova versão da Lei de Finanças Regionais que não respeita os legítimos interesses da Região Autónoma dos Açores e ignora, o que é mais um testemunho do desrespeito da Constituição por parte da República, os pareceres dos legítimos representantes da Região Autónoma dos Açores.
Aguardemos o que, uma vez mais com poucas ou nenhumas esperanças, nos chegará
da República que, como diz um velho amigo aqui da Calheta ligado às coisas do mar, de Leste nunca vem nada de bom…

Remexer agricultura regional (XIII)

Em Setembro de 1843, em Ponta Delgada, fundou-se a Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense. Conforme o que consta da sua primeira ata, assinaram-na sessenta e duas personalidades, que se chamaram de “sócios contribuintes”, entre as quais e entre outras, encontravam-se os principais proprietários agrícolas de S. Miguel.
Essa importante “associação de produtores” surgiu sob a premência das dificuldades que enfrentava o grande negócio agrícola desse século, e, muito provávelmente, também, de todos os outros já havidos desde a chegada dos primeiros povoadores. O do cultivo e exportação de Laranja para a Inglaterra.
De entre essas dificuldades salientam-se as seguintes: aumento da concorrência por parte de laranjas de outras proveniências; necessidade de se analisarem e aperfeiçoarem vários aspetos da condução da cultura, nomeadamente no que se referia a compassos de plantação; instalação de sebes de abrigo; cuidados a haver na colheita dos frutos e do seu embalamento para o embarque; dimensões das embalagens de madeira usadas para isso e, também, aprender a lutar contra os primeiros inimigos naturais das laranjeiras - o “ Bicho da laranjeira (Ctíccus hesperidium) e o fungo que provocava a doença da Lágrima ou Gomose.
Todas essas dificuldades faziam prever, com grande preocupação, que se estava a caminho da decadência desse grande negócio e, por isso, era urgente e necessário pensar em preparar o futuro da Agricultura micaelense. E era isso, também, aquilo a que se propunha a referida Sociedade.
Entre muitas outras acções de grande importância, deve-se à Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense a chegada a esta ilha de novos e importantes cultivos agrícolas, tais como os do Chá, do Tabaco da Beterraba Sacarina, da Espadana, da Chicória, da Criptoméria, da Batata-doce. E, todos esses, com o intuito claro de se gerarem novas agroindústrias.
Também na área do melhoramento do armentio bovino leiteiro da ilha começaram a surgir novas iniciativas. A comprovar isso transcrevemos do nº 213 do jornal semanário da Ribeira Grande “O NOTICIARISTA”, de 23 de Julho de 1886, a seguinte noticia:

GADO
São 7 touros e 9 vacas, das 1ªs raças inglesas, que vieram no “ATLÂNTICO” para o Sr. José Jácome Correa (sócio subscritor da mencionada Sociedade). É o mais bonito que se tem visto em gado bovino.

E, na vitivinicultura acontecia o mesmo. Do nº 221, de 18 de Agosto desse mesmo ano, e desse mesmo jornal, também transcrevemos a seguinte noticia:

NO PAQUETE “AÇOR”
Chegou a esta ilha Mr. Alphonse Chaumet, preparador de vinhos. Veio contratado pela Sociedade d’Agricultura Michaelense para aperfeiçoar quanto possivel a nossa produção vinícola.

E, um outro aspeto muito importante. Ao mesmo tempo que surgiu essa Sociedade, ela começou a editar um “periódico”, a que chamou de “O AGRICULTOR MICHAELENSE”. E quem se der ao trabalho de folhear, de olhos bem abertos, o primeiro número desse jornal, na coleção que a Biblioteca e Arquivo Publico de Ponta Delgada nos disponibiliza, poderá ler o seguinte:
“O AGRICULTOR MICHAELENSE” - Com esta denominação vae a Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense publicar um periódico, dedicado á illustração da classe agrícola açoriana; e, especialmente, a auxiliar os Lavradores michaelenses na cultura do seu extencissimo solo, por meio da divulgação dos apropriados conhecimentos agronómicos...”.

