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Crónica da Madeira: O menino que quer ser ator

Matias é um menino que nasceu na Madeira e a sua história é fascinante. Um dia será ator. Aos dois anos brinca aos teatros com a sua avó Manuela. Aos quatro anos morre a avó e ele continua a representar interpretando a personagem da avó e, simultaneamente, a sua.Hoje, aos 11 anos, frequenta o Curso de Teatro, é um dos bons alunos.
Um dos seus grandes sonhos é falar pessoalmente com o seu ídolo Filipe La Féria, para isso está a juntar dinheiro a fim de frequentar os seus Cursos de Teatro de Verão.
Recordo-me de quando era criança havia ao lado da Igreja de Santa Maria Maior – Socorro, uma sala de espetáculos que constituía para os lobitos e escuteiros, o Grupo 88, uma verdadeira atração. Ali familiarizamo-nos com o palco e divertíamo-nos representando as coisas próprias da idade, orientados, às vezes, pelos escuteiros, que não percebendo nada de encenações, procuravam corrigir as nossas dicções. Eu era um desses lobitos que subia ao palco, deixava que a cortina se abrisse e dizia tontarias para que outros se rissem. Porém, é curiosamente aí que começa o meu interesse pelo teatro. Sempre que haviam espetáculos, de grupos amadores, lá estava eu, sempre à espera que aquele cortinado mágico se abrisse para viver o encanto dos cenários, dos bailados, das canções e os Compères que davam ritmo e graça ao espetáculo. Chegando aqui vou propriamente à história que motivou esta minha crónica: a do Menino Que Quer Ser Ator.
Uma história fascinante justamente por que sendo a personagem principal o Matias (este é seu nome), um menino com 11 anos de idade, ele revela-nos a sua determinação de enveredar por uma carreira que, desde os seis anos, já manifestava o seu desejo de querer ser ator.
Conheci-o no colo da mãe Sílvia e como, naquela altura viajava muito, saía e entrava como um pássaro que volta a casa e já não tem noção de quanto, tão rapidamente passou o tempo. Voltei a ver o Matias ele já tinha quatro anos, vinha pela mão do pai Ricardo. Aí tomei conhecimento de que aos dois anos ele brincava aos teatros com a avó Manuela e que os adereços eram alguns fatos de carnaval, cabides, mantas, lenços e gorros. Aos 4 anos perdeu a sua grande companheira de brincadeira. A avó deixa-lhe a lição de que o teatro é importante e então ele contínua.
Como já não tinha a avó vestia dois fatos diferentes: que representava a personagem da avó (ex: borboleta) e um outro representando-o (o menino do jardim).
O Matias é o mais novo de cinco irmãos, e, como tal, herdou os seus fatos de carnaval, brinquedos e roupas.
Os teatros, em casa, começaram a ser uma rotina, principalmente aos fins de semana. Toda a família era obrigada a comprar bilhete para assistir ao Teatro do Matias. Mas os “espetáculos” começaram a se sofisticar com lugares marcados, com canções, danças, declarações e com os cenários mais improváveis que se possam imaginar – desde mantas e barbatanas, a tábuas de engomar e chapéus.
O Matias teima que quer ser ator e os pais levam-no aos verdadeiros teatros, porém, há um problema: ele interage da plateia, com os atores, às vezes chora, ri e até corre para o palco.
Aos cinco anos foi assistir ao espetáculo: a “Cigarra e a Formiga” e desapareceu no final da sessão. Os pais entraram em pânico e todo o pessoal da sala apreensivamente começou a procurá-lo. De repente ele sai, de mão dada, com uma das atrizes, do palco. Esta acalmou os pais: ele só queria ver como era o palco a sério. Por ironia do destino essa atriz foi professora de teatro, durante quatro anos, do Matias. Mas a paixão pelo teatro vai ganhando, cada dia, mais força, ele pede aos pais que gostaria de ter aulas de canto.
Aos 6 anos a sua professora põe os alunos a assistirem “O Principezinho”, de Filipe La Feria. Chegou a casa em êxtase a perguntar se alguém conhecia um Senhor chamado La Féria. Incrivelmente, ele pesquisa os dados biográficos da grande personagem do teatro português e tudo o que e referisse ao seu trabalho e à vida do Teatro Politeama. A partir daí ficou claro o que queria ser: decididamente ator.
Aos 8 anos o Matias estreia-se, no Teatro Baltazar Dias, no Funchal, como um dos personagens principais da peça “Ezequiel” de Norberto Gonçalves da Cruz. Passado uns meses estava novamente em cena.
Aos 10 anos passa para o 2º Ciclo e, por coincidência abre, na Madeira, o ensino articulado de teatro. O Matias não perde tempo, pede aos pais que quer frequentar o Curso Básico de Teatro, com aulas de improvisação, interpretação, canto/voz e dança contemporânea. O Matias é um bom aluno, é persistente, batalhador e nunca está satisfeito. Ensaia em casa, ensaia nas férias, na praia, no campo… representar é a sua total felicidade. Desde que frequenta o curso de teatro, o Matias já fez sete musicais, interpretando personagens secundárias e principais.
Em 2023 realiza o seu maior sonho. Foi, finalmente, dois dias, a Lisboa propositadamente para assistir, no “Politeama”, a “Cinderela” e “Revista é Sempre Revista”. Recebeu a melhor prenda: a fotografia, do seu grande ídolo, Filipe La Feria, bem como dois programas, tudo autografado. Nesta viagem ele foi acompanhado pelos pais.
Na passada quinta-feira foi ter a Lisboa com o irmão Tomás para assistir ao musical: “Laura Alves”. A sua alegria era incomensurável, ele viveu intensamente o espetáculo. Decididamente teremos, no futuro, um ator, tanto mais que ele está a juntar dinheiro para frequentar os próximos Cursos de Verão de Filipe La Féria. Daqui para frente os seus estudos serão paralelemente enriquecidos com as suas aulas de teatro.
Filipe La Féria já prometeu que receberá o Matias. Há um aspeto que não posso deixar passar: jamais os pais contrariaram o filho. Uma atitude dos pais que revela inteligência.

João Carlos Abreu

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