2013-07-21
- Categoria: Opinião
- Criado em 22-07-2013
- Escrito por Maria Corisca
Meus Queridos! Muitos foram os recadinhos que me mandaram esta semana. Foram tantos quantos foram os eventos para todos os gostos que aconteceram por toda a ilha. Desde o Nordeste, passando pela Ribeira Quente e pelas grandes festas do Espírito Santo de Ponta Delgada a festança foi mais do que muita: A minha prima Gertrudes mandou-me um bilhetinho muito zangada porque não conseguiu ir à Ribeira Quente devido à bagunça que se passou na Festa do Chicharro, porque a organização não previu a enchente que ficou bloqueada na freguesia das Furnas, não conseguindo assistir ao concerto dos Xutos e Pontapés, apesar de terem adquirido o bilhetinho. A coisa foi de tal ordem, que deixou as centenas de jovens que na fila esperavam a sua vez, impacientes e com os nervos à flor da pele. Disse-me ela que aquilo quase ia dando para o torto… Por outro lado, nas grandes festas do Espírito Santo, segredou-me a minha comadre Isaltina que José Contente não foi comer as sopas no Campo de S. Francisco mas aproveitou os ajuntamentos para eleitoralmente se mostrar, em terreno “inimigo”. José Contente serviu largos minutos de cenário à repórter da SIC que emitia de Ponta Delgada, julgando a anafada repórter, que se tratava de um turista que aguardava a sua vez para degustar as sopas em louvor do Senhor Espírito Santo. E por falar na SIC, o inacreditável aconteceu, e isso vi eu com olhinhos que a terra há-de comer… Então não é que no programa em directo transmitido das Portas da Cidade, a histeria e berraria dos cantores e músicas pimba se misturavam com o hino do Espírito Santo que as filarmónicas iam entoando na procissão da coroação que percorria ao mesmo tempo as ruas da cidade? Não lembra ao diabo tal coisa… Os responsáveis pelas licenças camarárias que permitiram à SIC actuar no Domingo na hora da procissão nas portas da cidade, deviam saber que a procissão e a festança da televisão não eram compatíveis… Quando se quer servir a Deus e ao Diabo ao mesmo tempo não dá certo… De qualquer modo um repenicado beijinho ao Presidente José Bolieiro pela simplicidade e eficácia com que assumiu a responsabilidade da organização das festas do Espírito Santo que se tornaram na segunda maior festa de São Miguel.
Meus queridos! A minha prima Jardelina estava quinta-feira pior que estragada. Foi a Lisboa para uma consulta e quando chegou ao aeroporto João Paulo II viu que as malas tinham ficado atrás e estava sem medicamentos para tomar até que as ditas chegassem. Disse-me ela que estavam nas mesmas condições, ou seja, sem as malas, famílias inteiras com crianças e tudo… Lá tiveram que ir aos “chineses” com os euritos que lhes deram para comprarem um remedeio. Mas o que deixou a minha prima furiosa foi o facto de ter de esperar tempos sem fim para deixar a sua reclamação porque só havia uma menina da SATA para atender todos aqueles passageiros. A gente sabe que as malas podem ficar atrás, mas já são vezes a mais… Até pode ser que tenha sido preciso trocar o peso das malas por combustível para o caso de o avião não aterrar por causa do nevoeiro e ter que ir procurar outro aeroporto. Ninguém quer “ficar lá em cima”... Mas não há desculpa é para a falta de atendimento em terra… Tenham dó!
Ricos! Agora é que vamos ter turismo até dizer basta… Vão reabrir os hotéis fechados, vão construir mais e vai ser uma fartura nunca vista para a restauração e outros serviços… Com mais de 500 mil euros de apoio para os saltos no Ilhéu e para o Mundial de surf, isto vai mesmo encher. Ainda por cima temos os espanhóis a vir para cá, subsidiados pela ATA, por 340 euros para passagens e sete noites de hotel e com direito a duas crianças até 12 anos sem pagar nada… Como diz a minha prima da Rua do Poço, isto não é “vender” as ilhas… isto chama-se comprar turistas a peso de ouro. Alguém conhece algum local do mundo que faça isso a partir de Ponta Delgada? É que assim, mesmo com o meu magro vencimento da caixa eu era capaz de fazer umas férias… Continuamos a brincar com coisas sérias e depois, a quem se atreve a criticar ou a questionar, a resposta é que “quem não percebe de turismo esteja calado”…
Ricos! Muito se quer mudar para ficar tudo na mesma. Foi isso que eu pensei quando ouvi o irrequieto Berto Messias dizer com todas as letras que os socialistas vêem com apreensão as reformas da Saúde e a criação de uma gestão central para os hospitais. Podem fechar centros de saúde, podem cortar nas despesas todas, mas nem pensem fazer de São Miguel o Hospital central da Região. E acima de tudo é preciso levar o centro de radioterapia para a Terceira, porque lá e que é central, mesmo que mais da metade da população dos Açores que é São Miguel fique prejudicada… Ricos, se quando estão no poder falam assim, que seria se estivessem do outro lado? E eu a pensar que estes tiques bairristas já tinham morrido… Ó paciência!
Meus queridos! Gostei de ouvir o secretário Fagundes assumir com humildade e sem desculpas o desastre que foram mais uma vez as notas dos exames nacionais nos Açores, principalmente em Português e Matemática. O rico disse, e disse bem, que isto é uma questão pedagógica e de relação entre alunos, escola e comunidade. Mas o problema não é novo e enquanto se passam os anos em eternas discussões sobre os currículos, horários, quem manda em quem e acima de tudo, quem ganha mais que quem, os alunos vão-se afundando. Definam-se! É preciso mais tempo lectivo para tais matérias? De que estão à espera? É preciso mandar professores para formação? Mande-se… Como é que se pode ensinar bem Português se alguns professores não sabem escrever nem cuidam de falar correctamente? E ficam piores que baratas quando alguém lhes aponta qualquer erro! Assim não vamos lá…
Ricos! Ia-me dando um fanico quando li no velhinho Diário dos Açores, pela pena de Manuel Moniz, agora regressado de uma retemperante viagem aos States, a lista dos produtos que vão ser apoiados pelo Governo, nas compras dos restaurantes… Aquilo até mete caviar e tudo… Se a gente não produz agora há-de produzir um dia… e não mete o que a gente produz, como seja a nossa rica açafroa, o tomate e o capucho! Mete carne de mula, burro e cavalo, mas esquece a carne de coelho… deve ser aversão ao nome de Coelho! E, pior dos piores, apoia o abacaxi dos Açores… A desculpa é que foi um engano. Dá impressão que queriam era um “furo” na portaria para apoiar depois todo o tipo de abacaxi, com a desculpa de que nas outras ilhas não há ananás. Mas quem importa abacaxi não pode importar ananás? Enfim, como diz a minha sobrinha-neta, é difícil acertarem numa que seja! Mas se querem apoiar a restauração seja com coisa de jeito, porque cinco mil euros cabe na cova de um dente, e por favor não façam ninguém de tolo, publicando uma lista de produtos copiada de um cardápio dizendo que é para apoiar produtos da marca Açores, quando aquilo é tudo de importação… Tenham dó… Se fosse comigo a incompetência só tinha um caminho…
Meus queridos! A minha prima Lurdinhas é uma fã das redes sociais e contou-me ela que andam a dizer cobras e lagartos da visita que Cavaco fez às Selvagens, na Madeira… Como sabem, nunca fui muito com a cara do Presidente Silva, mas como sou uma mulher que respeita as pessoas e as instituições, não percebo o alarido, numa altura em que toda a Europa e o mundo estão a virar-se para o mar e para o que dele pode vir em recursos económicos… mesmo que seja lá para as calendas… Mas, para os que estão tão preocupados com os cento e sessenta mil euros que custou a viagem de Cavaco às desertas, era bom que se lembrassem quanto a Região pagou há anos para uma viagem de um recente presidente regional e sua ampla comitiva ao Uruguai, com uma incursão na Argentina… à procura de “raízes”! Às vezes, há silêncios que valem ouro!
