Palhaços


Nunca gostei de palhaços. Em pequeno assustavam-me, em adulto não lhes acho graça. No circo causam-me pena. Na vida são revoltantes, desprezíveis e cansativos. E fartam...
Por defeito meu ou pela sua excessiva rotação - quando sai um aparece logo outro - torna-se difícil esboçar-lhes um sorriso ou manifestar-lhes simpatia.
Quando era criança o circo era uma festa, mas ia ao circo quem queria, os bilhetes eram baratos e os palhaços eram pobres. De finanças e de espírito.
Hoje o espectáculo é permanente, somos “obrigados” a assistir, os bilhetes são caríssimos e os palhaços enriquecem. Financeiramente, apenas.
Por mais que nos esforcemos para defender o actual regime, é difícil encontrar motivos que o possam justificar.  
Os crédulos, por razões óbvias, continuam a enaltecer os benefícios da situação e a glorificar este regime a que alcunham, sabe-se lá porquê, de “democracia”. Os incrédulos fazem sacrifícios, pagam generosamente ou emigram.
Acusam-se as ditaduras de falta de transparência, de tudo resolverem nas costas da população e de tomarem decisões abusivas. É verdade. Mas o que assistimos nos últimos 40 anos não se tem desviado muito deste caminho. Prometem o que não cumprem e sabem não poder cumprir. Tomam decisões que não explicam ou não têm sequer explicação. Impõem-nos sacrifícios inqualificáveis, apenas para continuarem a usufruir de regalias que não merecem.
O que assistimos nos últimos dois anos, particularmente nas últimas semanas, é exemplar.
Um primeiro-ministro que prometeu mundos e fundos - reforma do Estado, contenção, rigor e sabe-se lá que mais. Não só não cumpriu, como por critérios injustificáveis, admitiu e manteve, durante meses, um ministro ardiloso, acusado por todos de trapalhices e desmandos. Prometeu uma coligação quando pretendia apenas uma muleta – inerte, muda e submissa.
Um ministro das Finanças que se demite, provavelmente cansado por insultos constantes e aparentes falhas. Os que durante meses pediram a sua cabeça, criticam-no por ter saído, provocando assim uma reacção negativa dos mercados e por ter explicado em público, no meu entender de forma correcta, os seus motivos, assumindo culpas que me parece não ter. Não o tivesse feito, criticá-lo-iam porque “os portugueses (falam todos em nosso nome!) têm o direito de saber”. Odiado internamente por alguns, é glorificado por outros e pelos credores externos que afinal são quem manda no país, quem nos empresta dinheiro e a quem voluntariamente nos entregamos.
Um ministro dos Estrangeiros, sem palavra e sem sentido de estado, que se demite, por ambição ou por capricho, num momento crucial para a vida do país, fazendo perigar o programa de austeridade que nos foi imposto, obrigando provavelmente a mais sacrifícios e a mais austeridade, ao contrário do que diz defender. “Irrevogavelmente” recua e engole a demissão, por imposição vexatória dos caciques do seu próprio partido!
Veremos se os danos causados ao país - que é o que verdadeiramente importa – não serão de igual monta aos que causou ao seu partido e a si próprio.
A sua credibilidade política pode ter ficado profundamente abalada, senão irremediavelmente destruída. Por arrogância e insensatez.
Se o fez, à revelia dos amigos (tê-los-á?), dos correligionários e dos adversários, por mera chantagem, com o objectivo de conseguir mais um naco do poder que não conseguiu obter nas urnas, será eticamente condenável, pessoalmente aviltante e politicamente desonroso. Não o fosse e não haveria justificação para o silêncio, para o esconder da cara, para o abafar da situação.
Nas democracias civilizadas - e até mesmo no nosso regime - o poder atinge-se pelo voto ou, em situações de emergência, pelo consenso entre pessoas responsáveis e credíveis. Nunca pela intriga, pela dissimulação ou pela chicana.
Afinal as grandes inteligências, se não acompanhadas por pequenas doses de humildade e bom-senso, são também capazes de atitudes pouco recomendáveis.
Tudo em silêncio, sem explicações, nem justificações. Será que as têm? Ou envergonham-se delas?
As soluções - se o forem - são tomadas às ocultas e à revelia de todos os interessados que são apenas obrigados a pagar-lhes os ordenados, as prebendas, os devaneios e os arrufos!
Veremos se o congresso do CDS não trará maiores e mais insólitas surpresas e não será palco de mais algumas manobras inesperadas.
Uma das oposições, (in)segura e irrealista, apenas pretende eleições para amealhar mais uns milhões nos cofres do seu partido e para rapidamente se adiantar, antes que algum mais competente o substitua, mesmo sabendo que não existem alternativas para o cumprimento das obrigações creditícias do país, também por eles aceites e subscritas. A enorme experiência adquirida na colaboração diletante na gestão duma pequena papelaria e duma farmácia de bairro, é a única garantia que nos dá para a gestão do país, num momento particularmente difícil da sua vida!
Outros também querem eleições mas avisam desde já que, qualquer que seja o resultado, será então necessário fazer acordos com todos ou algum dos partidos da actual coligação!
Sendo assim tão necessário para a estabilidade politica e para o país porque não fazê-lo já, sem primeiro agravar a agonia e provocar a derrocada do país? Nem o país nem os custos importam. O importante é o partido, o (in)Seguro e, muito principalmente, as previsíveis sinecuras.
Por nunca terem feito contas e não se importarem com o país, é que chegamos até aqui!
Afirmam, sem convicção, que querem um governo “coeso, forte e confiável”. Onde? Como? Com quem?
“É muito simples”, afirma continuamente, com olhar triste e pendurado, o douto jota!
Quanto à oposição totalitária já a conhecemos. Do PREC…
Os partidos políticos, que alguns dizem ser indispensáveis à democracia são hoje, em Portugal, um sorvedouro insaciável de recursos e verdadeiras escolas de arte circense, onde se formam malabaristas, ilusionistas, contorcionistas, etc. Há quem diga que até carteiristas! Não acredito…
Enfim, tudo o que não seja trabalho, estudo e reflexão.
Os palhaços que por dever de ofício nos deveriam fazer rir, apenas nos causam desgosto, repulsa e desilusão.
Seria uma muito conveniente prova de lucidez e inteligência se não permitíssemos que continuem a ser eles a rir de nós!

