Uma semana louca
- Categoria: Opinião
- Criado em 08-07-2013
- Escrito por Alberto Ponte
Eis que acabamos de passar por uma semana plena de emoções que irá por muito tempo marcar a história da democracia em Portugal. Nunca imaginei poder ver algo semelhante.
Protagonizada no início pela demissão do Ministro das Finanças repentinamente toda uma série de acontecimentos se precipitaram, deixando a maioria dos Portugueses surpreendidos pelo ridículo das várias situações que se seguiram. Não admira pois que cada vez mais as gentes deste país não acreditem na classe política portuguesa, com tão maus exemplos de irresponsabilidade, e a culpa é precisamente toda deles. Pessoalmente, já há uns bons tempos, deixei de acreditar nas supostas boas intenções para salvar um país que afinal se está a afundar a olhos vistos, criando pobreza, aumentando o desemprego, fazendo assim com que as desigualdades sociais que já eram bastante acentuadas continuem vertiginosamente a aumentar. Só não vê quem não quer, pois diariamente somos confrontados com os mais variados testemunhos de gente que já perdeu demasiado se encontrando no momento praticamente de mãos vazias. Para ser honesto, confesso, que quando me mostram estatísticas que pretendem criar a imagem de que se registou uma pequena melhoria, não acredito.
Nunca vi nada assim, e quero desde já acrescentar à minha opinião de que não estou certo de que não virá pior ainda.
O Ministro das Finanças, o tal que toda a gente odiava, afinal foi o único capaz de ir embora de uma forma honesta e sem chantagem, reconhecendo o fracasso das medidas que ele próprio adotou e que afinal não resultaram como provavelmente esperava. Podemos por em causa as suas decisões mas certamente não a sua honestidade intelectual, pois não se agarrou a um cargo que no momento não é fácil desempenhar. Tinha os seus princípios, adotou-os, não deu certo, por isso mesmo partiu. Segundo alguma Comunicação Social já tinha feito o seu pedido de demissão anteriormente pelo menos duas vezes, sendo-lhe recusado tal desejo pela constante teimosia do Primeiro-Ministro Português que continua a ser o único a acreditar nesta farsa monumental.
Quanto ao nosso amigo Paulo Portas há muito que sabíamos que não se sentia confortável numa coligação que na realidade não funciona num clima de confiança como deveria existir, mas o que agora também não sabemos é o que na realidade ele pretende ser. Sai não sai, demitiu-se mas vai voltar, parece um jogo de gente sem juízo que anda a brincar com o quotidiano dos portugueses, mas sobretudo com o futuro de um país que parece nada ter a dar às próximas gerações.
Pois quanto ao nosso Primeiro-Ministro não sei como vai gerir toda esta confusão, pois se até agora já eram poucos os que confiavam nas suas boas intenções neste momento são ainda menos os que acreditam nas políticas do Governo. Imagino o que não devem dizer de nós lá fora mesmo se nos tentam passar uma imagem de que somos “bons meninos” por isso mesmo ainda vistos como gente séria e exemplar.
Pois quanto ao Presidente da República, imagino a falta de conforto que deve sentir mas que esconde através de um habitual sorriso que na realidade é mais de preocupação do que satisfação.
Muitos reclamam a altas vozes que se proceda a eleições antecipadas para dar a voz ao povo, soberano em democracia, para que seja legitimado um novo governo. Seria bom se estivéssemos diante de partidos liderados por gente competente, com programas bem definidos, mas infelizmente nenhum partido da oposição está preparado para governar o nosso país. Falam por falar, são contra porque estão do lado oposto, mas sobretudo porque a cadeira do poder no momento está mais fácil do que nunca de alcançar devido ao descontentamento geral dos Portugueses.
Certamente que temos ainda gente muito competente e honesta em Portugal que, fora de qualquer cor partidária, poderia colocar este país no caminho certo. É verdade que o povo em tais situações é chamado muitas vezes a determinados sacrifícios, mas pelo amor de Deus que sejam feitos com equidade e não da forma como tem sucedido nos últimos anos, sempre com exceções a favor dos que já são bastante privilegiados.
Um Governo formado por iniciativa Presidencial seria certamente bem aceite pela maioria dos Portugueses, o que fortaleceria sem dúvida a imagem do Presidente da República e também levaria os partidos a meditar seriamente na forma de verdadeiramente fazer política. É que tal como estamos muitos dirão que nem vale a pena votar.
Daniel de Sá: Mais uma baixa na cultura açoriana
- Categoria: Opinião
- Criado em 08-07-2013
- Escrito por Por: António Tavares Vieira Eng.º Civil
Conheci o professor Daniel de Sá há muitos anos e, participei com ele na Assembleia Municipal num tempo em que, a amizade, o respeito pelo próximo, a esperança no futuro e alguma saudável ingenuidade enchiam a sala. Estava pelo PS não sabendo se era inscrito e, eu pelo PSD embora não inscrito.
Conforme tinha acordado com um dos melhores políticos que apareceu na Ribeira Grande, Artur Martins então Presidente da Câmara, agia na Assembleia com liberdade de pensamento e de voto, não obstante o dever de respeito pelo Órgão. Daniel de Sá também estava livre dos ditames políticos puros que, são por vezes restritivos do livre pensamento.
Nesta situação muitas vezes fizemos intervenções e votamos no mesmo sentido. Isto foi o suficiente para iniciarmos uma longa amizade, porque em consciência pusemos os objectivos da Ribeira Grande sempre em primeiro lugar.
Uma das votações foi em relação à Construção da Escola Secundária na Maia proposta por ele e, por concordar votei a favor. No entanto a maioria votou contra. Mais tarde, logo no início do primeiro governo de Carlos César iniciaram-se as obras.
Falámos em muitos outros assuntos também, tendo contribuído o facto de ir regularmente à Maia visitar meus sogros. Reparei então que além de ter uma vasta cultura, era um bom falador e pensador. Em todos os contatos foi sempre simpático comigo e, recentemente participou num movimento de homenagem a meu sogro no âmbito da sua atividade no desporto.
Verifiquei assim que o seu conhecimento e apaixonada curiosidade iam muito para além da escrita com que nos deliciava em vários artigos de jornal, em prefácios de livros e em vários livros da sua autoria. Na verdade várias vezes me falou e colocou questões sobre os estilos de arquitetura, e sobre várias questões de engenharia. Até me pediu para lhe explicar como é que uma laje de betão armado com o ferro na horizontal e de pouca espessura podia suportar tantas toneladas na vertical. Quis saber também como é que as forças dos sismos atuavam nas construções.
Como corolário desta nossa relação, de vez em quando oferecia-lhe um livro tendo-me dito que tinha gostado mais de “O Fim da História e o Último Homem” de Francis Fukuyama, uma vez que nos dá uma boa perspectiva e uma boa prospectiva das coisas e das pessoas.