Ricos! A Câmara do charmoso presidente Ponte; da Lagoa, vai apoiar a compra de alarmes para as Igrejas do concelho, depois do assalto feito à Igreja do Rosário, de onde levaram… um rosário e muito mais. Boa ideia. Já há muitas outras igrejas com alarme porque, como dizia o Padre António Vieira há 400 anos, nem Deus nos templos e nos sacrários está seguro… Com a bandalheira que aí vai! E ainda há quem diga que é para matar a fome e que é tudo por causa do governo e da austeridade… Tenham dó! Por um lado dizem que há todos os apoios e mais um, que ninguém fica para trás e não sei mais quê… Por outro lado, os roubos continuam e pioram. O que é que está a falhar nesta política social? Não será que estão a estimular dependências a mais?...
Ricos! Nestes dias de Verão, com o sol ainda tímido, a Polícia, como habitualmente, aproveita as praias da ilha para amealhar uns trocos que tanta falta lhe faz, e vai daí, é um tal passar multas às viaturas mal estacionadas, numa autêntica caça à coima. As praias mais castigadas são de Agua d’Alto, Moinhos e Areal de Santa Bárbara, afugentando-se assim turistas e banhistas locais, para “satisfação” dos agentes das Esquadras de Vila Franca, Maia e Ribeira Grande. Bem sei que sempre dá jeito receber mais uns trocos… mas deixem descansados os pobres que passam férias na sua terra e muitos deles nem o subsidio de férias recebem...
Os Impérios do Espírito Santo
- Categoria: Opinião
- Criado em 19-07-2013
- Escrito por Mota Amaral
Os Impérios do Divino Espírito Santo são, em toda a roda do Arquipélago dos Açores, uma genuína expressão de religiosidade popular.
A sua marca genética é profundamente laical — tal como também acontece com a veneranda tradição dos romeiros de São Miguel — harmonizando-se com o poder da Hierarquia eclesiástica dentro dos limites estritamente necessários. Ressuma daqui um perfume de cristandade primitiva, aliás bem adequado às hodiernas exigências da modernidade.
As mulheres têm na organização dos Impérios um papel fundamental, que não é apenas o de trabalharem sem descanso nos seus preparativos, mas também o de lhe imprimirem o tom adequado na sua projecção exterior: — em muitas freguesias pude comprovar que é a mulher do mordomo que põe a coroação para a rua, organizando o cortejo e nele distribuindo as funções de cada um, homens inclusive.
Fazer convergir na sede do concelho todos, ou, pelo menos, o maior número das mordomias que nele, no tempo próprio, tiveram lugar, revelou-se um motivo de satisfação para os responsáveis locais — isto apesar das canseiras naturalmente daí derivadas… — e um evento promotor de animação da cidade num período crucial para os próprios habitantes e para os turistas que nos visitam.
Não me parece procedente a crítica que já vi formulada ao envolvimento da Câmara Municipal nas Grandes Festas do Espírito Santo.
Um dos mais antigos Impérios dos Açores é o que se celebra na cidade da Horta, todos os anos, no Domingo de Pentecostes, há já vários séculos, organizado pela Câmara Municipal, em cumprimento do voto formulado por altura de uma erupção vulcânica, de cujas gravosas consequências a população da ilha do Faial foi então poupada.
Nas nossas Grandes Festas, tem-se sabido manter intacto o respeito das tradições — a mudança da bandeira, a abertura do “quarto” do Senhor Espírito Santo e das “dispensas”, a distribuição das pensões, as “sopas” (costume importado para São Miguel de outras ilhas dos Açores), a coroação, os arraiais… — juntando-lhe elementos novos, como o cortejo etnográfico e a exposição dos carros de bois, mais virados para o divertimento popular e a animação turística.
Permito-me a este respeito notar que com esta inovação — o cortejo etnográfico — os carros de bois — e os bois que os puxam… — já quase em vias de extinção, voltaram a aparecer pujantes e ficamos todos mais ricos com isso. Uma última nota para ligar as Grandes Festas de Ponta Delgada com as Grandes Festas do Divino Espírito Santo de Nova Inglaterra, anualmente celebradas na nossa cidade-irmã de Fall River, desde há mais de 25 anos, por iniciativa do Comendador Heitor de Sousa, ainda há pouco, por isso mesmo, distinguido pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores com uma elevada condecoração.
Nessas Grandes Festas, onde convergem comunidades açoreanas de vários pontos dos Estados Unidos da América, incluindo a Califórnia e também do Canadá, tem lugar uma notável celebração de açorianidade.
Como os festejos do Divino se espalham por todos os Açores, em cada uma das nossas localidades, é com admiração que verificamos a sua grandeza ao juntar as várias celebrações, por um dia, no mesmo local.
Assim se começou fazendo em Fall River, assim se passou a fazer também em Ponta Delgada, prova das influências mútuas do Povo Açoreano, nas nossas ilhas e na nossa diáspora.
Menos visíveis são para nós os Impérios do Espírito Santo do Brasil e das longínquas ilhas do Hawaii. Mas por lá também ficou, até no outro lado do Mundo, levada pelos nossos emigrantes, esta devoção tão enraizada na mentalidade e no coração dos Açoreanos, que de alguma forma contribui para definir — na abertura ao espiritual e ao transcendente e na partilha com os outros — a própria identidade açoreana.
O prólogo das Grandes Festas do Espírito Santo de Ponta Delgada tem sido sempre a conferência inaugural, proferida na Igreja Matriz de São Sebastião, onde tradição antiga refere ter aparecido a “Pombinha”, quando se rezava pelo fim da peste, numa segunda-feira de Pascoela, aí pelo século XVI ou XVII…
Este ano, por convite do Presidente José Manuel Bolieiro, o orador oficial é o Professor António Barbosa de Melo, docente jubilado da Universidade de Coimbra e antigo Presidente da Assembleia da República na VIª Legislatura, entre 1991 e 1995.
Tenho por grande honra ter-me sido pedido para apresentar o orador.
