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Artesão Eduardo Câmara já crioumilhares de terços do romeiro e é quemcultiva a planta Lágrimas de Maria

Para Eduardo Câmara, o gosto por este terço artesanal existiu desde sempre. Ingressou nas romarias aos sete anos de idade, quando ainda se ia “de pé descalço”, e faz estes terços desde os 14. Também é ele quem cultiva as Lágrimas de Maria, uma planta trazida por emigrantes no Brasil que dá as contas naturais do terço. Foi em Abril do ano passado que esta tradição com quase meio século de história foi reconhecida como marca colectiva ‘Artesanato dos Açores’.

Correio dos Açores – Há quanto tempo é que faz terços? Como é que surgiu esse gosto?
Eduardo Câmara – Comecei a fazer o terço por volta dos 14 anos, mas acredito que já nasci a fazer terços. Fui professor de trabalhos manuais e romeiro deste os sete anos de idade. Nesta altura, ia de pé descalço. O clima era completamente diferente, íamos no Inverso, a chuva era muito séria e os caminhos eram de cascalho. Lembro-me que quando lavávamos os pés à noite, estavam muito doridos, mas não tinham feridas, pois a sola com que nascemos já estava protegida.

Tem ideia de quantos terços é que já fez?
Não tenho conta. São milhares. Tenho levado os terços a muitos sítios, como os Estados Unidos, Canadá, Itália… Por exemplo, na feira do Dia de Portugal nos Estados Unidos e em Agosto nas Festas do Espírito Santo em Fall River. Estas feiras são muito importantes. Quando lá estamos, somos promotores vivos do artesanato dos Açores.

Que outras peças de artesanato faz?
Além do terço, faço outros trabalhos também certificados pelo Centro de Artesanato dos Açores, como Registos do Senhor Santo Cristo dos Milagres, presépios de lapinha, miniaturas em madeira e figuras com movimento.

Para além de criar os terços, planta as suas próprias contas. Pode nos falar um pouco sobre a planta Lágrimas de Maria?
As Lágrimas de Maria não são uma planta endémica dos Açores. Foi trazida por romeiros emigrados no Brasil. Depois do terramoto de 1522, em Vila Franca do Campo, houve muita emigração para o Brasil, principalmente de trabalhadores do campo e lá alimentavam o gado com esta planta, com a planta em si porque o grão não serve de alimento. Então, há alguém que encontra esse milho e vê que é uma conta muito resistente (só de martelo é que parte), pequena, com brilho e com o próprio furo. De facto, é uma dádiva de Deus para se fazer o terço. Tenho reparado terços com mais de cem anos e reparo que a conta em si está nova, rija e, portanto, a única coisa que reparo é o fio.

Pode falar um pouco sobre o processo de plantação?
Para a plantação é preciso ter um espaço grande, caso contrário não produz grande quantidade. Enquanto está em flor, a abelha vem e nica a conta, e quando cresce vai aparecer essa deformação e, portanto, é uma conta que não posso usar. Para além disso, muitas delas caem no chão e se faz vento também se produz menos.
Se a planta não amadurecer enquanto está plantada, não adquire a sua cor natural – o cinzento claro. É uma conta se põe na terra em Fevereiro/ Março e ao fim de dois ou três meses acaba por nascer. Isso vai desde Fevereiro até Julho/Agosto. Em Setembro, já começamos a apanhar algumas contas e, portanto, é um pé de milho que atinge cerca de um metro e trinta, tem uma folha muito idêntica ao milho comum, embora mais estreita.

E o processo de criação dos terços como funciona?
O material fundamental é a conta, um grão de milho. Dependendo da estação e do terreno, existem uns mais pequenos e outros maiores De resto, é preciso o arame, o crucifixo e o passador (a medalha). A conta em si já traz o furo, tenho é de tirar de lá a sementinha, tem de ser uma conta bem seca. Para secar, é preciso aproveitar o Sol para ficar com brilho.

