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MUSA Azores investiga potencialidades criativas de um recurso ainda inexplorado: a bananeira açoriana

O MUSA Azores quer potenciar o uso sustentável e socialmente inclusivo de um recurso abundante nos Açores – a bananeira regional (da espécie Musa acuminata Colla), através da criação de peças artesanais. O projecto está nas mãos de António Braga, enfermeiro, e Vanessa Melo, arquitecta, que descobriram nas várias camadas do tronco da bananeira fibras e fios com diversas aplicabilidades e capazes de criar diversos objectos. Ainda numa fase inicial, o MUSA pretende continuar a fazer experiências com novos produtos artesanais e aplicar as suas descobertas em experiências entre a comunidade. Entre as várias texturas e os cheiros de fibras naturais, no seu ateliê, Vanessa Melo e António Braga contam os detalhes do projecto e revelam ainda que um dos “sonhos” da MUSA passa pela criação, nos Açores, de um centro interpretativo/ museu da bananeira.

O projecto MUSA Azores pretende potenciar o uso sustentável e socialmente inclusivo da bananeira regional dos Açores, através de peças artesanais. Como surgiu esta ideia?
António Braga – Costumamos dizer que há uma pré-história do projecto. Estava longe de sonhar que isto poderia ser feito aqui em São Miguel. Comecei a pensar em fazer artesanato com fibra de bananeiras quando estava em São Tomé e Príncipe. Estive a trabalhar lá como voluntário durante seis meses. Como os recursos são muito poucos, comecei a estudar formas de poder rentabilizar matéria-prima gratuita mas não tive tempo de fazer o projecto lá. Trouxe essa ideia para os Açores, mas ficou na gaveta durante alguns anos, até que conheci a Vanessa Melo e a Elga Martín. Partilhei com elas essa minha vontade de, a partir da fibra da bananeira, fazer peças de artesanato, e assim foi. Fomos para o quintal da Elga, havia lá umas bananeiras e cortámos a nossa primeira bananeira e as nossas experiências iniciais foram lá. Fomo-nos entusiasmando, crescendo devagar e nos apaixonando cada vez mais por esta planta, que dá muito mais do que fruto.
Tivemos muita gente a participar neste projecto quando ele ainda era um embrião. Havia muitas pessoas a oferecer bananeiras. Íamos ao quintal deste e ao daquele buscar bananeiras. Não temos um terreno com bananeiras, vem tudo de donativos. São os amigos do projecto, como nós chamamos.

Nos Açores não se reutiliza a bananeira, o que provoca grande desperdício…
Vanessa Melo – É sobretudo usada para compostagem. Na realidade, praticamente cortam e deixam apodrecer na terra. Só que também é um excesso. É um resíduo utilizado de alguma maneira, mas é pouco diversificado. É um recurso tão rico que é uma pena que não se faça mais nada a partir da bananeira. Como também fizemos várias pesquisas e entramos em contacto com outras pessoas, isto, de facto, é uma actividade que se faz muito noutros sítios que têm muita produção de bananeira, na Índia, Japão, Brasil, Canárias. Na Madeira também havia um artesão. Aqui era um recurso com o qual não se fazia mais nada para além de colher o fruto. Foi daí que nos veio também esta ideia de diversificar. Tem a ver com a sustentabilidade, no sentido em que se faz mais com um recurso só.
António Braga: Como é que se pode aproveitar este recurso de uma maneira mais polivalente em vez de ter só aquele fim, poder dar outros fins àquele mesmo recurso.

O MUSA trata-se então essencialmente de um projecto de investigação?
António Braga: Exactamente, com uma curiosidade, de ver o que dava. Entrámos em contacto com algumas pessoas à volta do mundo, na Suíça, principalmente, e agora nas Canárias e em Itália. A partir do contacto com as Canárias até surgiu a possibilidade de fazermos um workshop agora, em Maio. Vamos lá duas semanas colaborar com uma artesã que já trabalha com a fibra da bananeira há mais de 20 anos e tem um trabalho incrível. Chama-se Pilar e trabalha com o museu da bananeira. Foi uma parceria que fizemos com ela. Tem apoio da União Europeia, com uma candidatura que fizemos.
Já surgiram mais parcerias. Vamos participar na iniciativa “rara” da Vaga, que nos convidou a participar nessa residência artística. Vão ser 10 dias de trabalho fantásticos, em Julho. Este semestre já estamos com imensos projectos, que nem tínhamos pensado que iriam acontecer.
Vanessa Melo: Isto vai neste ritmo, que até já é acelerado para nós, porque é a part-time e fazemo-lo fora das horas de trabalho. Ainda não é uma actividade como gostaríamos, que desse para nos dedicarmos a 100%.