António Moreira Barbosa de Melo, nascido em 1932 em Lagares (Penafiel), casado e pai de quatro filhos, avô de vários netos, é uma figura marcante da Academia e da sociedade portuguesas.
Aluno distinto da Faculdade de Direito da vetusta universidade conimbricense, nela exerceu funções de investigação e de ensino, preparando sucessivas gerações de estudantes.
Longe de se encerrar na “torre de marfim”, que é refúgio de muitos cientistas e homens de leis, propiciador das suas reflexões, o Professor Barbosa de Melo manteve sempre um atento envolvimento com a sociedade, participando na identificação e resolução dos seus problemas e assim granjeando notoriedade e merecido prestígio.
Com a Revolução do 25 de Abril, António Barbosa de Melo surge na liderança do chamado Grupo de Coimbra, que adere ao Partido Popular Democrático, fundado por Francisco Sá Carneiro, com um acervo preciso de princípios doutrinais e propostas programáticas, que vieram a enriquecer os documentos partidários fundamentais.
Na Assembleia Constituinte teve lugar na primeira linha da bancada social-democrata e em poucos meses assumiu mesmo o cargo decisivo de Presidente do Grupo Parlamentar.
No exercício dessa responsabilidade, prestou aos Deputados insulares do então PPD apoio precioso na elaboração dos preceitos da Constituição referentes à nossa Autonomia. E por isso e pelo interesse com que acompanhou e aconselhou a implantação das novas instituições, no Estado e no Partido, fica a figurar na nossa História Autonómica.
Na Assembleia da República, nas várias legislaturas em que foi Deputado, sempre eleito por Coimbra, destacou-se pela sua profunda reflexão sobre os problemas nacionais, pela sua palavra serena, sempre respeitada, pela sua criatividade, como jurista de fôlego, aplicada nas variadas questões da organização do Estado Democrático e da garantia dos direitos e liberdades dos cidadãos.
Foi natural a eleição para Presidente do Parlamento, em reconhecimento da sua experiência política, da sua capacidade em promover consensos, do respeito desfrutado entre os Deputados de todos os partidos e entre os líderes de opinião por todo o País.
Empenhado na consolidação e fortalecimento do regime democrático, o Professor Barbosa de Melo dispensou muitas energias na estruturação do Poder Local e na preparação dos seus quadros dirigentes, correspondendo a pedidos de ajuda solicitados pela Associação Nacional dos Municípios Portugueses.
Em reconhecimento dos seus muitos méritos cívicos, sucessivos Presidentes da República distinguiram-no com as mais altas condecorações nacionais, nomeadamente a Ordem de Cristo e a Ordem da Liberdade, ambas no grau de Grã-Cruz. É esta personalidade de excepção que agora nos dispomos a ouvir, na conferência inaugural das X.ªs Grandes Festas do Espírito Santo de Ponta Delgada.
Conhecedor das nossas tradições espiritanas, nas quais alguma vez pôde até participar, escolheu como tema da sua fala: “O Espírito Santo na tradição popular ”.
Julgo que podemos, já antecipadamente, estar gratos ao orador e a quem nos proporcionou o prazer de o ouvir, o Presidente José Manuel Bolieiro, pelo elevado interesse e qualidade da dissertação desta noite.
De um professor de Coimbra só podemos esperar uma “oração de sapiência”. E o Professor Barbosa de Melo, fecundando uma profunda cultura clássica com a prudência antiga das raízes populares, de que nunca abdicou, no brilho prateado das suas cãs octogenárias, é um verdadeiro sábio!
*Discurso do Deputado João Bosco Mota Amaral, na apresentação do Professor António Barbosa de Melo como orador oficial na conferência inaugural das Xªs Grandes Festas do Espírito Santo de Ponta Delgada (Igreja Matriz de São Sebastião, de Julho de 2013)
Evitar “garotadas politiqueiras” * e falar um pouco de História
- Categoria: Opinião
- Criado em 17-07-2013
- Escrito por Gustavo Moura
José Manuel Bolieiro defendeu que os imigrantes residentes no concelho de Ponta Delgada, vindos dos quatro cantos do mundo, devem ter uma participação activa nas decisões do Município.
O Presidente da autarquia falava no Centro de Estudos Natália Correia, na Fajã de Baixo, após a conferência realizada pela AIPA (Associação dos Imigrantes nos Açores), através do Centro Local de Apoio ao Imigrante, para assinalar o Dia Municipal do Imigrante e do Diálogo Intercultural, instituído em 2012 pela Câmara de Ponta Delgada.
Na conferência, proferida pelo sociólogo e professor da Universidade dos Açores Licínio Tomás e organizada em parceria com a autarquia, José Manuel Bolieiro apontou o Orçamento Participativo como uma porta aberta para a participação activa dos milhares de imigrantes que escolheram Ponta Delgada como “porto de abrigo”.
“No Orçamento Participativo, a Câmara de Ponta Delgada quer contar com o contributo de todos para a boa gestão dos dinheiros públicos e, também, dos nossos imigrantes” - disse.
Considerando Ponta Delgada como uma cidade inclusiva e multicultural, que sabe acolher bem quem a visita e quem a escolhe como a terra de residência, o Presidente sublinhou que a autarquia a que preside acolheu, em boa hora o desafio lançado pela AIPA no sentido de criar o Dia Municipal do Imigrante e do Diálogo Intercultural (15 de Julho).
Mas, José Manuel Bolieiro lançou também um desafio à AIPA para que a associação celebre este dia não apenas de forma simbólica, com a realização de conferências e, sim, ao longo de todo o ano, com iniciativas diversas que dêem a conhecer a toda a comunidade a cultura dos imigrantes que vivem em Ponta Delgada.
Neste sentido, mostrou total abertura por parte da Câmara para ser parceira da AIPA na realização das iniciativas que a associação entender por bem realizar.
No concelho de Ponta Delgada concentram-se mais de 30% dos imigrantes residentes nos Açores e mais de 70% dos que vivem na ilha de São Miguel. Por isso mesmo, José Manuel Bolieiro destacou a importância do papel do Poder Local na integração dos imigrantes na sua comunidade de acolhimento.
Ainda sobre o Dia Municipal do Imigrante e do Diálogo Intercultural, cujo pioneirismo de Ponta Delgada foi salientado durante a conferência, o Presidente referiu que a sua instituição “não está dependente de conjunturas e envolve o simbolismo do sentido plural da nossa comunidade”. “Em Ponta Delgada, o Dia Municipal do Imigrante e do Diálogo Intercultural representa não apenas o pensar globalmente e o agir localmente, mas também o verdadeiro sentido da integração, da inclusão e da interculturalidade” - adiantou.
No entanto, o autarca reforçou que a integração e a inclusão dos imigrantes tem de passar pela sua participação activa nas decisões que são tomadas pela governança local e, porque “o imigrante é empreendedor e contribuinte, deve ter o mesmo direito à informação e ao acesso a tudo a que tem direito em plena igualdade de circunstâncias com os restantes munícipes”.
