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O mar e as paisagens dos Açores vão estar em foco na mostra de 12 pinturas em tela da artista micaelense Sara Rocha Silva

A exposição individual “Entre o banal”, da pintora micaelense Sara Rocha Silva, reúne 12 telas que transmitem a interpretação da artista a imagens que tirou de situações descontraídas do seu dia-a-dia em São Miguel ou em viagens. Vários trabalhos têm uma forte ligação ao mar, com paisagens à beira-mar e em todas as pinturas “há sempre uma dualidade, entre algo positivo/negativo”, conta a artista. A exposição vai ser inaugurada na Casa da Cultura Carlos César, na Lagoa, a 26 de Janeiro, às 18h30, e vai estar patente até 22 de Março de 2024. Sara Rocha Silva tem 36 anos e é natural de São José, Ponta Delgada. Fez o seu percurso académico em Lisboa, onde participou em diferentes concursos de arte. De regresso aos Açores, tem participado em exposições colectivas e terá agora patente na Lagoa a sua primeira exposição individual.

Correio dos Açores – A sua exposição, intitulada “Entre o banal,” vai ser inaugurada a 26 de Janeiro, na Casa da Cultura Carlos César, na Lagoa, onde estará patente até 22 de Março. O que nos pode contar sobre este recente projecto?
Sara Rocha Silva (Pintora) – Os trabalhos que estarão presentes nesta exposição foram realizados em 2022 e 2023. A exposição reúne 12 pinturas, que partem, sobretudo, de imagens que recolho do dia-a-dia, principalmente de situações onde estou mais descontraída e que se relacionam com o lazer. Há muitas telas que representam zonas perto do mar.
É um trabalho figurativo que parte de imagens pré-existentes, mas vão ao encontro das minhas próprias vivências. Não se trata apenas de fazer referência às figuras presentes nestas primeiras imagens, mas sim o que é feito com elas. Há uma identificação com as personagens e até com os próprios lugares, incluindo a organização espacial e uma análise à figuração. Por exemplo, as determinadas poses em que as figuras se encontram fizeram-me questionar as causas. Outro exemplo são as crianças. Há uma ligação ao infantil, e até a uma certa imaturidade. Por outro lado, ao sonho, ao idílico e à descoberta. Em todo o trabalho criado, há uma dualidade, entre algo positivo/ negativo. Parto também de registos dos locais que visitei em viagens. Estão ligadas ao desejo de um certo distanciamento.
O título “Entre o banal” vai ao encontro daquilo que disse acima. De certa forma, reencontrar-me nestes momentos que ganham outros significados, mas que estão presentes no dia-a-dia.

São paisagens de São Miguel?
Algumas são, outras não. Podem partir de viagens que fiz. No Verão, estive muitas vezes nas Calhetas. De certa forma, há uma descontração, não só da parte do observador, como em simultâneo das pessoas que estão no local. Não é uma atitude tão mecanizada. Temos expectativas de encontrar determinados comportamentos em determinados lugares. As pessoas interagem de uma forma muito mais natural e solta. Interagem com o meio envolvente de uma forma mais orgânica. Penso que isso facilita nesses casos e daí esta forte presença. Depois, o mar tem o movimento do vem e do vai, a conotação com a viagem, com a fluição, imensidão, desconhecido e horizonte.

Que outras exposições já realizou?
Em relação a exposições individuais apenas fiz uma, há muito anos, na Junta de Freguesia do Pico da Pedra, antes de ter entrado na licenciatura em Pintura. Entretanto, já na faculdade, e depois, participei em várias exposições colectivas. Participei três vezes no concurso JOV’ARTE | Bienal Jovem, sendo que recebi duas menções honrosas, em 2015 e em 2017. Adquiriram uma obra para o acervo municipal de Loures. Inclusive, depois foi feita uma exposição na Galeria Municipal Vieira da Silva, onde a mesma participou. Entretanto, participei em outros concursos.
A minha primeira exposição, mais consistente, em São Miguel foi no Centro Municipal de Cultura de Ponta Delgada. Fui conhecendo o meio e os artistas residentes, acabando por me envolver com os Urban Sketchers.

