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“Nasci na freguesia São Roque, trabalhei sete anos na fábrica de conservas da Corretora e nunca sai daqui…”

Natália Alves, de 72 anos de idade é a nossa entrevistada. Maria Natália Soares Miguel Alves (Miguel era o nome do seu pai) é natural da freguesia de São Roque.

“Nasci aqui, trabalhei ali e nunca sai daqui de São Roque”, começou por dizer à nossa reportagem. Em São Roque estudou até à 4.ª classe, na Escola do Poço Velho, noutros tempos, quando “quem era pobre não podia estudar”.
Fez o exame da 4.ª classe na Escola da Mãe de Deus, mas com 11 anos foi para a casa de uma senhora trabalhar. Na altura, a mãe disse-lhe: “Diz que tens 12 anos de idade, para ver se ela te dá mais algum dinheirinho. Mas eram outros tempos, que não é como agora. Então, a senhora acabou por ser mãe e queria que eu lavasse a roupa dela, e quando cheguei a casa a minha mãe disse para não ir mais para lá, porque ainda era uma criança e não tinha ido para lá para ser escrava”.

Costura, Sociedade Corretora
e Escola do Poço Velho

No entretanto, aprendeu a bordar nas bainhas das calças com uma senhora que morava por debaixo da sua casa, apesar de achar que esse não era um trabalho para si.
Posteriormente, conseguiu um lugar na Sociedade Corretora, porque a sua irmã também lá trabalhava. Esteve lá sete anos e só ficou em casa, quando o seu filho mais velho nasceu. “Aliás, o meu filho faz hoje 53 anos de idade”, precisou.
“Certo dia, o meu antigo professor, que era o senhor Rocha, e a esposa, que também tinha sido minha professora, souberam que estava em casa e foram lá perguntar se queria ser servente na escola. Hesitei um pouco, porque tinha ficado grávida da minha filha, mas ele tranquilizou-me, quando disse que «não era para já e tinha algum tempo, porque primeiro tinha de tirar o bilhete de identidade». Naquele tempo tínhamos de ir ao tribunal requerer um documento, que hoje em dia é o certificado de registo criminal, e também tínhamos de ter um documento parecido, passado pela Junta de Freguesia e assim foi”.
Enquanto isso, o marido cumpriu o serviço militar obrigatório durante três anos e num momento posterior foi trabalhar para o Centro de Saúde de Ponta Delgada, até que depois o senhor Rocha foi à sua casa dizer que tinha sido aprovada para começar a trabalhar na Escola do Poço Velho, antes do 25 de Abril, “no tempo do último ministro da Educação, Veiga Simão”.
Já a trabalhar na escola, Natália Alves recorda o 25 de Abril: “Foi um acontecimento inesperado, porque tivemos de queimar livros da Mocidade Portuguesa ou os quadros do doutor Oliveira Salazar”.

Sete netos e um bisneto

Natália Alves foi mãe mais duas vezes, e hoje em dia tem sete netos e um bisneto. “Tenho seis netos de sangue e um outro de coração”, acrescentou.
Chegamos à fala com Natália Alves, no Atelier da Tina, na Rua Direita da Madalena, n.º 2, na antiga sede da Banda Filarmónica de São Roque, que é onde hoje em dia passa grande parte do seu tempo.
E porque é de São Roque, recorda com saudade outros tempos da gastronomia, nomeadamente, chicharros salgados e fervedouro, parecida com a sopa da pedra, mas diferente e com menos ingredientes, porque levava muitas couves, batatas e carne de porco. Para além disso, o bolo de sertã e os netos de massa de milho também eram iguarias, que hoje em dia poucos ainda fazem.
O com o seu saber fazer, chegou a vencer o concurso de gastronomia da família, na escola onde foi servente, contínua, auxiliar principal e, posteriormente, auxiliar operacional, onde esteve 38 anos e seis meses.
Natália Alves também
esteve na Escola das Maricas

Pelo meio, Natália Alves esteve 16 anos na Escola das Maricas, em São Roque, “porque ninguém queria ir para lá, mas como era a auxiliar mais experiente acabei por ir”.
Depois de 16 anos na Escola do Poço Velho e outro tempo na Escola das Maricas, regressou mais tarde ao ponto de partida, nomeadamente à Escola do Poço Velho, para cumprir mais seis anos e seis meses de actividade profissional.
O marido faleceu antes do início da pandemia da Covid-19, e porque mantinha-se muito tempo fechada em casa solicitou ficar a auxiliar a Cristina, no Atelier da Tina, que é onde hoje em dia passa grande parte do seu tempo.
“Estou aqui por gosto, no Atelier da Tina, onde tudo o que entra velho sai novo”.
Natália Alves conhece São Roque, de ponta a ponta e diz que “é melhor sítio do mundo para se morar”.
Na Escola do Poço Velho, Natália Alves foi auxiliar do Pedro Pauleta, mais a senhora Isabel Custódio.

Marco Sousa

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