Qual é o objectivo final da MUSA? É apenas mostrar o que se pode fazer com a bananeira ou pretendem criar uma produção de artigos?
Vanessa Melo – Gostamos muito da parte criativa, de fazer os objectos, da investigação de querermos agora fazer com os arquitectos da DRAFT alguns protótipos. A ideia é que o projecto pudesse ser, para além dessa parte mais criativa, realizar workshops, em que convidávamos à visitação, para as pessoas experimentarem e perceberem o que é que é a fibra e o que é que ela pode dar, ou seja, ter uma valência mais educativa ou de experiência de lazer, com turistas. Algo que também pretendíamos desde o início era conseguir cativar outras pessoas que quisessem colaborar com a MUSA, como senhoras de mais idade ou pessoas que tenham habilidade para fazer croché, e poderem incorporar-se para se criar uma espécie de comércio justo um pouco mais abrangente, em que se pudesse depois produzir uma série de linhas como candeeiros, cestaria, papel, rendas, crochá, tricô, malas…
António Braga – Há tanta coisa que podemos fazer. A aplicabilidade da fibra é imensa e ainda temos a parte do têxtil com fio. Para além da fibra também temos a extracção do fio, que dá para fazer tecido.

Com que partes da bananeira fizeram as experiências?
António Braga – A maior parte da fibra que extraímos e do fio vem do tronco, mas neste momento estamos a trabalhar também com a folha. Já estamos a retirar algumas fibras da folha da bananeira. Estamos a aproveitar o tronco e as folhas, também. O objectivo era conseguirmos retirar utilidade de tudo, desde a flor, à folha, ao caule, e que fosse tudo aproveitado.

“Estamos sempre a descobrir
coisas, na verdade”

Estão a investigar mais potencialida-des?
António Braga – Sim. Estamos sempre a descobrir coisas, na verdade. Mesmo a questão da utilização do talo da folha da bananeira foi uma descoberta recente. Vimos um vídeo de uma senhora que trabalhava com os palitos feitos do talo da folha da bananeira.

Então do tronco podem extrair-se vários tipos de fibra?
Vanessa Melo – Exactamente, e do centro do tronco tiramos um fio que parece algodão.

Os resultados desta pesquisa foram registados no livro “Viagem ao centro da bananeira.”
António Braga – O livro não funciona como um manual. É só uma amostra do que é que se pode fazer. Tem um tipo de texto mais poético para dar um bocado do sabor e do cheiro dos ambientes e das experiências que fomos 9+*vivendo não é para ensinar as pessoas a extrair a fibra. Não era esse o objectivo. Era para despertar a curiosidade e mostrar o potencial que a bananeira tem e levar as pessoas a ficarem curiosas para tentarem perceber melhor, meter a “mão na massa,” para experimentar.

Que artigos conseguiram criar com estas fibras?
António Braga – A maior parte dos artigos que estamos a fazer agora é cestos até porque nos pediram protótipos de vários cestos e estivemos a experimentar com várias técnicas. Fizemos alguns artigos decorativos, entre outros.
Vanessa Melo – Temos muitas coisas que queríamos experimentar, ou aumentar o tamanho de algumas peças. A iluminação é algo que temos muito em mente, queremos fazer candeeiros.
António Braga – Estamos a investir na nossa formação. Temos as fibras, mas depois precisamos de dominar algumas técnicas para podermos criar os objectos. Por isso, foi uma descoberta, e ainda o é, todos os dias. Somos autodidactas.

O António é enfermeiro e a Vanessa é arquitecta. Foi este interesse pela sustentabilidade que vos juntou neste projecto que nada tem a ver com as vossas profissões?
António Braga – Sim, e pelo labor de mão, pelo artesanato, que demora tempo, em que participamos em todas as etapas do processo, em que nada é processado e somos nós que, através do nosso trabalho, de mãos, participamos em todo o processo, desde a recolha da matéria-prima à transformação e, depois, à criação de objectos. Isso interessa-nos, mas lá está, também está relacionado com a sustentabilidade, porque quanto mais trabalho de mão tivermos, menos recursos de maquinaria e de outro tipo de energia que não seja a nossa vamos fazer.
Vanessa Melo – Também tem a ver com a questão da circularidade e da necessidade de ter de reutilizar as coisas. Há a questão da reciclagem, quer da própria fibra, quer de outros materiais que se vão incorporando.

Quando tempo levam estas fibras a secar?
António Braga – Depende sempre do tempo. Temos aqui um clima húmido. Se deixarmos a secar no exterior demora imenso tempo e ela até tem tendência a apodrecer. Se for num lugar interior e seco, elas secam com relativa rapidez, em três ou quatro dias. Também depende da fibra. Há fibras que são mais finas e secam rápido. Outras podem levar uma semana ou mais a ficar completamente seca. Diferentes fibras têm diferentes tempos de secagem.

