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Casa do Povo dos Fenais da Ajuda lança a consulta pública projecto de adaptação da sede que já não dá condições adequadas às respostas sociais da IPSS

O projecto inclui recuperação do primeiro piso para criar serviços administrativos e gabinetes de apoio pedagógico e criação de espaço amplo multiusos. As actuais instalações não permitem desenvolver com as condições adequadas todos as actividades e projectos que a Casa do Povo de Finais da Ajuda tem e quer dar à população, aponta Jonas Carreiro, Presidente da instituição. A consulta pública de projecto de legalização e adaptação da Casa do Povo está aberta até 15 de Fevereiro.

Correio dos Açores – Como se encontram as actuais instalações da Casa de Povo dos Fenais da Ajuda?
Jonas Carreiro (Presidente da Casa do Povo de Fenais da Ajuda) – A construção do edifício da Casa do Povo iniciou-se em 1982 e concluiu-se em 1983. Claro que foi construído à semelhança da altura, se bem que depois, mais tarde, volvidos 15 anos, sofreu também algumas remodelações e adequação à data.
Só que hoje em dia o edifício não está apto e adequado às actuais respostas sociais que são necessárias para a zona. Ele hoje em dia tem um bar que anteriormente servia de espaço de convívio, de partilha de momentos, com toda a comunidade, havia uma sala de jogos. Só que hoje em dia este espaço já não é tão necessário.

A Casa do Povo tem aberto, até dia 15 deste mês, o período de consulta pública do projecto de legalização e adaptação do edifício da Casa de Povo dos Fenais da Ajuda. O que nos pode contar sobre este projecto?
A ideia é criarmos aqui uma recuperação, na íntegra, de todo o primeiro piso, criando serviços administrativos, gabinetes de apoio pedagógico para a equipa de acção social trabalhar, e para a nossa própria equipa interna desenvolver as suas actividades. Criar um espaço amplo de formação e multiusos para as várias actividades que temos a decorrer. Um espaço, também, de biblioteca, onde haverá um espaço interactivo de aprendizagem, com a monitorização de uma pessoa que acompanhará os jovens dos 12 aos 18 anos. Este é um projecto que se pretende que seja lançado em breve. Toda esta modernização do primeiro piso, a abertura do próprio espaço, em termos de entrada para o edifício, requalificando todo o gradeamento, abrindo e modernizando os acessos e criando um acesso com um elevador, que é obrigatório por lei.
Portanto, toda esta modernização que é adequada (o espaço já tem 40 anos) é necessária para o processo de legalização e adequação do edifício. Actualmente, o edifício não tem licença de utilização, e, neste âmbito, fomos mais arrojados e estamos à procura de requalificar todo o espaço, um pouco para cumprir com as especificidades de hoje em dia, mas também aproveitando para fazer obras de adequação e modernização do próprio edifício.

Estas novas instalações são uma necessidade urgente?
Sim. Já estamos a desenvolver várias respostas sociais, nomeadamente o CATL e, mais recentemente, um projecto que se chama “Pontos de Apoio ao Estudo”, que abrange crianças dos seis aos 12 anos e que aborda temáticas extra-curriculares, como a música, o teatro, o judo, uma “Escolinha das emoções”, que estamos a trabalhar com os recursos humanos da própria instituição, as temáticas da aprendizagem e de novos métodos de estudo.
Todo este trabalho já está a ser desenvolvido num espaço que, à data, não é o mais adequado. Estamos a desenvolver o projecto nas condições que temos, mas, se houvesse obras, claro que isto depois teria uma outra amplitude e também passaria a reunir condições para aquele novo projecto que intitulamos “Ser Jovem”, que trabalhará com jovens dos 12 aos 18 anos. Portanto, num espaço amplo, com melhores condições, mais moderno, adequado e que permitirá que as crianças e os jovens tenham outras condições para desenvolver as suas actividades.
Claro que temos a noção de que este projecto passará por um processo muito moroso, quer nas autoridades camarárias, quer, depois, em todas as outras que temos que respeitar. É um projecto que está numa fase de consulta pública precisamente porque é de grande envergadura e que ficará para além da nossa estada como dirigentes e para nós faz todo o sentido que a comunidade seja envolvida neste projecto, que possa contribuir com propostas para melhorar o projecto existente, e para depois darmos o devido seguimento a ele, para que, mais tarde, ainda no decorrer deste ano, possamos nos candidatar a apoios governamentais para que esta obra seja uma realidade nos próximos dois a três anos.

