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A dependência de jogos “está a crescer e a ter impacto na sociedade açoriana,” alerta o neuropsicólogo João Ribeira

A dependência de jogos, quer sejam os digitais, os de casino, apostas online e outros, é uma problemática crescente e os Açores não são excepção, aponta o neuropsicólogo João Ribeira. O profissional de saúde mental alerta para os malefícios destas dependências entre os jovens, que se poderão tornar em “adultos com severos problemas” e pouco preparados. No entanto, aponta que é da responsabilidade das figuras parentais evitar/fazer parte da solução destes comportamentos adictivos e que os pais devem estar atentos e presentes na vida dos filhos.

Correio dos Açores – Segundo o seu conhecimento, qual é a incidência da dependência dos videojogos nos jovens na Região? É um fenómeno que tem vindo a crescer?
João Ribeira (Neuropsicólogo) – Penso que não existem dados concretos sobre a dependência de videojogos ou de jogos no geral dos jovens, no país, muito menos nos Açores. Sei que me parece ser um problema crescente, até pela procura clínica que eu e os meus colegas vamos tendo, com esta problemática. Os casos parecem estar em aumento. A presença dos jogos parece ser um facto inescapável.
Pergunta sobre os jogos de vídeo, mas eu abordaria esta matéria de uma forma geral. Esta temática corresponde à perturbação do jogo, que no fundo pode ser aquilo que é chamado de “ludopatia” e que é incluída, já, na próxima classificação internacional de doenças (ICD), na sua 11.ª revisão. A perturbação de jogo é geral. Pode incluir os jogos digitais (jogos de vídeo) ou outro tipo de jogos. Tem a ver com a questão de jogar. Aqui também podemos incluir, se quisermos, as problemáticas ligadas ao jogo de azar, os casinos, as apostas online, que estão muito na moda, e têm grandes impactos, também. No fundo, todos eles são o mesmo tipo de adição.

Apesar de não haver dados concretos, este problema da dependência dos videojogos tem impacto na Região?
Certamente que sim. Está em crescimento e tem seguramente impacto. Este tipo de adicção tem consequências que não são sempre imediatas. O facto de depender dos videojogos não provoca só o problema da falta de atenção, isto gera, dificuldades, por exemplo, ao nível da capacidade de gestão da frustração. Isto dá que, potencialmente, se se nunca resolver este tipo de problema e o jovem tiver sempre uma gratificação imediata das suas necessidades, o entretenimento facilmente acessível, e não tiver necessidade de criar, por exemplo, o seu próprio espaço de entretenimento, isto vai gerar adultos com severos problemas. O impacto deste tipo de dependência, se calhar, ainda não está à vista, mas vai estar na próxima década. O grau de dependência de videojogos que está agora a acontecer e o aumento que estamos a observar, se nos focarmos nos adolescentes, podemos dar 10 anos para este problema se manifestar, depois, na estrutura de personalidade de um adulto que tem de lidar com uma sociedade, as obrigações, os objectivos, e tem de lidar ainda, no caso da sociedade portuguesa, com muitas barreiras. Se calhar não vão estar tão bem preparados, se não tivermos cuidado.

Considera que o isolamento dos Açores pode ter alguma influência na incidência destes comportamentos?
Honestamente, não concordo. Sei que a minha afirmação carece de uma análise estatística, mas isso quereria dizer que uma criança de Portugal continental não teria tanta ligação aos videojogos e não acredito que isso seja o caso. Aliás, nas grandes cidades, penso que este problema é tão ou mais recorrente do que em locais, por exemplo, que têm mais acesso a espaços exteriores, que ainda é o caso dos Açores. Cá, em alguns casos, ainda se pode brincar na rua, embora cada vez menos crianças optem por essa alternativa, mas a verdade é que temos mais hipóteses do que em grandes meios urbanos. A questão da insularidade não me parece ter um grande impacto.