Mantendo a correspondência ou a cortesia em dia, ofereceu-me recentemente o livro “Antigamente Era Assim” de Avelino Menezes, nele se revelando algumas informações interessantes da História dos Açores. Uma delas é sobre a grande influência e contributo dos açorianos na formação do Brasil em especial na definição ou na ampliação da sua fronteira a Sul. Desta dinâmica resultou a ocupação da ilha de Santa Catarina. Como cortesia ofereci-lhe um livro que havia acabado de ler da escritora Sacuntala de Miranda (1934-2008). Era filha dum senhor indiano que veio para professor do Liceu (ao tempo que Goa Damão e Diu constituíam o Estado Português do Oriente) e, duma senhora da família Miranda das Capelas. O livro chama-se “Raízes” e, embora seja pequeno reflete duma forma pormenorizada, encantadora e muito culta a problemática que envolve a complexidade e o mistério da fusão da cultura indiana com a nossa. Retrata também duma forma muito clara, subtil e quase fotográfica muitos aspectos da vivência açoriana incluindo os seus êxitos, os seus problemas e outros comportamentos por vezes trágicos ou cómicos da nossa gente. Como parte do livro se passa ou se relaciona com a Ribeira Grande e as suas gentes o meu interesse ainda foi maior. Lá se conta a dramática história de amores, que já ouvi em várias versões, sobre uma morte ocorrida no Solar do Morgado Diogo no topo Sul da Rua do Vencimento onde o pai matou a filha por engano. Não sei se o Daniel chegou a ler o livro porque quando o tentei contactar para lhe dizer que já tinha lido o “Antigamente era Assim” e, para perguntar se já tinha lido o meu, fui informado que estava doente.
À espera de boas notícias, tinha separado um outro livro de Gordon Thomas que se chama “Os Judeus do Papa – Pio XII”, que já tinha lido por sugestão do padre Edmundo Pacheco, o mais culto que conheço. O livro corrige a ideia que ficou na história de que durante a 2.ª Guerra, Pio XII não teria defendido os Judeus como devia. Achei que o Daniel iria gostar bastante, mas (…).
Neste contexto literário e, embalado pelo gosto de um dia escrever um livro, depois de ter “feito vários filhos e plantado várias árvores” conforme o provérbio árabe, tinha com ele um acordo para me dar uma leitura final no texto, uma vez que tinha um bom domínio sobre a nossa língua. Fiquei assim sem o meu revisor e pior do que isso ficou a Maia, S. Miguel, os Açores e muitas outras paragens, sem um grande escritor e pensador.
Não vai ser fácil aparecer outro Daniel de Sá até porque os tempos que correm são muito acelerados, retirando um dos ingredientes principais (o tempo) à aquisição e à maturação do conhecimento que são imprescindíveis para uma boa produção literária. Na verdade as coisas feitas à pressa perdem em boa parte o bom efeito de análise e síntese tão necessárias a uma boa escrita. Contudo e como todas as gerações trazem o seu lote de competentes, exorto a juventude a criar gosto e paixão pelo conhecimento pois, é necessário que haja sempre alguém a entrar onde alguém está a sair.
Por tudo isso, amigo Daniel, espero que num dos corredores do Céu haja uma grande Biblioteca com muitos livros, um lápis e muito papel para te consolares a ler, estudar e a escrever. E que assim desvendes por fim os segredos do Universo, escrevas mais uns livros e os envies para cá via mail celeste.
Devo referir ainda que o Daniel também dispensava uma grande amizade à minha mulher e aos nossos filhos. Em relação aos filhos e em particular aos que se dedicam à música foi sempre elogioso e incentivador das suas causas, quer fosse por referências pessoais, nos jornais, ou por mail.
No contexto musical há até uma história engraçada. Por ser bom conhecedor e apreciador de música clássica andou à procura aqui e no continente dum CD que tinha ouvido há muitos anos na rádio com as Sinfonias de Beethoven reduzidas para piano por Franz List. Pretendia no entanto uma versão especial tocada por Glenn Gould um dos expoentes da musicalidade ao piano. Como não a encontrou pediu-me para falar com os meus filhos. Lá iniciaram a tarefa com o apoio os seus professores e amigos incluindo contatos em vários países.
Não foi fácil, mas conseguiram. Entregámos depois o CD ao Daniel que ficou muito agradecido e deliciado.
Uma outra questão a considerar é a admiração e a amizade que muita gente sentia pelo Daniel que está a ser demonstrada pelo fato de já terem sido escritos dezenas de artigos de homenagem e saudade. Até Lélia Nunes, de Santa Catarina, a brasileira que me parece mais gostar de ser açoriana, escreveu um artigo no Açoriano Oriental. Lélia Nunes é autora do livro “Na Esquina das Ilhas” que faz uma dinâmica ponte cultural entre os Açores e o Brasil. Tem o prefácio de Daniel de Sá, e foi lançado no Convento dos Frades de Lagoa em Novembro/2011.
Além disso, várias Universidades dos Estados Unidos e do Canadá têm os seus livros certamente porque os apreciam.
Um outro contributo deixado por Daniel de Sá foi a dinâmica cultural que incutiu na Maia com a promoção de diversos eventos, levando muita gente culta àquela Freguesia (com alma de Vila) e levando o nome da Maia a muitas paragens.
Neste contexto é bom de ver que não é por acaso que a Maia é a única zona urbana dos Açores com a maioria das suas ruas bem desenhadas numa estrutura reticular ou pombalina e, desde há muito que tem um potencial ou uma densidade cultural das mais elevadas da Ribeira Grande.
Por fim, desejo à sua família sentidos pêsames.
Ribeira Grande, Junho de 2013
Um olhar de céu e mar
- Categoria: Opinião
- Criado em 08-07-2013
- Escrito por Álvaro de Lemos
“Saio de casa cedo. Entro na leitaria da esquina, peço a meia de leite e a empada. É sábado. O dia veste de azul e oiro, gente passa de calção e toalha, na gula da praia que se despede. Mas nada cheira a Verão: há que aproveitá-lo.
Enquanto trinco o salgado, os olhos prendem-me ao letreiro em frente: Tabacaria Nónó. É isso: sem que a gente tenha consciência exacta do que se está a passar, acontece que Lisboa se foi enchendo de dísticos, como aquele, de nomes naquela linha. Leitarias Mimi, Tabacarias Lulu, Filó, Mariazinha, Snacks Ó Julinho, Olha a Fifi, o Manecas, Bares Géninha, Momocas. Um nunca acabar de espantos. No primeiro instante, a gente olha, lê e sorri para dentro. ‘Meu Deus! Que piroseira!’ mas não será tanto. No fundo, a ânsia natural e quase comovente de quem sabe que não vai ficar na História e tem necessidade de, pelo menos enquanto vivo, sentir que todos, muitos, alguns, lhe repetem o nome(zinho). Ou a necessidade de se gritar ao vento aquele sentimento terno e doce que nos aquece o coração, numa homenagem amorosa ao neto, à companheira de toda uma vida, ao mais-que-tudo, à filha que só agora começou a aprender a ler. ‘Estás a ver? O papá pôs o teu nome à entrada. Lê lá, para a mamã ouvir…’ E o monstrozinho, gordo de sopa, a soletrar, com um esforço, uma concentração que toda a família, à volta, segue com unção: ‘ca… ca… café Do… dori… Café Dórinha’. No fundo, a reacção natural e instintiva dos anónimos à selva desumanizada e violenta que nos rodeia. Pedaços de ternura tremelicando, a medo, no céu de treva densa.”
Foi o jornalista Guilherme José de Melo quem escreveu este pedaço de prosa. Deixou-nos há dias, para sempre, com 82 anos. Português, natural de Moçambique, branco de olhos claros – como Mia Couto – África, também para ele, era de todas as cores, de todas as lágrimas, de todos os sorrisos, de todos os anseios justos, de todas a lutas leais.”
É assim que Hélder Fernando começa a falar de Guilherme de Melo. E é assim que continua:
“África, particularmente Moçambique, vivia-a o jornalista e escritor, o poeta e o cidadão, praticando essa abrangência de tudo para todos. Menos para os hipócritas, os falsos moralistas e, em determinado tempo, os violentos das cliques elitistas do oportunismo.
