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“A regra de ouro é observar as baleias deforma responsável e com o menor impacto possível ”, defende o biólogo Rafael Martins

Para assinalar o Dia Mundial da Baleia, que é celebrado amanhã, dia 19 de Fevereiro, o Jornal Correio dos Açores esteve à conversa com Rafael Martins. Enquanto biólogo e skipper na observação de baleias, fala na importância de desenvolver uma observação responsável e com menor impacto para os animais; e defende uma maior fiscalização perante as “más práticas” dos operadores que “não respeitam velocidades de aproximação, a distância aos animais e a presença de biólogos a bordo.”

Correio dos Açores – Que relevância atribui ao Dia Mundial da Baleia?
Rafael Martins (Biólogo/skipper na Futurismo Azores Adventures) – Cada vez mais é um dia que temos de comemorar e aproveitar para sensibilizar as pessoas. A baleia é um animal que foi capturado durante muitos anos e o seu número natural diminui drasticamente. Nos Açores, em particular, estimam-se que foram capturados cerca de 12 mil cachalotes durante a baleação.

Quais são as maiores vantagens de ser biólogo marinho num lugar certificado como Sítio Património das Baleias?
Os Açores estão, sem dúvida alguma, no top dez de lugares no mundo para observar cetáceos e trabalhar aqui como biólogo é uma experiência incrível. Se vivesse noutro sítio qualquer provavelmente teria de viajar muito para ter acesso às 28 espécies diferentes de cetáceos que consigo ver cá. Há uma biodiversidade enorme no mar dos Açores.

Ter crescido nos Açores influenciou a decisão de estudar biologia marinha?
Sem dúvida. Sou dos Açores e se havia mar que eu queria conhecer era o nosso. Sempre estive muito ciente de que a Biologia Marinha era a área que queria desenvolver e de que para isso não precisava de estudar fora.

Como descreve as funções de um biólogo marinho e skipper na Futurismo Azores Adventures?
A função do biólogo é cada vez mais relevante, pois para além de transmitir as características biológicas e ecológicas dos animais tem um papel crucial na comunicação, a quem nos visita, da importância da conservação e protecção das diferentes espécies.
A certa altura comecei a perceber que existem formas correctas para a aproximação da embarcação, e que isso pode fazer toda a diferença no impacto que causamos. Foi aqui que decidi que queria mudar a minha actuação na observação de cetáceos. Então, todos os dias são uma aprendizagem sobre como observar com o mínimo impacto possível em prol de uma actividade responsável e sustentável para o bem-estar do animal. Acredito que a minha maior qualidade enquanto profissional é exactamente esta: a preocupação com o animal.

Como é um dia de trabalho normal para si?
O dia começa sempre com uma chamada telefónica para os vigias a fim de saber que espécies estão no “menu” e quais as condições meteorológicas. Por vezes, o estado do mar altera-se rápido, mas regra geral, no Verão temos boas condições para a actividade. Faço isto há sete anos e todas as viagens são diferentes. Esta é a melhor parte do trabalho, é zero monótono e todos os dias há muita acção. Gosto muito do que faço, mas a pressão do turismo e a época alta são um pouco difíceis. Por vezes temos três viagens por dia, cada uma tem a duração de duas a três horas e, neste caso, a carga horária é bastante elevada no Verão. No entanto, a gratidão dos clientes e o sentimento de dever cumprido ao chegar a casa falam mais alto do que o cansaço, e isso faz-me desejar sempre o dia seguinte.

Há algum projecto em especial que que nos queira dar a conhecer?
Na Futurismo, cada biólogo tenta especializar-se numa espécie. Há biólogos interessados em foto-identificação, isto é, através de uma fotografia e usando marcas naturais conseguir identificar o mesmo animal. Parece uma técnica fácil e bastante simples, porém tem um valor incalculável no que toca ao descobrir a distribuição e as diferentes rotas de migração de cada espécie. Por exemplo, através de uma fotografia podemos saber que uma baleia de bossa avistada a sul de São Miguel foi também reavistada no norte da Noruega.
Há mais áreas de estudo dentro do universo da biologia e uma das que está a ganhar cada vez mais força é a acústica. Temos um projecto de doutoramento a começar agora que é muito interessante, da colega Margarida Rolim, que tem como objectivo gravar o som que os barcos fazem através de um hidrofone sofisticado e, portanto, usar a tecnologia para descobrir como podemos fazer observação com o menor impacto possível, de forma mais responsável e sem ser muito invasivo para os animais.

