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Roberto Soares afirma que a Cooperativa Agrícola União Popular no Pico poderá “ser um exemplo ao nível do país”

A Cooperativa Agrícola União Popular, situada na ilha do Pico, começou por ser um talho e surgiu a seguir ao 25 de Abril, em 1975. Na altura, Roberto Soares, Presidente da Cooperativa, tinha acabado o curso e foi convidado para ajudar a fazer as contas da venda da carne. De seguida, por considerarem que era necessário evoluir, os sócios constituíram a Cooperativa a 14 de Setembro de 1984 e, a partir daí, tem vindo sempre a crescer. Actualmente, tem em fundo maneio cerca de um milhão de euros e tem um património avaliado em cerca de três milhões de euros. O ano passado facturaram 2,3 milhões de euros.

Correio dos Açores – Quais são os principais objectivos da Cooperativa Agrícola União Popular?
Roberto Soares (Presidente da Cooperativa Agrícola União Popular) – A nossa cooperativa tem 125 sócios e faz uma cobertura de praticamente toda a ilha. Apesar de ter sido criada inicialmente para o concelho das Lajes, neste momento, vendemos para toda a ilha. A Cooperativa tem em fundo maneio cerca de um milhão de euros. Neste momento, nós compramos e pagamos. Ajudamos os sócios e até alguns não sócios. Temos algum prazo de pagamento, por exemplo os associados só pagam o adubo ao fim de seis, nove meses e até um ano.
Esta Cooperativa nunca recebeu qualquer subsídio do Estado. Actualmente, o património que tem foi à custa das direcções e dos funcionários. Temos sorte de ter tido bons funcionários. Temos quatro funcionário e procuramos dar todas as vantagens para que eles trabalhem com alguma vontade. No ano anterior, tivemos 2,3 milhões de facturação e a Cooperativa tem um património avaliado em cerca três milhões de euros.

Com que volume de negócios começaram e que volume têm agora?
Na altura, começámos apenas com o talho e a vender alguns produtos dos associados. O volume inicial era pouco significativo. Tivemos uma a sorte de ter uma funcionária, que já não é viva, a D. Margarida, que fez um trabalho excepcional no início da cooperativa em termos de desenvolvimento. Tivemos também a sorte de ter outra funcionária, a D. Maria do Carmo, que foi excepcional. Agora, temos um jovem que faz um pouco da gestão da cooperativa em colaboração com a Direcção. (…) Temos funcionários excelentes. A cooperativa está no bom caminho e recomenda-se.

Que dificuldades a Cooperativa enfrenta actualmente?
Neste momento, temos necessidade de um camião para transporte porque estamos um pouco distantes do porto e há um custo elevado. Chegámos a pensar em pedir um apoio para comprar uma trela, para transportar os contentores porque iria reduzir nos custos da cooperativa. Tentámos procurar apoio junto do Governo mas está em stand-by, uma vez que ainda não conseguimos qualquer apoio nessa compra.
De resto, está a funcionar bem. Temos um edifício, onde existe um armazém com adubos e toda a variedade de sementes. Na parte superior temos um stand de venda de máquinas e de todos os utensílios necessários na agricultura.
Felizmente, não temos problemas financeiros e nunca dependemos do Estado para funcionar. Tivemos uma boa gestão. Modéstia à parte, penso que esta Cooperativa poderá ser um exemplo ao nível do país.

Como descreve a evolução da Cooperativa? O que destaca como momentos altos e baixos?
Nós principiámos com uma ‘lojeca’ arrendada que servia de talho e começámos a evoluir com o abatimento das vacas dos associados. Depois comprámos um edifício que posteriormente vendemos à Caixa Geral de Depósitos porque, entretanto, arranjámos outro com maior dimensão. Temos, também, um armazém está arrendado a uma empresa de whale whaching, mas com a condição de readquirir sempre que necessitarmos.
Como momento baixo, aponto a altura em que fizemos a transição do talho para outros produtos. Foi uma fase mais complicada em que estivemos muito oscilantes, mas a partir daí foi sempre a crescer. De ano para ano, temos facturado sempre mais. Este ano vamos facturar mais do que o ano passado e isso é muito bom.
No início estipulámos prazos de pagamento e existe, pontualmente, um caso ou outro em que as pessoas não pagam a tempo. Já tivemos de levar a situação para tribunal porque a pessoa não pagou. Embora sejam circunstâncias dos negócios, realmente causa-nos alguma pena. Recordo-me de um cliente que tinha uma dívida de 10 mil euros, a quem demos todos as possibilidades de pagamento. Dissemos que podia ir pagando, nem que fosse 100 euros por mês, mas ele não cumpriu e tivemos de o levar para tribunal.