O sociólogo Licínio Tomás, na conferência intitulada “O Contributo dos Imigrantes no desenvolvimento do Concelho de Ponta Delgada”, fez o diagnóstico da população imigrante aqui residente e sublinhou a importância da parceria da Câmara Municipal com a AIPA para a integração e inclusão das comunidades que escolhem este concelho para viver e trabalhar, referindo que também elas contribuem para o desenvolvimento social e económico da terra que os acolhe.
Um contributo que, no seu entender, passa, por exemplo, pela criação de novos serviços, sobretudo de âmbito cultural, pelo enriquecimento cultural e pela ampliação das redes de sociabilidade.
Paulo Mendes, Presidente da AIPA, também fez questão de evidenciar a importância da parceria da Câmara de Ponta Delgada com a associação na realização de diversas iniciativas, destacando o pioneirismo da autarquia presidida por José Manuel Bolieiro na instituição do Dia Municipal do Imigrante e do Diálogo Intercultural. Também Leoter Viegas, do Centro Local de Apoio à Integração de Imigrantes, apontou a parceria da autarquia como essencial, e elogiou o facto de o Orçamento Participativo municipal estar também aberto à participação dos imigrantes.
Democracia moribunda
- Categoria: Opinião
- Criado em 17-07-2013
- Escrito por Teófilo Braga
1- A escola não educa
Durante grande parte da minha vida, acreditei que com o tempo a democracia, instaurada com o golpe militar de vinte e cinco de Abril de 1974, se aperfeiçoaria, que as gritantes desigualdades económicas e sociais se esbateriam e que a escola seria um dos principais instrumentos para a concretização do sonho de uma vida melhor para todos os seres humanos.
Hoje, passados trinta e nove anos, a minha desilusão é total e, tal como muitas outras vozes que se têm manifestado, considero que a democracia representativa está esgotada, que os partidos políticos, sem exceção, estão desacreditados, que os cidadãos foram lenta e progressivamente levados, pelas elites que nos têm governado, à apatia e ao descrédito.
Os partidos políticos que deveriam representar classes sociais, correntes de opinião ou ideologias políticas descaracterizaram-se e hoje parecem-se mais com autênticos sacos de gatos, de várias cores e raças, juntos quase e tão só para satisfazer clientelas e para promoção pessoal de dirigentes, de familiares e amigos chegados.
A escola com as diversas disciplinas que vai tendo, como Desenvolvimento Pessoal e Social, Educação para a Cidadania, etc. poderia ter dado um contributo para fazer com que a democracia representativa deixasse de ser apenas a rotina periódica de votar ciclicamente em pessoas que por vezes não têm quaisquer escrúpulos em prometer o que não podem cumprir, em não ouvir as pessoas que dizem representar e em “roubar” o dinheiro de todos os contribuintes.
Mas, ao contrário do que seria de esperar a escola pouco fez ou faz porque mais não é do que o reflexo da sociedade e, se tal como sem ovos não se fazem omeletes, também sem democratas convictos não se pratica a democracia. Basta estarmos atentos aos acontecimentos dos últimos tempos para percebermos que maus exemplos são transmitidos pelas escolas, desde associações de estudantes que são correias de transmissão, a tomadas de posição de órgãos de gestão, que a comunidade escolar toma conhecimento pelos órgãos de comunicação social, até à existência de um órgão, a Assembleia de Escola, que não ausculta a opinião da comunidade educativa e que não presta contas do seu trabalho a ninguém.
2- As eleições autárquicas em contexto de deseducação
Embora descrente, pois sinto que os meus representantes nunca cumpriram com o que deles esperava e não querendo ser representante de ninguém, decidi envolver-me nas próximas eleições autárquicas,
Pelos contatos que tenho tido com conhecidos e desconhecidos, tenho-me apercebido de que, a par de um desinteresse generalizado por parte da grande maioria que não acredita em ninguém, há pequenos grupos de pessoas que agem como se os partidos políticos fossem clubes de futebol ou, pior do que isso, fossem agências de emprego.
No que se refere a candidaturas ou candidatos, é possível assistir a um pouco de tudo, de modo que a participação numa determinada lista não depende dos projetos ou das ideologias das forças partidárias, mas dos previsíveis ganhos pessoais que possam ser alcançados para si ou para familiares, dos conflitos pessoais tidos com os cabeças das listas por que concorreram em eleições anteriores ou mesmo pela ordem por que foram convidados.
Sobre este último ponto, convém esclarecer que as pessoas disponíveis são muito poucas pelo que muitas delas já receberam convites por parte de todas as candidaturas já anunciadas e de outras que irão surgir em breve, pelo que, estando as cabeças vazias de projetos e de vontade de servir o bem comum, o critério para a sua participação é o de aceitar o primeiro convite que receberam.
A propósito de bem comum, parece que é objetivo que anda completamente arredado da cabeça de muitos. A título de exemplo, conheço um candidato a presidente de uma junta de freguesia que contatado por uma outra lista, depois de agradecer o convite e de mostrar que se sentia honrado com o mesmo, declarou que já havia sido abordado por outros, mas que estava à espera de saber o teor do convite (ou melhor que cargo lhe seria oferecido), pois considerava que já havia sido presidente da respetiva junta mas que a freguesia era muito pequena pelo que o projeto não o motivava.
Como a pessoa referida surge como primeiro candidato à assembleia da freguesia em causa, fico, sentado, à espera de saber que outra oferta lhe terá sido feita.
Remexer a agricultura regional (XII)
- Categoria: Opinião
- Criado em 16-07-2013
- Escrito por Ezequiel Moreira da Silva
Neste conjunto de escritos que aqui temos vindo a publicar acerca do interesse e oportunidade de se remexer a Agricultura regional, já referimos as principais culturas agrícolas que, de há muito, por aqui praticamos. Devíamos referir ainda algumas outras, especialmente da área das Hortícolas, com as quais se obtinham rendimentos muito mais expressivos do que aqueles que já indicamos para outros cultivos; que garantiam o nosso abastecimento e interessavam a muitos agricultores. Mas, acerca dessas, não nos foi possível alcançar os mesmos números estatísticos que conseguimos para todas as outras. Sobretudo, referentes ao período dos fins da década de 40 e princípios da de 50 do século passado. É que, na nossa opinião, esse período foi de importância fundamental em toda a evolução que se iniciou, então, na nossa Agricultura.
Foi nessa altura que se instalaram em S. Miguel duas importantes unidades industriais para a utilização e transformação do leite de vaca e se iniciou a nova, grande e imparável emigração para o Canadá. E, depois disso, muitas outras coisas começaram a acontecer dentro da Agricultura regional.
Porém, para que essa série de escritos fique mais completa em relação aos considerados como principais, temos ainda de aqui mencionar uma outra cultura - a do trigo.
Logicamente, o trigo e outros cereais de pragana chegaram a esta ilha juntamente com os primeiros povoadores. E, logo a seguir ao desbravamento das primeiras ciareiras, quando eles lançaram à terra as primeiras sementes desses cereais, como elas, no seu desenvolvimento, trouxessem caules com a grossura de canas e, nas espigas, não houvessem grãos, esses primeiros agricultores, também amedrontados com a frequência dos fenómenos vulcânicos, apressaram-se a comunicar para o Infante D. Henrique que “isto não é terra de dar pão! Isto é uma terra do demónio!” (in Saudades da Terra, livro IV, de Gaspar Frutuoso). Porém, o Infante, como os seus desígnios para os Açores iam muito para além disso, foi fazendo “orelhas moucas” para com todos esses pedidos de libertação...