E, tudo isto, essa prestimosa Sociedade e o seu jornal, em iniciativas que foram novidades absolutas em todo o nosso país! Um bom alento para o orgulho micaelense!
Perante o valor e a oportunidade de todas essas realizações, agora, em pleno século XXI, podemos dizer que nunca houve nesta ilha uma ação de planeamento agrícola tão bem gizada e tão bem alcançada em todos os seus objetivos de renovação e de diversificação da nossa Agricultura, como aquela que os Fundadores da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense aqui realizaram. Isto obriga-nos a refletir e a estabelecer comparações com o que agora se vai passando com a nossa Agricultura. E será acerca de tudo isto que iremos prosseguir nesta nossa reflexão pessoal.

Ponta Delgada, Julho de 2013

A Morte no Barroco: Água Retorta e o Faial da Terra no século XVIII - I Parte


O presente estudo advém de uma salutar persistência académica, que remonta a 1995 e ao I Livro de óbitos do Faial da Terra, entre os anos de 1730 e 1751. Inseridos na era designada por Antigo Regime, correspondem a um período histórico compreendido entre o século XVI e XVIII, economicamente caraterizado pelas actividades agrícolas e pelo desenvolvimento do grande comércio colonial. Socialmente prevalecia a divisão hierárquica de três ordens ou estados e politicamente vigorava o absolutismo régio. Desenvolvia-se o mercantilismo, política económica dos principais países europeus em que se advogava que quanto mais metal precioso um país acumulasse, mais rico e poderoso se tornaria. A solução assentava no comércio ultramarino, caracterizando-se o Estado como proteccionista. A Sociedade era de ordens ou estados, dividida em Nobreza, Clero e Povo, usufruindo os dois primeiros de regalias ao passo que o terceiro não. Cada ordem distinguia-se pelo seu estatuto jurídico próprio (direitos e deveres), pelas formas de tratamento, regras de convivência e vestuário. Dentro de cada ordem existia ainda uma hierarquia própria.
Em Portugal, reinava el-rei D. João V num dos reinados mais extensos da História e bafejado pela riqueza do ouro brasileiro, apesar do seu reinado ter começado em crise, tal como terminou. Polémico pela opulência mas amado como patrono das artes e pela sua política diplomática com todos os grandes reis e imperadores da altura, D. João V é considerado o imitador português de Luís XIV pelas características em comum, em que o Absolutismo será a predominante, bem como um apoio incondicional do papado que lhe valeria o título de “fidelíssimo” por Bento XIV, colocando-o ao nível do imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Francisco I da Áustria. Faleceria no penúltimo ano em estudo, em 1750, subindo ao poder o seu filho, el-rei D. José I. Nos Açores e do ponto de vista político tentava-se um reforço do poder do rei, sempre travado pela conservação dos costumes e privilégios anteriores, apoiados em pareceres dos tribunais que obviamente esperavam do rei a manutenção de um justo equilíbrio e respeito pelo costumado.
Do ponto de vista eclesiástico, os Açores têm a sua diocese desde 1534, que se tornaria sufragânea do arcebispado de Lisboa em 1550. Susana Goulart Costa refere que “ao longo do tempo, e principalmente a partir do século XVIII, as exigências dos prelados açoriano aumentam, quer em relação ao comportamento dos fiéis, que é relação à postura dos sacerdotes […]2”, aliás como será referido neste estudo. Seguindo as orientações do Concílio de Trento, impõe-se um ideal de exemplaridade, apelando à lisura do padres como modelo de virtude e fé para os leigos, fiscalizando o seu comportamento e concentrando esforços na educação, quer dos novos padres, como do povo que enchia as igrejas açorianas.
