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“Estas ilhas são maravilhosas, têm tanta cura e é gratuito”, afirma Milene Domingues, terapeuta de banhos de floresta que vai regressar à Região

O Shinrin-yoku ou banhos de floresta é uma prática de origem japonesa que surgiu nos anos 80 como resposta às altas taxas de suicídio e ao chamado Karoshi, morte por excesso de trabalho. Esta prática está a desenvolver-se um pouco por todo o mundo e a sexta edição do retiro “Forest Therapy – Açores” irá decorrer entre os dias 10 e 12 de Maio na ilha de São Miguel. Em conversa com o jornal Correio dos Açores, Milene Domingues, a guia de banhos de floresta que vai orientar este retiro, explica que, para além do conjunto de técnicas que esta prática oferece para lidar com o stress e a ansiedade do dia-a-dia, a própria natureza e tudo aquilo que lá podemos “saborear” e “inalar” corresponde a “uma cura natural” que nos faz tomar a consciência de que “voltar à natureza é urgente, não só pelo planeta, mas pela nossa própria saúde.”

Milene Domingues é licenciada em Design, onde percebeu o quanto os espaços que nos rodeiam interferem na nossa saúde. A sua busca pelo conhecimento leva-a a estudar medicina chinesa na UMC. Fez formação em guia de banhos de floresta e profissional de medicina de floresta pelo Forest Therapy Institute, em 2019. Estudou Bioenergetic Landscape, pela Archibio, em Itália. Tem formação na Federação de Comunidades de Damanhur em Itália, onde continua a sua investigação sobre comunicação com as plantas e as linhas sincrónicas. Neste momento está a fundar a Ngura – Floresta de Cura, com intenção de plantar a primeira floresta de cura no país.

Correio dos Açores – Como se procede à terapia da floresta?
Milene Domingues – A terapia na floresta teve origem no Japão, nos anos 80. Nessa altura havia uma taxa de suicídio muito elevada e muitas pessoas morriam por excesso de trabalho, aquilo a que eles chamam de karoshi. O Governo viu-se na responsabilidade de encontrar uma solução e, como eles têm imensas florestas, começaram a abrir algumas ao público e formaram médicos para acompanhar estas pessoas. No Japão, quando alguém vai ao médico com problemas de depressão, ansiedade, tensão e diabetes altos, por exemplo, a prescrição passa por fazer terapia na floresta. Há um exame prévio, depois há a terapia e, no final, são novamente avaliados. Consoante a evolução, a pessoa tem mais necessidade, ou não, de voltar à floresta. Tudo com zero medicação.
Foi através desta base que, depois, surgiram outras escolas e, neste momento, este tipo de terapias está a chegar à Europa. É uma forma de despertar os nossos sentidos em sintonia com a natureza e a partir disto, vamos desacelerar e o nosso corpo vai beneficiar de uma série de coisas. Para além disso, todos os compostos químicos que inalamos na floresta – que são libertados pelas plantas, árvores e pela própria terra – fazem parte de uma cura natural, onde não há necessidade de recorrer a medicação. As pessoas ganham ferramentas para gerir a ansiedade e o stress do dia-a-dia.

Que importância tem o meio ambiente na terapia?
É muito importante porque todos nós viemos da floresta, não viemos da cidade (risos). Nós somos natureza. Por exemplo, quase todas as pessoas sentem uma paz absoluta quando ouvem o canto dos pássaros e isso está ligado a uma memória que trazemos dos nossos antepassados, pois não herdamos apenas a sua cor dos olhos e cabelo, também herdamos as suas memórias. Os nossos antecessores deslocavam-se e estavam sempre a mudar de acampamento à procura de alimento. Nestas transições, subiam a uma montanha e a partir daí escutavam de onde vinha o som dos pássaros, precisamente, onde houvesse pássaros a cantar, havia água e alimento e, portanto, era seguro para acampar. O som dos pássaros era sinal de sobrevivência para os nossos antepassados e, hoje, é um som que inconscientemente nos dizque estamos num lugar seguro.
Nós precisamos deste meio ambiente. Sem a floresta e sem o verde, entramos em depressão. Um dos melhores exemplos é caso do Japão, em que as pessoas morriam por excesso de trabalho pois tinham zero conexão com a floresta. Solução? Voltar à floresta. Os níveis de suicídio e depressão mudaram radicalmente.

