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Curar feridas

A Quaresma, tempo de preparação para a celebração e vivência da Páscoa, tem, no repetido apelo à conversão, a sua característica mais marcante. Viver a Quaresma num ano especialmente dedicado à oração, como o que vivemos convocados pelo Papa Francisco, tendo como horizonte temporal o jubileu da Esperança, em 2025, significa tentar descobrir e trilhar o melhor itinerário que nos conduza à verdadeira conversão.
O chamamento à conversão é parte integrante do anúncio do Reino de Deus, feito por Jesus: “O tempo chegou ao seu termo, o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai na boa-nova” (Mc 1, 15). Este apelo acompanha todo o tempo quaresmal como desafio a romper com o pecado, reorientando a nossa vida para Deus.
A Igreja, ao longo dos séculos, fixou uma pedagogia de vivência do tempo quaresmal como itinerário de conversão assente em três práticas: a oração, o jejum e a esmola.
Nas nossas vidas, o encontro com Deus, que é Amor, há de despertar a própria capacidade de amar, que se manifesta, de forma especial, na atenção concreta aos mais pobres, com quem devemos partilhar o que temos. E o jejum não é só a privação de alimentos, mas a capacidade de nos cingirmos ao essencial.
Habitualmente, detemo-nos muito no que temos de fazer, de rezar, de encomendar, mas antes de tudo isso há um encanto com Deus e por Deus; uma espécie de apaixonamento prévio que temos de procurar experimentar, através de uma atenção mais dedicada, a partir de dentro.
Creio que um dos problemas maiores que temos é a desatenção; é não estar atento e é isso que nos faz desatender das pequenas visitas de Deus ou a recebê-Lo numa banda estreita, pois na maioria das vezes esperamos Deus no máximo quando ele se revela no mínimo, e esperamo-lo de acordo com a nossa vontade, o que condiciona a visita de Deus.
Até na oração. Outro dia dei comigo encalhada no credo, nem para trás nem para a frente. À medida que dizia creio em Deus, Pai todo poderoso, as palavras que saiam como que brotavam da boca e não do coração. Perdi-me três ou quatro vezes porque estava completamente ausente, assoberbada pelo trabalho pensei; submersa em afazeres, sem capacidade de me concentrar, outra desculpa. Ali estava eu, vestida de noite, como se a vida fosse uma noite escura; inquieta e perturbada; impondo-me narcisicamente, esquecendo a razão da minha oração.
Quantas vezes, Senhor…Me coloco diante de ti sem te ver e sem te sentir; apenas eu e os meus problemas. Não te dou espaço nem atenção. Foco-me em mim e apenas em mim, sou o centro e não Te admito. Quero olhar para a frente mas foco-me no que aconteceu, como se a vida pudesse ser vivida de costas; como se tivesse de mudar tudo quando afinal, na maioria das vezes, precisamos de mudar tão pouco.
Quantas vezes não consigo olhar para Ti, Senhor, coberta da minha vergonha por te ser tão infiel. Quando prometo adorar-te e afinal só te vejo de longe; quando quero ser pobre como tu e sonho com a riqueza do mundo; quando quero ser humilde como tu foste e me consolo com o aplauso. Tanto caminho para crescer. Sei que me sonhas sempre maior do que eu sou e sei que me amas mais do que mereço e que, mesmo quando o meu coração me acusa, o teu amor é sempre incomensuravelmente maior.
Quero tanto escutar a Tua palavra, Senhor; descobrir o Teu rosto; fazer a experiência da tua bondade.
Nas leituras da Palavra de Deus, durante a Quaresma, são frequentes as referências ao deserto, lugar da solidão e do silêncio. Ir para o deserto significa, antes de mais, romper com as ocupações quotidianas, com as rotinas; significa afastar-se do ruído e da superficialidade. O deserto, no contexto bíblico, é o lugar do encontro íntimo e intenso com Deus. No deserto faz Deus a Aliança com o seu povo; no deserto, multiplicou Deus os prodígios em favor dos seus eleitos, saciando a sua sede e fome, guiando os seus passos e dirigindo-lhes a sua palavra.
O “deserto” quaresmal é, assim, este convite à oração mais intensa; a reatar os laços da nossa relação com Deus, enfraquecida pela rotina do dia a dia. A Quaresma convida-nos a redescobrir e fazer reviver a nosso amor primeiro com Deus. E é nessa oração mais intensa, na escuta mais assídua da palavra de Deus que nos damos conta da necessidade de conversão!
“Concede um favor ao teu servo: que eu viva e guarde a tua palavra! A tua palavra é lanterna para os meus passos e luz para os meus caminhos”, como nos lembra o Salmo 118.
Que os próximos quarentas dias nos levem a este amor desassombrado.
Boa Quaresma.

Carmo Rodeia

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