Este, sem ciência, vive a doutrina com a esperança da salvação eterna, fugindo ao purgatório e ao inferno, sempre sobrelotado, cumprindo os sacramentos do Batismo, da Confirmação, da Confissão, da Eucaristia e da Extrema Unção e festejando o Natal e a Páscoa. Enterrando-se nas Igrejas, procura assistir e praticar a doutrina como forma de garantir uma passagem sem tumultos para o além, numa época de crescimento populacional e de reforço de poder, quer seja real, como religioso. Do ponto de vista demográfico, a fase final do estudo vai de encontro a uma fase muito importante da emigração açoriana para o Brasil, patrocinada pela coroa e que se inicia a partir de 1747. Estudos apontam para que nos anos de 1793/4 e na ilha de São Miguel, existisse uma sobrevalorização dos nascimentos masculinos, em especial nos concelhos de Ribeira Grande e Vila Franca do Campo/Nordeste. Contudo, existia uma proporção de 100 mulheres para cada 79 homens, valores que se poderão justificar em virtude no fenómeno migratório deste tipo de sexo e numa sobremortalidade masculina. Registos da época permitem perceber que a população de Água Retorta e do Faial da Terra terão aumentado entre 1723 e 1772, uma vez que no primeiro ano existiriam 999 fogos com 3.964 confessados e no segundo, 1.880 fogos com 6.675 confessados. A ilha teria nesta altura 57.008 habitantes dos quais 1680 pertenceriam ao clero, sendo a sua taxa de densidade habitacional de 76,3 habitantes/km2, oscilando em concelhos como Nordeste e Vila Franca do Campo (43,1 habitantes por km2). Por fogos, a ilha apresentava uma dimensão média de 3,84 habitantes, tido como normal para a época. No que concerne às taxas brutas de natalidade e mortalidade, seria a primeira de 36,52% e a segunda de 27,96%, baixa quando comparada com um estudo similiar realizado para Salvaterra de Magos mas comparável à realidade de algumas zonas francesas desse período. Do ponto de vista da produção cerealífera, o século XVIII representou um período de crise em virtude do estado de exaustão da terra e a um conjunto de maus invernos, hoje correspondentes ao que alguns cientistas designam como “pequena Idade do Gelo”. Se os valores apontados para o milho (ainda pouco preponderante na dieta alimentar) estão a um nível normal (com tendência a decrescer), os de trigo são escassadíssimos já desde longa data, muitas vezes em virtude de profundos temporais que também foram identificados no presente estudo, ameaçando de fome os seus habitantes.
Do ponto de vista da arte e da moda vivia-se o Barroco, um movimento cénico que trespassa os séculos XVII e XVIII, manifestando-se na arquitetura, na pintura, na escultura, na música e na literatura. Seria mesmo um estilo de vida, caraterizando-se pelo fausto e por uma revisão espiritual em oposição ao racionalismo renascentista. Esta particularidade far-se –ia sentir também na morte? E em Água Retorta e Faial da Terra? Em um período no qual a Igreja Católica procurava recuperar o espaço perdido com a Reforma Protestante e em que os monarcas admitiam poderes divinos, o barroco busca conciliar a espiritualidade e a emoção da Idade Média com o antropocentrismo e a racionalidade do Renascimento. A sua característica marcante é portanto, o contraste, transmitindo a ideia de drama e a opulência da sociedade da época. Também o seria nos rituais fúnebres? De que forma? Foram questões como estas que motivam a escolha do presente tema e que se espera de alguma forma, esclarecer. Inferir dos rituais da morte, uma sociedade profundamente estratificada em três ordens sociais, será outro dos objetivos do autor deste estudo, procurando-se nas manifestações da morte, provas da riqueza das ordens privilegiadas.
