Edit Template

“A gratidão é um passo chave para a prevenção de doenças como a depressão” afirma Luísa Cavalleri, Coach em Saúde Mental

Apesar de a sua existência ser desconhecida por muitos, o Dia Internacional do Obrigado, instituído em 2014, tem vindo a ganhar destaque ao longo dos anos. Actualmente, já existem estudos que explicam os benefícios da gratidão para a saúde. Luísa Cavalleri, Mentora em Saúde Mental, afirma que existe uma relação directa entre gratidão e saúde mental e que a sua prática pode influenciar positivamente a saúde mental das pessoas.

Correio dos Açores – Qual é a importância do Dia Internacional do Obrigado?
Luísa Cavalleri – Em primeiro lugar, quero agradecer a oportunidade para falar deste tema. Para a saúde mental, a gratidão é extremamente importante. É um passo chave para a prevenção de doenças, como a depressão, e é uma atitude contínua ao longo da vida. A existência de um dia dedicado a agradecer é recomendável para a saúde mental.
Existe uma prática em que a pessoa, ao final do dia, agradece por três coisas que lhe aconteceram e pelas quais está grata. Se puder conversar com alguém e dirigir o agradecimento a essa pessoa, ainda melhor.

Para si, o que lhe transmite um “obrigada”?
O agradecimento transmite uma ponte de conexão com o outro e algo que é importante para a outra pessoa. Quando alguém agradece por algo, mostra que esse assunto é importante si e, consequentemente, desperta na outra pessoa a curiosidade e a vontade de fazer mais. Além disso, é reconfortante saber que a outra pessoa reconhece algo que, muitas vezes, eu nem tinha dado conta. É um despertar para o outro.

Qual é a relevância de se expressar gratidão na promoção do bem-estar mental?
Tem um lado muito directo, que é o de promover um relacionamento positivo. Tendencialmente, se a pessoa tiver uma linguagem positiva focada no que é bom, vai gerar melhores relacionamentos na família e na comunidade. Internamente, a expressão de emoções positivas, a utilização destas palavras e o foco nestes aspectos tem um efeito protector das dificuldades e também da promoção do bem-estar.
Em psicologia positiva, utilizamos estratégias de ampliar o que faz bem e de repetir o que funciona. Embora esta atitude não resolva os problemas, nem retire a dor, dá força para superar os desafios e lembra a pessoa dos seus recursos e das possibilidades positivas que tem ao seu dispor naquele momento, o que é muito bom para quando alguém está a passar por um período de dificuldade.
Além disso, está provado que tanto a compaixão como a gratidão são emoções associadas às pessoas que avaliam a sua vida como muito positiva. Ou seja, a ciência demonstra que as pessoas que se sentem mais felizes têm presentes estas duas vertentes, da compaixão e da gratidão.

Pode dar exemplos de situações em que a expressão de gratidão teve um impacto significativo nas vidas das pessoas que acompanha? Recomenda a prática de exercícios específicos de manifestação de gratidão?
Nas várias pessoas que acompanho, uma das ferramentas terapêuticas que utilizo é o diário de gratidão, que sugere que a pessoa faça uma observação dos aspectos positivos do seu dia. Geralmente, após quatro semanas de utilização contínua desta ferramenta, várias pessoas indicaram melhoria, não só no seu bem-estar, como também ao lembrarem-se de recursos que tinham disponíveis para assuntos que eram importantes para si.
Houve casos de pessoas em situação de depressão, por exemplo, a retomarem algumas actividades que valorizavam e que já há algum tempo estavam paradas na sua vida. Surtiu um efeito desencadeador de novas acções que levaram a pessoa reconectar-se consigo mesma.

Como é que a gratidão pode ser incorporada nas rotinas diárias para promover a saúde mental?
Posso lançar um desafio para quem estiver a ler. Na minha Agenda Terapêutica 2024, no mês de Fevereiro pode ler-se: “Nutre os teus relacionamentos sem depender de ninguém.” A ideia é a pessoa fazer um elogio sincero ou, neste caso, um agradecimento sem esperar nada em troca. Ou seja, não ficar à espera que a pessoa reaja de uma determinada maneira, fazendo simplesmente este gesto para si própria, para se sentir bem.
Por vezes, pode ser um agradecimento que ficou esquecido no passado, que não houve oportunidade de fazer. Por exemplo, escrever uma carta de agradecimento a alguém que já partiu ou fazer uma homenagem a essa pessoa. No fundo, desafio o leitor a tomar uma nova acção de agradecimento para com outra pessoa, sem criar expectativas sobre a sua reacção.