Como se pode identificar que alguém está dependente dos videojogos?
É bastante simples. A dependência dos videojogos é uma dependência como outra qualquer, portanto, qualquer dependência pode-se identificar pela prática de determinado comportamento de tal forma que outras coisas, necessidades ou objectivos que as pessoas têm, ficam anulados em prol desta mesma dependência. Existem números. Diz-se que entre 15 a 20 horas por semana já corresponde a um comportamento adictivo relativamente ao jogo, mas eu discordo sempre destas medidas de horas ou quantidades. As pessoas podem jogar mais ou menos horas, mas algumas, se for necessário passarem mais tempo sem tocar num videojogo, conseguem fazê-lo. A grande diferença está aqui, na gestão das prioridades do dia-a-dia versus o jogar ou não jogar.

A dependência dos jogos parecem ter mais impacto nos jovens, que têm menos auto-controlo…
Os jovens, por estarem ainda em desenvolvimento, por princípio, têm menos capacidade de controlar os seus impulsos do que um adulto. Pelo menos assim se espera que seja, embora haja adultos com problemáticas similares, mas evidentemente que os jovens, por terem menor capacidade de gestão emocional, da frustração ou até daquilo que são os problemas sociais da adolescência, vão estar mais sujeitos a desenvolver este tipo de ligação. O jogar e a dependência do jogo está muito associada a uma necessidade de escape da realidade, ou de aprovação social. Em relação aos jogos online, não faltam crianças que se sentem excluídos por, por exemplo, não jogarem este ou aquele jogo. Isto pode também ser um factor na busca do jogo. Depois, claro, há uma associação directa e estudada entre outros problemas de saúde mental e a dependência. Há crianças que sofrem de ansiedade, problemas depressivos, ou outras dificuldades de adaptação e, muitas vezes, usam o jogo como uma forma de evasão. É um mundo que conseguem controlar, no qual realmente existe diversão e afastam-se um pouco daquilo que são as suas problemáticas, em termos de saúde mental.

A pandemia veio intensificar esta dependência?
Concordo que há uma influência óbvia. No tempo de isolamento, eliminamos este outro factor: não podemos sair, fazer actividades. Ou o jovem dispõe de um espaço exterior na sua casa, ou então está confinado ao espaço interior da casa, que muitas vezes não abunda. Portanto, aí sim, aumentamos drasticamente o problema com os jogos. O período de isolamento claramente teve uma relação, em muitos casos, particularmente os jovens que passaram o tempo de isolamento da pandemia naquela idade de transição para a pré-adolescência em que as crianças começam a interessar-se mais por este tipo de entretenimento. Aqui, ainda mais, a pandemia teve um efeito apreciável sobre a dependência e a ligação aos videojogos. Aqui vamos novamente à variável da evasão. Se estou confinado, pode ser fácil utilizar um jogo para sentir-me um pouco fora desta problemática do isolamento e do que foi a pandemia em si.

Enquanto psicólogo, trabalha com utentes com dependências de jogos?
Tenho, de várias idades e com vários problemas de jogos, desde os videojogos, os jogos de mesa, até às apostas online, por isso digo que é um problema que não é única e exclusivamente dos jovens ou das crianças. É o mesmo problema, é um vício, e como toda a dependência, está ligado ao prazer que esse mesmo estímulo proporciona. Não importa a idade. A idade condiciona o tipo de estímulo que dá prazer, mas o mecanismo é sempre o mesmo. É um mecanismo em que algo proporciona muito prazer e a pessoa não encontra nem cria (ou não a ajudam a encontrar) alternativas comportamentais que sejam minimamente prazerosas e interessantes, e a pessoa dedica-se ao jogo por causa disso.

No caso dos menores, são os pais que identificam este problema e procuram ajuda junto dos psicólogos?
Na maioria dos casos sim, mas também há alguns casos que são identificados por professores, que notam, por exemplo, que os jovens estão muito cansados de manhã na escola, que não conseguem aprender, que estão mais irritáveis. Muitos jovens jogam pela noite dentro e isto gera uma perda grave a nível da quantidade e da qualidade do sono, que se traduz, directamente, em tudo o que são dificuldades de aprendizagem, problemas de saúde mental, etc.

Estes jovens que chegam ao psicólogo oferecem resistência à mudança?
Como são jovens, muitas vezes não são auto-motivados para a mudança. Noutro tipo de dependências, por vezes, o próprio doente tenta e sente necessidade de mudar. Neste caso dos videojogos e falando de adolescentes, é muito raro que o próprio jovem esteja muito motivado para a mudança e, sequer, que aceite bem que o psicólogo ou outra pessoa proponha mudanças de actividades. É óbvio que isto, normalmente, não é bem aceite pelo jovem. É compreensível, mas é uma condição obrigatória de qualquer mudança. As mudanças normalmente são difíceis. Combater uma dependência é extremamente difícil, sobretudo para o próprio dependente.