Guilherme de Melo fez o que lhe foi possível fazer num tempo de ditadura colonial. Não tinha cliques sociais ou ideológicas, ou outras, a apoiá-lo ou a protegê-lo. Deu a mão vezes sem conta a muitos que necessitaram de um emprego, de uma ajuda qualquer, ou de uma palavra. Muito discretamente, ajudou e defendeu gente humilde, da mais humilde mesmo.
Sonhou ‘viver toda a vida’ na sua terra natal, mas como não era homem para aceitar ser pau mandado, quatro meses após a independência, voou definitivamente para Portugal. Estou certo que de consciência tranquila e tão independente como se pode ser na vida em geral, mas particularmente em situações de radical transformação política, cultural e social. Talvez somente quem tenha vivido bastante por dentro desse tipo de transformações, nomeadamente as vindas de guerras de anos, sentirá como é duro ser vertical nessas situações. Guilherme de Melo escreveu milhares de páginas de ouro no jornalismo de língua portuguesa, tanto em Moçambique, como depois da independência, em Portugal – em reportagens, em crónicas, em entrevistas, em editoriais. Deixa-nos um acervo de 15 ou 16 livros, alguns deles agitando as falsas moralidades, mesmo depois de Abril de 74 – como, por exemplo, ‘A Sombra dos Dias’. Também foi editado pelo menos um CD com poemas seus ditos pelo actor Vítor de Sousa. Em 1965, viu o seu ‘Raízes do Ódio’ ser retirado à pressa das livrarias e da editora. Observou com tristeza o assalto ao Rádio Clube.
Por muitos, Guilherme de Melo não será esquecido. O seu sorriso fraterno e, como me lembro de alguém escrever, “aquele olhar de céu e mar, muito azul, feliz”.
Adeusinho, até sábado.
Novo ministro, novo caminho? Não nos parece
- Categoria: Opinião
- Criado em 03-07-2013
- Escrito por Gustavo Moura
Não temos por hábito comentar a política nacional porque, desde sempre na nossa actividade jornalística, centramos a atenção nas questões regionais, no entendimento que os jornais açorianos são, todos, jornais locais que devem, prioritariamente, promover o debate dos problemas da sua terra, deixando para a chamada grande imprensa dita nacional o tratamento dos temas globais. Há quem classifique esse nosso espírito de provincianismo. São opiniões que respeito, mas não vou por aí.
Há questões nacionais que, de uma forma ou outra, tem a ver com a Região Autónoma dos Açores e a elas não me escuso. É o caso da demissão do até agora Ministro das Finanças, Victor Gaspar. O seu redutor conceito do regime autonómico é inconveniente para os interesses açorianos, no que é acompanhado por outros protagonistas do Governo da República, e é agravado pela falta de sentido político que revelou na condução das finanças portuguesas, a que temos de acrescentar o seu pragmatismo e determinação. Diz quem da matéria muito sabe, que haveria outros caminhos para tirar Portugal do caos financeiro e económico a que chegou. Pelo que toca aos Açores havia e o Governo da Região tem o demonstrado. Victor Gaspar tem outro entendimento e durante dois anos segui-o com perseverante firmeza, contra muitos, talvez contra todos. Mas a verdade é que é apreciado pelos seus parceiros de outros países, nomeadamente pelos que nos emprestam o dinheiro para Portugal não cair na bancarrota, e ganhou a sua confiança, que permitiu ao País chegar até aqui. Com elevados custos sociais e económicos, sem dúvida. Mas, também, com fortes custos pessoais, pois não é impunemente que ao longo de dois anos se trabalha constantemente rodeado de criticas e contestações, por vezes violentas, vindas dos mais variados sectores, incluindo dos próprios colegas de governo e dos partidos da coligação.
Por isso não alinhamos no coro de regozijo que acompanha a demissão de Victor Gaspar. Respeitamos o técnico que durante dois anos se entregou à causa pública com todo o empenho. Podia ter sido diferente? Certamente, mas há que o demonstrar. Veremos, com poucas esperanças, diga-se de passagem, que Maria Luís Albuquerque, a sua substituta e até agora sua Secretária de Estado, tenha diferente visão e entendimento do regime autonómico e possa encontrar outro caminho, como muitos defendem, para tirar Portugal do caos financeiro, económico e social em que se encontra. Não nos parece que haja mudanças.
O caminho continuará a ser difícil e doloroso para muitos milhares de portugueses e os açorianos não ficarão isentos.
2013-06-30
- Categoria: Opinião
- Criado em 01-07-2013
- Escrito por Maria Corisca
Meus Queridos! Fiquei aliviada ao ouvir o meu rico Vice Serginho anunciar que a Saudaçor ia pagar até ao fim do mês os milhões em dívida que o Serviço Regional de Saúde tem para com as empresas com sede nos Açores e que forneceram medicamentos aos hospitais. A ser assim é um balão de oxigénio na economia açoriana que tão debilitada está. São mais de 20 milhões, mas a verdade é que a dívida total da Saudaçor ronda os mil milhões. A minha prima Maria dos Flamengos sabe e jura que os pagamentos de dívidas em atraso pelos hospitais não são assim tão simples como se pinta... Disse-me ela que os fornecedores, alguns dos quais esperam pelo pilim desde há mais de dois e três anos, estão a receber telefonemas das administrações dos Hospitais a dizer que se quiserem receber o total da dívida em atraso têm de abater cinco por cento do valor. Isto é, quem tem créditos de cem mil euros, desde 2009 e 2010, tem de perder cinco mil euros para receber o seu… A minha prima que sabe muito bem fazer contas disse logo que isso é o valor do juro que o Governo terá de pagar pelo pilim emprestado… Mas pobres dos fornecedores! Quanto já tiveram eles de pagar em juros para aguentar o calote? E agora ainda mais cinco por cento? Eu nem vou dizer que nome isto tem. Mas é assim… E ninguém pia!
Ricos! Fiquei para Deus me levar quando me disseram que a lista de espera para uma operação nos Hospitais dos Açores é quase um lençol. Há doentes que estão há mais de dois anos à espera de serem chamados e há outros, quando chega a sua vez, já partiram… Enquanto aqui se piora, em Portugal dizem que as coisas mudaram e que o tempo de espera está nos três meses para uma cirurgia. O Hospital do Divino foi o que mais se degradou e nem o batalhão de administradores que até agora teve, foi capaz de gerir aquele serviço/empresa que tão categorizados profissionais de saúde tem.
Ricos. Estou em pulgas para ver se como se vai safar o antigo Ministro Relvas com o imbróglio da sua licenciatura que agora foi remetida para o Tribunal. Se calhar o rico até já fez a prova escrita do exame que não dava para passar com a prova oral que apenas fez. Mas uma coisa é certa, o governo de Passos Coelho já aprovou um limite máximo de créditos a conceder pelas Universidades a quem quiser requerer equivalências com a experiencia de vida. Quanto a mim, Passos devia recuar há trinta e oito anos atrás e revogar todas os cursos feitos à custa de passagens administrativas instituídas durante o PREC e que tantos licenciados formou, alguns dos quais já estiveram no poder e outros ainda estão para mal dos nossos pecados. Se não fossem as passagens administrativas outro galo cantaria e talvez tivéssemos sido poupados à incompetência de muita gente.