Por vezes, existem situações difíceis na vida. Mesmo assim, é importante encontrar motivos para agradecer? Como é que a gratidão pode ajudar as pessoas a enfrentarem tempos difíceis?
Entendo que, às vezes, possa haver resistência e que até possa haver um contra-senso, na medida em que a pessoa está a viver uma situação difícil e tem de orientar a sua mente constantemente para algo positivo. Mas, fazer este treino mental de foco apreciativo é extremamente relevante. É claro que existirão momentos em que a pessoa vai sentir dor e ter dificuldade, no entanto guardar alguns momentos do dia para potenciar a vivência de emoções positivas é um recurso muito importante para ganhar força, para posteriormente enfrentar, tomar decisões, implementar mudanças e procurar ajuda.
As emoções andam todas lado a lado e há, de facto, momentos em que a nossa experiência é tão desafiante que a mente pode, naturalmente, tornar-se pessimista, mais negativa e, por isso, é muito importante manter esta rotina de higiene mental, de agradecer, sonhar, de se relacionar bem com os outros, porque isso tudo vai ser uma força para enfrentar o que é necessário.

Existe uma ligação entre a prática da gratidão e a capacidade de lidar com as adversidades e desenvolver a resiliência?
Existem várias características para a resiliência, mas o reconhecimento dos recursos, do que há de positivo e de algo tão natural, como ainda ter saúde, tempo, abrigo é o primeiro passo.
Conseguir reconhecer e desfrutar dos aspectos mais simples da vida, mesmo que não estejam como gostaríamos ou merecíamos, ou como poderão vir a estar no futuro, além da capacidade de ver o que já conquistou e o que tem, é extremamente importante para a pessoa se sentir confiante e continuar.

De que forma é que as palavras de agradecimento podem ser poderosas na melhoria da saúde mental, tanto para quem as expressa como para quem as recebe?
Por vezes, quando fazemos um elogio ou temos uma palavra positiva com os outros, a pessoa nem sempre reage necessariamente bem. Aliás, até pode reagir mal por inúmeros motivos. Essa reacção pode não ter nada a ver com quem está à sua frente. Quem faz o agradecimento, deve fazê-lo porque se sente genuinamente bem, sem esperar nada em troca. Geralmente, o agradecimento desencadeia uma reacção positiva mas, caso não aconteça, a pessoa não deve desistir da sua intenção.
Os agradecimentos são altamente poderosos. Podemos ver como funcionam bem em questões diplomáticas. No mercado da publicidade, por exemplo, podemos também observar o quão poderosa a linguagem positiva se torna nesses meios.
No nosso dia-a-dia, podemos experimentar fazer o agradecimento na forma de um gesto, oferecendo um presente ou fazendo uma surpresa. Um gesto também pode ser uma forma de aparecer.

Que mensagem quer transmitir neste dia?
Quero deixar uma mensagem de esperança para todos aqueles que já se sentiram incompreendidos quando agradeceram a alguém e também dirigir uma palavra de reconhecimento àqueles que, mesmo passando por uma dor muito grande, continuam a agradecer por algo de positivo que a sua vida tem.
Carlota Pimentel

Edit Template
Notícias Recentes
Plano de Saúde2030 aprovado pelo Governo “garante igualdade nos resultados da saúde”
Vilafranquense regressa às Festas de São João da Vila e forma a Marcha do Emigrante com representantes dos Estados Unidos, Canadá, Bermuda e Inglaterra
Novo hotel Hilton é de “vital importância para o desenvolvimento da notoriedade internacional dos Açores”, afirma Duarte Freitas
Azeite e papo-seco foram os produtos que mais aumentaram de preço nos Açores entre Junho de 2023 e Maio de 2024
“O ioga é uma jornada profunda de auto-conhecimento”, afirma a instrutora Carolina Lino
Notícia Anterior
Proxima Notícia
Copyright 2023 Correio dos Açores