Que lições aprendeu na sua trajectória na agricultura cooperativa?
Aprendi que tem de haver alguma solidariedade e que o corporativismo é uma arma importante para tudo. Eu vivi um pouco do cooperativismo. Nos anos 70, fiz uma formação de um mês em cooperativismo, na Alemanha, que foi importantíssima para mim. Gostei imenso. Aí vi o que o cooperativismo pode fazer numa sociedade. Aqui o espírito de associativismo não tem muito vínculo nas pessoas. Vejo que as pessoas se servem da Cooperativa, mas não lhe dão o devido valor. Dá-me pena, porque são capazes de não cumprir com a cooperativa, mas depois cumprem com outras organizações, mesmo particulares, empresas. A Cooperativa só pode ajudar se as pessoas assumirem os seus compromissos. O espírito de cooperativismo, pelo menos na ilha do Pico, fica aquém do que eu gostaria que acontecesse. Mas esta cooperativa pode ser um exemplo disso. Pelo menos temos cumprido com o nosso dever e queremos continuar a cumprir.

De que forma planeiam melhorar a eficiência através de tecnologias modernas?
Já temos tudo computorizado. Neste momento, queremos lançar o cartão de associado, cujo objectivo seria o associado ter um miminho nas vendas a pronto. É uma das nossas propostas para a Assembleia-geral que se realizará em Março.

A Cooperativa Agrícola União Popular tem implementado práticas sustentáveis?
Houve uma época em que contratámos técnicos, através de programas como o Estagiar T, para dar apoio aos agricultores, especialmente na área de amostras.
Tivemos um técnico, durante um ano e tal, que fez um trabalho excelente. Fizemos amostras de terra aos agricultores. Creio que os serviços oficiais não o fazem mas poderiam fazê-lo porque, neste momento, os agricultores estão a usar adubos indiscriminadamente e, às vezes, vão ao preço e não à qualidade, o que é mau, a meu ver. Nós aconselhamos e nas assembleias gerais falamos com os agricultores sobre isso, mas, como se sabe, a crise na agricultura é grande e alguns vão sempre pelo mais barato.
Tive a oportunidade de dar aulas de agricultura, em part-time, na escola das Lajes do Pico e uma das coisas que os alunos questionavam era sobre os adubos. Alguns levaram uma certa noção, por isso valeu a pena. Por vezes, é difícil certos agricultores compreenderem que é preferível ir pela qualidade do que pela quantidade.
Além disso, a nível de produtos fitofarmacêuticos temos feito alguma sensibilização porque realmente houve uma altura em que se usaram muitos fitofarmacêuticos sem qualquer noção do que estavam a aplicar, inclusivamente herbicidas. Neste momento, está a haver mais consciencialização sobre isso. O facto de ter havido alguns cursos feitos pelos serviços, no sentido do cartão de aplicador, trouxe algumas melhorias nesse sector, mas ainda há muito por fazer.

Além dos benefícios para os associados, de que forma a Cooperativa contribui para o desenvolvimento local?
Arranjando produtos que sirvam as pessoas. A Cooperativa é um ponto de visita de todo o concelho. Realmente, temos uma gama de produtos grande não só para os associados, mas também para outros clientes. Fornecendo produtos e intervindo no mercado, no sentido de regularizar os preços, já se está a contribuir para a melhoria das pessoas. Imagino o que seria este concelho sem a cooperativa, em termos de especulação de alguns produtos, não só ligados à agricultura como outros que temos à venda.

Quais são as perspectivas para o futuro?
Estamos sempre à procura de melhorar, quer em produtos novos, quer no que toca a ajudar os agricultores. Seria importante colocarmos um técnico a tempo inteiro ligado à cooperativa. Não está fora dos planos, mas teremos de ir devagarinho. Sempre demos um passo com o outro pé no chão. Temos visto exemplos de algumas cooperativas que actualmente estão bem, talvez porque se precipitaram. Queremos ajudar e evoluir, mas sempre conscientes de que temos de ir com segurança, em vez de explorar o nosso património ou o nosso fundo maneio. Avançar com calma, sempre com o sentido de alguma evolução. Na minha opinião, as cooperativas são importantes para o sector empresarial dos Açores, porque sem elas os agricultores estariam muito pior.
Carlota Pimentel

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