Que espécies de cetáceos são residentes nos Açores e quais são as que passam apenas durante a migração?
Temos quatro espécies residentes nos Açores. Três espécies de golfinhos e uma espécie de baleia. Há o golfinho comum, o golfinho roaz corvineiro, o golfinho de risso e a nossa baleia residente é o cachalote. Na altura da Primavera, temos as baleias de barba, que passam por cá na sua migração, entre elas estão a baleia azul, a baleia comum, a baleia de bossa e a baleia sardinheira que aparece mais na altura do Verão. E depois temos espécies ocasionais, as que nunca sabemos ao certo quando podemos ver, como as orcas, as falsas orcas e as baleias de bico.

Reconhecendo o valor económico da actividade da observação de cetáceos, com tendência a aumentar, de que modo é que podemos prevenir um possível ponto de saturação?
O grande problema da observação de cetáceos, pelo menos em São Miguel, é o facto de não estar distribuída uniformemente. Ou seja, temos uma empresa a sair de Vila Franca e praticamente todas as outras empresas a sair de Ponta Delgada à mesma hora. Na Futurismo, estamos a tentar combater isso ao máximo, ou seja, os barcos saem com algum faseamento, até a uma hora, e também começamos a fazer viagens a partir da costa norte (Rabo de Peixe) a fim de diminuir a pressão turística em Ponta Delgada.
Claramente que é um problema a ter em consideração. A nível económico, obviamente que o aumento do número de turistas é directamente proporcional à receita da actividade. Mas, a nível natural até que ponto é saudável? Ainda não há estudos concretos, mas temos de nos empenhar nisso. Sabemos que quanto mais tempo os animais estiverem expostos às embarcações, maior é o impacto negativo sobre eles. Por exemplo, podem parar de socializar e podem parar o descanso pois a presença do barco faz com que gastem energia que não era suposto.
Ainda não há muitos estudos sobre como diminuir o impacto da observação de cetáceos e é importante desenvolver esta área. A Futurismo é das maiores empresas de observação de cetáceos nos Açores, mas também é uma empresa que aceitou trazer uma pessoa em doutoramento a fim de perceber como é que se pode proceder com a observação reduzindo o impacto negativo. Também há cada vez mais turistas preocupados em como ver estes animais de forma menos invasiva. Nós vamos ver as baleias, mas temos de ter noção que estamos a ir ao seu habitat natural, isto é, à sua casa.

Há espaços para mais licenças de novos barcos de observação de cetáceos?
O decreto-lei em vigor limita o número de licenças para as ilhas de São Miguel, Pico, Faial e Terceira e, recentemente foram emitidas duas licenças de observação para São Jorge. Em São Miguel foi criada uma associação entre a maioria das empresas a fim de não haver aumento no número de licenças para esta ilha.
Ou seja, para as ilhas em que já foram atribuídas as licenças, em princípio não há necessidade de criar mais e, na verdade, não acho boa ideia. Mas, como é óbvio, para ilhas que não têm esse tipo de mercado, nomeadamente Santa Maria, Graciosa, Flores e Corvo, não vejo porque não. Serão mais pessoas a recolher dados e podemos saber mais sobre as espécies ou a distribuição natural.
Com o aumento do turismo, actualmente existem mais saídas de observação e, por consequência, os animais estão expostos a uma maior pressão turística. O organismo responsável por esta questão é o Governo dos Açores, nomeadamente a Direcção Regional do Turismo, que, basicamente, não promove campanhas de fiscalização. Dito isto, alguns operadores actuam sem qualquer tipo de consequência, ou seja, podem simplesmente não respeitar as regras definidas sem serem penalizados. Errar é humano e trabalhar com vida selvagem é difícil, porém, saber que há operadores que não respeitam velocidades de aproximação, a distância aos animais e a presença de biólogos a bordo, mostra que infelizmente as más práticas são recorrentes, e isto é grave! Acredito honestamente que há a necessidade da criação de uma rede de fiscalização que, inclusive, tem o dever de actuar para com esses operadores e, quiçá, até a remoção da licença de observação.
O abalroamento de baleias constitui um problema grave actualmente. Em que dimensão isto ocorre e, na sua opinião, como se pode evitar este problema?
Chama-se abalroamento quando as baleias são atingidas por uma embarcação em movimento. Obviamente que o risco de isto acontecer é cada vez maior, porque no mar dos Açores passam cada vez mais navios mercantes e são estes que andam a altas velocidades e não se conseguem desviar a tempo dos animais. Este ano, aconteceu-me pela primeira vez uma situação em que estávamos a observar um grupo de cachalotes e eu avistei um navio da Transinsular a aproximar-se. Passei para o Canal 16 e chamei a embarcação; estes aceitaram a informação de que havia cachalotes na naquela zona e até mudaram o rumo.
Para evitar os abalroamentos temos de determinar a uma área em que haja maior probabilidade de avistamento, ou áreas especificas em que os cachalotes se concentram e, mediante estas indicações, criar uma área protegida e limitar a velocidade em que estes navios podem passar. Mas aqui são necessários estudos de distribuição de espécies. Falo do cachalote em específico porque é aquele que está sempre cá e é um bom exemplo.

