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“Não olhem para a alimentação saudável como umacoisa sem sabor ou que implica fazer dietas, é apenas uma questão de haver equilíbrio”, diz Lia Correia

Decidiu ser nutricionista quando acompanhou a mãe a uma consulta de Nutrição. Agora é especialista em Nutrição materno-infantil e falou ao Correio dos Açores sobre a importância de uma alimentação equilibrada. No Dia Europeu da Alimentação e da Cozinha Saudável, Lia Correia explicou-nos como e porque devemos ter uma alimentação equilibrada, variada e completa.

Correio dos Açores – O que a levou a ser nutricionista?
Lia Correia – Decidi ser nutricionista porque fui acompanhar a minha mãe numa consulta de nutrição. Era uma profissão que não conhecia e que achei muito interessante, dado que conjugava a parte da saúde com a parte do bem-estar e da estética, com a pessoa a se sentir bem com o seu corpo. Como gostava muito da área da saúde, e não me via a ser médica, vi aqui uma oportunidade para conjugar várias áreas de que gosto.

Pode definir uma alimentação saudável?
É algo que tenho vindo a dizer e sou cada vez mais contra a palavra saudável. Porque é muito vaga e a sua interpretação varia de pessoa para pessoa. Prefiro dizer que a alimentação deve ser equilibrada, variada e completa que são as regras da roda da alimentação e, assim, na minha opinião, as pessoas compreendem melhor.
Quando se fala em saudável, a maioria das pessoas pensa logo em só pode comer vegetais e frutas e não pode comer nada com açúcar ou sal. Isto não acontece na realidade. Numa alimentação saudável é suposto haver equilíbrio, comer em maior quantidade alimentos que são mais nutritivos e menos alimentos que são menos nutritivos.

Então poderia dar um exemplo de uma refeição equilibrada?
A maior parte das pessoas conhece a regra do prato que é: metade do prato ser destinada a legumes, vegetais ou salada; um quarto com a fonte de proteína e um quarto com hidratos de carbono. A fonte de proteína vai depender do regime alimentar de cada pessoa. Se forem vegetarianas são as leguminosas como o feijão, o grão ou as lentilhas; senão forem vegetarianas pode ser o ovo, a carne ou o peixe. O outro quarto é destinado para os hidratos de carbono como por exemplo as massas, arroz, batata, castanha que estamos na altura delas ou o milho. É tudo uma questão de equilíbrio no prato.
Nós portugueses temos refeições desequilibradas porque não temos vegetais no prato e comemos mais do dobro da proteína recomendada.

Como é que poderíamos mudar esses hábitos?
É importante passarmos mensagens simples sobre os benefícios que os portugueses teriam com uma melhor alimentação e não apenas mencionar os benefícios para a saúde, uma vez que estes são a benefícios a longo prazo.
Poderíamos falar dos benefícios monetários. Sai muito mais barato consumir menos proteína animal, que é a mais cara, e optar por comprar mais legumes, mesmo que sejam congelados. Os congelados são bons e nutritivos na mesma. As leguminosas são muito mais baratas e aí poderiam poupar algum dinheiro. A população portuguesa começou por comer mais proteína animal por ser visto como sinal de abundância, algo que depois virou um hábito.

Esse hábito é mais fácil de mudar nos adultos ou nas crianças?
Nas crianças, sem dúvida alguma. As crianças são muito maleáveis, muito permeáveis e se for saboroso, se for divertido para elas, como por exemplo ajudar a preparar, elas aceitam bem.
Os adultos têm muito mais resistência porque têm mais crenças enraizadas de que não vai ser tão saboroso. Por exemplo, uma refeição vegetariana nunca será tão saborosa como um bife com batatas fritas. Na realidade, tudo depende dos temperos e de como é confeccionada a comida.

