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“Elas não protestam, resmungam”: 50 anos depois do filme “Lúcia e Conceição”

Pouco depois do 25 de Abril, a Cinequipa chega a São Miguel para documentar as condições de trabalho do pós-revolução. Por entre um grupo de crianças, trabalhadores da apanha do chá na Fábrica da Gorreana, encontram Lúcia e Conceição, as únicas que “não tiveram medo de falar.” Cinquenta anos depois, o jornal Correio dos Açores esteve à conversa com as duas protagonistas deste filme dirigido por Fernando Matos Silva.

Baseado no testemunho de duas jovens de 15 anos que trabalham juntas no campo, o filme “Lúcia e Conceição” foi produzido, em 1974, para a série televisiva “Ver e Pensar”, da RTP. A frase “Elas não protestam, resmungam” faz parte do comentário que acompanha este registo cinematográfico, num tempo em que a televisão ainda não tinha chegado aos Açores e a própria democracia ainda estava a dar os primeiros passos.
Para Lúcia e Conceição, a temporada nas plantações de chá durava cerca de seis meses, depois, seguiam para Fábrica de Tabaco da Maia, um trabalho que se prolongava “mais ou menos até ao Natal.” O resto do ano era dedicado à costura e à lida doméstica. Tinham a sexta e quinta classe, mas não podiam prosseguir com os estudos, porque os cerca de 36 escudos diários que ganhavam eram indispensáveis para a economia familiar.
Depois do trabalho, liam livros à luz do petróleo, “romances de amor”, entre eles as famosas novelas de Corín Tellado. Com alguma surpresa, o cineasta do continente acaba mesmo perguntar se não é um pouco estranho chegar a casa “depois da vida dura do campo” e ler romances. Mas elas não liam jornais, pois era “muito pouca gente” que o fazia na Maia. E quando lhes pediram opinião acerca das modificações políticas que tinham acabado de acontecer no país, não sabiam o que responder.
Filhas e netas de camponeses vetados à emigração, as duas amigas falavam em ir para o Canadá, porque Conceição já tinha família à espera. Mandar uma carta de chamada também para Lúcia era um dos planos que tinham em conjunto.
A carne de galinha “era de festa a festa” e comiam, sobretudo, batatas, feijão, favas e peixe. As casas tinham chão de terra, não havia electricidade e muitos ainda não sabiam o que era o teatro.
Na introdução do filme, Fernando Matos Silva diz que estas crianças “nunca irão ver as imagens deles captadas. Esse prazer, o auto-reconhecimento é-lhes negado porque nos Açores ainda não há televisão. Tal facto que é uma negação do exterior que os isola.” Mais adiante, refere o “riso permanente de desafio e inconsciência” que protagoniza as imagens desta infância. Cinquenta anos depois, Lúcia Bulhões e Conceição Carreiro consideram que “apesar tudo, eram tempos felizes.”
Se a previsão do cineasta estava correcta, se as amigas chegaram a emigrar, ou se tomaram outro destino, são algumas das questões que tentamos responder.

Lúcia começou a trabalhar
aos 9 anos idade e Conceição aos 11

As protagonistas deste filme lembram que os trabalhadores, alguns ainda descalços, iam a pé da Maia para a Gorreana e subiam o trilho todos os dias para ir trabalhar. Mas apesar da pobreza e do trabalho árduo do campo, dizem que a sua rotina era encarada como uma “brincadeira”, porque “a nossa vida era aquela. Não podíamos continuar na escola porque tínhamos de ajudar os nossos pais. Na altura não havia mais nada para além do trabalho.”
“É verdade que, para a idade que tínhamos, era muito cansativo, mas éramos felizes. Cantávamos, riamos, contávamos histórias. Tudo o que líamos à noite, contávamos umas às outras no trabalho. Gostávamos muito de ler,” afirma Lúcia.

“Elas não protestam, reclamam”
Enquanto as colegas se escondiam “entre os pés do chá” e “resmungavam baixinho”, Lúcia e Conceição tiveram coragem para “se chegar à frente” e falar “com aqueles senhores” da RTP. Se na altura não sabiam dar respostas às questões que envolviam a situação política do país, hoje, Lúcia Bulhões confirma que, entre aquele grupo de crianças, não havia a “noção dessas coisas. Desde os nove anos de idade que a nossa vida foi trabalhar. Nós só queríamos falar. Eu e a minha colega Conceição tínhamos umas ideias muito para a frente, mas não tínhamos possibilidade de ir mais além”.
Adianta que, ao contrário dos demais, as duas nunca tiveram muito medo de falar, e os colegas “criticavam-nos muito por isso. Diziam: ‘Se o patrão sabe, vocês estão bem amanhadas…’ Eles tinham medo e muitos não aparecem no filme porque se esconderam, outros ficaram a falar baixinho, ou a resmungar como aquela colega que diz ‘Carne? A gente não vê carne!’”
Conceição explica que: “O 25 de Abril tinha acabado de acontecer e nós ainda tínhamos medo. Não podíamos protestar porque ainda não havia liberdade. Na altura não tínhamos regalias nenhumas e as pessoas tinham medo que os patrões ouvissem e os mandassem embora. Mas eu e a Lúcia dissemos “Vamos! E chegamo-nos à frente”.