O Jordão do Rosário

Com a extensão e riqueza agrícola da magnifica várzea que a envolve, a Ribeira Grande foi, sempre, um importante ponto de referência da agricultura micaelense. E, sobretudo, do interesse da sua grande diversificação.
Em tudo quanto já foi e continua a ser o melhor da actividade agrícola, a Ribeira Grande sempre teve uma palavra a dizer. Andou, sempre, na primeira linha de tudo isso!
E nada disto é apenas bairrismo exagerado de quem ali nasceu e viveu muito tempo. E a realidade, que é, da mesma maneira, motivo do nosso orgulho e respeito!
Porém e por aquilo que até agora chegou ao nosso conhecimento, havia uma cultura agrícola acerca da qual a Ribeira Grande não se podia ufanar muito. Encontrava-se ao lado de todas essas suas grandes potencialidades. Era essa a do Ananaz. E, pela situação geográfica da Ribeira Grande e a sua exposição solar, até é compreensível essa sua pouca importância nesse cultivo. Mas, para nosso regozijo, nem tudo era assim tão diminuto!
Pela leitura que temos vindo a fazer de jornais editados na Ribeira Grande e por publicidade neles feita, podemos concluir que/também na produção ananazeira, embo¬ra não atingindo o realce de outras partes da nossa ilha, esta nossa várzea opu¬lenta desempenhou o seu papel. Assim, transcrevemos do numero 142 do semanário “O NOTICIARISTA”, de 18 de Fevereiro de 1885, o seguinte anuncio:

OPTIMAS OFERTAS
SUPERIORES ANANAZES PRÓPRIOS PARA EMBARQUE
Os preços são ..... a 480 reis
..... “ 720
..... “ 960
..... “ 1.200
..... “ 1.440
Vende-se no prédio do Jordão, ao Rosário d’esta villa. Vendem-se grades de madeira para os mesmos.

E, no mesmo jornal e no seu numero 168, de 18 de Agosto:

EXCELENTE PLANTIO DE ANANAZES
Vende-se
Nas estufas do Jordão, ao Rosário d’esta villa. Trata-se com o seu estufeiro Antonio Affonso.

E como esse Jordão era uma pessoa multifacetada nos negócios da Agricultura, num outro numero desse mesmo semanário da Ribeira Grande, do ano seguinte, deparou-se-nos este outro anuncio:

ANANAZES
LARANJAS
Primeira sorte do dia!
= a toda a hora =
Vende o Labêta, a 400 reis o cento no prédio do Jordão, ao Rosário d’esta villa, também vende bons ananazes.
 
No ano de 1891, mais este outro anuncio:

TODOS OS DIAS
Queima-se
Borras de vinho
Para aguardente, no famoso lambique do Jordão, ao Rosário d ‘esta villa. Contrata-se com o lambiqueiro José Furtado-Rua do Estrella.
 