Como é que os psicólogos combatem estes problemas ou como tentam dar a volta?
Não damos a volta. Sublinho que a ideia de que ir ao psicólogo só, sem implementar em casa mudanças ou dar continuidade às estratégias faladas em consulta, não funciona. O psicólogo tenta, desde logo, perceber as motivações subjacentes à dependência dos jogos que o jovem possa ter. Depois, em conjunto com a família, delineia estratégias, tanto de redução do comportamento de dependência de jogo, como da criação de alternativas comportamentais. A criação de programas de reforço é muito importante, isto é, para quando, por exemplo, o jovem consegue reduzir o seu comportamento de adicção ao jogo o que é que vai ter como recompensa. Não estou a falar de recompensas materiais, necessariamente. Cada vez mais há a tendência para a recompensa material imediata e para mim, este tipo de funcionamento, muitas vezes, está associado à forma como funcionam os próprios jogos. Às vezes, porque a criança teve um bom comportamento deixámo-la jogar mais um pouco, e muitas vezes estamos a contribuir para esta mesma adicção. Pode acontecer. Estamos a falar de recompensas que podem ser a outros níveis, por exemplo, a nível de autonomia. Há jovens que pretendem fazer uma ou outra actividade ou ter um benefício qualquer na sua vida. São este tipo de peças com que podemos jogar, enquanto profissionais de saúde mental, e psicólogos em concreto, sempre em conjunto com as famílias.
O que os psicólogos fazem é, em primeiro lugar, entender a causa subjacente da dependência; depois, definir o contexto em que esta dependência acontece e, no fundo, quem permite que esta dependência exista. Não nos esqueçamos que estamos a falar de adolescentes, e que eles não são auto-governados, teoricamente. Os adolescentes vivem em casa com adultos responsáveis. Portanto, se uma dependência existe, é porque alguém deixa que aconteça. É neste ponto que tenho às vezes algumas divergências pessoais com alguns pais que vão à consulta à espera que eu lhes resolva o problema. O que vou fazer é dar-lhes ferramentas e estratégias e criar com eles um plano em que eles sejam elementos participativos da protecção dos seus filhos.
Não quero aqui demonizar os videojogos. Há uma ressalva que gostava de fazer desde já, que é: os videojogos não são uma coisa maligna. Os videojogos, porventura, e se os soubermos escolher e adequar à idade e à personalidade do jogador, podem ser muito úteis e desenvolver algumas competências, como, por exemplo, capacidade perceptiva, reflexos, até raciocínio, em alguns casos. É possível utilizar os videojogos de uma forma positiva. Precisamos é de o saber fazer e fazê-lo com consciência.

Portanto, é da responsabilidade dos pais educar os filhos para evitar estes comportamentos…
Com certeza. Não podemos nunca, enquanto pais, descartar esta responsabilidade. Podemos e devemos recorrer ao psicólogo ou a outro profissional de saúde mental para nos ajudar a resolver o problema, mas nunca se pode colocar o problema nas mãos do profissional. Nós é que vivemos com os nossos filhos, portanto, temos definitivamente de assumir um papel mais presente e proactivo. Penso que há alguns pais que sentem falta de validação do seu papel, porque, socialmente, é cada vez mais habitual os jovens jogarem muitas horas, muitos pais justificam dizendo que os adolescentes são assim. Eles são assim porque os deixamos ser. Não abdico da noção de que os pais são responsáveis por esta adicção. A adicção aos videojogos acontece normalmente no espaço de casa, ao contrário de outros tipos de vícios. Acontecem porque, por um lado, ninguém controla a quantidade de tempo que os jovens passam com os videojogos, e por outro, não lhes fornecem alternativas válidas. Existimos para acompanhar e ajudar a desenvolver os nossos filhos.

Deixaria alguns conselhos a estes pais?
Estejam atentos e presentes na vida dos filhos.

Mariana Rovoredo

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