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O mar dos Açores é “vibrante e diversificado” mas está “sob ameaça e precisa de ser protegido”

O mar dos Açores tem um ecossistema marinho “vibrante e diversificado,” mas de acordo com dados do relatório científico “o segredo mais bem guardado do Atlântico”, do programa Blue Azores, está “sob ameaça e precisa de ser protegido.”
Os dados resultam de uma expedição realizada em 2018, que se focou nos ecossistemas costeiros, de oceano aberto e do mar profundo dos grupos Central e Ocidental. Estas expedições científicas têm o objectivo de dar suporte para o processo de definição das novas áreas marinhas protegidas e de gestão sustentável dos recursos da Região.
O Blue Azores tem como visão contribuir para que os Açores sejam uma economia modelo para uma sociedade azul onde o capital natural é protegido, valorizado e promovido. Esta economia é baseada no uso sustentável do capital natural por empresas e sectores da sociedade civil associados ao mar, com acções de conservação efectivas abrangendo todo o ambiente marinho. Para o efeito, o Governo dos Açores estabeleceu uma parceria com a Fundação Oceano Azul e a Waitt Foundation para implementar esta visão. O Programa Pristine Seas da National Geographic é também parceiro, juntamente com a Universidade dos Açores, o IMAR – Instituto do Mar, o Instituto Hidrográfico, a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental e muitas outras instituições e investigadores de todo o mundo.
As poças de maré constituem um dos habitats estudados no mar dos Açores que requerem protecção. De acordo com o relatório, trata-se de “habitats essenciais para inúmeros peixes e invertebrados nos Açores, incluindo juvenis do mero, Epinephelus marginatus, uma espécie Em perigo, segundo a UICN. Estes habitats estão sob crescente pressão e precisam de ser protegidos. As lapas Patella candei (intertidal) e P. aspera (principalmente infralitoral) são espécies-chave comercialmente importantes, que têm sido intensamente exploradas e cujas populações quase colapsaram.”

Riqueza de peixes de recifes costeiros

Foi estudada a abundância de peixes costeiros. Segundo os dados da expedição, “O número de peixes de recifes costeiros variou entre as ilhas, com a maior riqueza específica observada nas Formigas e no Faial e a mais baixa nas Flores e no Corvo. A biomassa de peixes também foi maior nas Formigas e no Faial e menor nas Flores e em São Miguel. Os valores mais elevados de biomassa foram observados nas Formigas e dentro da reserva voluntária do Corvo, que são ambas áreas marinhas (AMPs) fortemente protegidas. A biomassa total de peixes nos Açores é comparável a áreas intensamente exploradas no arquipélago da Madeira e nas Ilhas Canárias (Friedlander et al. 2017). Observaram-se muito poucos predadores de topo. A pressão sobre os recursos costeiros parece ser a principal causa destes baixos valores de biomassa, com o uso de redes disseminado nas zonas costeiras de algumas ilhas.
“Para estudar o movimento dos meros (E. marginatus), uma espécie «Em Perigo» segundo a UICN, ao redor da ilha do Corvo, foram capturados sete peixes dentro da reserva voluntária, que foram marcados com emissores acústicos e libertados. Todos os meros permaneceram dentro desta pequena reserva por um período de dois meses, mostrando a eficácia das AMPs de protecção total para a conservação desta espécie.”
Relativamente às comunidades de mar aberto, “as pelágicas dos grupos ocidental e central dos Açores foram amostradas, sendo as espécies mais abundantes pequenos peixes de cardume: o apara-lápis (Macroramphosus scolompax), o pimpim (Capros aper) e o chicharro (Trachurus sp.). Observaram-se regularmente tubarões, nomeadamente tubarões-azuis (Prionace glauca) e o rinquim (Isurus oxyrhynchos), que ocorreram em 32% e 23% dos locais, respectivamente.”
Ainda segundo o relatório, foram também avistadas nurseries costeiras de tubarões e “documentadas ocorrências junto à costa de tubarão-martelo (Sphyrna zygaena) e de cação (Galeorhinus galeus) por meio de telemetria acústica, sistemas remotos de vídeo subaquático e entrevistas com pescadores e investigadores. Os tubarões-martelo são avistados durante os meses de Verão, com pequenos grupos de juvenis, na costa sul da Ilha das Flores. No Faial, Graciosa e Santa Maria (geralmente na costa norte), observaram-se grupos maiores desta espécie com agregações de até 20 indivíduos de aproximadamente 1-1,5 m de comprimento.”
Foram ainda estudadas os ecossistemas de recife circalitoral ou mesofóticos, tendo sido “descobertas comunidades circalitorais desconhecidas, que abrigam espécies frágeis que formam habitats de elevado valor de conservação, como corais duros, gorgónias, hidroides da classe Leptothecata e grandes esponjas. Surpreendentemente, não foi observado nenhum tubarão nestes recifes, que deveriam ser um refúgio para este grupo.”