Este estudo compreende vinte e um anos de análise. As freguesias do Faial da Terra e de Água Retorta são contemporâneas do povoamento do núcleo original da ilha de São Miguel, ou seja da Povoação velha em finais da década de 1430. Água Retorta era ainda no século XVIII, pertencente à jurisdição de Faial da Terra, ambas por sua vez integradas no concelho do Nordeste, ao contrário da atualidade, ou seja da Povoação, concelho criado em 1839. As variáveis abordadas reportam-se aos meses e anos; ao estado civil; sexo; número de missas; sepultura; grau de parentesco; testamentos; acompanhamento, tipo de mortalha, ofícios e exéquias num universo de 223 óbitos cuja interpretação por anos permite constatar mudanças abruptas, numa continuada irregularidade cujas oscilações atingem os principais picos em 1735, 1744 e 1746. O caso de 1744 seria específico uma vez que o dia 5 de outubro constitui um dia de calamidade natural. Aliás, este triénio constitui a maior amplitude em estudo uma vez que da morte de três pessoas em 1742 passou-se para 19 em 1743, sem razão aparente embora se torne relevante o facto de ser um dos anos em que se verificam casos de ausência de santíssimo viático, por os vómitos não o permitirem, o que poderá indiciar um surto epidémico, atingindo-se os 28 casos em 1744.
Os meses predominantes nos óbitos eram os de mudança de estação, em especial na Primavera e Outono, nomeadamente março, maio, junho e Outubro. Não apresentando uma regularidade anual, estes meses caraterizam-se por períodos altos em determinados anos, como por exemplo no ano de 1744 para o mês de outubro e os de 1735 e 1746 para o mês de maio, o que poderá indiciar novamente surtos epidémicos ou períodos de fome, usuais neste século. Apenas março, mês de transição entre o inverno e a primavera demonstra alguma regularidade nos valores e agrupando os óbitos por estações do ano, verifica-se a predominância dos óbitos nos períodos de frio, nomeadamente no Outono com 30%. Juntando-o com o Inverno, atinge-se os 56%, seguindo-se a primavera e o verão. Da mesma forma, ao juntar o inverno com a primavera continuamos a ter mais de metade dos casos, ou seja 51% dos óbitos em estudo.
A supremacia feminina entre os anos de 1730 e 1744 é apenas quebrada pelos anos de 1733 e 1739 e equilibrada nos anos de 1732 e 1740, situação que se mantém nos anos de 1745 e 1748, sendo a predominância dos falecidos entre 1745 e 1751, masculina, atingindo-se o equilíbrio em 1750. Dá-se uma inversão. Contudo, em todos os anos (excepto 1750) e independentemente do sexo, o valor de desequilibro entre ambos é praticamente o dobro de um sexo para o outro. O que poderá ter motivado esta inversão? Tendo em conta o que se referiu do período anterior, poder-se-ia concluir que eventualmente seriam os consortes viúvos, o que não é real, uma vez que a predominância da morte masculina é sobre casais e solteiros.
Entre as idades mais atribuladas, realça-se a idade entre 31 e os 60 anos como a de maior risco, uma vez que dominam onze dos vinte e um anos e estudos (incluindo toda a década de 1740 com a excepção de 1740/45/46) seguindo-se a dos mais de 60, com seis anos. Apesar dos registo das idades apenas se iniciar em 1733, é um facto que a década de 1730 será dominada pelos maiores de 60 anos, com a excepção dos anos de 1734 e 1739, invertendo-se esta situação na década seguinte. O que se terá passado? Se efetivamente uma das razões para que o maior número de óbitos femininos fosse causado por uma emigração masculina para o Brasil, não seria de conhecer os maiores níveis de mortalidade sobre a população idosa? Ou então numa década por completa dominada pelo sexo feminino? Quando analisada por sexos, sobressai uma primeira metade dominada pelo sexo feminino, e uma segunda metade pelo masculino.