Trata-se de um investimento de que valores? Tem já esta informação?
O projecto de legalização e adaptação, tal e qual como está, incluindo o projecto de arquitectura e de especialidade, tem o valor de 23.400 euros mais IVA. Este investimento foi repartido pela Câmara Municipal da Ribeira Grande e pela Direcção Regional da Solidariedade Social. No que toca ao projecto em si, de obra, ainda não temos real noção, mas pode ascender a 300.000 euros.
Vamos reunir com todos os parceiros, nomeadamente o Governo Regional e a tutela da Segurança Social para que este projecto seja incluído no Plano e Orçamento da Região e que seja candidatável ao Plano de Recuperação e Resiliência, pela amplitude e necessidade social da própria zona, pela criação de respostas sociais num único edifício, pela optimização de recursos a médio e longo prazo. Tudo isto tem que fazer valer junto das entidades competentes para que estas possam, efectivamente, nos financiar e criar uma dinâmica que permita criar bases na comunidade para que possamos mitigar os problemas sociais que esta tem.

O projecto vai então permitir dar melhores apoios e a um número maior de pessoas?
Claramente. Temos um ATL que funciona nas instalações. Temos capacidade instalada para 25 crianças. Temos tido já vários contactos e uma lista de espera que nos permite ter sempre um folgo maior e uma garantia que o nosso projecto tem continuidade. Este projecto do “Pontos de Apoio ao Estudo” permitirá que mais crianças tenham uma resposta adequada e personalizada no apoio à aprendizagem, através de métodos inovadores, e que estas crianças tenham resultados positivos na escola, na própria sociedade, na família. Em tão pouco tempo já temos visto essa evolução. O projecto “Ser Jovem” permitirá monitorizar os jovens num espaço agradável e seguro, e criará um ambiente familiar. Trabalhando com estas faixas etárias, estamos convictos que este será um dos factores que permitirão o crescimento saudável destas crianças, fora dos ambientes hostis e por vezes violentos a que eles estão habituados na sociedade em geral.
Para além das valências direccionadas aos mais jovens têm ainda outras, nomeadamente com os idosos?
Sim. Temos um centro de convívio, que à data funciona com cerca de seis idosos. É pouco para a área, mas também atendendo ao período de covid porque passamos, não é fácil termos idosos confiantes e autónomos o suficiente para pertencerem a um centro de convívio. Claro que a nossa intenção é criar uma resposta social que vá para além de um centro de convívio. Por que não um centro de noite? Temos massa crítica nesse sentido. Temos instalações públicas que permitirão criar estas respostas sociais sem grandes investimentos. Seria apenas uma adequação. Claro que temos esta visão, mas neste momento a nossa prioridade é a criação e a modernização do edifício sede, que permitirá esta modernização e eficiência do mesmo e garantir a maior segurança para os utentes. O centro de convívio não funciona neste edifício, mas num que nos foi cedido e que não fica nas instalações da Casa do Povo.

Na sua óptica, que importância tem a Casa de Povo dos Fenais da Ajuda para a população da freguesia?
À semelhança das Misericórdias, as Casas de Povo sempre foram as IPSS com maior peso social e que se focaram na ajuda ao próximo. Esta é uma essência que está intrinsecamente ligada às casas do povo. As casas do povo que estão instaladas em zonas mais rurais e afastadas dos centros urbanos assumem ainda um papel mais importante. Claro que a Casa do Povo de Fenais da Ajuda, em tempos, ficou apenas com duas respostas sociais. Com esta Direcção temos tido uma visão mais ampla e alargada do que deve ser uma resposta social dada pela própria estrutura. Para nós não faz sentido que as respostas sociais que possam ser criadas na zona não passem pela Casa do Povo, por várias razões. Temos recursos humanos competentes para desenvolver, e o que não conseguimos ter internamente, conseguimos a recrutar no mercado. Temos condições físicas e com estas alterações vamos ter condições ainda melhores, para dar estas respostas. Temos uma visão altruísta daquilo que deve ser uma resposta de uma casa de povo localmente. Somos aquela entidade local que melhor preparada está para dar as respostas sociais.