Pouco anos depois, com a virgindade e viço das terras já “amansado”, já saiam daqui caravelas com cereais açorianos para o abastecimento do Continente e das “praças” portuguesas ao longo da costa africana.
Logo após a instalação do Posto Agrícola da Ribeira Grande (1948), uma das suas primeiras e grandes atividades de melhoramento da nossa Agricultura incidiu exatamente na cultura do trigo. Sob a batuta técnica do seu competente diretor, o ribeiragrandense Regente Agrícola Jaime da Silva Cabido e com a ajuda da equipe técnica que ele formou à sua volta, da qual nunca podemos dissociar o nosso bom amigo Rolando de Sousa Almeida, natural da Ribeirinha, começaram-se a ensaiar ali novas variedades de trigo, muitas delas provenientes da prestigiada Estação de Melhoramento de Plantas de Elvas. As sementes de Trigo que eram, até então, usadas pelos nossos Agricultores, eram anelas que eles iam guardando de um ano para o outro, ou, as que adquiriam aos proprietários das debulhadoras que, na época das ceifas, se instalavam por várias partes da ilha.
Com essas novas experimentações pretendia-se sobretudo, melhorar as produções; a qualidade dos grãos; a resistência das plantas contra as Alforras (o Murrão) e, também, a sua resistência contra a “acama”, logo que acontecia um sopro de vento mais acentuado. E todo esse trabalho teve uma grande influência nas melhorias do cultivo desse bom cereal.
No período que vimos a utilizar como base destas nossas reflexões (1949 a 1953), no concelho da Ribeira Grande, o cultivo do Trigo interessava, em média anual, a 2.754 Agricultores; que o cultivavam em 852,2 hectares (8.522 alqueires de vara pequena); onde produziam 1.787.383 quilos dele. Essa produção representava, então 43% da totalidade da ilha. Assim, pode-se calcular essa totalidade em 4.156.705 quilos de Trigo. Esta cultura ocupava a terra durante cerca de seis meses e rendia, por cultura e por hectare, 7.103$00. Recorde-se, novamente, que na mesma altura, a pastagem, num ano de exploração, rendia 2.097$00.
Porém, apesar do bom rendimento que se obtinha com a produção de trigo; do interesse que continuava a despertar; de todas as inovações que nesse cultivo estavam a acontecer, tornando-o num dos mais integralmente mecanizados destas ilhas, uma nova e surpreendente ameaça a tudo isso começou a surgir. E essa, sem ter nada a haver com as “imposições” da Natureza. Exclusivamente desencadeada por motivo da nossa fraqueza e incúria no saber preservar e manter alguns dos privilégios mais essenciais, resultantes do nosso isolamento insular.
Essa nova ameaça foram os pardais. Essa ave “simpática”, urbana, atrevida e, aqui muito mais prolífica do que o habitual noutras regiões de climas mais rigorosos, começou a espalhar-se pelas nossas ilhas a partir da Terceira e da sua base aérea, segundo aquilo que se dizia, por motivo das “saudades” de um elemento da Força Aérea Portuguesa, angustiado pela falta do piar dos pardais, ter trazido para aí, numa gaiola alguns casais deles. O que ele talvez não soubesse é que o pardal “ama” a sua liberdade em demasia, não suporta enclausuramentos e, fugindo dessa prisão, rapidamente começou a propagar-se por toda a parte. Aqui, nos Açores, esta ave nidifica mais do dobro das vezes que nidifica noutros climas onde ela existe. Uma pardaloca, depois de pôr os ovos, ao fim de 6 meses, esses já estão aptos a fazerem o mesmo. E, isto acontece, em média, seis vezes em cada ano.
Depois de bem espalhados pelas ilhas do grupo Central e aí infligindo já graves prejuízos na sua agricultura, sem que se tivesse planeado uma luta contra a sua expansão, eles começaram a chegar a S. Miguel pelos lados dos Mosteiros. E, em poucos anos, estavam tão espalhados como nessas outras ilhas.
E, nas décadas de 80 e 90 do século passado, essa ave começou a ser a maior e mais complexa causa do esmorecimento dos agricultores micaelenses pela cultura do trigo. Depois de terem afugentado as outras aves, suas concorrentes, para regiões mais altas (Canários, Pintassilgos; etc.), em bandos cada vez mais numerosos, eles caíam em cima das pequenas searas já maduras e espalhadas por várias partes e, com desmesurada sofreguidão, “despejavam” as espigas dos grãos que continham. E o “vigiar da praga”, com os rapazes andando à volta das searas com “tramelas” de canas, para os afugentar, ou a colocação de “espantalhos” também para isso, nada disso os incomodava. Eles saltavam de um lado para o outro e iam, sempre, comendo os grãos.
E, com o decorrer do tempo, o mesmo veio a acontecer com outras culturas, como com as das ervilhas e dos feijões e, nas fruteiras (ameixeiras e pessegueiros), com eles a “paparem” as respetivas florações.
Foi assim que aconteceu e continua a acontecer. Coisas resultantes dos nossos desmazelos e do nosso “destino”!
Ponta Delgada, Julho de 2013
Na Barbearia
- Categoria: Opinião
- Criado em 16-07-2013
- Escrito por Pedro Paulo Carvalho
Não sei por que diabo se homenageia tanta gente duvidosa neste país e os barbeiros que exercem uma função social indispensável são sempre relegados para um tão vil como injusto esquecimento.
Quando a medicina estava mais próxima da magia e da feitiçaria do que da gaia ciência já os barbeiros da antiguidade, entre o corte da barba e do cabelo, tratavam os males do corpo e do espírito com mézinhas e sangrias que salvavam muitas fregueses de entregarem a alma ao criador mais cedo do que o previsto pela sabedoria divina.
A barbearia exerce na nossa cultura um papel similar àquele que é exercido pelo muro das lamentações para os judeus.
Quando eu era rapaz não apreciava muito o dia da tosquia, era sempre constrangido que me entregava nas mãos do Tio Marcelino; quando me sentava o corpo retesava-se e afundava-se numa cadeira velha como a salve-rainha e ele amarrava-me ao pescoço uma toalha que me fazia desaparecer como um corpo exausto que se afunda com o cansaço num grande lençol branco e espera que a noite lhe devolva o vigor e a paz que o dia roubou.
Lembro-me que o Tio Marcelino tinha uma navalha de barba enorme, parecida àquelas que antigamente se usavam nas aldeias para matar os porcos e amolava-a numa sovela de couro antes de a passar gostosamente pelo cachaço da vitima que, se tinha o cachaço muito duro, ou muito gordo, esperneava a bom espernear como quem está a ser degolado, numa extrema agonia enquanto a navalha ia desbravando a barba do infeliz.