Ricos! A minha prima Maria das Capelas, convidou-me para tomar um sumo de laranja fresquinho feito daquelas bem docinhas que ainda resistem à seca, e, que antigamente a Vila baleeira exportava para a Inglaterra e para outras paragens da Europa. Conversa puxa conversa e a minha prima Maria contou-me que no passado domingo de manhã, depois de ter mergulhado nas límpidas águas da piscina natural da zona dos Poços, do lado das Capelas, juntou-se a um grupinho de banhistas que estavam a contemplar o painel onde estão descritas as regras que devem ser seguidas pelos utentes daquela zona balnear, que foi uma vez mais contemplada com a Bandeira Azul. Nisso, qual não é o seu espanto, ao ler no bendito painel, “Zona dos Poços São Vicente”, quando o marco indica que quase a totalidade da grande e bonita infra-estrutura de banhos está situada na zona das Capelas e não em São Vicente Ferreira. A minha prima ficou irada porque diz que uma mentira tantas vezes repetida, passa a ser verdade, e não percebe porque é que a Junta de freguesia nunca pôs os pês à parede para reclamar junto do município de Ponta Delgada o que por direito lhe pertence. Respeite-se o que está delimitado pelos marcos que tanta canseira deu no passado aos autarcas, que defenderam com unhas e dentes a delimitação das parcelas da sua freguesia... Safa!
Meus queridos! Quem via as nossas estradas e as vê agora! Onde andam os nossos cantoneiros? Há dias, a minha prima Maria da Vila resolveu fazer o caminho antigo, isto é, em vez de ir pela estrada SCUT foi pela velha estrada regional. O tamanho das ervas já não se mede ao centímetro, mas sim ao metro… Uma pouca-vergonha, as flores estão escondidas num matagal que ninguém imagina. Melhor seria transformar as bermas em pastos comunitários para cabras e vacas… Entretanto, a minha prima Maria dos Prazeres que mora no Pico da Pedra, disse-me que nas freguesias a poente da minha cidade norte, vê-se muitos trabalhadores a cortar a erva, pensando ela que se trata de trabalhadores que recebem apoios sociais e por isso são requisitados pelas autarquias, o que me parece muito assisado. Ela até fez uma sugestão que é a de que em vez da erva ser recolhida e lançada à lixeira devia ser recolhida, e aproveitada para alimentar o gado. Se fosse num país poupado assim é que se faria!... Mas voltando às estradas na Vila, para quem dizia que as estradas regionais não iam ficar desprezadas por causa das SCUT, vou ali e já venho.
Ricos! Muito gostei de ver o meu querido director do jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio, no programa “Põe-te a Pau” da sempre irreverente Tia Maria do Nordeste. Américo Viveiros respondeu descontraidamente e com muito humor às perguntas da entrevistadora que não tem nem tabus nem papas na língua… Claro que a Tia Maria do Nordeste anda inquieta para entrevistar a Maria Corisca, mas não sabe como encontrá-la. E o meu querido director encaminhou-a para a minha prima da Rua do Poço. Mas se calhar nesse dia a minha dita prima andará a dar um passeio de idosos desses que Governo e Câmaras andam a oferecer agora. Bonito programa… Mas aqui com a Maria Corisca, quem se deve por a pau é a tia Maria do Nordeste… para quem vai um repenicado beijinho. É uma lufada de ar fresco na nossa televisão!
Meus queridos! No cortejo de abertura das Sanjoaninas, foi anunciada a transmissão em directo pela RTP/Internacional para todo o mundo… E das nove às 11 da noite, lá estiveram milhares de emigrantes à espera de ver o cortejo da rainha pela televisão. Só que aquilo atrasou tanto, tanto, que levaram duas horas de estopada com o apresentador Vitor Alves a fazer das tripas coração para aguentar o programa, repetindo tudo o que já tinha sido dito em peças do telejornal e na hora em que ia passar o primeiro carro alegórico, já era tempo de cortar a emissão da RTP/Internacional… Como o cortejo era sobre o mar, os emigrantes ficaram a ver navios… Quem quer transmissões televisivas tem de cumprir horários… E com as marchas da Vila foi igual. A meio canal… fechou-se a transmissão! Pois é! São sortes!
E por falar em marchas de São João, a minha prima da Rua do Poço contou-me que o Director Adjunto do Jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio Santos Narciso mereceu a homenagem da marcha da sua Ribeira das Tainhas. Disse-me ela que em São João a homenagem foi a cantar e hoje na freguesia de São Pedro a homenagem da Junta de freguesia vai ser com medalha e tudo… Um repenicado beijinho a Santos Narciso pelas merecidas homenagens.
A propósito de homenagens registo que estamos numa maré de prestar tributo a quem deu o que tinha e o que sabia pela causa pública. No concelho da Lagoa o nome de João Bosco foi atribuído ao centro comunitário de Água de Pau, e o de Carlos César à casa da cultura do concelho. Na Ribeira Grande, César já foi considerado cidadão honorário da minha cidade norte, e agora é a vez do meu querido Presidente Ricardo Silva também tornar cidadão honorário o 1º Presidente do Governo dos Açores João Bosco Mota Amaral cuja investidura é feita hoje no âmbito das festas de São Pedro. Cá por mim sinto orgulho em ter na minha cidade tão distintos cidadãos e oxalá que não se perca a embalagem de homenagear os prestantes cidadãos que há por aí fora… o que será um estímulo às novas gerações que têm de ser ensinadas a estudar a história para saberem donde provêm e quem os precedeu, porque senão, poderão pensar que chegaram onde estão por direito divino… coisa que não é possível…
Ricos! Não estive na Igreja do Espírito Santo da Maia, para a Missa evocativa dos 30 dias da morte de Daniel de Sá, ocasião que reuniu a família e muitos amigos do grande escritor agora desaparecido do nosso convívio. Mas quero mandar um ternurento beijinho ao meu querido Padre Nemésio Medeiros, antigo Vigário da Maia, que foi concelebrante e que na sentida homilia que fez referiu elogiosamente o jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio, ao dizer que foi o Correio dos Açores que Daniel de Sá escolheu desde sempre para publicação dos seus artigos e contos. Como sei que Daniel de Sá era um leitor atento dos meus recadinhos, aqui faço mais uma vez memória saudosa de tão grande vulto que fica connosco no muito que nos deixa!
Ricos, logo mais, vou vestir o meu vestido azul bandeira, que esteve a arejar debaixo deste calor de ananases, como diria o Eça, para ir com minha prima Valentina participar na festa de “aniversários” do meu querido padre Manuel Galvão. Não faltam motivos para extravasar tanta alegria. Faz hoje 22 anos que foi ordenado padre, 12 anos que chegou à Matriz da Ribeira Grande e como se isso não bastasse... há 2 semanas foi ordenado o Padre João Manuel Ponte seu paroquiano, quebrando um jejum de 44 anos sem vocações sacerdotais. Vou oferecer-lhe um envelope com dinheirinho suficiente, para ele ir ao cabeleireiro dar um corte a jeito ao farto cabelo que ostenta e que está démodé...!