Nessas alturas, a Camara Municipal da Ribeira Grande teve, como seu Vereador substituto um senhor chamado João Vieira Jordão. Terá sido este o mesmo Jordão do pré¬dio “ao Rosário d’esta villa” e desses variados anúncios?
Agora, esse prédio é pertença do nosso Amigo João Carlos Vieira. Ele reside ali e ali tem o assento principal da sua atividade industrial.
Mas, nesses outros tempos, alguns dos quais ainda chegaram à nossa juventude, durante o verão viviam nesse prédio do Rosário, umas Senhoras - Mãe e Filha - já com os seus anos que, na Ribeira Grande e com o atino que esta Terra sempre teve para dar apelidos às pessoas, elas eram conhecidas de toda a gente pelas “senho¬ras Jordoas”. E, no inverno e nos domingos das procissões, elas vinham para aquela casa emblemática da rua Direita, com a facultada revestida de azulejos coloridos, sempre conhecida como a “casa dos tijolos” e, também, “a casa das Jordoas”.
Destas maneiras, aqui ficam estas “dicas” de um velhote da Ribeira Grande, já abeirando os setenta e sete, amante fervoroso da sua Terra e, tudo isto, talvez, com a esperança de fazer despertar a curiosidade de outros, mais jovens, para o esmiuçamento destas coisas interessantes. Que assim seja!

Ponta Delgada, Julho de 2013

Ponto... por... Ponto...

1 – O Fenómeno Tony Carreira - Antes de mais tenho que fazer uma declaração de interesses: não sou fã de Tony Carreira, não sou seu seguidor nem aprecio as suas músicas. Contudo defendo e gosto de analisar os movimentos das bases, os movimentos populares. Na política ficou celebre a frase de John F. Kennedy – o poder está nas bases, principio que se aplica também ao meio artístico. Em Portugal o apoio popular que dispõe Tony Carreira é de facto impressionante e a prova evidente que o sucesso dos artistas depende exclusivamente do apoio do povo. No sábado fui jantar com dois amigos ao Restaurante Club House, onde o Artur Tavares presenteou os seus clientes e amigos com um “buffet” muito bom, num ambiente fantástico que permitia observar o espetáculo das varandas do restaurante, que obviamente estava cheio. Não sou crítico musical, mas vou correr o risco de interpretar o que vi e analisei. Para já as primeiras pessoas começaram a chegar ao recinto a partir das 14 horas, para ficarem na primeira fila junto ao palco, depois vi senhoras de idade, com mais de 70 anos que aguentaram o espectáculo e exibiam um rosto de satisfação, que não evidenciavam fadiga física, pessoas bem-dispostas, um público composto maioritariamente por mulheres. Tony Carreira respeita o seu público, entrando em palco às 22.03 horas, ou seja com 3 minutos de atraso, e acabando de cantar às 23.56 minutos. O seu reportório não é composto por musica “ pimba”, está já muito acima, a orquestração e a composição das musicas têm alguma qualidade, ouvi duas ou três musicas de ficar no ouvido, mas acima de tudo o sucesso de Tony Carreira, na minha opinião, é consequência da sua humildade em palco, da sua proximidade com o publico, um publico já transversal em termos sociais, do seu sentido de família, do seu apelo constante à interacção com os seus fãs, que têm sido o suporte do seu êxito, porque se sentem bem tratados e respeitados. Tony Carreira movimenta multidões, porque cresceu como artista, mas não se distanciou da sua base de apoio nem das suas origens, percebeu que quanto mais próximo continuar a estar do povo, mais tempo este mesmo povo vai prolongar o seu êxito artístico e profissional.Uma última palavra para o Paulo Silva e a Fabrica de Espectáculos: o Parque da Cidade tem óptimas condições para a realização de espectáculos desta natureza, estava tudo muito bem organizado, não houve problemas nenhuns, segurança perfeita, um grande número de colaboradores a limparem o recinto, que mais parece o Parque da Bela Vista à nossa dimensão, enfim um êxito absoluto esse espectáculo de Tony Carreira. Gostei do que vi, mas ainda não me tornei seu fã;

PREC (Processo de Remodelação Em Curso)