Não há envernizamento ou outro tipo de tratamento na conta?
Nada. É por isso que digo que esta conta é uma dádiva de Deus. O que é preciso é que abramos os olhos para ver onde estão as coisas. Houve o terramoto, depois dá-se a emigração e alguns vão para o Brasil. A verdade é que era preciso encontrar material porque na altura era feito com cordas e materiais mais fracos. Deus iluminou o caminho para encontrar este grãozinho.

O que é que distingue os seus terços dos outros?
Para já, por ser uma conta natural. Os outros são fabricados, são feitos em máquinas, enquanto estes são uma peça artesanal do princípio ao fim. Depois, o facto de ser artesanal também tem a ver com o tempo que levo a fazer o terço. Eu que já tenho muita prática, preciso de duas horas e meia para fazer o terço. E de ter já acessórios feitos, a conta escolhida, os arames alinhados… Se eu parar de produzir durante algum tempo, por exemplo um mês, já não vão ser mais de duas horas e meia.

O terço do romeiro foi certificado com a marca colectiva Artesanato dos Açores. O que significou este reconhecimento para a sua prática?
Foi luz para os meus olhos. Era uma coisa que vinha a pedir há muito tempo ao Centro de Artesanato dos Açores porque é uma peça toda natural e que tem quase meio século de existência. Temos, por exemplo, a Lapinha que também já tem mais ou menos essa idade e é uma peça certificada há muito tempo, então, porque não o terço?

A par do lenço e do bordão, o terço é um elemento muito importante das romarias. Pode falar um pouco sobre estes símbolos?
O romeiro tem cinco elementos simbólicos, o terço, o xaile, o manto, o bordão e o saco de pano. O xaile significa o manto com que cobriram Jesus e o bordão significa a cruz que Jesus carregou. O terço é um elemento especial. É uma rosa dedicada a Maria. Simboliza oferecer uma rosa a Nossa Senhora por todo o seu sofrimento.

Para si o que significa o terço?
Para irmos trabalhar temos de levar o nosso instrumento de trabalho porque sem ele, pouco se faz – quem vai para o escritório usa a caneta, o camponês vai para o campo e leva o saco. O terço é um instrumento que nos permite dialogar com Deus. Muitas pessoas fazem piada disso, por exemplo, dizem “Eu rezo o terço num instante. Rezo uma Avé-Maria e, depois, uma conta é igual à outra, etc.” Mas não é assim. O terço tem de ser rezado e meditado, não pode ser como uma ribeira que corre e vai parar ao mar. O terço é o instrumento para eu dialogar com Deus.

Qual é a parte mais gratificante do seu trabalho?
Quando estou a encadear uma conta, aquilo dá-me tempo para rezar e, portanto, geralmente sou o primeiro a rezar aquele terço. A parte gratificante é saber que vai chegar às pessoas e que vai brilhar nas mãos delas. Vai parar a muitas pessoas e é uma peça de agradecimento, de sofrimento, de muita dor, mas também de muita alegria.
Quando as pessoas estão aflitas, às vezes apertam o terço pois quando o compram, não é para deixar na gaveta, mas para usar. No fim de contas, vai haver agradecimento pois, como se costuma dizer, depois da tempestade vem a bonança e aí a pessoa vai dizer “agora vejo bem aquilo que se passou.” Diz o ditado antigo que Deus escreve direito por linhas tortas, mas penso que ele escreve sempre direito.

Onde podemos comparar os seus terços? Quanto custa um terço?
Vendo os terços nas feiras, principalmente na feira do Santo Cristo e forneço algumas lojas de artesanato. É uma peça que custa à volta de 15 euros.

Quer deixar alguma mensagem aos nossos leitores?
Que olhem para o terço como um instrumento, como uma peça que vale a pena ter junto de si, quer seja no bolso, quando caminhamos, ou debaixo da almofada, porque nos dá um outro descanso quando dormimos.
Daniela Canha

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