2013-06-16
- Categoria: Opinião
- Criado em 17-06-2013
- Escrito por Maria Corisca
Ricos! Estou furiosa com esta greve dos professores aqui nas nossas ilhas! Não é por aquela lengalenga de a greve ser um direito constitucional porque isso ninguém põe em causa.. O que não levo à paciência é a minha sobrinha-neta estar nas mãos de gente que arranjou maneira de, sem perder dias de trabalho, ou seja, sem prejuízo para o bolso, prejudicar os outros, incluindo os colegas que não querem fazer greve (coisa que também deve ser “direito constitucional”). Isto é de bradar aos céus! Disse-me a minha prima Florinda que há combinação entre grevistas, acertando quem vai faltar à reunião de notas da turma x ou y para que os outros que lá estão presentes não possam cumprir o seu trabalho. Assim, ficam os alunos e os pais sem conhecerem as classificações do período… Veremos o que acontecerá agora com os exames. E choca-me mais ainda porque esses meninos e meninas estão a cumprir as determinações dos seus chefes do sindicato, ou da central sindical e, naturalmente, dos partidos que a comandam... Aqui na nossa região autónoma ainda se aceita menos esta vigarice, quanto é certo que não será cá aplicada a lei dos disponíveis que, segundo se diz, é o argumento principal dos professores do continente. Quando me preparava para perguntar onde estava o diligente Secretário da Educação, veio a notícia que os professores não farão greve nos Açores. Pudera… depois de terem garantido o que eles reclamam… ainda era o que faltava…
Ricos! Que bernarda vai para aí com aquelas pedras e inscrições que foram encontradas na Terceira e que segundo dizem, datam do tempo dos Fenícios!!! Parece que, afinal, não foram os portugueses os primeiros humanos a desembarcarem nas ilhas!!! Eu nem quero imaginar as consequências científicas e principalmente políticas se se confirmar o que agora dizem ter descoberto na Ilha de Jesus. Para já, seria preciso reescrever a nossa história desde o início, e depois saber afinal quem somos, donde viemos e para onde vamos… O que espero é que haja mesmo independência nas investigações que, note-se, vão ser “apadrinhadas” pelo governo, o que segundo gente ligada a estas coisas da investigação, deixa logo margem a muitas especulações. Por mim, com o devido respeito pelos investigadores da Universidade dos Açores, pedia uma investigação independente por cientistas estrangeiros, pagos por alguma instância internacional. Só assim se garantiria aos olhos da opinião pública verdadeira independência dos resultados...
Meus Queridos! Fiquei menente ao ouvir na televisão um senhor Borralho falar sobre a “Santa Aliança” que diz ele, dominou os anos do regime autonómico desde 1976 até 1996. Não sei onde estava o doutor Borralha nessas duas décadas, se no Alentejo ou nos Açores, mas o que sei é que o rico se enganou no tempo da Santa Aliança, porque se ela existiu… só se iniciou depois de 1996 e até aos dias de ontem… e por isso o período escolhido não encaixa naquilo que é real… Não li o livro que o rico publicou sobre a matéria, mas já prometi à minha amiga de peito Maria do Carmo que vou comprar um exemplar para ver o que há de imaginação e ficção para poder botar faladura depois…
Ricos! O meu querido Mário Mesquita disse ao Jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio que não é utopia querer a sede da Fundação Luso Americana nos Açores. Ele sabe do que fala e como tenho sido uma acérrima defensora desta medida, fiquei satisfeita com o que ele disse. Só tenho pena que quem devia reclamar e colocar este assunto na ordem do dia não o tenha feito até agora... Não sei onde param os Terceirenses que deviam estar a reclamar esse direito já que podem ficar sem umas centenas de postos de trabalho devido à retirada dos Americanos das Lajes. Se fosse noutros tempos já estariam a dizer que São Miguel é que tinha culpa.
Ricos! Não sou mulher de me meter em políticas, mas segui com atenção, esta semana, a decisão dos sócios dos Bombeiros de Ponta Delgada que não querem a sede da ARRISCA nos terrenos adjacentes. Sei que o meu sempre charmoso presidente Vasco Garcia tinha uma ideia diferente, mas com todo o seu fair play aceitou a decisão, mas acrescentando que “as pessoas ainda têm os seus fantasmas”. Rico! A minha prima Leopoldina que é sócia da Associação Humanitária disse-me que não há fantasmas nenhuns naquele caso e o que há são birras que não permitem os doentes serem tratados na Casa de Saúde de São Miguel. Lá já existem estruturas pagas com o pilim do povo que podem ser ampliadas e aproveitadas, em vez de obras provisórias… O fantasma é só este e não vale virem com chantagens emocionais de discriminação dos doentes e coisas parecidas… Juro que ainda hei-de descobrir o que anda escondido no meio disto tudo…. Juro mesmo!
Meus queridos! Eu já estava pronta com a minha prima Jardelina para uma semana de banhos nas termas da Graciosa, ali para os lados do Carapacho, na semana das Festas do Santo Cristo, em Agosto, mas agora fiquei de boca à banda quando me disseram que as termas não têm água, porque a água sumiu-se pelos milhões que o Governo ali gastou em obras inauguradas com pompa. Em poucos meses, e tudo a ferrugem levou. Até as letras garrafais da entrada estão cheias de ferrugem e os ferros do chão com que quiseram enfeitar e embonecar a coisa, já estão todos desfeitos. As águas corroeram os novos materiais concebidos e escolhidos por gente importante e sabedora que nem olhou para o que fizeram os nosso antigos e que durou anos e anos… Decididamente em termos de termas, estamos conversados… Nas Furnas de São Miguel mexeram nas águas como se mexe na torneira do quintal e as águas termais sumiram-se até hoje, deixando à sua sorte o hotel SPA… No Carapacho da Graciosa é o que se sabe. As termas da Ferraria estão fechadas e o Varadouro do Faial pouco ou nada se sabe dele. Foram milhões… e milhões enterrados e como de costume, aos costumes dizem nada!
Ricos! Muito gostei de ver na passada sexta-feira a entrevista do meu querido Rui San-Bento à RTP/Açores. O rico não esteve com meias medidas e disse um monte de verdades sobre as dúvidas que levanta o actual plano de reestruturação da Saúde na Região que segundo ele é retrospectivo mas pouco traz de bom para o futuro. E já veio o PS nas jornadas parlamentares dizer que ali há coisas que precisam ser revistas. No meio disso tudo, a única verdade é que o pilim não estica e como não se pode culpar Lisboa, deixa logo de haver argumentos. Política à parte, muito gostei de ouvir o antigo director clínico do Hospital que diz sem rebuço que, depois duma experiência daquelas, merece é o “descanso eterno”… Merece, sim, um ternurento beijinho!
Meus queridos! Uma Câmara de São Miguel vai pagar as vacinas contra a meningite que o Governo retirou do plano de vacinação. Quer dizer, como o Governo é da mesma cor, tem dinheiro para ser diferente no pagamento dos subsídios de férias e não teve para ser diferente no plano de vacinação, a dita Câmara, como manso cordeiro, em vez de reivindicar do Governo o pagamento das vacinas, substituiu-se ao Governo e diz que paga. E porque é que não paga o que retiram aos idosos? Há quem tenha uma grande queda para a pediatria, nem que seja na política!
Ricos! Anda aí uma grande polémica porque o Governo decidiu dar 600 mil euros em apoios ao Teatro Micaelense para este ano. É muito pilim, mas torna-se muito mais, sabendo que representa cerca de 50 por cento de todo o orçamento para a cultura em todos os Açores. Não vou comentar porque não sou entendida nisto e não sei, por exemplo, o que se passa com o Teatro Angrense que está fechado à espera de verbas para obras. Há números que assustam porque parece que uns são mais filhos da cultura e outro são filhos de qualquer coisa…!