Apesar da ferocidade dos seus método tinha muitos clientes, o que se devia segundo diziam as más-línguas ao facto de ter sempre à mão uma revista pornográfica para regalar a clientela com a contemplação libidinosa da completa nudez feminina.
O tio Marcelino era inclinadote a contar histórias e anedotas picantes, pagando o freguês um copo de vinho por cada andedota, de forma que o homem chegava ao fim do dia com a cabeça à razão de juros e normalmente era o ultimo freguês que fechava a barbearia e o levava a casa.
Veio-me esta recordação dos tempos do tio Marcelino dos Ginetes quando há poucos dias entrei numa barbearia e enquanto aguardava a minha vez de ser atendido ouvi o seguinte diálogo entre o barbeiro e um cliente:
Dizia o barbeiro ao freguês:
- O que me diz a mais esta greve dos professores?
- Nem me fale, isto é uma cambada… O país está desta maneira e é só greves e mais greves. O que esta gente precisava era ir malhar com o corpo, na América, como eu fui malhar, para saberem o que é trabalho.
- Mas o senhor não tinha estudos, segundo julgo, não se pode comparar…
- Estudos… para que é que andam a estudar, diga-me lá?
- Se não se estuda ainda é pior, um homem com estudos sempre é outra coisa…
- Olhe que na América os que trabalhavam comigo na construção ganhavam o dobro dos professores, por isso aquilo é um grande país e isto aqui vai de mal a pior. Já antes de eu ir para a América da primeira vez quem trabalhava não tinha valor nenhum, só se dava valor àqueles que herdavam muito e tinham posses.
- O mal é da política, dizia o barbeiro, a política estragou isto tudo.
- Na América só há dois partidos e é um pais rico, aqui há tantos partidos e não há dinheiro, é uma coisa que me faz confusão, quanto mais pobres mais vícios têm, por isso é o que se vê, se a América tem pegado nisto havia de ver o que eram os Açores hoje. Junta-te aos bons e serás um deles junta-te aos maus e serás pior do que eles.
- O meu sobrinho foi hoje para o Canadá, aqui não há empregos para os jovens.
- Que idade tem o seu sobrinho?
- Tem 23 anos, tem estudos bons mas não há empregos, não há futuro; o rapaz estava farto de pedir dinheiro à mãe, o dinheiro não estica, tem uns tios no Canadá e resolveu aventurar-se. Estes filhos da mãe andaram a governar-se, estão ricos, não governaram o país e agora é este drama, outra vez a emigração, obrigados a procurar o pão no estrangeiro, com o coração destroçado e dividido entre a aventura de partir para ter uma vida digna e a desventura de ficar na miséria; havia de ver o rapaz no dia do embarque, agarrado ao cão a chorar, olhar para a casa, para a mãe, voltar as costas, é uma dor de alma tão grande, não há direito, a nossa juventude, o nosso sangue, tratados desta maneira neste país.
- Oxalá que o rapaz tenha sorte - disse o barbeiro.
- A caça não cai sempre; no meu tempo mesmo lá na América nem todos tiveram sorte; as mulheres meteram-se com os “bossas” da fábricas eles deram na bebida com o desgosto, os filhos meteram-se na droga e diziam amargurados, ‘A América foi a minha desgraça, se tivesse ficado na Achadinha não passava por isto, minha mãe tinha medo de meu pai, ele é que mandava, na América as mulheres é que mandam, os filhos viram para o lado da mãe e um homem fica a falar sozinho, não amanha vida.’’
- Mas olhe que aqui, tirando o dinheiro, isto já está como na América, as mulheres já não obedecem aos maridos como antigamente, os filhos é que mandam nos pais, é tudo ao contrário do tempo da minha criação. Bom, deixemo-nos de coisas tristes… Será que este ano o Benfica vai ser campeão? - atalhou o barbeiro enquanto passava a escova pelo pêlo do cliente.
- Oh homem, eu já não lhe disse que sou do Sporting?
- Pois, mas é que hoje eu não queria falar mais de coisas tristes…
Depois do que ouvi nesse dia na barbearia fiquei totalmente convencido que nem só da barba e do cabelo vivem os barbeiros.
Tubarão: pesca ou mergulho?
- Categoria: Opinião
- Criado em 16-07-2013
- Escrito por António Pedro Costa
Toneladas de tubarão azul foram descarregadas para um barco espanhol sem barbatanas e sem cabeça, na cidade da Horta denunciou a Shark Project, através de foram capturadas no local, uma atividade que vai contra uma recente diretiva europeia.
De acordo com aquela organização internacional, a pesca praticada pelos pescadores açorianos é sustentável e diz que são os barcos estrangeiros os grandes responsáveis pela delapidação do tubarão azul nos mares dos Açores. Quanto a receitas em venda da lota o tubarão azul não é muito rentável mas podia ser muito rentável se promoverem o mergulho com os tubarões nas ilhas.
De acordo com alguns ambientalistas, a captura não é compatível com o mergulho com tubarões que é uma experiência que está a ser praticada nos Açores com resultados extremamente positivos. A aventura com os tubarões é um segmento turístico que está a ser promovido sobretudo na ilha do Pico, onde se podem descobrir os segredos de dois tubarões pelágicos sinónimo com o oceano profundo - o tubarão-azul e Mako.
Trata-se de uma oportunidade única e excelente para mergulhadores e surgiu a partir de um projeto bem sucedido realizado em colaboração com profissionais fotógrafo subaquático Jan Reyniers, tendo-se vindo a explorar as águas açorianas nos últimos anos procurando maneiras de fotografar esses animais esquivos.
A proteção ambiental e a defesa da biodiversidade marinha, à qual corresponde uma exigência de uma pesca sustentável merece um debate público, pois constitui uma matéria sensível para os interesses da Região, dado que existem defensores que não seguro o risco de extinção de tubarões, quando 90% dos pescados são da tintureira, cujo stock é ainda saudável e constitui uma das espécies mais comum no mar dos Açores.
No outro lado da balança, não é despiciente o rendimento dos pescadores desta pescaria, desde que feita em moldes sustentáveis e a pesca do tubarão ser considerada, nos dias que correm de crise económica, como um complemento importante para os rendimentos de muitas famílias.
Por isso, há que conciliar a pesca do tubarão e o mergulho com estes animais, atividade que está a crescer no arquipélago, estimando-se que o rendimento bruto total gerado por mergulho com tubarões pode atingir cerca de 4 milhões de euros, no banco Condor, sabendo-se como se sabe que é proibido o exercício da pesca naquela área até final do ano de 2014, onde, se poderia criar uma zona marinha experimental que sirva de santuário para esta espécie.
Os Açores têm a maior Zona Económica Exclusiva da UE, uma área tão vasta que oferece tantas potencialidades, pelo que temos que saber conciliar as duas atividades, sobretudo quando estamos a falar de uma espécie, como a tintureira, que não está sobre explorada.