O que é que a inspirou a especializar-se neste tipo de terapia?
Nada disto foi planeado e surgiu de uma necessidade de encontrar respostas. Por volta dos 30 anos de idade, tive um tumor maligno, fui submetida a uma cirurgia e tive de retirar um rim. Foi um momento muito difícil e na altura senti a necessidade de perceber como é que isto acontecea uma pessoa saudável, que nunca tinha uma alimentação saudável e nunca fumou. Então,decidi estudar medicinas alternativas, medicina chinesa e um dia tropecei no Florest Therapy, Shinrin-yoku ou Banhos de Floresta.
Comecei por fazer uma experiência e, no final desse dia decidi fazer formação. Inicialmente fi-lo para mim e só depois com amigos, entretanto, os amigos começaram a trazer amigos e, quando dei por mim, já tinha pessoas a inscreverem-se. Estas sessões também acabaram por ser uma forma de angariar fundos para plantar a floresta, ou seja, uma parte dos fundos serve para comprar árvores que serão plantadas na Ngura.

O seu livro “Ngura” surge do sonho de plantar uma grande floresta em Portugal. Pode explicar?
Tem a ver com uma formação que fiz em Itália em Bioenergetic Landscape com o arquitecto paisagista Marco Niere. O nosso planeta é formado por “linhas bioenergéticas”, as linhas que os animais utilizam para se deslocar. São estas linhas que as andorinhas utilizam para voltar sempre ao mesmo lugar. A igreja católica e os monges já tinham estes conhecimentos, inclusive, há livro escrito por volta do ano 400d.c., presente na biblioteca do Vaticano, que explica como é que estas linhas eram utilizadas. Eles perceberam que, ao plantar árvores nestas linhas, estas vão gerar uma vibração que vai interagir com a vibração dos nossos órgãos e é uma forma de cura. Já existem bosques em Itália onde as árvores estão identificadas e a pessoa sabe que, ao estar sentada junto daquela árvore, aquilo vai ser benéfico para curar o fígado, os pulmões, etc.
A Floresta de Cura tem a ver com este conceito de que as arvores são plantadas em pontos específicos das linhas bioenergéticas onde as pessoas podem usufruir deste espaço para beneficiar de cura, e onde também se podemaprender técnicas para gerir a ansiedade e o stress do dia-a-dia.

Como tem sido a adesão das pessoas? Qual o perfil das pessoas que aderem?
A maior parte das pessoas não sabe muito bem o que é que vai fazer, mas sentem necessidade de se ligar à natureza, percebem que os benefícios são imensos e querem aprender mais sobre isso. Com idades entre os 18 e 75 anos, tivemos vários tipos de pessoas, desde terapeutas, professores, enfermeiros, mães…. Maioritariamente aqueles que sentem que estão a entrar num processo de depressão e ansiedade muito grave e não percebem bem o que está a acontecer, mas também temos pessoas que apenas têm uma ligação enorme com a natureza e querem aprender mais sobre isso.

Tem alguma história de sucesso que a tenha tocado particularmente?
Sim, muitas! As histórias de sucesso mais comuns são de pessoas que sofriam com insónias e, no fim de um dia na floresta, chegam a casa e dormem a noite toda. Não foi apenas uma vez que recebi mensagens de pessoas a dizer que não precisaram de tomar medicação para dormir.
Há pouco tempo, tive um participante com asma que estava com receio de ter uma crise na floresta. Tranquilizei-o nesse sentido e fizemos uma série de exercícios de respiração e o resultado foi incrível. Ele só não precisou de usar a bomba de asma, como não tossiu uma única vez. Ou seja, após seis horas na floresta, melhorou significativamente. Ele ficou maravilhado.

Que tipo de actividades realizam nas sessões na floresta?
Nós temos muito mais do que cinco sentidos que podem ser altamente benéficos para a nossa saúde física e emocional. Nas sessões, tomamos consciência dos nossos sentidos, tentamos perceber como é que nos são úteis e aprendemos a desfrutar deles. Por exemplo, são importantes para aprendermos a detectar como é que está a nossa saúde, se vamos, ou se estamos a ficar doentes. Este processo tem que ver com sair da mente e passar para o coração, está mais ligado ao sentir do que propriamente ao responder. Para além disso, baseio-me sempre em como podemos beneficiar desta cura – dos benefícios da natureza – com técnicas que foram cientificamente comprovadas.