Por que motivo os cachalotes são considerados a espécie icónica dos Açores?
O cachalote é a espécie residente de baleia nos Açores. Isto é, sempre esteve cá e é quase certo dizer que sempre irá estar. Devido à falta de plataforma continental das ilhas oceânicas, há profundidades muito elevadas ao redor das ilhas. Estas profundidades são o habitat perfeito para a maior presa dos cachalotes: as lulas. Para o sucesso predatório, o cachalote tem de mergulhar fundo e encontrar as ditas lulas. Consegue fazê-lo através da produção de clicks muito fortes que são amplificados através do espermacete (o óleo que se encontra dentro da cabeça). Era este o óleo que movia os baleeiros para a captura do cachalote, com o fim de extrair e vender como forma de conseguir dinheiro naquela altura muito complicada.
Posto isto, se há sítio com condições perfeitas para haver cachalotes, esse sítio é os Açores.

Os Açores são reconhecidos como um dos melhores lugares do mundo para encontrar baleias azuis. Qual o ponto de situação desta espécie actualmente?
Continuam em estado crítico porque foram capturadas em massa durante a altura da baleação mundial. São animais com sucesso reprodutor muito baixo, e isto significa que, se o stock natural se aumentar, será de forma muito lenta. Infelizmente, é quase certo afirmar que os grandes números de baleias existentes antes da era da baleação jamais serão atingidos novamente. Na altura da Primavera, os Açores estão em “rota de colisão” com a migração das baleias azuis, pelo que é um dos poucos sítios no mundo em que é “garantido” e “fácil” ver uma baleia azul.

Considera que as baleias precisam de protecção hoje mais do que nunca?
Há uma comissão internacional contra a baleação e a maior parte dos países já concordou em acabar com a caça às baleias e golfinhos, tornando-os espécies protegidas. Por outro lado, há países que deixaram de caçar, mas que mantêm os animais presos em cativeiro. E, infelizmente, alguns países ainda têm este tipo de caça activa, nomeadamente a Noruega, o Japão e a Islândia. O caso específico da Noruega consegue ser o mais chocante, porque é um dos melhores sítios para ver orcas e baleias-de-bossa em alimentação e, no entanto, esses animais ainda correm o risco de serem caçados.

Há quem defenda que se houvesse menos baleias no mar dos Açores haveria mais peixe para pescar e mais economia de pesca. Quer comentar?
As baleias azuis, por exemplo, comem krill, mini camarões que não são apanhados pelos pescadores nos Açores e para os quais não há cota de pesca. Algumas espécies de golfinhos alimentam-se de pequenos peixes de cardume, como por exemplo, o carapau e a sardinha. E ainda há outras espécies de golfinhos que têm preferência alimentar por lulas.
O ser humano tem de se alimentar, mas os animais estão no seu habitat natural e também estão a alimentar-se para sobreviver. Neste sentido, e apesar dos pescadores manifestarem essa preocupação, a questão não tem grande fundamento, pois acredito que há peixe suficiente para todos, para as pessoas e para os animais. Percebo o ponto de vista do pescador que diz que há menos peixe devido à existência de golfinhos, mas a nível biológico e oceânico, essa questão não faz sentido pois os golfinhos e baleias estão no topo da cadeia alimentar e têm como função manter o equilíbrio do ecossistema.

Considera que existem melhorias a fazer no que diz respeito à protecção das baleias?
Sim, temos de ter a noção de que são animais grandes e sensíveis e que é muito importante protegê-los pois cada vez são mais raros nos nossos mares. E diria que aquilo que temos realmente de perceber é como melhorar a observação. O que se nota é que os turistas estão cada vez mais cientes disso e, apesar de não terem noções técnicas acercas das espécies, têm a noção de que são animais que temos de proteger. Quando, por exemplo, estamos numa viagem e vêem um barco a ir mais depressa, ou outro que está demasiado perto dos animais, já começam a questionar estas práticas. Esta é a regra de ouro: observar de forma responsável e com o menor impacto possível para os animais.

Que mensagem quer deixar neste dia?
A minha mensagem é dirigida de forma muito particular aos açorianos: venham conhecer o vosso mar, os vossos animais e a vossa cultura. Entendo que seja muito complicado para uma família acarretar os custos das viagens de observação de cetáceos, mas, também é certo que as empresas já têm essa noção e, por isso, já existem preços para residentes nos Açores. Gosto muito de levar pessoas do mundo inteiro a conhecer as nossas baleias, mas confesso que sinto uma felicidade especial em levar açorianos àquilo que lhes pertence.

Daniela Canha 
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