Seria desejável que as entidades competentes procedessem a um estudo de impacto sócio-económico, comparativo, relativo quer à pesca do tubarão pela frota regional, quer à observação e mergulho com tubarões, pois o ecoturismo é um domínio de atividade que deve ser explorado nos Açores, envolvendo todos os sectores potencialmente interessados na definição das suas orientações de desenvolvimento;
É preciso ter a abertura mental para se ultrapassar posições muito divergentes ou mesmo de conflito entre os interesses dos pescadores e os dos defensores do mergulho, procurando conciliar as duas atividades, sempre que tal seja possível.
A observação e mergulho com as várias espécies animais que fomentam um ecoturismo deveriam envolver, na medida do possível, os pescadores da região, num trabalho em equipa que trouxesse uma fonte de rendimento complementar para os pescadores e um conhecimento e experiência acrescidas para as empresas que se dedicam ao ecoturismo.
Faz bem à saúde…
- Categoria: Opinião
- Criado em 15-07-2013
- Escrito por Álvaro de Lemos
Basta estar uma semana sem as aproveitar e elas amontoam-se na minha secretária. Estou a falar das notícias loucas deste mundo louco. É com elas que vou hoje preencher esta minha crónica. Começo por esta: uma camisa que não precisa ser lavada ou engomada durante cem dias. Ora aí está uma invenção que vai agradar a muita gente. Durante cem dias a mesma camisa. Para os tempos difíceis que vão correndo, vai ajudar muto. Não se gasta água, não se gasta electricidade a passar a ferro, e não se perde tempo. Esperemos que apareçam também as peúgas para cem dias, as camisolas para cem dias e as cuecas para cem dias. Um dos criadores da tal camisa, afirma: “Enrolo-a como uma bola, coloco-a dentro da mochila quando vou correr e quando a tiro está pronta a ser usada”. Resta dizer que o primeiro lote de camisas foi de três mil e já esgotou. Uma delas foi encomendada por mim. Só daqui a cem dias mudo de camisa. Mas há quem não se preocupe em usar - ou não usar – esta ou aquela peça de roupa. Ainda há dias li, numa entrevista dada pelo actor Johnny Depp, que interpretou o “Pirata das Caraíbas”, que o homenzinho não usa cuecas. Ele explicou: “Foi numa manhã, quando ia a um evento na escola do meu filho. Quando passei a mão na parte de trás das calças tinha um rasgão enorme e não tinha qualquer roupa por baixo. Procurei imediatamente a fita adesiva. E depois continuei a usar só as calças”. Não há dúvida que a solução do conhecido actor pode ser útil. A roupa está por um dinheirão e não usar cuecas pode representar uma poupança em euros.
Outra notícia das boas é esta: a China produz 80 mil milhões de pauzinhos por ano. E há quem não concorde, pois implica o abate de, pelo menos, 20 milhões de árvores. Disse há dias um deputado chinês: “Devemos deixar de usar pauzinhos que se usam uma vez e se deitam fora. As pessoas devem habituar-se a utilizar os seus próprios talheres.” Não vai ser fácil deixarmos de ver um chinês a usar pauzinhos, pois a sua produção representa, pelo menos, cem mil postos de trabalho.
E já que estamos na China, fiquem-se lá com esta: a polícia chinesa descobriu uma rede de venda de partes de frango - principalmente as pernas – mal armazenadas e algumas delas fora do prazo há 46 anos. Nem mais, nem menos. As autoridades apreenderam 20 toneladas de pernas de frango congelado em mau estado ou fora do prezo desde a década de 1960. Pernas com 46 anos. Andam por aí muitas pernas com essa idade e que não são nada para deitar fora…
Sabiam que os filmes de terror emagrecem? Pelo menos foi o que se descobriu na Universidade de Westminnster, no Reino Unido. Os investigadores testaram 10 alunos enquanto assistiam a 10 clássicos do cinema de terror. Entre as conclusões, os especialistas detectaram que a quantidade de calorias perdidas pelos jovens foi um terço superior ao normal, devido à acelaração dos batimentos cardíacos.
Conclusão: um bom susto pode ajudar a ficar mais magro. O dinheiro não chega até ao fim do mês? Não se preocupe. O susto que vai ter todos os meses pode ajudar a fica mais elegante.
Vou terminar com uma notícia que pode não agradar às pessoas mais sensíveis ou que tenham já tomado o pequeno-almoço. Depois não digam que não os avisei. Para já, fiquem-se lá com o título: “comer macacos do nariz faz bem à saúde.” Já sabemos que as cenouras fazem bem aos olhos e que comer gelatina fortalece as unhas e o cabelo. Mas qual é a sua reacção se lhe disser que comer macacos do nariz faz bem à saúde? Foi a conclusão a que chegou um investigador de uma universidade do Canadá. Diz ela que está a ser difícil realizar o estudo, pois é um verdadeiro desafio arranjar voluntário para participar na experiência. Acredito que sim. Mas colabore, mesmo sem o investigador saber. Quando vir o seu filho com o dedo no nariz, não o repreenda. Ele pode estar a garantir um futuro saudável.
Palavra de Rei não volta atrás
- Categoria: Opinião
- Criado em 15-07-2013
- Escrito por Pedro Paulo Carvalho
Há uns anos conheci um homem das Sete Cidades que passou dezassete anos na cadeia por ter dado “cabo do canastro” a um indivíduo que era amante da mulher, matou-o com vinte machadadas e depois mandou a mulher para o outro mundo entregando-se de seguida à polícia.
Era lavrador de profissão mas passava a maior parte do tempo a ler; tinha o hábito de meter os livros numa saca de fardo e lia enquanto as vacas passavam o tempo a comer a erva que se transformava no leite que o sustentava.
O director da cadeia encarregou-o de tomar conta da biblioteca da cadeia onde passava o tempo todo a ler porque raramente tinha um cliente.
Devido ao seu bom comportamento prisional foi posto cá fora quando apenas tinha cumprido metade da pena e foi visitar-me no meu escritório passado algum tempo.
Como ele já não faz parte do mundo dos vivos tomo a liberdade de revelar alguma das coisas que ele então me disse:
Ah, devo acrescentar que seis meses depois de ter saido da cadeia enforcou-se no garnel.
Quando me visitou achei-o um bocado abatido mas interpretei isso como natural num homem que voltava para as Sete Cidades depois de cumpridos muitos anos de cadeia.
Recordo que nas alegações finais eu tinha chamado a atenção do tribunal para a vida infeliz que ele tinha tido sempre, pois fora abandonado pelo pai e pela mãe e criado por uma tia solteirona que o castigava por tudo e por nada e para fugir ao cativeiro em que vivia casou cedo com uma prima que o enganava com outro primo e que acabou por fugir com ele para o continente; casou segunda vez e foi a desgraça que já contei; de modo que nas alegações depois de eu ter contado isto o juiz como é de lei perguntou ao Réu o que é que ele tinha a acrescentar em sua defesa ao que ele respondeu:
Senhor doutor juiz apenas quero dizer que até ouvir o que disse o meu advogado eu próprio não sabia que fui tão infeliz.
Como disse atrás achei-o um bocado em baixo pois ainda era um tempo em que um homem que matava alguém ainda por cima numa freguesia, todos fugiam dele como o diabo da cruz era castigado para toda a vida com o desprezo dos seus conterrâneos.
