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Crónica da Madeira: Teresa Mendonça, a pintora açoriana:Quando as emoções se escondem no silêncio e se libertam nas cores

Deambulo pelos meus pensamentos. Estou em Lisboa. Visitei Museus, aqueles mais recentes, que ainda não conhecia. Vem-me à memória as palavras de Herman Broch de que a pintura se tornou um assunto totalmente exotérico; um assunto de museus, já não há interesse por ela e pelos seus problemas, ela é quase um relicário de um período passado.
Na realidade em várias reuniões em que participo, propositadamente, pergunto às pessoas quais são os seus pintores contemporâneos preferidos. Nenhuma delas têm pintores preferidos. Mais: a maioria nem sequer conhece algum pintor contemporâneo.
Perante esta realidade penso: “perdeu a pintura o seu peso, tornou-se numa atividade marginalizada? Deixou de ter qualidade? Ou porque se perdeu o interesse, o gosto e o sentimento por ela?”
Julgo que a arte que criou o estilo das épocas, que acompanhou a Europa durante séculos, “abandonou-nos ou nós abandonamo-la”.
Envolvido por estas minhas reflexões de repente, estou em frente da obra da pintora açoriana Teresa Mendonça. Conduzido pela minha querida amiga açoriana Teresa Neves, poeta de silêncios vividos em palavras escondidas e de um ilustre açoriano Alcídio, chego à Aroeira, à casa da artista. Rodeado pelos seus quadros, de imediato, fascina-me o seu abstratismo; uma linguagem que transmite não apenas o seu talento, mas também a riqueza da sua alma: os seus conflitos, ilusões, sonhos, uma intensa vivência quotidiana, mergulhada no silêncio profundo da paisagem que a rodeia; um mundo maravilhoso que transmite os sentimentos da pintora e da mulher ilhoa, ainda enraizada na exuberância das paisagens e isolamento da ilha que a viu nascer, ajudando- a crescer e a sonhar.
Cheguei, com um sol desafiante, à Aroeira. Uma zona totalmente desconhecida, para mim. Dela ouvi muitas vezes falar, o Carlos Fernandes e a Marta Athayde, dois bailarinos que foram do Ballet Gulbenkian, têm ali uma vivenda onde passam férias. Atravessei Lisboa, a cidade romântica, no magnífico automóvel do Alcídio, acompanhado pela Betty e a Teresa. O céu de Lisboa, azul e límpido proporcionava aquela luz única que faz ressaltar toda a beleza de uma urbe, cada vez mais procurada e amada pelos turistas- Uma temperatura primaveril inesperada porque o frio referido pelos meus amigos, com cuidados de abafos suficientes para enfrentar o frio intenso, traí-os: durante os cinco dias que estive em Lisboa, o sol iluminou os meus passos.
Sob este sol resplandecente entrei na Aroeira. Passei por uma série de vivendas, arquitetonicamente bem-sucedidas, adivinhando-se o seu conforto interior. O Alcídio mostra-nos, à Betty e a mim, o exterior do seu apartamento, um edifício de dois andares apenas. Não distante ali estava uma casa de madeira, já envelhecida pelos anos, diferenciava-se se todas as outras, pela poesia e beleza que transmite e que se estende ao interior e ao jardim, quase a tocar no Campo de Golf. Nesta casa excelente vive Maria Teresa de Castro Soromenho Mendonça, nascida na ilha de São Miguel – na cidade dos Poetas – com uma formação em artes visuais. Teve o privilégio de receber lições do celebrado pintor Domingos Rebelo e, mais tarde, de outro conhecido mestre da pintura Hilário Teixeira Lopes do qual sofre forte influência.
A simpatia e a hospitalidade com que a pintora e o seu marido Eduardo, uma personalidade de invulgar cultura marcada pela sua estadia em Itália, onde estudou e viveu, nos receberam, a mim e aos meus amigos, criaram logo um ambiente propício a uma relação empática. Assim, foi possível expressar o meu sentir pela obra da artista. Em cada quadro realizei uma viagem diferente, porque em cada quadro descobri a estética e a poesia que iluminou o fio condutor que ligou os meus sentimentos, deslumbrados, à arte e ao talento da artista, à sua sensibilidade de pegar na tela branca e desenhar nesta os traços e as formas, são discursos, arquivados na memória do tempo, de uma alma sensível que encontra nas cores o abstrato dos seus sonhos e as razões das suas emoções.
Os seus quadros têm musicalidade e, curiosamente, têm subjacente uma carga humana e perfil da grandeza da mulher que é, qua guarda nos olhos, religiosamente, a beleza esmagadora das paisagens da sua ilha que a acompanhou durante a sua adolescência e que a marcou, naturalmente. A sua pintura é uma sinfonia de cores e tão espantosamente, põe-nos perante tantas realidades; desafia a nossa imaginação que ziguezeiano labirinto de um mundo onde as emoções se escondem no silêncio e depois libertam-se nas cores, que surgem à deriva, propositadamente, para que a pintora as coloque, com as suas pinceladas, rebeldes às vezes, no branco das telas, onde cada uma delas, existe uma história de paixões, resultando depois no abstratismo que tanto fascina.
A sua casa de madeira, tão acolhedora, transmite a personalidade de um casal que sabe desfrutar da vida, tudo quanto esta lhe proporciona: rica em convívios dependurados em amizades escolhidas que mais enriquece a alma enfeitada de amor.
De repente os meus olhos esbarram numa pequena mesa e sobre esta estava um jornal mensal, edição portuguesa, do Le Monde Diplomatique, verifiquei que os vários temas estão ilustrados com obras de prestigiados artistas entre esses estão quatro obras da pintora Teresa Mendonça que conta no seu currículo com dezenas de exposições em várias cidades.
Uma das suas exposições tutelada “Razões e Emoções” mereceu do poeta Pedro Pires, também ele pintor, um poema que transcrevo pelo o que revela de sensibilidade do poeta:

RAZÕES E EMOÇÕES
Pela razão não pintaria
A emoção leva-me a tal
Cores que dançam na tela fria
A tela é o meu corpo afinal
Cores que me aquecem a alma
Sangue que corre nas veias
Razões que atropelam a calma
Emoções que exprimem ideias
Quadros meus que não são só meus
São emoções para partilhar
Razões que levas para mundos teus
Partes de mim vão no meu pintar.

João Carlos Abreu

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