Depois de uma semana alucinante, na vida politica portuguesa, analisemos  com alguma objetividade  o governo após a  sua remodelação
Se contarmos com o novo ministério da presidência (de Poiares Maduro recentemente criado após a demissão de Relvas) mais o  ambiente e energia, as obras publicas e transportes e o  cargo de Vice Primeiro Ministro foram  criados ao todo quatro novos ministérios.
Bom, um governo com mais quatro novos ministros um deles tinha que ser atribuído ao CDS-PP, está dentro da proporção para manter o  equilíbrio de forças entre os dois partidos da coligação.
Mas dentro desta proporção houve uma mudança na organização do governo do ponto de vista  estratégico,  mais concretamente , tudo ou quase tudo que é relacionado com a economia foi atribuído a ministros do CDS-PP (agricultura e mar, segurança social e emprego, economia e  ainda o cargo de  vice primeiro ministro e coordenador da área económica).
A explicação para esta mudança na arquitetura do governo até é relativamente simples.
Após dois anos de ajustamento, necessário, das finanças é a altura de dar prioridade á economia  e ao crescimento económico e assim sendo  é desejável que os ministérios mais relacionados com a economia estejam devidamente articulados entre si e que enfim “falem a uma só voz”
Há a  acrescentar  que, nesta   nova orgânica governativa,  o cargo de vice  primeiro ministro ficará encarregue de todo o relacionamento do  governo português com a Troika , sobrepondo-se assim   ao ministro das finanças . A mensagem para fora que se quer passar é simples, as questões financeiras são importantes mas mais importante ainda é a recuperação da economia portuguesa.
A  pergunta que se pões é, qual será a vantagem, objetiva, de  na linha da frente  das negociações com a Troika  ter ministros do CDS-PP?
A resposta é simples, as negociações vão ter que ser duras e  nada melhor  do que alguém com um passado “eurocético”e que por isso mesmo não hesitará, caso a solidariedade europeia não se mostre a altura das nossas espectativas,   em por em cima da mesa o “fantasma “ da saída de Portugal do euro   para resolver os seus  problemas económico/financeiros.
Ps : Na passada quarta feira caiu como uma bomba a comunicação do Presidente da Republica, Cavaco Silva , ao apelar á formação de  um governo de “salvação nacional”. O Partido Socialista veio de imediato comunicar que a sua participação num futuro governo só acontecerá  em consequência de eleições. Assim sendo é minha opinião  que avançara o “Plano B” de Cavaco Silva  ou seja o PREC (Processo de Remodelação Em Curso) .

Uma encenação, com promoções


   Num período crucial em termos externos, com timings definidos como determinantes para aligeirarmos a conjuntura em que nos encontramos, esta preparada e previsível rutura na coligação, cuja política interna motricicizada por uma insensibilidade social atroz que arrasa tudo, é assumida como normal pelos agentes da mesma, apesar dos efeitos que produziu.
     Num cenário do possível, em que o dizer e o fazer são meros arquétipos voláteis do estar, e que ganham formas diferentes consoante a conjuntura do momento que se ultrapassa a si próprio, esta coligação refunda-se, apresentando ao país um novo elenco governativo, alicerçado nos mesmos pilares do anterior, minado pelos mesmos pressupostos, e que tendo a aceitação do Chefe de Estado e o suporte Parlamentar prossegue com legitimidade, mas a prazo.
     Atónito ficou parte do país perante um cenário surreal no qual este executivo se desfez, sobressaindo em tamanho tumulto, um primeiro ministro que pretendeu agigantar-se, ao garantir a todos e ao exterior preparado para eleições, um não virar costas reforçando assim, o seu empenho em cumprir com a missão que ombreia, e respeitar os compromissos externos exigidos, atitude que lhe terá granjeado apreço e elogios de alguns, no reconhecimento de talentos dignos de Homens de Estado, catapultando-se para um patamar reduzido de verdadeiros líderes, que perante as dificuldades protagonizaram soluções criativas que estão registadas.
     Toda esta encenação, preparada e que muitos não levaram a sério, tornou o país refém dum novo Governo, aparentemente reforçado e na prática com dois primeiros ministros, no qual Paulo Portas, com responsabilidades agora na Coordenação das Políticas Económicas, das Finanças, negociações com a Troika e a polémica Reforma do Estado, esvazia por completo o espaço dentro do mesmo de Pedro Passos Coelho, que tudo aceita para não cair já.
     Em todo este cenário, do qual emerge a vontade de ambos os partidos da coligação concorrerem juntos nos próximos desafios eleitorais, a experimentar já em Maio com as eleições europeias, o C.D.S., cujo líder granjeia já uma descredibilização que se irá agravar por tanto poder querer, e nada poder fazer no domínio do crescimento económico e do emprego, prioridade deste novo executivo, sai vencedor, e o P.S.D., com um líder impreparado mas apostado em levar por diante projetos pessoais, sai perdedor.
     Extasiada ficou toda a oposição, que logo se apressou a exigir de novo a demissão deste Governo que se alimenta do caos que dissemina, reiterando
também num cenário de faz de conta, com protagonistas tão impreparados para o exercício da coisa pública como estes da governação, exigências, propostas e intenções, que não são tidas em conta nem interessam à conjuntura presente, por estarem desconectadas com os propósitos do Diktate, e por ser intuído no agora, de que, se isto está mau a alternância é pior.