Senhor doutor, disse ele, eu senti-me mais livre na cadeia do que agora que estou cá fora, deixavam-me ler à vontade e agora vivo num quarto alugado e só posso ler até às nove e meia da noite porque a dona da casa exige que a essa hora todos os quartos estejam às escuras para não pagar muita luz àquela companhia que só dá luz a quem tem dinheiro.
Há uma semana puseram-me a trabalhar como coveiro mas tenho pouco serviço porque a freguesia é pequena, mas proibiram-me de ler no cemitério por respeito aos defuntos de forma que nada tenho para fazer a maior parte do tempo; gosto de conversar mas não há gente para se conversar como antigamente, até nas Sete Cidades não se conversa muito porque ninguém tem tempo para conversas, já ninguém tem tempo para nada, anda toda a gente enrolada como se a vida fosse uma corda cheia de nós que nunca desatam, os velhos lá por cima andam apoquentados com as reformas que o governo cortou e os novos estão agora a embarcar porque mesmo com estudos bons não arranjam emprego por cá.
Eu posso ser assassino mas sou homem de palavra, quando eu me criei dizia-se que palavra de rei não voltava atrás agora é ao contrário mas também se calhar é porque também já não há reis como antigamente, é uma cambada de palhaços, uma palhaçada é o que é este mundo.
O senhor doutor que me desculpe mas eu li num livro lá na cadeia aquilo que lhe vou dizer mas não sei se vou dizer tudo igual como li que a memória já não é o que era, a idade dá cabo da memória mas ainda o pior para a cabeça são as consumições, mas o que lá dizia se não me engano era o seguinte. “As palavras afogam tudo: o amor, a verdade, o mundo. Enquanto o homem não marcar um encontro sério consigo mesmo, verá o mundo com prisma deformado e construirá um mundo em que a lua terá prioridade, um mundo de mais lua do que luar”.
Oh amigo, disse eu, não concordo nada com isso, não há democracia sem liberdade não há liberdade se tu e eu e o outro não podem dizer aquilo que lhes vai na alma nem exprimir o seu pensamento, e já que gostas de livros e de escritores uma poetisa portuguesa escreveu a propósito da revolução do 25 de Abril:
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Em que emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Oh senhor doutor isso é poesia, olhe que o mundo não se governa com poesias, isto hoje é uma escravatura pior do que no tempo de Salazar segundo diz o meu tio que ainda apanhou o Salazar, o que é que me serve dizer o que penso e morrer de fome, antes estar na cadeia que ao menos sempre se come e dorme sem pagar nada.
E não há palavra nenhuma queira vossa excelência saber se a mentira pagasse multa ou imposto é que havia de ser bonito, falar não custa nada o que custa é um homem fazer aquilo que diz isso é que custa os olhos da cara, falar qualquer um fala e diz o que lhe vem á cabeça.
Eu hoje não tenho dinheiro nenhum mas se tivesse não emprestava porque nunca mais o via, mesmo com papéis assinados eu não emprestava nada. Não há palavra, o meu tio dava a sua palavra de honra porque a tinha agora foi-se a honra e ficaram as palavras, a vida é toda ela um “paleio”, até aqui nos Açores já há um grande “paleio” como antigamente só tinham os soldados de Lisboa que roubavam as namoradas aos açoreanos porque tinham um grande “paleio”.
É o que lhe digo a vida não é o que era, a palavra de rei não voltava atrás.
Hoje não há palavra nem rei.
A faca de dois "legumes"
- Categoria: Opinião
- Criado em 15-07-2013
- Escrito por Duarte Cota
O anúncio dos lucros obtidos pela elétrica regional EDA têm sido motivo de discussão pública, não tanto pelo montante – cerca de oito milhões de Euros – mas sobretudo pela decisão de distribuir estes dividendos pelos respetivos acionistas. Não discuto a legitimidade da decisão sobre o destino a dar a este dinheiro. Nem tão pouco opino sobre outras possíveis aplicações deste montante. Mas não quero deixar de registar e manifestar a minha apreensão sobre o que li, na imprensa regional e em alguma nacional, sobre a ideia peregrina de que este lucro da EDA deveria ser utilizado para reduzir as tarifas da energia elétrica que os açorianos pagam e não para serem distribuídos pelos acionistas da empresa. Devo alertar para o perigo desta opinião. Esta proposta a ser concretizada seria um autêntico tiro no pé. Ou como diria o antigo jogador e treinador de futebol Jaime Pacheco, uma faca de dois “legumes”.
O fornecimento de energia elétrica é um serviço público essencial devendo ser assegurado à generalidade dos consumidores nacionais em condições de igualdade. Para garantir a defesa do consumidor, são impostas obrigações de serviço público onde e quando, por si só, a concorrência não possa assegurar tal fim. Uma componente fundamental na prestação deste serviço público, o tarifário, não é independente do local de residência dos consumidores. Nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira o custo inerente à disponibilização da energia elétrica é consideravelmente superior ao do continente donde resulta uma clara assimetria com consequente penalização para os cidadãos e agentes económicos residentes nestas regiões. Até 2002 a competência para fixação dos preços da eletricidade era dos Governos Regionais, tendo sido, em 2003, transferida para a ERSE – Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos – pelo Decreto-Lei nº 69/2002 de 25 de março, no âmbito do processo de convergência nacional do tarifário elétrico. Este novo modelo determinou que as competências da ERSE fossem estendidas aos respetivos territórios insulares passando as empresas de eletricidade dos Açores e da Madeira a estar sujeitas ao mesmo tipo de controlo e regulação que as congéneres do continente. O sobrecusto da insularidade passou a ser suportado no quadro do tarifário nacional, à semelhança do que sucede em outros países da União Europeia com especificidades geográficas e administrativas semelhantes e no pressuposto de igualdade e coesão subjacente a todo o processo. Resumidamente, açorianos e madeirenses pagam as mesmas tarifas dos continentais, em mercado regulado, sendo os custos de produção, eles próprios assimétricos entre as nossas nove ilhas, superiores ao preço de venda ao cliente final. Se na nossa região fossem fixados preços mais baixos para a energia elétrica do que os fixados pela ERSE seria o mesmo que dizer: não queremos o valor total da compensação que recebemos do continente e as contas da ERSE estão mal feitas! Note-se que a ERSE está obrigada pela lei, a garantir o equilíbrio económico-financeiro das empresas reguladas (EDA incluída) e calcula a respetiva compensação pela diferença entre o que considera os custos eficientes (inferiores aos reais) e a receita obtida pelas vendas aos preços por ela fixados, já com a preocupação da compensação ser a menor possível.
Neste quadro, seria conveniente deixar tudo como está uma vez que os benefícios para os açorianos são evidentes com o atual regime de regulação e convergência do tarifário em vigor. Caso este não existisse, as tarifas por nós pagas seriam o dobro, no mínimo.
Tal como em muitos outros domínios, no setor da energia também há facas de dois “legumes” e devemos ter condições para acreditar que quem com elas corta escolhe sempre o lado certo.