Existem vários anos em que não foi detetada morte infantil, podendo indiciar o registo de crianças só a partir de uma certa idade, dentro dos oito ou nove anos “pouco mais ou menos” como os registos fazem referência e lançando a dúvida sobre o rigor das fontes, o que se aplicará também à questão feminina e ao registo imperativo dos rapazes, em especial dos varões. No que concerne à esperança média de vida, é grande a irregularidade com oscilações entre os 28 anos (1744) e os 62 anos (1736/1741) não aparentando uma congruência lógica em relação ao ano anterior e posterior, detetando-se clivagens na casa dos dez a vinte casos de um ano para o outro. A esperança média de vida de todo o período em estudo foi de 42,7 anos, praticamente metade da atual, cifrada nos 79,5 anos.
Neste contexto de vivência com uma morte que ocorria em casa e sentida por toda a freguesia, “O ritual da administração dos sacramentos ao doente em perigo de vida” (capítulo IV do Ritual Romano) tornava-se capital uma vez que o rito contínuo da Penitência, da Unção e do Viático a atribuir ao doente nas suas horas terminais assegurava a passagem para um mundo melhor. O ato da confissão (Penitência), o primeiro de todos, deveria preparar a celebração que se seguiria. Contudo, e em caso de perigo eminente, deveria ser de imediato ungido com uma única unção, recebendo de seguida o viático. Em caso extremo de perigo, deveria ser-lhe dado de pronto o Viático “… de modo a que na sua passagem desta vida vá fortalecido com o Corpo de Cristo, penhor da ressurreição3”. Está estabelecida a importância e hierarquia dos sacramentos a atribuir na hora da morte e a preocupação de 76% do universo estudado ao contrário de 9% que sofreram de morte repentina por terem caído ao mar ou por não terem chamado o cónego. “É uma graça do Espírito Santo, cuja Unção apaga os pecados ainda não expiados bem como os vestígios do pecado, alivia e conforta o ânimo do doente, despertando nele uma grande confiança na misericórdia divina. Assim confortado, o doente suporta melhor os incómodos e sofrimentos da doença e resiste mais facilmente às tentações com que o demónio o assalta e até, se isso for conveniente para a salvação da sua alma, obtém por vezes a saúde do corpo4”. Das indicações do concilio Florentino referido pelo Papa Paulo VI e sobre a Extrema Unção, se depreende que “que a sua não execução não apaga os pecados, podendo o moribundo ser alvo do demónio sem possibilidade de salvamento sem ser pela oração”5. António Manuel Martins da Silva, no seu trabalho “Alminhas do nosso olhar” refere que para os católicos, as pessoas que morrem na graça e na amizade de Deus, mas que ainda não estão totalmente purificados, mesmo com a salvação eterna garantida, têm que sofrer depois da morte uma purificação a fim de obterem a santidade necessária para entrar no céu, aliás como Jacques Le Goff reconstituiu na sua História do Purgatório. Nas Alminhas que encontramos nos Açores, com os seus azulejos e cruzes de basalto, é isso que se pede: um pai-nosso ou uma ave-maria aos vivos que estão passando, para a salvação das almas que no purgatório estão penando, em especial se vítima de morte violenta, portanto sem extrema unção. Frei Manuel do Livramento diria-o bem, em 1753 ao destacar a necessidade de socorrer as almas daqueles que faleciam, uma vez que “no porgatorio padessem as mais mearaeis e nessissitadas”6. (continua na próxima semana)

