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A distância de uma maioria absoluta a eleições antecipadas (I)

E o calendário eleitoral acelerou bastante nestes últimos dias. O governo do Partido Socialista, com uma maioria absoluta sólida, que no regime semiparlamentar português é causa suficiente para uma governação estável, duradoura e segura, ruiu por dentro, precisamente por via daquele que devolveu o poder aos socialistas quando nada o fazia prever. O primeiro-ministro demissionário, que tentou afastar o partido de José Sócrates, o último socialista a exercer as funções do mais alto cargo executivo do país, não conseguiu, ainda assim, afastar as lides, as pessoas e os hábitos socratistas do poder. Esta história, como todas as histórias, vem lá de trás. Começou antes de 2015.
Acho que é bom recordar alguns dos protagonistas deste enlevo, que tanto prejuízo trouxe ao país, cada um com as suas próprias razões e responsabilidades. António José Seguro, que no último debate com António Costa quando este decidiu disputar a liderança socialista, o confrontou com a frase premonitória, e que cito de memória: “o que o senhor quer fazer é voltar a trazer os negócios para dentro do partido”. Passados tantos anos, e depois de se ter rodeado de todos os que estiveram com José Sócrates, dos que se acredita participaram ativamente no descalabro do país aos que fecharam os olhos aos crimes que foram cometidos, António Costa, que chegou ao poder com a sua ajuda, acaba por cair também por culpa deles. E uma e outra coisa são só e apenas sua responsabilidade.
Carlos César, que tenta agora acometer-se ao papel de estadista responsável, participou ativamente na substituição do então secretário-geral pouco após a vitória num ato eleitoral, para promover a saída de António Costa da autarquia lisboeta e a sua incursão na destruição de um projeto moderado, de acordos de regime com os sociais-democratas, como aconteceu com a justiça, depois do trauma que foi a entrega do país às mãos da bancarrota. Tendo sido um dos artífices das posições conjuntas que permitiram a Costa governar, e tendo sido o seu líder parlamentar, o antigo presidente do governo regional é também corresponsável do caminho que foi feito até aqui, de dúvidas, escolhas de pessoas para altas funções executivas profundamente enredadas em situações conflitantes do ponto de vista moral, ético, legal e profissional.
Sobre Carlos César pende, ainda, uma responsabilidade subsequente da qual não se poderá livrar: foi pela sua ação, enquanto presidente socialista, que todas as ações, de militantes como Ana Gomes, foram travadas sempre que em congresso ou reuniões dos órgãos nacionais, se tentou debater, depurar ou sequer analisar como foi possível José Sócrates ter levado o país à bancarrota sem que ninguém se opusesse publicamente àquele caminho, e muito menos, dentro e fora dos órgãos de cúpula dos socialistas, a começar pelo secretariado, não tenha havido uma condenação, um alerta público, um aviso à navegação sobre os comportamentos altamente imorais e muito pouco legais, que levaram o antigo primeiro-ministro à cadeia e muitos dos seus correligionários a penas de prisão. Esse debate ainda não foi feito, por medo de que tenha como consequência o afastamento inevitável do poder de uma parte da elite socialista, que sobreviveu e se alcandorou a lugares de elevada importância nacional e internacional, durante a liderança de Costa.
Ana Gomes, que passou uma parte destes anos a falar sozinha, de cada vez que os principais responsáveis socialistas enfiavam a cabeça na areia. Esta demissão, este fim abrupto de um governo amalgamado em casos de corrupção, de promiscuidade, de dúvidas éticas e morais, apenas lhe vem dar razão, fazendo de António Costa e de todos os que o seguiram nesta estratégia, exemplares derrotados. Ana Gomes, em quem nunca votei, foi afastada das listas às eleições europeias devido à sua coragem, após tantas vezes ter dito aquilo que toda a gente cheirava: que os atos de José Sócrates e de grande parte dos que com ele privaram tinham tanto de errado como de ilegal. E ela, como muitos, onde me incluo, acreditaram que António Costa precisava de se rodear de alguns para que deles se pudesse livrar de uma vez. Puro engano, que o levou, também, ao engano da sua vida. Sai acusado de crimes graves, no exercício de funções. Uma curta distância.

Por: Fernando Marta – Professor (ferdomarta@gmail.com)

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