Edit Template

Neuropsicólogo João Pedro Lopes diz que a sociedade açoriana tem necessidade de debater as tendências de masculinidade tóxica

Correio dos Açores – O que se entende por “masculinidade tóxica”?
João Pedro Lopes (Neuropsicólogo clínico no CDIJA e Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses) – A masculinidade tóxica refere-se a um conjunto de conceitos culturais e expectativas sociais que impõem ideias prejudiciais e restritivas sobre o que significa ser homem. Isto inclui pressões sobre a figura masculina ter de ser agressiva, dominadora, incutindo também noções como a repressão emocional e a adopção de comportamentos, muitas vezes prejudiciais para si mesmo e para os outros. Este conceito contribui para a ideia de que os homens devem ser sempre fortes, independentes e destemidos, desencorajando simultaneamente as expressões emocionais de vulnerabilidade, empatia e outras emoções consideradas “fracas”.

Como surgiu este conceito?
Este conceito pertence à masculinidade hegemónica que enquadra a manifestação de diferentes conceitos de masculinidade, noções estas caracterizadas por restrições no comportamento com base nos papéis de género e que serviram para reforçar estruturas que ao longo do tempo foram dominadas pela vertente masculina. A toxicidade masculina é um destes conceitos presentes na masculinidade hegemónica, que apresenta características semelhantes às anteriormente descritas, nomeadamente pela apresentação da rigidez nos papeis de género, mas à qual se associam noções como a competitividade agressiva e a dominação sobre os outros.

De que forma este fenómeno prejudica os indivíduos
Segundo a literatura científica disponível, a aplicação consciente ou subconsciente das características associadas à toxicidade masculina encontra-se correlacionada com a restrição/limitação das expressões emocionais, promoção de comportamento agressivo, existindo também correlações com a manifestação de psicopatologia como ansiedade e depressão, contudo, estas condições clínicas dependem também de outros factores, tais como o uso abusivo de plataformas de redes sociais. A manifestação destes traços pode muitas vezes dificultar a formação de novos relacionamentos e contribuir para a perpetuação de estereótipos prejudiciais, principalmente em camadas mais jovens.

Enquanto neuropsicólogo, esta problemática é algo com que trabalha?
Esta é uma problemática que não surge de forma isolada no contexto clínico, ou seja, o motivo de acompanhamento não se prende com a presença deste conceito, mas sim com as referidas consequências do mesmo. Esta noção encontra-se muitas vezes camuflada debaixo de camadas associadas às dificuldades na relação com os outros, nomeadamente nas fragilidades em estabelecer vínculos significativos com outras pessoas. Ao ter isto em conta, acredito que os profissionais de saúde mental, independentemente da sua área de actuação e especialidade, acabam por ter de lidar indiretamente com estas fragilidades nas suas intervenções, principalmente em cenários de intervenção sistémica e familiar, com a qual não actuo mas manifesto muito interesse.
Na minha actuação enquanto clínico consigo reconhecer a presença destes conceitos na camada infanto-juvenil, muitas vezes perpetuada através dos já referidos vectores culturais e sociais, que acabam por ser facilmente disseminados através do uso das redes sociais de forma não filtrada.

E na sociedade açoriana em concreto, que impactos tem a masculinidade tóxica?
Não existem dados concretos que manifestem o impacto deste conceito na sociedade açoriana. Contudo, importa referir que as dinâmicas de poder masculino estão presentes na sociedade portuguesa, muito evidenciadas pela falta de equidade entre o género masculino e feminino, muitas vezes representadas pelas instituições governamentais e laborais, que promovem esta diferenciação. Na sociedade açoriana, assim como em muitas outras, a masculinidade tóxica pode contribuir para desafios específicos, como a pressão para o conformismo a padrões tradicionalistas de género, potencialmente limitando a liberdade individual e afectando a dinâmica de relacionamentos.

A sociedade açoriana conhece este fenómeno? Há necessidade de o assunto ser mais debatido na Região?
A sociedade não conhece este fenómeno de forma directa, não é um conceito falado por representar julgamento. Ao afirmar isto arrisco-me a dizer que serei julgado por partilhar esta visão que é meramente uma partilha de conhecimentos. Acredito que deveria existir lugar para que este assunto fosse mais debatido na Região, recorrendo ao ponto de vista educacional, trazendo uma perspectiva de maior prevenção ao nível da saúde mental dos açorianos. Dou como exemplo o conceito da repressão emocional, onde o homem não chora e se chora mostra fraqueza. Este exemplo representa um cenário onde a população masculina acaba por ser, inerentemente, mais resistente à procura de apoio psicológico, por considerar os estigmas associados à “fraqueza” que é a expressão emocional na figura masculina.
Através das iniciativas como a do “Loucotório” existe uma clara consciencialização sobre o que é a masculinidade, sem se referir à mesma como tóxica. É possível que mais diálogo seja necessário na sociedade açoriana para promover uma compreensão mais profunda e para incentivar a desconstrução destes padrões e crenças prejudiciais.

O que podemos fazer para contrariar estas situações?
É fundamental promover a educação sobre normas de género saudáveis (sem extremismos em ambos os espectros), encorajar a expressão emocional positiva e fomentar discussões abertas sobre as expectativas culturais em relação ao que significa ser homem. Devemos também destacar e celebrar modelos de masculinidade positivos nos média, cultura popular e vida quotidiana e assim ajudar a criar alternativas aos estereótipos considerados tóxicos. Isto envolve reconhecer os homens que expressam uma variedade de características, incluindo empatia, vulnerabilidade e respeito.
Importa também reconhecer e abordar questões de saúde mental associadas à masculinidade, nomeadamente, a normalização da procura de ajuda profissional quando é necessário e desestigmatizar a expressão emocional.

Quer acrescentar algo mais?
Gostaria apenas de acrescentar que esta temática não define a masculinidade como inerentemente tóxica, tendência esta muitas vezes disseminada pelas plataformas das redes sociais e que acabam por gerar discussões que levam a extremismos.
Importa, sim, enfatizar o diálogo sobre a temática e a validação da masculinidade positiva, devolvendo assim às camadas mais jovens modelos de referência adequados a um desenvolvimento psicoafectivo ajustado.
Acrescento também que o envolvimento activo em iniciativas comunitárias que promovam a igualdade de género, a diversidade e a inclusão social podem criar mudanças significativas. Isto obriga a reconhecer que a mudança é um esforço colectivo, onde toda a sociedade, incluindo as instituições, comunidades e indivíduos, tem um papel a desempenhar na desconstrução de noções associadas ao conceito de masculinidade tóxica, trabalhando para a promoção de uma cultura mais equitativa.
Ao abordar estas áreas poderemos começar a criar uma sociedade mais inclusiva, onde a masculinidade é definida em termos mais amplos e saudáveis, permitindo que os homens possam expressar-se na sua forma autêntica e positiva.

Mariana Rovoredo

Edit Template
Notícias Recentes
Novo modelo de avaliação externa dos alunos a partir de 2024/2025
Octant Furnas lança nova carta de Verão com sabores dos Açores com assinatura do Chef alentejano Henrique Mouro
Homem de 48 anos detido no Aeroporto João Paulo II por suspeita da prática do crime de posse de arma proibida
Incêndio em casa devoluta nas Laranjeiras
Câmara investe 250 mil euros na requalificação de ruas nas Capelas
Notícia Anterior
Proxima Notícia
Copyright 2023 Correio dos Açores