Sérgio Rezendes

Mestre em Património, Museologia e Desenvolvimento
Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
_______________________________
1  Moraes, Juliana de Mello, O Socorro às almas do Purgatório: os sufrágios aos irmãos defuntos da ordem terceira franciscana de São Paulo, século XVIII, Departamento de História, Policopiado, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho.
2  Costa, Susana, “A Igreja e a Religiosidade”, Açores, Nove ilhas, Uma História, p. 135.
3  Cf. Conc. Trid., S. XIV, De Extrema Unctione, Cap. 1 (Cf. Ibid. Can. 1): CT, VII, 1, 355-356; Denz.-Schon. 1695, 1716, Aput “Ritual Romano - Unção e Pastoral dos doentes”, Conferência Episcopal Portuguesa, p. 85.
4  Idem, p. 13
5  Ibidem.
6  Moraes, Ibidem.

A utilização da Criptoméria como madeira de Construção

Desde há cerca de uma dúzia de anos que utilizamos correntemente a madeira de Criptoméria Japónica nas nossas obras de arquitectura em madeira. Inicialmente, as limitações técnicas locais em São Miguel impunham a utilização da mesma apenas em secções puras, isto é, as retiráveis aos troncos, com limitações de calibre e de comprimento. Com o advento das possibilidades resultantes da evolução técnica, nomeadamente a execução de elementos estruturais colados, vulgarmente designados de lamelados colados e viga ao alto “duo” ou “trio”, essa situação alterou-se e é hoje possível uma maior gama de opções técnicas no respeitante ao tipo de peças a utilizar. Contamos, entre as nossas obras, com alguns dos maiores edifícios realizados nesta madeira em Portugal, nomeadamente uma obra em Amares, Quinta do Esquilo – pavilhão de eventos, ou, em Vimioso, a Plataforma de Comercialização de Produtos Regionais e Transfronteiriços e fomos pioneiros na introdução de cobertura vegetal em edifícios montados com esta madeira, algo inicialmente pensado como impossível.
A madeira de Criptoméria Japónica utilizada em troncos não colados tem uma performance desaconselhável no Continente, uma vez que fissura com grande probabilidade e, quando fissura, apresenta calibres de fissura francamente desencorajadores. Porém, a mesma madeira em secções coladas, tem um comportamento deveras distinto, mesmo surpreendente, com uma estabilidade enorme e um comportamento perfeitamente aceitável face a qualquer parâmetro em comparação com a maioria das madeiras correntes.
Muito embora a madeira de Criptoméria Japónica apresente inúmeros problemas, nomeadamente a sua fraca resistência mecânica estrutural, assim como uma débil performance no processo de transporte e montagem, no respeitante a todo o tipo de riscos de montagem (riscos, pancadas, amassadelas), facto é que apresenta algumas qualidades que nos motivam a proceder continuamente à sua utilização como o seu equilíbrio higrométrico e a sua baixa densidade, que proporciona sobretudo dois factores de apreciação: a) a leveza das peças e a consequente viabilidade de montagem humana, isto é, muitas das vezes sem necessidade de qualquer tipo de apoio mecânico no respeitante a meios de elevação; e b) a eficácia de isolamento térmico e de conforto, que a baixa densidade ocasiona. Sendo discutível um terceiro ponto, que merece agrado ou desagrado consoante a opinião do utente final, que são as qualidades aromáticas da Criptoméria Japónica. No respeitante a imunidades, até hoje não vimos uma única viga de Criptoméria Japónica atacada por qualquer tipo de parasita ou xilófago.Embora possam ser estudadas soluções que promovam a durabilidade e a resistência às agressões destes agentes, devidamente enquadradas nas características da Criptoméria. Inclusivamente existem normativos que definem este tipo de tratamento de acordo com a classe de exposição dos elementos de madeira.
A grande desvantagem competitiva da Criptoméria Japónica é o preço. Actualmente é possível obter no Continente madeiras mais qualificadas por preços equivalentes ou inferiores ao preço da Criptoméria Japónica. Em termos de qualidade/preço encontra-se no mercado, por menor preço, por exemplo, Picea abies (Abeto) madeira de classe superior, mais densa, mais dura, com peças mais longas, etc. Especificamos o uso da Criptoméria Japónica por razões de preferência pessoal e pela relação privilegiada com um fornecedor Regional, que nos possibilita uma maior personalização na preparação e no fabrico de peças, tendo mesmo sido desenvolvido o nosso sistema construtivo específico em função dessa possibilidade. Não fora esse o motivo, ver-nos-íamos remetidos para a utilização de madeiras provindas da Europa Central.
Recomendamos a tentativa de criar sinergias e especializar a produção local com métodos construtivos adequados, uma vez que a Criptoméria Japónica implica métodos de construção específicos, para que as obras permaneçam fiáveis e estáveis, dentro ou fora do clima Açoriano. Para poder valorizar a madeira identificamos duas hipóteses: a) a comercialização já sob a forma de produto acabado com mais-valia agregada – solução de valorização ou b) baixar o preço da matéria-prima à saída, sob risco de não competitividade nos mercados globalizados internacionais. Contudo, pelas condicionantes conhecidas, será muito difícil promover a opção b), pelo que a única via acertada será a solução a). Assim, dever-se-á procurar técnicas que tenham a capacidade de colmatar as lacunas anteriormente descritas, valorizando a Criptoméria dos Açores como uma mais-valia agregada, bem como elaborar Cadernos de Encargos que promovam a utilização deste recurso tão vasto e tão subaproveitado.
Jorge Lira, Arquitecto

Nota: A Riqueza Natural dos Açores e a Construção Civil”, iniciamos a 18 de Abril a publicação semanal de um conjunto de artigos cujo objectivo é dar a conhecer ao público em geral a riqueza dos recursos endógenos na sua relação com a actividade da construção. Esta semana, à semelhança do que tem acontecido anteriormente, alargamos este contributo a autores convidados, assumindo assim a coordenação de um projecto que se pretende abrangente.

Luís Leite, Arquitecto
Francisco Câmara, Eng. Civil
Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.