Antero de Quental ia à Terceira para ver touradas

O senhor Francisco Coelho, que já foi presidente da Assembleia Legislativa Regional dos Açores, num texto intitulado “Sanjoaninas”, publicado no jornal Açoriano Oriental, no passado dia 30 de Junho, escreveu o seguinte:
“De referir também, a receção efusiva, agradecida e alegre com que os angrenses, uma vez mais, receberam as três marchas de S. Miguel, um hábito que já não se dispensa e que começa a ser encarado como presença obrigatória. Com alegria e divertimentos mútuos, numa manifestação natural e espontânea da unidade do povo açoriano. Pois se no Séc. XIX já Antero vinha à Terceira ver touradas…”
Não discutindo aqui gostos, por mais bizarros que eles sejam, como no caso em apreço pela tourada, que de acordo com Peter Singer “é um anacronismo, um resquício do passado, de uma era mais bruta, cruel e bárbara, poder-se-ia dizer, quando as pessoas se deleitavam assistindo ao sofrimento dos animais”, a afirmação de que “no Séc. XIX já Antero vinha à Terceira ver touradas…” se não for devidamente comprovada é no mínimo abusiva.
Do que já li de e sobre Antero de Quental até ao momento apenas tenho conhecimento de uma sua deslocação à ilha Terceira a 22 de Junho de 1874 para consultas de homeopatia com um médico local, tendo regressado a São Miguel a 26 de Agosto do referido ano.
Antero de Quental esteve na Terceira em 1874, ano em que a sua doença atingiu proporções assustadoras, privando-o de movimentos e incapacitando-o de fazer qualquer esforço. Se Antero foi ou não a touradas desconheço. Se gostava ou não de touradas também desconheço. Mas uma coisa é ir a uma tourada, outra coisa, muito diferente é ter interesse por elas ou mesmo gostar das mesmas.
Na sua ânsia de as divulgar, os aficionados terceirenses tudo fazem para que qualquer visitante vá assistir a touradas, quer de praça quer à corda. A título de exemplo, posso referir o caso de Alice Moderno que as odiava e que era “forçada” a lá ir para não ser antipática com os seus amigos.  
Sobre as touradas Alice Moderno escreveu:
“E esta fera [touro], pobre animal, também, foi arrancada ao sossego do seu pasto, para ir servir de divertimento a uma multidão ociosa e cruel, em cujo número me incluo! (…) Entrará assim em várias toiradas, em que será barbaramente farpeada até que, enfurecida, ensanguentada, ludibriada, injuriada, procurará vingar-se, arremessando-se sobre o adversário que a desafia e fere. Depois de reconhecida como matreira, tornada velhaca pelo convívio do homem, será mutilada”.
Eu mesmo, quando vivi na Terceira fui a algumas touradas à corda a convite de amigos e colegas de trabalho e a uma de praça de onde saí horrorizado com a malvadez a que assisti.
Nos escritos de Antero de Quental ainda não encontrei qualquer apologia das touradas ou mesmo qualquer referência às mesmas. Paulo Borges, professor da Universidade de Lisboa, que tem estudado com profundidade a sua vida e obra, questionado por mim sobre o assunto escreveu: “não me recordo de qualquer texto onde ele mostre esse interesse. Pelo contrário, tudo o que sei dele, incluindo o amor que na sua poesia expressa pelos animais e por todas as formas de vida, deixam-me convicto que as touradas lhe repugnariam absolutamente”.
Invocar nomes de grandes vultos das ciências e das letras que foram fervorosos adeptos da tauromaquia é um dos argumentos mais usados para convencer os mais distraídos. Contudo, este argumento é facilmente rebatido pois existem outros tantos que consideram as touradas um espetáculo absurdo e horroroso.
No caso presente, só se poderá afirmar que Antero ia à Terceira ver touradas se o mesmo o fizesse com frequência e se as idas à referida ilha tivessem como objetivo principal assistir às mesmas.
Continuo à procura de provas…

Depois da farsa O que vem a seguir?