Esses maus hábitos devem-se a um desconhecimento que existe em relação aos alimentos?
Sem dúvida. Se as pessoas tivessem uma noção real dos benefícios que vêm de ter uma alimentação efectivamente variada, faziam muito mais esse esforço. Por exemplo, existem muitas pessoas que comem três peças de fruta todos os dias, mas são sempre as mesmas ou então comem legumes, mas só na sopa. Poderia ser uma maneira das pessoas reforçarem o seu sistema imunitário se tivessem esses pequenos hábitos todos os dias.
Parte muito de nós, profissionais de saúde, ensinarmos às pessoas o quão fácil pode ser.
Foi o facto de as crianças serem mais moldáveis nesse assunto que a levou a tirar a sua especialidade?
Sim, acho que as crianças são o futuro. Quanto mais cedo conseguirmos actuar, melhor. Por isso é que gosto de trabalhar desde a fase da pré-concepção, gravidez, introdução alimentar. No inicio conseguimos moldar preferências alimentares para uma vida inteira. Se conseguir actuar e fazer com que uma criança tão pequenina goste de amargo e de ácido, ela pode, por exemplo, comer iogurtes naturais, poupando quilos de açúcar por ano, se a fizer gostar de vegetais e frutas isto pode se tornar um hábito em vez de uma obrigação. Num adulto isto já é muito mais difícil de acontecer.

Como é que poderíamos combater a publicidade que se faz das grandes cadeias de fast food?
É muito complicado. A indústria alimentar está muito forte e aposta cada vez mais em marketing apelativo. Não há marketing suficiente daquilo que é equilibrado. Os produtores não têm poder para fazer publicidade de produtos que são interessantes do ponto de vista nutricional como as grandes marcas têm. Será sempre uma batalha muito injusta. O que podemos fazer é dar conhecimento às pessoas, uma vez que a publicidade enganosa pode ser algo perigoso.

Na sua opinião deveriam existir mais campanhas de promoção da alimentação equilibrada?
Sim. Estou a finalizar um mestrado em promoção da saúde e isto é algo que não se faz no país. Nós tratamos de doenças e tentamos prevenir doenças, mas promover a saúde é algo que não se faz. Não basta ir às escolas uma vez por ano. Fazem falta nutricionistas nas escolas. Este ano abriram apenas 8 vagas para o país inteiro o que não é suficiente. As crianças precisam que isto seja integrado no programa curricular.
Por exemplo, nos problemas da matemática deveríamos de mudar os exemplos das ‘fatias de bolo ou de piza’ para ‘fatias de quiche de legumes’. Às vezes basta mudar os exemplos e eles ficam a saber de alguns alimentos.

Os açorianos têm bons hábitos alimentares?
Os dados mostram-nos que não, embora os últimos dados que temos disponíveis sejam de 2016. Contudo, existem estudos que indicam que há um aumento do consumo de frutas e vegetais nas crianças. Enquanto não cumprirmos os mínimos das recomendações, não posso dizer que estejamos óptimos.

Concorda que a dieta mediterrânica é a mais equilibrada? Se sim, poderia aplicá-la a São Miguel?
Sim. Nós somos a região do país que come menos peixe e menos legumes e vivemos rodeados por esses alimentos. A dieta mediterrânica recomenda o consumo de pescado, de frutos gordos como as amêndoas e as avelãs, que previnem a inflamação do corpo, ao contrário das gorduras que usamos, tais como a banha e a manteiga. Também comemos muito poucas leguminosas.
O que a dieta mediterrânica preconiza é pormos em prática o que está na roda dos alimentos. E tem uns extras muito importantes que são: frutos gordos e ter momentos de refeições agradáveis e de convívio. Os métodos de confecção devem de respeitar as tradições mas fazendo pequenas alterações para serem mais interessantes do ponto de vista nutricional. Usar ervas aromáticas em vez do sal, pois consumimos mais do dobro da quantidade de sal recomendada.

Quer deixar alguma mensagem no dia Europeu da Alimentação e da Cozinha Saudável?
Não olhem para a alimentação saudável como uma coisa sem sabor, ou que implica fazer dietas. É preciso perceber que uma alimentação saudável permite o equilíbrio, mas o equilíbrio significa exactamente apostar naquilo que sabemos que é mais nutritivo todos os dias e em maior quantidade. Também há lugar para fast food e bolos, mas não todos os dias e em menor quantidade. É mesmo só uma questão de equilíbrio.

                             Frederico Figueiredo
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