Esta é, então, a primeira exposição individual. É um marco na sua carreira?
Sim, de certa maneira. Enquanto exposição individual é a mais consistente.
Acho que todas as exposições são um marco. Todas as obras que fiz enquanto artista e pintora têm um significado forte para mim. Penso que quando há uma exposição sentimo-nos um pouco vulneráveis, porque estamos sujeitos às consequências dessa exposição, por isso penso que são sempre muito importantes e marcam momentos diferentes do meu percurso.

Qual é o seu processo criativo? Capta as imagens do seu dia-a-dia e depois interpreta-as na tela?
Sim, já não são as mesmas imagens iniciais, são outras imagens completamente diferentes. Todas são fruto de composições. Há uma transformação. Num dos quadros houve até a pintura in loco. Há outra tela que é muito mais livre, onde há anotações na própria tela, um transbordar.
Quando pinto, não começo numa tela montada, já com o tecido sobre a grade. Normalmente, o tecido da tela é fixo na parede. Às vezes, uma tela branca acaba por ter uma presença muito forte e acaba por nos inibir um pouco com a sua rigidez. Quando há esta desconstrução, leva-me mais para o campo do desenho. Quando o tecido da tela não está sobre a grade, faz-me associa-lo ao papel, associando também a sua bidimensionalidade a uma abertura.

Pode contar um pouco sobre o seu percurso académico?
Quando fui para a Faculdade de Belas Artes de Lisboa, entrei primeiramente no curso de Design de Comunicação, mas não o concluí porque não me identificava com a área. Sempre tive uma relação muito forte com a pintura daí ter optado depois por este curso. As pessoas às vezes tendem a associar a pintura apenas à técnica da tinta sobre a tela, mas a verdade é que pode ser multidisciplinar. Havia alunos que exploravam meios audiovisuais, ou outros, não se cingindo propriamente ao lado mais convencional da pintura. Tínhamos a possibilidade de nos inscrever em diversas optativas. Gostei imenso de ter podido interagir com a gravura, vitral, mosaico… Também tivemos áreas de estudo mais teórico. Desenvolvíamos os nossos próprios projectos. Há todo um percurso de descoberta, autorreflexão e de analisarmos aquilo que fizemos. É um processo.

Como é a experiência de ser artista nos Açores?
Quando não pinto, não me sinto bem. Há uma insatisfação e não me sinto concretizada. É muito importante para mim dedicar-me à pintura e a criar algo, não apenas criar por criar, mas pelo lado reflexivo. Sempre senti uma paixão pelo desenho e pintura. Quando não o faço, sinto-me um pouco desmotivada no dia-a-dia.
Agora, claro que o meio artístico não é fácil. Deparei-me com dificuldades. Por vezes eu tinha uma ideia das artes e dos artistas muito fantástica, mas quando caímos na realidade percebemos que não é assim e que viver exclusivamente da pintura é muito difícil. Não estou constantemente a fazer vendas ou a dedicar-me exclusivamente à pintura. Tem encargos pesados. São dificuldades que temos de tentar gerir da melhor maneira.

Ainda tem o sonho de poder viver apenas da pintura?
Já tive este objectivo de uma forma muito mais vinculada. Consigo fazer pintura, mas pelo menos por enquanto, não consigo viver totalmente dela. Tenho de conciliar com algo que dê o sustento no final do mês, de forma consistente.

Que projectos tem agora em mãos, para além da exposição “Entre o Banal”?
Já comecei a planear com o Museu Casa do Arcano, na Ribeira Grande, uma próxima exposição. Em principio vai ser no final do ano, mas ainda estamos a planificar.

Mariana Rovoredo

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