Escrevo ao fim do dia de segunda-feira.Não se conhece ainda a reacção do Presidente da República à proposta de solução da crise politica, que corre desde há mais de uma semana, e que o Primeiro-Ministro lhe levou há dias. Mas é opinião unânime dos comentadores políticos que Cavaco Silva, na sua linha de há muito apoiante de Passos Coelho e da coligação a que preside, aceitará a renovação do acordo “PSD/CDSPP” e recusará as eleições antecipadas que todos os partidos da oposição parlamentar e personalidades de diferentes sectores vem reclamando. Tudo indica que vamos continuar a ter um Governo da República remodelado, liderado por Passos Coelho e Paulo Portas no prosseguimento de uma linha de forte austeridade, alimentando a recessão e o desemprego que tanto aflige os portugueses, ideia que a escolha para Ministro das Finanças, de Maria Luís Albuquerque, uma fiel discípula de Victor Gaspar, parece confirmar.
Mas, apesar do descrédito que caiu sobre Passos Coelho e Paulo Portas com eles arrastando os seus partidos, haverá outra hipótese? Parece que não, pois um processo eleitoral acarretaria dificuldades externas com os países e organizações que nos emprestam dinheiro, incomportáveis pelos recursos portugueses. Portanto, a solução parece indicar a de continuarmos a ser governados por gente que levianamente criou uma crise para defender posições pessoais, hegemonias partidárias e interesses de grupo, com o patrocínio do Presidente da República que só quando viu a eminência do descalabro, interveio a exigir, como o deveria ter feito muito antes quando os sintomas de desnorte eram evidentes, uma plataforma de acordo.
Mas será credível, merece confiança este novo acordo “PSD/CDSPP”? Temos sérias dúvidas e connosco estão muitos mais. Essa gente, como se lê e ouve na generalidade da comunicação social e de muitos observadores credenciados, não merece confiança.
A releitura atenta da carta de demissão de Victor Gaspar traduz uma confissão de fracasso, de falta de liderança e de coesão interna do executivo “PSD/CDSPP” confrangedora.
E nós, aqui nos Açores, como vai ser? A estabilidade política está assegurada por uma maioria coesa e tranquila, apesar da oposição que se afadiga com minudências ocas e ataques raramente com sentido e consistência, em vez de entender o caos que os seus partidos a nível da República construíram e zelarem pelos interesses açorianos que os seus partidos, “PSD/CDSPP”, lá em Lisboa, na dita governação central, tanto desprezam.
A oposição regional e os seus escribas de serviço, aproveitam a inesperada avaria de um avião, a proposta de reordenar o sistema de saúde ou o pagamento em Julho do subsídios de férias – quando as suas cúpulas só o vão fazer em Novembro – para armas de arremesso político e esquecem os 61,3 milhões que a República, da responsabilidade do “PSD/CDSPP”, deve à Região, só no sector da saúde, a demora de mais de um ano para reestruturar o serviço publico de transportes aéreos e marítimos e a indiferença quanto à urgente definição da “RTP/Açores”, do financiamento da “Universidade dos Açores” ou do equipamento das forças de segurança, responsabilidades do Estado a que fogem os centralistas do “PSD” e do “CDSPP” ainda no poder.
Uma das respostas que chegam do Terreiro do Paço é que não há dinheiro. Mas não hesitaram em armar um grande sarilho, com laivos de ópera bufa como comentou um observador da politica portuguesa, custando aos portugueses muitos milhões e o descrédito internacional, para defender posições pessoais e partidários amuos mesquinhos que rapidamente transformam decisões irrevogáveis em acordos para sobrevivência politica alimentada por lugares à mesa do orçamento público. Como escreveram alguns comentadores, esta gente “PSD/CDSPP” não é confiável.
Preparem-se os açorianos para o que por aí abaixo virá.
                                      
         *          *          *

O panorama das termas açorianas, das Furnas ao Varadouro, passando pela Ferraria e Carapacho, é desolador, apesar de muitos milhões de dinheiros públicos terem sido investidos. A maioria não funciona, consta mesmo, por gente que conhece a matéria, que muitas nascentes estão seriamente prejudicadas. Um dos melhores recursos naturais dos Açores é desbaratado. E perante todas as reclamações, os responsáveis nada esclarecem. O caso das Furnas, aliado à inimaginável situação do hotel, casino e aderentes, naquilo que foi a pitoresca Calheta de Pêro de Teive, é o mais gritante pois poderia ser, tem todas as condições para isso, um instrumento importante no desenvolvimento do turismo. Mas caminha, rapidamente, para uma ruina.
O Governo dos Açores tem sérias responsabilidades nestes casos e impõe-se que actue decisivamente, preste públicas explicações e não se fique, como até agora, por vagas justificações que deixam tudo na mesma.

Dr.ª Célia Carvalho Inesquecivelmente grato!