Ricos: Pus o meu vestido azul bandeira a arejar, para vestir-me a preceito e ir assistir ao lançamento do livro “6 de junho: um marco na rota da Autonomia dos Açores”, da autoria do Diretor do Jornal que semanalmente me acolhe generosamente no seu seio, mas acabei por não ir… porque a minha dor ciática me pregou uma partida. Parece que foi de propósito, pois eu estava esfuziante porque me iria encontrar com velhos e novos autonomistas e isso permitir-me-ia rever amigos e conhecidos… Paciência! Mas soube que o foyer do Coliseu Micaelense ficou literalmente cheio de gente das mais diferentes camadas sociais que quiseram comparecer naquele acto histórico-cultural, onde Américo Natalino Viveiros passou a escrito memórias e factos dos antecedentes do movimento que levou à maior manifestação alguma vez realizada nos Açores. Segundo me contou a minha amiga Serafina (que gosta sempre de se fez acompanhar nestas andanças pela sua vizinha Jardelina), tanto Vasco Garcia, como Mota Amaral, Santos Narciso ou Carlos Cordeiro estiveram à altura da praxe de apreciação crítica da obra, que constitui um contributo determinante para se aprofundar e clarificar os contornos que levaram ao 6 de junho de 1975 e abrir portas a um debate sobre as verdades daquele grande acontecimento político e social ocorrido em Ponta Delgada. Mais parecia a defesa de uma tese perante um júri universitário. Acompanhado da família, a Serafina confidenciou-me que o meu Director transpirava cortesia e contentamento pelo facto, da plateia do foyer do Coliseu se ter tornado pequena para quantos quiseram associar-se ao lançamento daquele trabalho, registando apenas a ausência de “cristãos-novos”, que, convidados não puderam estar presentes… Ainda não li o livro e espero que Natalino Viveiros me mande com dedicatória adequada, conjuntamente com um exemplar do velhinho Correio dos Açores, para melhor perceber os acontecimentos que gerou tanta paternidade e tanta tinta faz correr.
De quem é a culpa?
- Categoria: Opinião
- Criado em 14-06-2013
- Escrito por Gonçalo Almiro Costa
Neste momento temos nos Açores uma taxa de desemprego como nunca se viu, as passagens aéreas para o Continente são cada vez mais caras (para residentes e para turistas que já desistiram de vir até aos Açores), os funcionários públicos da região não vão receber o subsídio de férias em Junho (pagos com ou sem gosto, a verdade é que não há dinheiro nos cofres da região para tal “extravagância”), as empresas estão à espera que o Governo Regional lhes pague as dívidas feitas ainda antes das eleições regionais (pelos vistos ainda vão ter esperar… sentados), os hotéis a fechar (hotéis da Horta, de Ponta Delgada, do Nordeste etc.) ou a nem sequer abrir (hotéis das Furnas e Casino), o navio Atlântida que não chegou a vir (apesar de o nosso Governo Regional já ter pago uma parte), as SCUTs por pagar, os centros de saúde a encerrar, a eutrofização das lagoas, as dívidas da SAUDAÇOR e da SPRHI (apesar do aval do Governo Regional a taxa de juro ultrapassa o dobro da taxa da troika), a “falência” de Câmaras Municipais dos Açores, o atraso nos pagamentos dos hospitais aos fornecedores, o insucesso escolar, as catástrofes naturais e seus prejuízos e ainda a falta de Sol, que ao que parece alguém se esqueceu de pagar a conta e assim este ano não há praia de jeito.
Sim, quem é o responsável pelo estado em que a Região Autónoma dos Açores se encontra?
Obviamente que a culpa é do Governo… da República.
Mas há dúvidas?
Eu tinha algumas duvidas, mas como o Presidente do Governo Regional dos Açores, seus Secretários Regionais e ainda o Grupo parlamentar do Partido Socialista dizem que isto tudo não se resolve por culpa do Governo da República….
Quem somos nós para por em causa quem já ocupa os destinos da nossa Região vai para... dezassete anos?
Quadrados Mágicos – Quadrado de Durer
- Categoria: Opinião
- Criado em 13-06-2013
- Escrito por Helena Sousa Melo
Como vimos na semana passada, um quadrado mágico é uma tabela de números inteiros, com a mesma quantidade de linhas e colunas, cuja soma, de todos os valores de cada linha, de cada coluna, ou de cada diagonal, é sempre a mesma. Esse resultado invariável é chamado constante do quadrado e o número de quadrículas de uma linha, ou de uma coluna, é denominado a ordem do quadrado.
Conhecidos desde a antiguidade, vêm intrigando várias pessoas, desde matemáticos, artistas e o homem comum.
No texto anterior foram referenciados os quadrados mágicos planetários. O quadrado de ordem 3 está associado a Saturno, o de ordem 4, associado a Júpiter, o de ordem 5, a Marte, o de ordem 6, associado ao Sol, o de ordem 7, associado a Vénus, o de ordem 8, associado a Mercúrio e o de ordem 9 associado a Lua. Cada qual com o respetivo número místico, soma de todos os elementos do quadrado, e a rota, soma de uma linha, ou coluna, do quadrado. Assim, temos para Saturno os valores 45 e 15, para Júpiter, 136 e 34, para Marte, 325 e 65, para o Sol, 666 e 111, para Vénus, 1225 e 175, para Mercúrio, 2080 e 260, e para a Lua, 3321 e 369, respetivamente o número místico e a rota de cada quadrado mágico planetário. Podemos então constatar que a rota pode ser definida, sem precisar recorrer a grandes fórmulas matemáticas, pelo quociente entre o número místico e a ordem do quadrado mágico. Por exemplo, relativo ao quadrado mágico associado ao Sol temo que 111 = 666 / 6.
O número místico também pode ser obtido calculando o valor da metade do produto do número de quadrículas pelo número de quadrículas adicionadas de uma unidade. Por exemplo, para o cálculo do número místico do quadrado associado a Marte, ordem 5, fazemos primeiro o produto de vinte e cinco por vinte e seis e depois dividimo-lo por dois, simbolicamente, [25 x (25 + 1)] / 2 = 325. Isto é certo porque os números existentes nesse quadrado, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24 e 25, formam uma progressão aritmética de primeiro termo igual a 1 e de razão igual a 1.
Façamos um aparte para sabermos o que é uma progressão aritmética.
Uma progressão aritmética é uma sequência de números em que cada termo, a partir do segundo, é igual à soma do termo anterior com uma constante, chamada de razão ou diferença comum da progressão aritmética. Numa progressão aritmética cada termo, exceto os extremos, é a média aritmética do termo anterior e do termos posterior ao considerado. Por exemplo, na progressão aritmética 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9, temos que 3 = (2+4)/2, ou 7 = (6+8)/2. Todos os outros quadrados mágicos planetários também são formados pelo mesmo tipo de progressão aritmética, com o primeiro termo é igual 1 e a razão 1.
Voltemos aos nossos quadrados mágicos.
Para que os quadrados planetários sejam perfeitos, ou seja, mágicos, a soma de cada linha, coluna, ou diagonal, deverá ter o mesmo valor, ou seja, ter a mesma rota ou direção. Assim, para termos a rota de cada planeta, que no texto anterior foi encontrada de modo experimental pela soma de uma linha, ou coluna, ou diagonal, devemos considera a metade do número de quadrículas, adicionadas de uma unidade e depois multiplicá-la pela ordem do quadrado. Por exemplo, para o planeta Júpiter, de ordem 4, fazemos [(16+1)/2] x 4 = 34. Como sabemos, o quadrado mágico planetário de Júpiter tem rota igual a 34 e número místico igual a 34 x 4 = 136. Esse quadrado mágico é composto pelos números: na primeira linha 4, 14, 15 e 1; na segunda linha 9, 7, 6 e 12; na terceira linha 5, 11, 10 e 8 e na última linha 16, 2, 3 e 13. Se adicionarmos qualquer uma das linhas, ou colunas, ou diagonal, obtemos 34. Por exemplo, consideremos a 2ª linha, temos que 9+7+6+12 = 34.