Pode dar um exemplo de alguma técnica?
Um dos exercícios que gosto muito de fazer é o despertar do sentido do paladar. Convido as pessoas a saborear a floresta. A maior parte das pessoas percebe que não consegue sentir qualquer tipo de paladar, então aplico um exercício em que começam a despertar para este sentido sem ingerir nada. Devido ao excesso de alimentos processados, o paladar está em vias de extinção no ser humano, no entanto, é este sentido que nos diz o estado do nosso corpo. Em determinadas alturas da nossa vida, temos necessidade de comer um determinado tipo de alimento – por vezes alimentos mais picantes, outras vezes doces, salgados, etc. – e isto está relacionado com as necessidades do nosso corpo. Ao tomarmos consciência deste sentido, ao despertarmos o nosso paladar, ficamos muito mais despertos para as nossas necessidades físicas e, por vezes, basta escutar estas necessidades para evitar o uso de medicação no futuro.

Além dos benefícios para a saúde, como é que a iniciativa contribui para o meio ambiente?
O sítio onde estamos é de zero intervenção humana e as pessoas tomam consciência da importância de preservar estes espaços. Quando as pessoas dizem que vão fazer actividades ao ar livre, na maior parte das vezes estão a falar de parques ou outros locais que já estão muito alterados pelo homem. Nesta terapia é muito importante ir para locais onde não há esse tipo de intervenção para que as pessoas percebam exactamente o que é uma verdadeira floresta e o impacto que a sua falta tem na nossa vida. Após seis horas de Florest Threraphy, onde não se vê ninguém e não se houve qualquer tipo de ruído urbano, as pessoas ficam muito mais sensíveis e mais conscientes da importância da natureza.

Como surgiu a oportunidade de fazer retiros nos Açores?
A Misty vive em São Miguel e conhecia-a por motivos profissionais. Ela fez um passeio comigo, aqui em Óbidos, e no final disse: “tens de fazer isto nos Açores. Lá tens todo o potencial.” Foi ela que me ajudou a tornar isto possível,toda a parte burocrática, desde as licenças ao seguro que é diferente daquele que tenho no continente, ao contactar hotéis para alojar os participantes do retiro, o trasporte e o catering, pois fazemos piqueniques no meio do nada. As pessoas estão na floresta e, de repente, têm uma mesa montada. Tudo isto é uma grande logística e é a Misty quem tem ajudado a tornar tudo isto possível.

Considera os Açores um local privilegiado para um projecto como a Floresta da Cura? Porquê?
Sem dúvida. Tenho falado com a escola onde fiz formação, a Forest Therapy Institute, sobre o potencial que existe nos Açores e neste momento eles estão, pela primeira, vez a fazer as aulas práticas em São Miguel.

Como é que as pessoas se podem inscrever nesta sexta edição do retiro nos Açores?
Basta ir ao site da Negura, lá encontram as informações todas. Podem clicar em “Quero saber mais,” inserir nome e e-mail e a seguir vão receber toda a informação do evento. Também podem ir ao Instagram ou Facebook e enviar-me uma mensagem.
Esta é a 6ª edição do retiro Forest Therapy nos Açores, vai ser de 10 a 12 de Maio na ilha de São Miguel. Temos um preço especial para residentes porque considero importante que participem. A maior parte dos locais que fizeram o retiro connosco, não usufrui da ilha. Não têm noção potencial do sítio onde vivem e não conhecem a maior parte dos sítios. Émuito enriquecedor as pessoas poderem usufruir e beneficiar do sítio onde vivem.

O que os participantes podem esperar do retiro nos Açores?
Vamos oferecer três dias para relaxar e abrandar, onde as pessoas vão aprender técnicas de cura através da natureza. Vamos dar ferramentas para que consigam gerir o stress do dia-a-dia. Para além disso, as pessoas vão saber muito mais da cura através da natureza. Há certas coisas que podemos fazer de forma gratuita e isso pode prevenir imensas doenças. São coisas muito básicas, mas que podem fazer muita diferença na vida das pessoas.

Tem alguma mensagem que queira partilhar com os leitores açorianos?
Tenho sim. Estas ilhas são maravilhosas, têm tanta cura e é gratuito. Usufruam desta dádiva porque vocês têm um sítio maravilhoso para se viver. Os banhos de floresta relembram-nos da importância de voltarmos à natureza, de voltarmos a ser quem somos porque todos nós somos natureza e às vezes a cura é tão simples e está à disponibilidade de todos. Às vezes não conseguimos ver isto porque estamos desligados daquilo que nós somos, então, voltar à natureza é urgente, não só pelo planeta, mas pela nossa própria saúde.

Daniela Canha

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