“Não tens medo de ir para o Canadá
assim sem mais nem menos?”
A duas amigas falavam em emigrar para “onde havia mais trabalhos” à procura de uma vida melhor, mas entre elas existia uma diferença que, na altura era importante: uma tinha família no Canadá e a outra não. O plano era simples, Conceição ia primeiro e depois mandava uma carta chamada para amiga.
Em 1974, quem já estava para embarcar era a irmã de Conceição. À porta da casa dos pais, na freguesia da Maia, o realizador pergunta: “Não tens medo de ir para o Canadá assim sem mais nem menos?”
Maria do Carmo, que já tinha tudo destinado, responde “Dizem que é bom lá.” Na altura, tinha apenas 18 anos, o pouco que sabia sobre o país de destino aprendeu através de livros, não falava inglês, não sabia quando ia, ou para onde ia trabalhar.
A irmã explica: “Ela não sabia quando, mas dizia que ia. Embarcou sozinha em Novembro daquele ano. Três anos depois fez-me uma carta de chamada.”
A vida depois de 74…
Em 1978 e com “19 anos feitos no avião”, Conceição chega ao Canadá. Também “não sabia para onde ia”, mas sabia que tinha a irmã à espera no aeroporto. Ainda na freguesia da Maia, casou pouco antes de embarcar. Dois meses depois, enviou a carta ao marido que foi trabalhar para a construção. Ela começou numa lavandaria e depois nas limpezas.
Sobre a adaptação a um país estranho, relembra que “o mais difícil foi não saber a língua e estar dependente de toda a gente para tudo. Quando chegamos, não gostamos. Saímos das nossas raízes e, mesmo sabendo que vamos para melhores condições, no início é tudo muito diferente. Só quando comecei a aprender a língua é que tudo ficou mais fácil.”
Junto com os seus filhos, marido e netos, confessa que teve uma vida boa no estrangeiro e que é “uma pessoa sempre com bom humor”. No entanto, não sabe dizer se o seu destino teria sido melhor caso não tivesse partido: “Hoje temos a vida bem arranjada. Talvez isso não fosse possível nos Açores, mas não podemos saber com certezas”.

Conceição não chegou a enviar
a carta de chamada a Lúcia…
Lúcia acabou por ficar na freguesia da Maia, onde casou e criou os seus filhos. Conta que na semana do seu casamento ainda foi trabalhar para o chá. No próprio dia da boda, foi uma colega que recebeu esse último ordenado que, tal como todos os outros, foi entregue à sua mãe. Explica que o marido tinha família emigrada e por isso não precisava da chamada da amiga, o motivo para ficar foi outro. Apesar de ter estado por várias vezes no Canadá, admite que não gostou e que prefere os Açores. Nas suas palavras: “A Conceição foi, enfrentou e fez a sua vida lá. Mas eu gosto muito da nossa terra”.
E acrescenta: “consegui todos os meus objectivos com a pessoa que sonhei desde criança. Tenho dois filhos e uma filha e tentei sempre dar-lhes o melhor, estudos, universidade… Lembro-me que em criança passava horas a olhar para uma das casas do presépio e pensava ‘gostava tanto de ter uma casa com um balcão à frente’ e até isso consegui. Agora sou menos feliz porque perdi o meu marido, mas até hoje concretizei todos os meus objectivos.”

Protagonistas de um filme
que só viram 45 anos depois…
No dia 10 de Agosto de 1975 via-se televisão pela primeira vez nos Açores, mas o filme “Lúcia e Conceição”, que passou na RTP em Outubro de 74, só se torna acessível às suas protagonistas 45 anos mais tarde.
Foi uma prima de Conceição que lhe enviou para o Canadá uma moldura com a sua imagem no filme. Lúcia foi igualmente surpreendida e confessa que, ao ver aquelas imagens, já não se recordava daquela entrevista que descreve como “um desabafo” da juventude onde, apesar de tudo, “eram tempos felizes.”
Conceição conta que quando viu o documentário pela primeira vez, “há cerca de cinco anos, senti a nostalgia daquele tempo. E pude ver a diferença de como era e de como estou hoje. A juventude faz tudo, tínhamos muita simplicidade e inocência. Não tínhamos maldade.”

Em retrospectiva…
Ao comparar a infância de hoje com aquilo que se passava há 50 anos, ambas falam de uma “alegria” que já não sentem nas crianças. Apesar de viverem com melhores condições, as pessoas são “mais fechadas” e “tristes.”
De acordo com Conceição, “naquela altura havia muita pobreza, mas era um tempo alegre. Se houvesse necessidade de alguma coisa, as pessoas ajudavam-se umas às outras. Hoje as pessoas são mais individualistas.” E acrescenta: “nós crescemos numa ditadura. A democracia tornou tudo melhor e não podemos retroceder e se voltassem àquele tempo, as crianças de hoje não iam aguentar. Mas não acredito que isso vá acontecer porque elas vão à escola, continuam os seus estudos e têm trabalhos melhores”.
Lúcia deseja que as crianças possam aproveitar esta liberdade para serem tão felizes como ela foi e que continuem a estudar: “Éramos pessoas muito pressionadas pelos patrões e não éramos livres para falar. A juventude tem liberdade para expor as suas ideias e ir para a frente com os seus estudos. Espero que usem essa liberdade para lutar pelos seus objectivos, porque quem luta sempre consegue. Não se pode é parar”, conclui.
Daniela Canha

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