Um quadrado mágico de ordem 4 admite até 48 formações diferentes, uma delas encontra-se no canto superior direito da gravura Melancholia, obra do pintor, ilustrador e teórico de arte alemão Albrecht Dürer (1471 — 1528), também com interesse em outras áreas, nomeadamente a matemática, a geometria, a geografia e a arquitetura. Esse quadrado mágico é composto na primeira linha pelos números 16, 3, 2 e 13, na segunda pelos números 5, 10, 11 e 8, na terceira pelos números 9, 6, 7 e 12 e a quarta e última linha pelos números 4, 15, 14 e 1. Se repararmos bem, estamos perante o quadrado mágico planetário associado a Júpiter onde após a troca das duas colunas centrais, escrevemo-lo invertendo a disposição das linhas, ou seja, a última linha do quadrado planetário é a primeira linha no quadrado da gravura, a penúltima é a segunda, a antepenúltima é a terceira e a primeira linha do quadrado planetário é a sua última.
Um facto curioso é que este quadrado mágico de ordem 4, utilizando os números de 1 até 16, possui a particularidade de na sua última linha, e nas duas quadrículas centrais, estar lado a lado os números 15 e 14 que formam 1514, data da realização da obra. Observamos também que nessa mesma linha, nas casas extremas, estão os números 4 e 1. Se associarmos as letras do alfabeto a estes números temos a correspondência da letra D ao número 4 e da letra A ao número 1, que são as iniciais do autor dessa gravura.
Como propriedades deste quadrado mágico, também conhecido como quadrado de Durer, temos que a soma dos números de qualquer uma das linhas, colunas, ou diagonais é sempre 34, o mesmo valor que a rota do quadrado mágico associado a Júpiter, bem como, o mesmo para a soma dos quatro números que estão nas quatro quadrículas centrais, isto é, 10+11+6+7 = 34, ou para a soma dos dois números centrais da linha do alto com os dois centrais da linha de baixo, ou seja, 3+2+15+14 = 34, ou para a soma dos números das duas quadrículas adjacentes à casa extrema esquerda em cima com aqueles das duas adjacentes à casa extrema direita em baixo, isto é, 16+5+12+1 = 34, ou para as quatro quadrículas alternadas que contém os números 2, 8, 9 e 15, cuja soma é 34. Outras somas, envolvendo quatro números desse mesmo quadrado mágico, resultam também 34. Experimente encontrá-los e deslumbre-se com a sua magia inerente.
Há muitos outros tipos de quadrados mágicos, relacionados com a arte, com personalidades da história, com matemáticos, com jogos de tabuleiro, que ocultam todo um fascínio ao redor da sua formação e das duas propriedades, mas esses serão temas para outros encontros
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CMATI - Centro de Matemática
Aplicada e Tecnologias
de Informação
Departamento de Matemática
Universidade dos Açores
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Doentes…
- Categoria: Opinião
- Criado em 13-06-2013
- Escrito por Paulo do Nascimento Cabral
Saúde I – Está a decorrer uma série de consultas públicas sobre a reforma do Serviço Regional de Saúde. Neste âmbito, todos temos a responsabilidade de participar e de dar a nossa opinião, contribuindo com sugestões da nossa área de formação ou simplesmente como utentes, uma vez que este é um sector muito importante e que nos toca a todos. É sabido que toda esta reforma só avança devido às graves e periclitantes condições financeiras por que passa o Governo Regional, que tem actuado um pouco como o Governo Espanhol: precisa de ajuda, é ajudado, enceta as reformas necessárias com prejuízo para as pessoas, mas jamais quer ouvir falar das palavras “assistência financeira”. Mesmo assim, os cidadãos não se podem desviar desta responsabilidade. Considero que a aposta na prevenção é sempre a melhor opção pois já diziam os antigos “mais vale prevenir que remediar” e neste sentido, julgo que ainda há um enorme caminho a percorrer nesta vertente. Destaco apenas duas: uma maior aposta na rede de cuidados de saúde primários, com o reforço dos apoios aos médicos de família, com o aumento do número de equipas móveis, de modo a que estas vão ao encontro dos cidadãos mais necessitados; e por outro lado, proponho a criação da figura do “Psicólogo de Família”, em que se promoveria um acompanhamento psicossocial a quem mais precisa. Ambas as medidas permitiriam a aposta na saúde e em hábitos de vida saudáveis, promovendo desta forma o bem-estar psicológico das populações, permitindo assim uma maior resiliência e resistência à doença, evitando uma série de deslocações desnecessárias às unidades de saúde/hospitais, que, como sabemos, custam caro a todos nós. Segundo alguns estudos, uma parte significativa dos atendimentos em meio hospitalar e centros de saúde poderia ser evitada com uma aposta clara na prevenção primária. Se assim é, porque não aproveitar o conhecimento técnico e a disponibilidade dos Psicólogos? É que estes não servem só para a solidariedade social…
Saúde II - Este nosso Governo Regional tem uma estranha forma de negociar. Sempre que alguma entidade exige algo, teremos de certeza dois resultados: alguém, que não directamente o Governo Regional, há-de pagar; não será possível uma solução que seja mais vantajosa para os Açorianos. Foi assim com a SATA, que após os graves prejuízos económicos causados com as duas greves, o governo acabou por ceder sem que ninguém percebesse o acordo alcançado com os sindicatos, e é assim agora com os médicos. Neste último caso, o governo cedeu no valor das horas extraordinárias, pagando acima do que estava inicialmente previsto, mas o valor para este pagamento vai sair do orçamento dos hospitais. Ora, numa altura em que o Serviço Regional de Saúde está subfinanciado e em que os três hospitais estão em falência técnica, com dívidas monstruosas, não será este mais um número vermelho nestas contas? Tanto varre o governo para debaixo do tapete…
Saúde III - Dezenas de beneficiários das bolsas de formação atribuídas no âmbito das vagas preferenciais do internato médico, estão a ser surpreendidos pelas finanças, para liquidarem os impostos sobre os referidos apoios, acrescidos de coimas e juros. A situação é verdadeiramente insólita porque a própria portaria isentava as mesmas de qualquer imposto e as entidades nunca realizaram qualquer retenção. São situações desagradáveis, com consequências graves do ponto de vista da confiança entre o Estado e o contribuinte. Para quando uma posição oficial quer do Governo Regional, quer dos hospitais?
O sistema educativo, factor discriminatório?
- Categoria: Opinião
- Criado em 13-06-2013
- Escrito por Weber Machado
Creio que foi em 2006 que alguém fez um pedido de tintas à Cáritas de São Miguel para pintar a sua casa, sita numa das nossas freguesias.
Acompanhado da Sra. D. Encarnação Linhares, que tão bons serviços prestou à Cáritas durante o tempo em que esteve em São Miguel, fomos fazer uma visita a essa casa para nos apercebermos também das condições em que vivia a família que ali habitava.
Não foi para nós difícil constatar que a casa necessitava, de facto, de ser pintada. Mas era também evidente que, antes disso deveriam ser rebocadas diversas zonas das paredes para que a pintura a efectuar ficasse minimamente aceitável. O dono da casa era pedreiro e foi dito à esposa que a Cáritas podia oferecer uns sacos de cimento e areia para que fossem corrigidas as diversas deficiências no reboco.