Pela vossa experiência, quais são as problemáticas sociais com mais impacto nos Fenais da Ajuda?
Desde logo a violência doméstica; o consumo de estupefacientes, quer sejam elas substâncias psicotrópicas ou o consumo de álcool excessivo; o abandono escolar e precoce; os resultados negativos na vivência em família, com a comunidade e com a própria escola, portanto, esta desresponsabilização (quase) dos pais em dar uma educação mais altruísta e adequada às próprias crianças. Ainda com a questão do afastamento, da ruralidade, a falta de trabalho, a rede de transportes deficitária… tudo isto não ajuda que haja uma caracterização mais saudável da zona e isto aflige os idosos, que não têm respostas sociais adequadas, aflige os pais, que não têm respostas adequadas para deixar as suas crianças. Por que não pensar numa creche nesta zona? Num centro de dia e de noite para os nossos idosos? Criar mais e melhores condições para que as crianças e os jovens se sintam seguros e onde tenham um espaço onde possam aprender em segurança, com uma equipa multidisciplinar para os acompanhar?
Temos criado soluções para todas estas problemáticas. Precisamos é que as entidades competentes olhem para nós e nos apoiem neste sentido.

Têm comunicado com Junta e com a Câmara, no sentido que sejam aplicadas as vossas soluções?
Temos feito parte da solução. Somos a única entidade que conseguiu reunir 13 parceiros à mesa para debater, com franqueza, as problemáticas da zona. Portanto, não há resposta social, nem um olhar para o futuro, se não olharmos para a realidade com franqueza e frontalidade. Foi isso que fizemos. A partir daí começamos a criar uma rede de contactos que permitisse chegarmos a este patamar de discussão de que é inevitável que as respostas sociais passem por nós, pela Casa do Povo. Isto tem sido muito o nosso trabalho: comunicar, passar uma mensagem positiva, criar soluções em conjunto. Temos trabalhado com todas as entidades, quer as locais, as camarárias, e as governamentais, nomeadamente a Vice-presidência, a Direcção Regional da Solidariedade Social, e a própria Segurança Social. Temos trabalhado com todos e com os parceiros. Eles têm percebido que estamos cá para fazer diferente e construirmos, todos juntos, uma melhor zona de Vera Cruz, que é a freguesia de Fenais da Ajuda e Lomba de São Pedro.

Têm observado muitos idosos em situações de solidão?
Sim. A nossa população é muito envelhecida. Depois, como a zona é muito rural e afastada dos centros urbanos, as pessoas tendem a procurar moradias ou trabalhos longe da zona dos Fenais da Ajuda. Isso afasta essas pessoas da terra e os idosos ficam sozinhos. Alguns deles estão em condições muito precárias, em casas que não têm as devidas condições para a sua mobilidade reduzida. Também neste âmbito, pretendemos criar uma rede de apoio ao domicílio com os idosos, com uma equipa multidisciplinar que procuraria ir ao encontro das necessidades dos idosos, nomeadamente com consultas de psicologia, com alguém que pudesse cuidar da higiene pessoal e da própria casa dos utentes, que pudesse criar refeições na casa dos idosos, dando uma companhia, promovendo um intercâmbio inter-geracional que permitisse a partilha de vivências, o combate à solidão. Também temos tudo isso em mente, porque urge a tomada de medidas porque os nossos idosos têm sido muito esquecidos e é necessário criarmos respostas que vão ao encontro das reais necessidades deles.