O desiderato do ser humano em lutar contra tudo o que na vida se sofre e nos trabalhos que se vislumbram com os profissionais que nos ajudam a ultrapassar, com alegria, uma grande parte das doenças obtidas, sobretudo de lesões cerebrais, clarificam-nos a conspícua delicadeza e inteligência que aparece por quem ultrapassa os dislates que existem.
Foi assim que me aconteceu há já algum tempo com a psicóloga clínica, Srª Drª Célia Barreto Coimbra Carvalho, que me fez transpor bastante dos meus erros existentes com a lesão cerebral da qual fui alvo.
A gratidão é tantas vezes uma arma secreta que nos impede de agradecer, com humildade, o que visivelmente nos foi oferecido com tremenda simplicidade e máxima delicadeza.
Foi essa delicadeza que, felizmente tive - não só do meu inesquecível irmão médico Pedro Paulo Tavares Lopes e do meu ilustre amigo do Porto Dr. Armando Madureira – significativamente de si, psicóloga que nunca havia conhecido.
Com efeito, se existem na vida humana situações caóticas de algumas pessoas que têm a necessidade, curso e obrigação de ajudar os doentes, é sempre milagroso para o ser humano ver a notável cortesia que aparece por quem transpõe os desconchavos que existem…
Descobrir gente séria e competente que nos trata de forma translúcida, transpõe a disnusia de quem não utiliza o esplendoroso sentimento de o fazer.
A clareza, segurança, honestidade e inesquewcível desempenho que V. Exª teve comigo, aquando da necessidade de ultrapassar dentro de tudo o que era/foi possível, é de todo inesquecível na recuperação que me ajudou a ter da minha doença cerebral grave a qual embora lenta, mas existente, hoje se verifica com maior transparência.
Por isso, venho agradecer-lhe com toda a delicadeza a sua apodixe da forma distinta como me ajudou, debelando com grande clemência a doença cerebral terrível que me afectava.
Descurar o que nos ataca pode ser muito bom, mas é preciso dilucidar sempre como se faz e isto só existe com quem nos trata no local aonde a doença se verifica e a disnusia que atingira o meu cérebro, não podia aceitar mais disparates.
Foi isso que V. Exª. me ensinou, o que muito lhe agradeço, pois foi com a sua inesquecível e brilhante ajuda que estimulou bastante a minha vontade de viver.
Acreditando em Deus, como sempre acreditei, peço-LHE que a ajude a ser o alvo de muitos clientes e tenho a certeza que ELE o fará porque V. Exª merece.
Bem haja!

Passos, Portas e Seguro

O que se está a passar neste país é digno de uma república das bananas, onde quem detém responsabilidades políticas se porta como estivesse a tratar do bananal do seu quintal. Os líderes da Coligação têm tido um comportamento cujos impactos na vida de todos nós deveriam merecer mais respeito e deixarem-se de criancices irresponsáveis.
Cada um tem razões de queixa do outro, amuando quando não concordam e num casamento de conveniência, mais cedo ou mais tarde lá se vai o noivado, com choques a nível de credibilidade internacional que assusta sobretudo quem tem feito tantos sacrifícios para contribuir para que possamos sair desta crise e desta austeridade que já ninguém suporta.
Pedro Passos Coelho não olha para o lado e esquece que está num governo de coligação, decidindo muitas vezes sem consultar o líder do outro Partido, como foi, por exemplo, no caso da TSU ou agora no caso da substituição de Vítor Gaspar na pasta da Finanças, não querendo saber da opinião de Portas.
Paulo Portas, por seu lado, não está isento de culpa e que culpa, pois coloca de lado uma nação inteira e os interesses do país, por uma birra pessoal. É verdade que a escolha do Primeiro-Ministro quanto ao Ministro das Finanças deveria ser consensual, mas lançar o país no caos, fazer os juros disparar e, dessa forma, convidar a um segundo resgate é de todo intolerável. Ou seja criancices e leviandades que ninguém pode aceitar, após tantos sacríficos pessoais que todos os portugueses estão a fazer.
Na situação em que está o país, um membro do governo com as responsabilidades de Paulo Portas tem de gerir com mestria e se for necessário engolir elefantes, em nome dos altos interesses do país e saber colocar tudo isto à frente de egos e vaidades pessoais e mesmo interesses partidários.
Um dado não menos importante deste xadrez diz respeito a outra figura da nossa democracia, o líder da Oposição, António José Seguro, cujas ligeirezas e imprudências tem assustado muitos portugueses, pois não tem a credibilidade suficiente para tranquilizar-nos em todo este imbróglio. Seguro é tão pouco convicto naquilo que diz que ser torna confrangedor ouvir as promessas de que agora é que vai ser, quando se sabe que ele se opôs a medidas do Governo de Passos Coelho que ele não poderá deixar de pôr em prática, devido às exigências da Troika.
Ninguém acredita nas suas promessas de fazer arrancar a economia, em que a hipótese de o conseguir a curto prazo seria reanimar o sector da construção civil, lançando novas empreitadas de obras públicas, dado que é um investimento não reprodutivo. Por outro lado, as suas reuniões com a Troika saldaram-se por um fracasso e os seus encontros com o amigo Hollande e todos os outros contactos internacionais que o líder da oposição manteve, revelaram-se infrutíferos. Quer isto dizer que, quando Seguro for para o Governo, a sua margem de manobra será quase nula, porque os credores internacionais não vão em cantilenas inseguras.
Não é irónico que quando a economia estava a reagir e os juros estavam a descer e o desemprego até começou a baixar no último mês, Portas vem causra por motu próprio um vendaval que leva tudo pelos ares?

