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Cesto da Gávea: Os dias seguintes

Em 1983, andava eu no vai e vem entre Ponta Delgada, onde dirigia o Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, e a Horta, na qualidade de deputado à Assembleia Legislativa Regional, quando ouvi falar pela primeira vez do filme norte-americano The Day After, que versava um hipotético ataque nuclear da União Soviética aos Estados Unidos. O aparecimento do filme foi oportuno, o que justifica a recordação de um título que, diga-se já, é usado atualmente para designar todo o tipo de seguimentos, positivos ou negativos, no singular ou no plural. No plural, esperando um duvidoso seguimento positivo, refiro os “dias seguintes” às eleições regionais açorianas ocorridas domingo passado, das quais resultou a vitória da coligação tripartidária liderada pelo Presidente José Manuel Bolieiro. Com uma ponta final de campanha eleitoral convincente, o líder do PSD/Açores conseguiu recuperar um terreno que se afigurava difícil, face às divisões e críticas dos parceiros, ou ex-parceiros. Donde o recuo da minha memória a40 anos atrás, quando a união entre os sociais-democratas era dominante, cimentando o edifício autonómico dos governos do Presidente Mota Amaral. Não terá sido alheia à vitória a difusão de ações com forte impacto regional, o que é de realçar nesta altura, associada à postura mais afirmativa da liderança do Dr. Bolieiro. Principiando por aquela que encima o texto do folheto de campanha “Bolieiro -Toda a verdade”, que tem sido – e com razão – repetida a todos os eleitores, sendo conhecida por Tarifa Açores, aplicada às viagens aéreas inter-Ilhas. Considerando os 60 euros de cada bilhete, tendo sido emitidos entre 740 e 750.000, temos um valor entre 44,4 e 45 milhões de euros, contas de cuja dimensão poucos tínhamos entendimento. Ao que ouvi, a proposta original desta tarifa terá sido do deputado regional José Pacheco/Chega -Açores, o que a ser verdade, ainda mais justifica o apoio desse partido à coligação PSD/CDS/PPM. Assim outros seguissem o exemplo, independentemente das ideologias.
Continuando a análise das 22 ações constantes do referido folheto, damos com outra informação de choque: 118.000 açorianos com emprego, algo nunca alcançado na história autonómica, número reforçado pela redução dos impostos em 30%, o que totaliza 140 milhões de euros de alívio fiscal para os cidadãos e empresas dos Açores. Aqui abre-se um parêntesis importante, que é saber-se a percentagem destes empregos que são remunerados ao nível do salário mínimo regional, pois todos conhecemos as dificuldades que tal nível salarial comporta, face ao aumento do custo de vida. Só assim este parâmetro adquire o seu real valor, considerando que na função pública, se indica uma valorização de 20% do complemento remuneratório, entre medidas como a redução do tempo para a progressão nas carreiras. Nesta área, que entendemos positiva, conviria seguir o que se faz a nível nacional, quando da reconstituição de carreiras de agentes eventuais, requisitados e/ou destacados na Administração Pública e que ingressam nos quadros desde que tenham um mínimo de anos de serviço ao Estado. Outra questão importante para o futuro Governo Regional, é o mérito e qualidade do serviço prestado, matéria nebulosa numa Administração permeável aos interesses partidários. Um governo de coligação, presidido pelo Dr. Bolieiro, certamente melhorará estas vertentes, agora que o eleitorado lhe deu a maioria.
Na área social, um aspeto relevante pelo impacto que tem nas famílias, é o aumento do número de crianças com creches gratuitas, que subiu de 700 em 2020 para os atuais 3.000. Na entrevista que deu esta semana à RTP3, o Presidente Bolieiro afirmou a intenção de procurar soluções para o flagelo das drogas, especialmente as sintéticas, uma problemática difícil que exige medidas integradas. Foi com alguma surpresa que ouvi o Presidente Bolieiro citara Universidade de Coimbra nos trabalhos, sem referir qualquer colaboração com a Universidade dos Açores, onde temos especialistas na área, quer na Sociologia, como no Serviço Social. Isto além da histórica ligação da nossa Academia a Coimbra — tipificada no sucesso do Curso Básico de Medicina — que esperamos ver reforçada com o acompanhamento do controlo da droga nas suas raízes. Mas talvez o maior e mais impactante no futuro da Região tenha sido o esforço na área educacional, que se quer continuado e acelerado. Foram integrados nas carreiras perto de 600 docentes e igual número de auxiliares de ação educativa, distribuídos milhares de manuais escolares gratuitos a alunos do ensino básico, atribuídas 450bolsas de estudo e cerca de 2.600 apoios diversos para frequência do ensino superior, o que não deixará de se refletir no futuro da juventude açoriana. Falta ainda concretizar o financiamento regional complementar à Universidade dos Açores, matéria que esperamos ver abordada e resolvida pela próxima Assembleia Legislativa Regional, agora que o novo modelo de financiamento nacional não só o permite, como também incentiva. Muitos outros setores, como o da Saúde, mereceram atenção do governo cessante e certamente justificarão continuidade. Assim o entendam os diferentes partidos com assento parlamentar, a quem o eleitorado açoriano confiou a esperança nos dias seguintes.

N d A: Não posso deixar de anotar as declarações do Presidente do PS/Açores à TSF esta sexta-feira, indicadoras de um total desnorte político. Assim, não!

Vasco Garcia

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