Tendo em conta o actual contexto do aumento de preços, as famílias têm procurado a Casa do Povo para pedir ajuda?
Sim. Temos tido uma procura crescente, em vários aspectos, nomeadamente na área social. Somos parceiros do Banco Alimentar contra a Fome de São Miguel e temos tido alguns pedidos directos, que por vezes reencaminhados para a equipa de acção social que está no terreno, ou então, se conhecemos o caso de antemão, fazemos o pedido directamente. Temos trabalhado em articulação com a acção social para que as pessoas sejam acompanhadas permanentemente para que possam, mais tarde, criar as próprias condições para sair dessa situação problemática. Temos tido muita procura, nomeadamente pelos nossos serviços administrativos. Auxiliamos com todo o tipo de prestação, partilha de documentos, as inscrições para o Centro de Emprego, o envio de currículos de pessoas que estão à procura de emprego. Portanto, temos dado um conjunto de apoios quer aos associados, quer aos não-associados. Deixaria um repto à população em geral para que se faça sócia da Casa do Povo, para sermos ainda maiores e termos ainda mais força, para que possamos pedir os devidos apoios para estas e outras que possam surgir.

Pela experiência da Casa do Povo, há cada vez mais famílias com dificuldade em adquirir bens alimentícios?
Sim, claramente. Engane-se quem acha que está tudo bem. Não está tudo bem. Inclusive a classe média está a sentir-se. Temos tido pessoas que nunca recorreram aos nossos serviços e que de uma forma mais ou menos clara, vão pedindo alguma ajuda. O nível de vida para os açorianos não está nada fácil. Os juros das casas não ajudam. No cabaz alimentar a redução do IVA terminou. Os locais não estão a conseguir fazer face a todas as despesas e isso nota-se pelo comércio local.
Há aqui uma situação que tem de ser muito pertinente e muito trabalhada: que apoios é que as famílias vão ter? Por quanto tempo? Tem de haver uma clarificação, quer das entidades governamentais, quer da própria economia, para percebermos com que é que contamos daqui para a frente. Ninguém está a salvo, hoje em dia, de passar dificuldades financeiras. As coisas estão muito complicadas. Os ordenados não acompanham o custo de vida e não estamos a conseguir dar resposta, atempadamente, a todas as pessoas que nos pedem, até porque também não conseguimos ir ao encontro das espectativas. Não estamos preparados para responder a questões sobre o que vai acontecer com as prestações das casas. Há aqui uma preocupação generalizada das famílias. É preciso que a acção social também comece a criar aqui outros mecanismos de atendimento às pessoas. É preciso criar aqui mais alguma tranquilidade no que diz respeito a estes apoios, é preciso ter uma pertinência maior na análise. Não podemos ter só os mesmos de sempre a ter os apoios e a sugar os valores disponíveis em detrimento de famílias que neste momento estão efectivamente a passar por uma fase menos positiva e que não conseguem porque os apoios não chegam para todos. É preciso ter a coragem de analisar com frieza, mas com justiça social. É preciso criar esta justiça social.

Retomando o tema do novo projecto. Com esta consulta pública pretende que a população também contribua com sugestões?
Sim. Temos uma maqueta do projecto. Criamos fotografias em 3D para ser mais nítido aquilo que se pretende. Há todo um processo em plantas de arquitectura que está patente no edifício da Casa do Povo, que permite perceber, na íntegra, como são as actuais instalações e o que se pretende construir. Numa óptica de valorização da comunidade e de ouvir todas as pessoas que o entendam, que façam chegar as suas opiniões e as suas visões do que seria melhor. É preciso que a comunidade esteja envolvida neste processo. Esta é uma obra que vai ultrapassar quem cá está. É preciso modernizar e adequar o espaço para as respostas sociais actuais. É preciso ir ao encontro das expectativas e das necessidades da comunidade e esta obra procura esse encontro. Claro que é preciso ouvir a comunidade e os agentes locais, porque só assim é que vamos criar um projecto onde toda a gente esteja envolvida. Para nós, não fazia sentido avançar sem auscultar a comunidade. Abrimos um período de 15 dias, que é mais do que suficiente. Após consultarem os documentos, as pessoas podem dar o seu parecer através de carta registada para nós, ou através do email geral. Isso permite-nos uma organização e priorização nas respostas que temos de dar.
Apelo à participação cívica das pessoas. Façam-se sócios para que possamos reivindicar com mais força todos os projectos sociais que possamos apresentar.

Mariana Rovoredo

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