O que foi a lapa?

Perguntei a vários jovens, alunos da escola onde trabalho, se sabiam o que significava a sigla FLA e ao contrário do que eu esperava a esmagadora maioria não sabia, um ou dois disseram que já tinham visto nalgumas paredes a sigla, mas desconheciam do que se tratava.
Fiz o mesmo em relação à sigla LAPA e, tal como já esperava, nenhum deles havia ouvido falar. Alarguei o meu leque de inquiridos e perguntei a vários colegas e a resposta foi semelhante à dos alunos.
Eu mesmo, colecionador de (quase) tudo o que é papel, até há muito pouco tempo quase nada sabia e ainda pouco sei acerca da LAPA – Liga de Ação Patriótica dos Açores.
O primeiro “contacto” que tive com a LAPA foi através do seu boletim número um, datado de Fevereiro de 1976, que alguém, na altura, me fez chegar às mãos. Na ocasião, fiquei espantado com a qualidade da impressão do mesmo, muito superior à maioria dos folhetos que eram da responsabilidade das diversas organizações que se reclamavam a favor da independência dos Açores e das que eram suas opositoras ou mesmo dos diversos partidos políticos.
Mais tarde, porque alguns números posteriores me foram entregues por um militante do PCP que, por motivos de força maior, teve de emigrar para os Estados Unidos da América, fiquei com a ideia de que se tratava de uma organização daquele partido que havia sido obrigado a fechar as suas sedes, nos Açores, em Agosto de 1975.
Mas, afinal o que foi a LAPA?
Tenho falado com algumas pessoas que poderiam, melhor do que eu, explicar os objetivos da organização, quem eram os seus membros, em que ilhas estava implantada, que apoios partidários ou outros tinha para implementar as suas atividades, que tipo de ações estava disposta a fazer, para além da distribuição de comunicados e de algumas “pinturas” em paredes, etc. e como para uns os seus afazeres são muitos e para outros não têm qualquer interesse em revelar o seu passado ou não acham que vale a pena, vou tentar divulgar o que sei, apenas com o único objetivo de tentar dar a conhecer um pouco da nossa história recente.
Através da leitura do boletim referido, constata-se que ele é dirigido essencialmente aos trabalhadores por conta de outrem, que não estavam a beneficiar do salário mínimo nacional de 4 mil escudos, e aos lavradores que estavam a ser prejudicados, pois não estavam a ser praticados os preços do leite previstos na portaria nº 470/75, de 1 de Agosto, e não estar a ser atribuído o subsídio de 1 escudo por litro, por não existir recolha única de leite.
Ainda com recurso ao mesmo boletim, fica-se a saber que o objetivo da LAPA era “lutar contra o separatismo e o fascismo” e o que pretendia era “a liberdade na nossa terra”.
Quanto à sua composição, a LAPA afirmava que não era “ uma coligação de partidos” mas “uma organização onde existe gente de todos os partidos (só não tem do CDS porque é o partido dos fascistas), gente que quer viver em liberdade e democracia”.
No boletim nº 3, de Junho de 1976, a LAPA volta a condenar a independência dos Açores, afirmando que “não há pois um povo açoreano a ser explorado pelo povo português, mas sim portugueses ricos, que tudo têm a explorar e a oprimir portugueses pobres que nada mais têm que braços e peito para trabalhar. A concluir o texto, a LAPA afirma: “amigo, nós queremos uma independência, que é o de deixarmos de depender e ser espezinhados pelos senhores do dinheiro que engordam com o suor do nosso trabalho”.
Por último e ainda no mesmo boletim, a LAPA posiciona-se face às eleições regionais que se iriam realizar a 30 de Junho. Assim, depois de por em questão a falta de condições democráticas para a realização das mesmas, a LAPA considera “que os açoreanos devem votar e sem medo – pois que o voto é secreto; devem votar na esquerda – porque há que derrotar a reação e o separatismo; devem votar com confiança nos partidos que mais convictamente e com garantias lutam pelos direitos dos trabalhadores, dos pequenos e médios agricultores e lavradores, de todos os que suam para ganhar o pão”.
Na altura em que a LAPA surgiu falava-se que a mesma estava disposta a pegar em armas para combater a FLA. Será que as tinha?