É possível adquirir estes artigos?
António Braga – Neste momento ainda não temos nenhuma loja online nem física. O que temos é a possibilidade de as pessoas fazerem encomendas. Através do nosso Instagram qualquer pessoa pode contactar-nos e pedir algo que lhe tenha chamado à atenção. Às vezes é através de um pedido de uma pessoa que a gente se motiva a avançar.
Vanessa Melo – Queríamos muito criar o site. Poder fazer as vendas online, mas é um processo que ainda temos de explorar.

Entretanto, desde que começaram o projecto já o levaram a várias comunidades, em workshops com idosos e crianças.
António Braga – Fizemos dois, como experiência para o livro. Fizemos ainda um team-building da Associação de Planeamento Familiar que quis vir cá e fizemos o workshop com os profissionais que trabalham nessa associação. Fizemos também com um grupo de senhoras do Centro Social e Paroquial de São Roque. Recentemente fizemos um workshop-projecto com a Vaga, também, construindo uma montra de Natal com recurso a fibra de bananeira.

Estas actividades vêm no seguimento do intuito do projecto ser inclusivo e partilhar o conhecimento com as pessoas?
António Melo – Também. Queremos oferecer isto como uma experiência, sensorial, de entretenimento. Há pessoas que querem fazer isto não para poderem fazer isto da vida delas, mas simplesmente por curiosidade, ou porque querem ter aquela experiência. Pode funcionar muito bem com turistas, por exemplo. Não tem uma finalidade de formação. Não seria um workshop, seria mais uma experiência.

“Témos um sonho muito grande que era ter um centro de interpretação, ou um museu da bananeira nos Açores”

Daqui para a frente, quais são os planos da MUSA?
António Braga – Até Julho, temos estes projectos de que já falamos: de formação, da ilha às Canárias, da residência Artística. Em Abril temos “Laranjeiras em Flor,” que também é outra iniciativa da Vaga.

Vanessa Melo – E entretanto começar talvez a organizar um pouco melhor a questão das vendas e arranjar um ritmo mais constante de produção de pequenos artigos para podermos vender e na mesma continuar a fazer a experimentação de outros objectos.
António Braga – Queremos investir mais no papel e no fio e tecelagem.
Vanessa Melo – É uma fibra muito versátil, dá para muitas coisas.
António Braga – Tínhamos um sonho muito grande que era ter um centro de interpretação, ou um museu da bananeira nos Açores. Outras regiões da Macaronésia, como as Canárias e a Madeira, já têm o seu centro interpretativo ou museu. A banana aqui não tem o mesmo peso económico como tem nessas outras regiões, mas em termos locais e regionais, a banana é o fruto que mais produzimos nos Açores e que consumimos internamente, em todas as ilhas. Por isso era muito interessante fazermos esse projecto.
Vanessa Melo – Seria uma mais-valia, também, neste período em que se quer dar mais a conhecer aquilo que são as ilhas e o que elas produzem. Obviamente que a banana aparece no mercado e sabe-se que é dos Açores, mas há um manancial de conhecimento sobre a própria planta em si que pode ser disponibilizado a quem visita, e não só.
A realidade é que quando falamos com muitas pessoas, há sempre um grande encantamento com a descoberta do que se pode fazer. As pessoas dizem que não faziam ideia de que a bananeira permitia fazer estas coisas todas. Acho que é sempre um assunto que fascina, de alguma maneira, por isso achamos que fazia todo o sentido ter este centro interpretativo do que é a produção de banana nos Açores e todas as outras mais-valias que daí podem vir.
António Braga – Uma mais-valia mesmo em termos turísticos. Neste momento há visitas às estufas de ananases. Porque não haver o mesmo tipo de visita, mas da bananeira. A maior parte das pessoas nem sabe, por exemplo, que a bananeira não é uma árvore. É uma erva gigante. Não está classificada como uma árvore. Foi uma das coisas que também aprendemos. Há tantas espécies de bananeiras no mundo e aqui nos Açores não estão classificadas as espécies que temos. Dizemos a banana regional, mas qual é a espécie da banana regional? Temos muitas espécies, mas não sabemos quais são. Temos de investigar. Temos de perceber quais é que se adaptam melhor ao nosso clima, ou não. Há espécies que trouxemos das Canárias, mas elas não se comportam da mesma maneira cá. Então todo este trabalho está todo por fazer.
Vanessa Melo – Esta é uma das coisas que planeamos fazer quando estivermos nas Canárias, é precisamente tentar perceber diferentes tipos de bananeiras e diferentes climas, como é que elas se comportam em termos da matéria que é produzida. Existe imensa coisa que teria todo o cabimento este conhecimento estar reunido num espaço, que fosse polivalente e permitisse experiências.

Mariana Rovoredo
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