“Mais de 21000 km2 de fundo marinho foi cartografado em detalhe pela primeira vez.”

A expedição em questão permitiu cartografar mais de 21000 km2 em detalhe, pela primeira vez. O relatório da Blue Azores dá conta existem mais de 300 montes submarinos nos Açores que oferecem condições ideais para a ocorrência de corais e esponjas de profundidade, classificados como Ecossistemas Marinhos Vulneráveis,” mas alerta que “maior parte desses montes submarinos ainda não foram estudados cientificamente, mas alguns foram já explorados por redes de arrasto de fundo no passado e foram também afetados por outras artes de pesca de fundo. Muitas destas espécies que vivem em águas profundas têm crescimento lento, vida longa e uma baixa taxa de reprodução, tornando-as extremamente vulneráveis à pesca e outros impactos humanos, com tempos de recuperação que exigem décadas ou mesmo séculos. A diversidade de corais de água fria é particularmente elevada nos Açores, com 184 espécies identificadas até o momento.”

Descoberto novo campo hidrotermal

Este trabalho de investigação levou à descoberta de um novo campo hidrotermal. O campo foi designado de “Luso” e ocupa uma área de cerca de 400 m2, “sendo composto por, pelo menos, 26 estruturas semelhantes a chaminés de diferentes tamanhos com aberturas de até 30 cm de diâmetro. Foram identificados um total de 28 taxa pertencentes a 8 filos diferentes. A caracterização preliminar da região do Gigante identificou pelo menos 200 espécies bentónicas diferentes,” detalha o documento.
Na crista sudoeste desta área, foi ainda descoberto o jardim de coral mais extenso e densoidentificado até hoje, nos Azores: “Algumas das colónias atingiam mais de 1 m de altura e 1,5 m de diâmetro, tendo uma idade estimada superior a um século e encontravam-se ainda intactas. Outras, no entanto, apresentavam sinais de impactos significativos de palangres de fundo. A densidade, tamanho, carácter único e fragilidade destes jardins de Paragorgia, fazem desta área um excelente candidato a Ecossistema Marinho Vulnerável.

Necessidade de aumentar a Zona Económica Exclusiva (ZEE) dos Açores sob protecção total

Os investigadores alertam para a ameaça dos palangres, a sobrepesca junto à costa e as actividades ilegais. “As actuais áreas totalmente protegidas são muito pequenas e, portanto, a maioria dos ecossistemas são afectados principalmente pela pesca comercial. A atividade pesqueira na ZEE dos Açores não se distribui de forma uniforme, sendo mais intensa junto às ilhas de São Miguel e Santa Maria e nos bancos Princesa Alice e Açor.” Neste seguimento, o relatório recomenda “aumentar significativamente a proporção da ZEE dos Açores sob protecção total, incluindo a proteção das espécies e ecossistemas mais importantes e das espécies de elevado valor comercial e cultural. A protecção deve ser representativa dos habitats marinhos dos Açores, incluindo habitats costeiros, montes submarinos, ecossistemas de mar aberto e do oceano profundo.” É ainda recomendado “melhorar medidas para a pesca que promovam as pescarias locais sustentáveis e eliminem as práticas de pesca destrutivas e insustentáveis.”

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