Ela transmitiu as nossas sugestões ao marido, que entendeu a nossa mensagem e, na sequência da nossa visita, a casa sofreu uns melhoramentos que lhe deram um aspecto bem mais agradável.
Durante a nossa conversa, esteve presente um rapazinho, com cerca de dez anos, a quem perguntámos como iam decorrendo os seus trabalhos na escola. Respondeu-nos que estava no terceiro ano. Pedimos-lhe que fosse buscar o seu livro escolar para nos mostrar o que já sabia ler. Disse-nos que tinha perdido o livro.
- “E, aqui em casa, não haverá um pedaço de papel com letras impressas?” – perguntámos. Depois de muito procurar, não encontrou qualquer papel com letras e assim não nos foi possível verificar se aquela criança sabia ou não sabia ler mas, não será difícil adivinhar que seria mais uma condenada ao insucesso escolar.
Chegou depois uma mocinha de 14 ou 15 anos, também filha do casal, a quem perguntámos igualmente que ano de escolaridade estava a frequentar. Respondeu-nos simplesmente que já não estava na escola porque se ia casar. Saberia ler e escrever? Não procurámos saber mas, provavelmente, seria mais um caso de analfabetismo a juntar a muitos outros.
Penso que estas duas situações nos obrigam a reflectir e a preocuparmo-nos com o que está a acontecer com muitas crianças e jovens no decurso do seu processo de escolarização.
Li há pouco tempo a notícia de que, no concelho das Velas, em São Jorge, o insucesso escolar atingia 30% da população estudantil, o que mostra que não é só em Rabo de Peixe e noutras freguesias de São Miguel que este fenómeno acontece, infelizmente.
Na cadeia de factores e condicionantes na construção de uma sociedade, próspera e inclusiva, é pacificamente aceite que um dos elos mais fortes é o da Educação.
Ninguém duvida do grande esforço financeiro que está a ser feito entre nós para que possamos sair, também neste domínio, da cauda da Europa. Mas é necessário que o resultado deste investimento atinja um leque cada vez mais alargado dos nossos estudantes. Torna-se, por isso, indispensável adoptar as medidas adequadas e eficazes, mesmo que difíceis, para que o insucesso escolar possa ser reduzido a níveis aceitáveis e, também, para que a comunidade em geral não se sinta defraudada neste esforço.
As pessoas e as entidades envolvidas no processo educacional – governos, escolas, professores, alunos, pais, encarregados de educação, comunicação social, etc. – têm de assumir, conscientemente, com firmeza e a tempo, as responsabilidades que cabem a cada um. Torna-se necessário mudar mentalidades, provocar o aparecimento de novos dinamismos que, por desleixo, incúria, incompetência, preguiça e outras coisas mais, tardam em aparecer.
Da parte dos governantes, eles têm de compreender que muitas das dificuldades existentes no sistema educativo, e que afectam uma parte importante da população escolar, se situam a montante do mesmo.
Em princípio, o sistema é neutro. Os professores, os programas, o material didáctico, as turmas, etc., são meios sensivelmente iguais de que dispõem todas as nossas escolas.
Porém, na prática, ele é altamente discriminatório.
Para já, atentemos nos condicionalismos que afectam o sucesso ou insucesso escolar dos nossos alunos. Sabemos que a rede que é posta diante deles, para ser transposta, tem uma determinada malha e que, para a atravessar, é absolutamente indispensável que, para toda a população escolar por igual, sejam criados mecanismos que proporcionem condições para que o seu esforço seja coroado de êxito.
Muitos, a maioria, possuem de facto essas condições e conseguem transpor, com mais ou menos dificuldade, a malha da rede. Outros, porém – dada a sua situação económica e social que se traduz na falta de habitação condigna, de um ambiente familiar acolhedor, de alimentação adequada, de motivação e acompanhamento por parte dos pais para que os filhos frequentem a escola com assiduidade e gosto, de um bom comportamento e de saudáveis atitudes cívicas por parte dos alunos na escola, de apoio dos pais e/ou dos encarregados de educação na execução dos trabalhos de casa, como ferramenta indispensável para um progresso desejável da aprendizagem, que muitas vezes não existe por incúria, mas sobretudo, por falta de conhecimentos (lacuna que é imperioso suprir) – não possuem a energia necessária e suficiente para passar para o lado de lá da rede onde se situa o sucesso escolar.
Existe, portanto, uma discriminação que não se situa no sistema em si mas, sim, nas condições objectivas e subjectivas que, a montante, afectam muitos alunos e os impedem de agregar as energias e motivações que os dotem de um comportamento semelhante ao dos outros que são possuidores de tais condições permitindo-lhes, assim, singrar com algum sucesso nos seus estudos!
Evidentemente que, para obviar a estas situações, surge a tentação de alargar a malha da rede o que, aliás, não terá sido inédito, possibilitando assim que todos fiquem bem na fotografia. As estatísticas impõem, muitas vezes, as suas leis. E, quando isso acontece, as leis servem, muitas vezes, mais a quem as determina do que àqueles a quem se destina a sua aplicação... Estamos, naturalmente a falar de alunos com capacidade cognitiva normal.
De certeza que não é tarefa fácil escolarizar, com êxito, a faixa dos alunos que não possui as energias que atrás referi. Mas é indispensável tudo fazer para a dotar desses meios. Doutro modo, um sistema que, à partida, é neutro, torna-se, na prática, altamente discriminatório.
Importa criar um clima em que “saber mais”, adquirir os conhecimentos indispensáveis a uma boa integração no mundo em que vivemos, seja a normalidade, e em que o insucesso escolar, pelo contrário, seja uma situação incómoda e penalizante, que urge fazer sentir a todos e sobretudo aos que detêm maior poder de decisão, para que o desconforto daí resultante crie a necessidade de um empenhamento diferente nos diversos intervenientes no sistema.
Dotar os mais carenciados das energias atrás referidas, indispensáveis a uma boa aprendizagem, tem o seu preço, mas será este o caminho que é crucial percorrer para fazer rentabilizar os custos fixos inerentes à manutenção daqueles alunos nas nossas escolas.
Fora assim e eu, provavelmente, não teria encontrado, na visita que fiz a uma casa das nossas freguesias, por causa da sua pintura, duas crianças que me deixaram deveras preocupado relativamente ao seu futuro. Elas também têm o direito de ser cidadãos de corpo inteiro na nossa sociedade. E, sem instrução e sem educação cívica, dificilmente o conseguirão.
O 12º ano passou a fazer parte da escolaridade obrigatória. Se não se modificarem os factores e condicionalismos atrás referenciados, não será difícil adivinhar que esta medida, longe de facilitar a integração de muitos dos jovens que pertencem às camadas mais pobres da nossa população, poderá vir a acentuar o carácter discriminatório do sistema escolar. E, certamente, ninguém desejará que tal venha a acontecer.
Dados os graves desequilíbrios sociais existentes na nossa Região, este problema deveria fazer parte das preocupações de quantos – e deveriam ser muitos – têm a obrigação inequívoca, o dever grave e a responsabilidade irrecusável de se interessarem pela construção de uma sociedade mais justa, até para que seja capaz de dar reais oportunidades àqueles que, pelas mais variadas razões, têm dificuldade em acompanhar o surto de progresso que a nossa agitada época nos parece querer proporcionar.
Capítulo do livro
‘Flashes, Roteiros e Vivências’